Pequeno cartaz (formato A4), da autoria de Luís Faria (ex Luís Nunes), realizado para divulgação do evento bedéfilo pioneiro português, realizado em Lisboa
O primeiro Festival de Banda Desenhada de Lisboa inaugurou-se no dia 19 de Março de 1982. Há vinte e cinco anos, precisamente.
Como se pode ver pelo cartaz que ilustra este "post" (e desculpe-se ao grafista aquele erro ortográfico - que muito me irritou na altura - de na palavra Francês ter usado um "ç" antes da vogal "e", erro que ainda hoje continua a ser frequente...), o evento decorreu entre 19 e 28 de Março, na antiga FIL, aproveitando um espaço disponível no andar superior, aquando da realização do certame "Nauticampo".
O lançamento de uma iniciativa desse tipo há muito que existia no pensamento dos dirigentes do Clube Português de Banda Desenhada - CPBD (de que este bloguista fazia parte), que tinha sido fundado em 28 de Junho de 1976, como colectividade amadora, privada, e sem intuitos lucrativos.
A oportunidade acabou por surgir, na sequência de uma reunião na FIL entre membros das entidades Embaixada de França, Livraria Bertrand e CPBD. Embora a intenção inicial, defendida pelo representante da Bertrand, Vasco Granja, fosse apenas a montagem de uma exposição de banda desenhada franco-belga e portuguesa, o representante do CPBD (por acaso, o autor destas linhas) lançou a ideia de se alargar o âmbito do acontecimento e elevá-lo à categoria de festival.
Como principal responsável das actividades paralelas às exposições previstas, o Clube, além da mostra de BD portuguesa, encarregou-se de promover diversos colóquios, mesas redondas e sessões de "BD ao Vivo".
Tomando por modelo o pormenor relevante da existência de troféus em festivais congéneres, com relevo para o "Yellow Kid" de Lucca, em Itália (evento pioneiro europeu), e o "Alfred" de Angoulême (posteriormente substituído pelo "Alph'Art"), o CPBD imediatamente criou um troféu a que deu o nome de "Mosquito", em homenagem àquela emblemática revista portuguesa.
Imagem do troféu "O Mosquito", retirada da capa da revista Selecções BD (nº 22-1ª série), publicação classificada, através de votação entre os sócios do CPBD, como "Melhor revista de BD do ano de 1988", troféu entregue à editora "Meribérica/Liber" no 8º Festival de Banda Desenhada - Lisboa 89
Esse troféu passou desde então a ser atribuído anualmente a quem se distinguisse na edição e realização de banda desenhada - neste caso, desenhadores e argumentistas -, aos mais antigos autores com obra de mérito, à melhor banda desenhada, e também a quem prestasse valioso contributo jornalístico à BD, uma ideia inédita na época.
Em 1987, a Direcção do CPBD resolveu criar um troféu chamado "Vinheta", na intenção de galardoar a melhor banda desenhada e o melhor fanzine de cada ano. Também nisto o CPBD criou precedentes em Portugal.
Voltando ao festival: ao nível de localização, devido a dificuldades de vária ordem, o evento teve sempre uma vida errante (facto repetido, algo surpreendentemente, em anos recentes, pelo Salão Lisboa de Ilustração e Banda Desenhada, isto apesar de organizado pela Bedeteca de Lisboa, equipamento cultural com apoio da Câmara Municipal de Lisboa). Esse carácter ambulatório fica patente com a descrição dos locais que o Festival do CPBD utilizou, após os primeiros cinco anos na FIL (em que o espaço foi minguando gradualmente e ter decidido, após esse período inicial, procurar novo poiso); consequentemente, em 1987, na 6ª edição, deslocou-se para o Forum Picoas, graças ao apoio da organização "Regiforum". No ano seguinte, o festival voltou à FIL; em 1989, nova mudança, desta vez para o Espaço Poligrupo, da Rádio Renascença. Em 1990, na sua 9ª edição, regressou ao Forum Picoas. Mas no ano seguinte, devido à imprevista exigência ao CPBD de pagamento de incomportável quantia, o clube viu-se na contingência de procurar nova localização, que acabou por ser no belo edifício do Palácio da Independência (ao Rossio), em instalações cedidas gratuitamente pela Sociedade Histórica da Independência de Portugal - SHIP.
No começo, o espaço atribuído ao festival era extremamente limitado; dois anos depois, as condições melhoravam de forma substancial, visto que passava a realizar-se no Salão Nobre e numa dependência adjacente; em 1995, o evento era mudado para diferente local, com piores condições, menos espaço, e exigência de pagamento, daí ter-se efectuado, pela última e definitiva vez, em 1996.
Tal irregularidade, tanto de localização como de datas (estas sempre dependentes das disponibilidades dos locais onde se ia realizando), impediram uma maior divulgação e implantação definitiva como realização artística e cultural.
Apesar destas limitações, mais as de índole económica da entidade organizadora que sempre afectaram o CPBD, o festival possibilitou aos apreciadores portugueses, a oportunidade de contactarem pessoalmente, pela primeira vez em território nacional, com figuras europeias de grande prestígio:
Jean (Moebius) Giraud,
Jean-Claude Forest,
Claude Moliterni,
Danie Dubos,
Jesus Blasco,
Antonio Hernandez Palacios. Mas também
Bilal e
Christin, vindos a Portugal em 1986 a convite da Embaixada de França, a fim de participarem na "BDBOOM" (exposição de Banda Desenhada efectuada em simultâneo no CAM-Centro de Arte Moderna da Fundação Gulbenkian e no Palácio Foz), acabaram por colaborar na quinta edição do festival. É de referir que Bilal realizou uma impressionante sessão de "BD ao Vivo", só comparável à que no mesmo local (FIL) protagonizara
Moebius, em 1982, num inesquecível "tac-au-tac" com
Carlos Barradas.
Por tudo isto, pode afirmar-se que este evento anual, malgrado a sua pequena dimensão, já começava a ser reconhecido, essencialmente pelo público bedéfilo de Lisboa, como elemento importante na divulgação da banda desenhada.
Infelizmente, por cansaço, desânimo, e até desmoralização de alguns dos membros mais activos do clube, o Festival de Banda Desenhada de Lisboa teve a sua última edição, a décima quinta, em 1996.