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segunda-feira, junho 22, 2015

Loja das Colecções, um templo da BD prestes a fechar





Haverá algum coleccionador de banda desenhada que não conheça a Loja das Colecções, em Lisboa?

Pois aqui fica a péssima notícia que muitos ainda não saberão: a categorizada loja vai fechar no próximo dia 30 de Junho.(*)

A maior livraria/alfarrabista da cidade tinha-se tornado um local incontornável durante anos, graças à dinâmica do seu falecido dono, Castanheira da Silveira. E Isabel Silveira, sua filha, conseguira aguentar sozinha a enorme casa. 

Mas a situação tornou-se-lhe insustentável, e irá ter de entregar a loja no dia 1 de Julho. 
Até lá, está a vender todo o acervo da livraria com 50% de desconto!

Loja das Colecções
Rua da Misericórdia, 115
1200 Lisboa
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(*) ÚLTIMA HORA

Fui-me despedir hoje, 3ªfeira, da Loja e da Isabel Silveira. 
Por informação dela, que transmito aos visitantes deste blogue, a loja terá amanhã, 4ª feira, dia 24 de Junho de 2015, o seu derradeiro dia de existência.

Entretanto, encontrei um vídeo com uma entrevista à Isabel que, com a devida vénia ao autor (Pedro Teixeira da Mota, que não conheço), reproduzo aqui:

https://www.youtube.com/watch?v=qWJN8Iy1kwU

segunda-feira, abril 13, 2015

Coleccionadores e Colecções de BD (XIV) - Manuel Caldas
















Mais do que coleccionador de BD, Manuel Caldas é  um estudioso, especializado no autor Harold Foster e na personagem Príncipe Valente, além de ser igualmente um editor de banda desenhada de elevado gabarito, tanto no capítulo inicial de faneditor - o seu fanzine Nemo foi um momento alto da fanedição portuguesa - como no de editor profissional, com grande prestígio em Portugal e em Espanha.

Quando o entrevistei em 1988, para a revista (já desaparecida) Coleccionando, o dito prestígio estava a começar a consolidar-se.

Eis o que escrevi há quase trinta anos (a fim de facilitar a leitura, reproduzo tudo, título e entrevista):
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Falando de colecções de BD

- GOSTARIA QUE FOSSEM PARAR 
ÀS MÃOS DE QUEM AS ESTIMASSE
COMO EU AS ESTIMO 

- é o desejo de Manuel Caldas


Manuel António Barbosa Caldas da Costa é o nome completo do nosso entrevistado de hoje. Mas ele usa abreviá-lo para Manuel Caldas, ou «disfarçar-se» sob o pseudónimo de M. Nöel Hantónio.

Nasceu em Paredes de Coura, a 6 de Agosto de 1959, mas vive desde há doze anos na Póvoa de Varzim, onde exerce a profissão de operário têxtil.

Indelevelmente ligado a um dos melhores fanzines (1) sobre banda desenhada editados até hoje entre nós, o NEMO, Manuel Caldas tornou-se especialmente notado pelo seu amor à personagem Príncipe Valente e respectivo autor, Harold Foster.
Primeiro, através de uma carta publicada na rubrica «O Mosquito Expresso» (na revista Mosquito nº12 - V Série - Janeiro de 1986) em que se considerava «até prova em contrário, o entusiasta número um e a autoridade máxima sobre a obra prima de Harold Foster».

A curiosidade dos bedéfilos ficou aguçada em relação ao autor de tão audaciosos auto-elogios; posteriormente, com o seu fanzine Nemo, aparecido em Março de 1986, Manuel António B. C. Costa passava a ser um nome com prestígio no círculo restrito dos estudiosos, críticos e coleccionadores de Banda Desenhada. 
E quanto aos seus conhecimentos sobre a obra de Harold Foster, eles viriam a demonstrar ser profundos no Vol, 16 (Nov. 86) da Antologia da BD Clássica (Editorial Futura), dedicado ao Príncipe Valente; e reforçava-se essa constatação através do nº4 (Especial) do Nemo (Fev. 87), pela sua impressionante remontagem das onze primeiras pranchas de Prince Valiant, mostrando-as tal como tinham sido originalmente concebidas pelo autor, sem quaisquer margem para dúvidas, em face do rigor das suas anotações complementares. Não falando já da qualidade da tradução e legendagem, ambas de sua autoria!

Os conhecimentos de Manuel Caldas Costa sobre o tema voltariam a ser comprovados à saciedade pela Edição Extraordinária do Fanzine Nemo (Out./Dez. 87), que complementava a exposição «50 Anos de Príncipe Valente» - também por ele realizada -, integrada no «VI Festival de Banda Desenhada - Lisboa 87». 
Não se dando por satisfeito, Manuel Caldas tem em preparação uma extensa biografia do Príncipe Valente, na esperança de que venha a ser editada em livro. À falta de editor, tenciona fazê-lo ele próprio, com os seus parcos meios económicos, nem que seja em «offset-fotocópia» como ele diz, ou «offset de escritório», como também é vulgar chamar-se ao mais barato sistema de reprodução que conhecemos.

O curriculum anteriormente explanado foi razão mais do que suficiente para fazer surgir, na mente do autor destas linhas, a ideia de entrevistar o muito elogiado editor do NEMO. Até que a oportunidade surgiu aquando duma sua vinda a Lisboa.

- Manuel Caldas: quando começou a coleccionar revistas de banda desenhada?

- Desde há uns quinze anos atrás.

- O que é que começou por coleccionar: revistas ou álbuns?

- Comecei por coleccionar bandas desenhadas recortadas de jornais. Só depois, quando tive mais dinheiro, é que me virei para as revistas.

- Que bandas desenhadas é que começou a recortar?

- Todas as do suplemento de Domingo do jornal O Primeiro de Janeiro: Príncipe Valente, claro, O Coração de Julieta, os Clássicos Disney e o Reizinho.

- Que idade tinha nessa altura?

- Devia estar por volta dos dez anos. Na altura também coleccionava as tiras diárias do Século.

- Quais?

- Rex Morgan, Steve Roper, Os Silvas e a Rua da Esperança, 13.

- Como é que tem guardado todas essas páginas e tiras?

- Tenho-as em pilhas. Só as do Príncipe Valente é que tenho coladas em folhas de papel cavalinho. Mas as do Século já me desfiz delas há muito tempo.

- Lamento a sua decisão. Paul Gillon não merecia um tão grande desinteresse... Ainda por cima, «13, rue de l'Espoir» nunca foi editada em Portugal senão nessas tiras. Não achou que tivessem qualidade suficiente para as guardar?

- Eu considerava. Mas as do Primeiro de Janeiro eram coloridas, e atraíam-me mais do que as do Século, que eram a preto e branco. Ou não fossem tiras diárias.

- Falemos agora de revistas. Das que coleccionava inicialmente, qual a que tem maior significado para si?

- Era o Mundo de Aventuras, que comecei a coleccionar desde que voltou ao número um.

- Quer dizer que foi essa controversa renumeração que o motivou a começar a coleccionar o Mundo de Aventuras?

- Não absolutamente. Foi mais porque o regresso ao nº1 coincidiu com um grande aumento de qualidade, antes eles não respeitavam a composição original das pranchas e das tiras.

- Quais as colecções portuguesas que possui?

- Tenho pouca coisa: a Fagulha, o Jornal do Cuto, o Tintin, o Mundo de Aventuras, da segunda numeração, o Grilo da Portugal Press e as duas séries do Spirou.

- E estrangeiras?

- Só tenho o Nemo The Classic Comics Library. E falta-me o número três.

- Entre essas colecções que possui, quais as que considera mais valiosas?

- O Mundo de Aventuras. Em parte também o Jornal do Cuto, isto em relação às portuguesas.
Quanto às estrangeiras, os Almanaques do Gibi Nostalgia, brasileiros, e a revista Nemo americana. E posso referir também o catálogo Graphic Gallery de Russ Cochran, onde se reproduzem muitas pranchas a partir dos originais.

- Qual é a revista de BD mais antiga que possui?

- É um número do Mosquito que eu tenho para lá metido nalgum sítio. Julgo que é do 1º Ano.

- Entre as suas colecções, qual a que lhe deu, ou está a dar, maior dificuldade em completar?

- Quer dizer: eu só ando a completar o Tintin,de que aliás só me faltam aí uns seis números. Não me tenho é disposto, ainda, a ir procurá-los.

- Está neste momento a coleccionar alguma revista portuguesa de BD?

- Os Cadernos de Banda Desenhada. Que é a única... Bem, é uma coisa boa que nós temos: só temos uma, mas é boa.

- E estrangeira?

- O Nemo The Classic Comics Library.

- Antes dos Cadernos de Banda Desenhada, qual foi a última revista que coleccionou, acompanhando o ritmo da sua publicação?

- O Mundo de Aventuras.

- Tem alguma recordação especial ligada a qualquer das revistas que coleccionou?

- De especial só me lembro da dificuldade, em determinada época, que eu tinha para arranjar os cinco escudos para o Mundo de Aventuras.

- Terá havido, na sua infância ou adolescência, uma fase em que,num certo dia da semana, ia à rua de propósito para comprar uma revista de BD. Ocorre-lhe alguma recordação ligada a essa fase?

- Só me lembro de que, quando saía de propósito para comprar o Mundo de Aventuras e ele ainda não tinha chegado, eu ficava tão frustrado, tão frustrado... Nessa época posso dizer que vivia em função daquela revista. 

- Quais os heróis, ou séries, que lhe criavam uma tão grande expectativa?

- Não eram propriamente heróis ou séries. Era o conteúdo da revista, a forma como ela era feita.

- Qual o preço mais elevado que pagou por uma peça portuguesa, ou de outra qualquer nacionalidade?

- O que eu comprei mais caro foi recentemente. Trata-se dos dois volumes de Prince Valiant da Manuscrit Press. Custaram-me dezassete contos cada um.

- Como teve conhecimento dessa invulgar edição?

- Tive conhecimento dela em 1985, na revista americana Comics Scene nº4, de 1982, que fazia uma pequena reportagem, ainda antes de os livros terem sido publicados.

- E como é que os conseguiu adquirir?

- Quando li a reportagem, com três anos de atraso, fiquei com medo de que o livro (então só se anunciava a saída do primeiro) já estivesse esgotado. Além disso, na revista não era indicado o nome do editor e ela própria já tinha deixado de publicar-se.
Tive de andar atrás dele escrevendo para três outros editores americanos, enviando a cada um, uma cópia da carta para Rick Norwood, o autor dos livros, e pedindo-lhes que, se o conhecessem, lha entregassem.
Foi através de um deles, o Ross Cochran, que a carta chegou ao Rick Norwood e que depois este me escreveu, comunicando-me que já tinha sido publicado o 2º volume e o preço de ambos. Depois foi só enviar um cheque em dólares.

- Você, afinal, simples operário têxtil, tem-se abalançado a comprar peças de preços bastante elevados...

- É que sou fanático pelo Príncipe Valente, e na altura era solteiro.

- Qual é a peça mais valiosa que possui?

- São esses livros do Príncipe Valente, a colecção das pranchas publicadas n'O Primeiro de Janeiro, a edição de The Sunday Funnies e os Graphic Gallery.

- Mas eu sei que você tem muitas publicações especialmente dedicadas ao Príncipe Valente e a Hal Foster.
Gostaria que me dissesse os títulos dessa bibliografia que anda a reunir desde há muitos anos.

- Bem, não tenho assim tantas coisas. E muitas delas são fotocópias, como as de três números do Cartonist Profiles e as partes de livros sobre os Comics. Depois tenho um número da revista Nemo americana e outro de The Comics Journal com entrevistas; dois ou três números do Jornal do Cuto, alguns do Mundo de Aventuras, um Almanaque do Gibi Especial, o 1º volume da Serg, os sete da Slatkine (francesa), trinta da B.O. (espanhóis), o primeiro da Verlag Polischanky (austríaco), os quatro álbuns da Editorial Presença e outros tantos da Agência Portuguesa de Revistas, o também medíocre da Futura, todas as pranchas desenhadas por Foster publicadas n'O Primeiro de Janeiro, e mais nada de extraordinário, além do volume da Nostalgia Press.

- Colecciona álbuns de BD?

- Colecciono.

- Qual o critério que segue: colecções, autores ou personagens?

- Não tenho um critério certo. Por personagens, só mesmo o do Tenente Blueberry.

- Colecciona mais alguma coisa?

- Todos os livros que se escreverem, ou escrevem, sobre Jesus Cristo. E adaptações, em banda desenhada, dos Evangelhos.

- Conte-me um episódio pitoresco da sua actividade de coleccionador de BD

- Comecei a coleccionar o Príncipe Valente do Primeiro de Janeiro quando já ia na prancha quinhentos e tal. Durante muitos anos sonhei em ter todas as pranchas anteriores. Um dia, tinha eu ido ao Porto, fui até à Feira de Vandôma, a que ia sempre com a ideia de que um dia haveria de encontrar o que procurava, e apareceu-me uma pilha de páginas com as pranchas do Príncipe Valente, desde a nº1 até à 600 e tal, a um escudo cada. Claro, comprei-as todas, e nem acabei de ver a Feira: vim-me logo embora no comboio.

- Tem alguma recordação triste relacionada com as suas colecções?

- Lembro-me de uma história triste, mas que é ao mesmo tempo muito cómica.
Quando eu coleccionava as tiras de O Século, cheguei a uma altura que tinha já tantas, que o meu pai andava sempre a queixar-se que aquilo andava espalhado por toda a casa.
Eu cheguei a uma altura que me aborreceu de ouvir aquilo; furioso, meti-me no quarto e comecei a rasgar todas as tiras. E deitei-as ao lixo.
Quando o meu pai, logo de seguida, tomou conhecimento do caso, deu-me uma tareia. Esta é a parte cómica.
A parte triste foi que eu depois arrependi-me de ter rasgado as tiras. Donde se conclui que o meu pai teve razão ao dar-me a tareia.

- Qual o destino que prevê, ou que desejaria, para as suas colecções?

- Eu desejaria que fossem parar às mãos de quem as estimasse como eu as estimo. O que vai ser muito difícil.

- O que é que acharia ideal para que fossem preservadas as valiosas colecções que existem em poder de particulares?

- Eu não vejo nenhuma solução para isso. Nas bibliotecas não se pode confiar. E os coleccionadores também podem perder o interesse por elas numa determinada altura.

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(1) Fanzine: publicação de banda desenhada editada por amadores, geralmente com modesta qualidade gráfica e pequena tiragem.
No tema da BD, dividem-se em fanzines de banda desenhada e fanzines sobre banda desenhada, conforme se dediquem a publicar principalmente bandas desenhadas, ou, no segundo caso, dêem a primazia à publicação de estudos sobre a matéria. 
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Imagens que ilustram o post:

- Foster e Val Os Trabalhos e os Dias do Criador de 'Prince Valiant' primeiro livro escrito e editado por Manuel Caldas em Dezembro de 2006, posterior a esta entrevista

- Almanaque do Gibi Nostalgia 1&2, editado em 24 Junho 1975

- Capa do fanzine Nemo (Nº1 - Março de 1986)

- Revista americana Nemo (Nº1, 1983) 

- Página do jornal O Primeiro de Janeiro (nº 534 de 19/4/1959), edição de Domingo, com o início da publicação dominical da obra Príncipe Valente naquele jornal do Porto

- Páginas centrais do jornal portuense O Primeiro de Janeiro (nº 534 de 19/4/1959, edição de Domingo, com várias séries de BD.

- Mundo de Aventuras - Nº1 - V Série - 4 Out. 1973

- Foto recente de Manuel Caldas

- Páginas das revistas Coleccionando onde foi publicada a entrevista, vendo-se no início Manuel Caldas e a esposa a participarem num encontro da Tertúlia BD de Lisboa, no restaurante Chico Carreira (entretanto desactivado) no Parque Mayer

- Capa da revista Coleccionando (nº9 - 2ª série - Março/Abril 88), onde foi publicada esta entrevista, última da série.     

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Os visitantes interessados em ver os artigos anteriores deste tema poderão fazê-lo, clicando no item Coleccionadores e Colecções de BD visível no rodapé   

quarta-feira, dezembro 24, 2014

Coleccionadores e Colecções de BD (XIII) - José Alberto Varandas




























Após longo interregno, volto à tarefa de reproduzir as entrevistas que fiz na década de 1980 a vários coleccionadores de BD, para uma revista intitulada Coleccionando que se editava em Lisboa.

Apesar de terem passado quase trinta anos, creio que os textos destas entrevistas interessarão os veteranos apreciadores de banda desenhada, os quais reconhecerão as revistas citadas pelo coleccionador entrevistado, José Alberto Varandas, e saberão fazer a equivalência ao euro dos preços mencionados em escudos, bem como ter em consideração a época em que ele adquiriu as valiosas colecções. 

Na reprodução das capas de algumas das revistas citadas por José Alberto Varandas, optei por mostrar capas (ou primeiras páginas) que se coadunassem com a época natalícia que atravessamos. Aproveitei o facto de ter numerosos exemplares repetidos e não encadernados para poder reproduzi-los.

Transcrevo seguidamente o texto introdutório e as perguntas e respostas constantes da entrevista, a fim de facilitar a leitura.

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Com o «Cavaleiro Andante» 
'vivi' grandes aventuras 
- afirma José Alberto Varandas


Nascido em Lisboa a 1 de Março de 1952, Maquinista Técnico dos Caminhos de Ferro Portugueses, José Alberto Varandas é um entusiástico coleccionador de Banda Desenhada; é também grande apaixonado pelo Desenho e Pintura.
Em relação ao Desenho (quer de BD, quer de Ilustração), apenas conseguiu publicar coisa pouca até hoje - duas páginas de BD no fanzine do CPBD, o "Boletim" (nº41, Jan./Fev. 83), e uma capa para o nº50 (Maio/Jun.84) da mesma publicação. Isto numa altura em que, conforme ele próprio afirma, já mal se lembrava como pegar num lápis...
No que sempre tem mantido grande empenho é na recolha de tudo o que foi publicado em Portugal, no campo das revistas infanto-juvenis.

Vamos portanto registar as respostas e opiniões deste coleccionador.

- Varandas: em que altura da sua vida começou a coleccionar revistas de BD?

- Comecei quando tinha seis anos. Na altura o meu pai deu-me alguns exemplares do João Ratão, e o nº 554 do Mundo de Aventuras, que guardei durante muitos anos, assim como muitas outras que lhe eram paralelas.
Infelizmente desfiz-me de todas, só voltando a adquiri-las novamente a partir dos anos setenta.

- Por que é que se desfez dessas colecções de que, naturalmente, gostava bastante?

- Geralmente todos os jovens o fazem, a fim de conseguir dinheiro para outros objectivos!

- Das revistas que coleccionava nessa fase, qual a que tem maior significado para si?

- Com oito anos consegui comprar regularmente o Cavaleiro Andante, e foi esta a revista que maior significado teve na minha vida de jovem coleccionador.
Nela li e "vivi" grandes aventuras.
Para exemplo: lembra-se da "Peregrinação", desenhada por José Ruy? Ainda hoje recordo o episódio da espingarda e do Príncipe Japonês, ou das belas páginas de "Através do Deserto", de José Garcês.

- O que é que o impressionou assim tanto nessa tal cena da "Peregrinação"?

- A expectativa de ver aquilo que ia acontecer, resultante do contacto do jovem com a arma. Como sabe, esse episódio é histórico, e mostra a introdução da espingarda no Japão.

- Isso quer dizer que, através da Banda Desenhada, o jovem que você era então, aprendeu alguma coisa da nossa História...

- Disso não tenho dúvidas. Mas o mais positivo foi o prazer da aventura pura e simples, aquela aventura que se gostaria de viver, mesmo que fosse só em imaginação.

- Voltando ao coleccionismo: quais as colecções portuguesas que tem completas, ou, pelo menos, com significativo número de exemplares?

- Tenho neste momento várias colecções completas. Desde o Jornal da Infância (1883), passando pelo Gafanhoto (a primeira com este título, de 1903) e por outras também bastante importantes: Mundo de Aventuras, Cavaleiro Andante (e álbuns respectivos), Zorro, Falcão, Pardal, Flecha, Pisca-Pisca, Titã, Antologia dos Romances Célebres.
Tenho mais, mas com algumas faltas, como é o caso do Faísca, Alvo, Pirilau, Condor Mensal, Camarada, Lusitas e Fagulha, para só falar das mais importantes.

- Então diga lá algumas que considere menos importantes, e que tenha completas.

- Repare que eu, ao falar de revistas importantes, estou-me a referir à raridade e não ao conteúdo.
Por exemplo, tenho o Jornal do Cuto que, no que se refere à qualidade, conseguiu reeditar muita da boa Banda Desenhada Clássica. Foi uma boa revista.
Outra que posso mencionar é o Jornal da BD, a mais recente publicação do género.

- Entre as que considera importantes não menciona o Diabrete
Não tem nada desta revista?

- Olhe, ainda esta semana comprei setecentos números, que vendi em seguida.

- Mas porquê? Se comprou, é porque a colecção lhe interessava...

- Realmente interessava-me muito, mas fiquei de tal maneira desiludido, que me desfiz dela logo.
Aliás, o que já me acontece pela segunda vez.

- Mas explique-me lá o motivo de ter ficado tão desiludido. Desagradou-lhe o conteúdo da revista? Estava à espera de outra coisa?

- Não. Aliás o Diabrete tem excelentes coisas publicadas, quanto mais não fosse só pelos trabalhos de Fernando Bento e Vítor Péon, por exemplo.
O problema foi que eu estava convencido que tinha comprado 822 números, e afinal eram só 696!

- E que tal era o estado das revistas?

- Muito bom.

- Posso perguntar-lhe por quanto é que tinha comprado esse, apesar de incompleto, belo lote?

- Foi a 30$00 cada revista, ou seja, 24 mil escudos.

- Então quer dizer que foi enganado... Fazendo as contas à quantidade que comprou e ao preço por exemplar, o lote não custaria tanto.
E diga lá por quanto é que vendeu, já agora.

- Você sabe que eu muitas vezes faço pequenos negócios, sempre com o objectivo de melhorar as minhas colecções.

- Estou a entender... Mudemos de assunto, então. 
Entre as colecções que possui, mesmo incompletas, qual a que considera mais valiosa quanto à raridade e conteúdo?

- Bem, a colecção que considero mais valiosa, e que tenho completa, é sem dúvida O Mosquito. É muito difícil conseguir esta revista na totalidade dos 1412 números. Também quanto ao conteúdo estão nela as mais belas páginas que se desenharam em Portugal.

- Qual a revista de BD mais antiga que possui?

- É o Jornal da Infância, de 1883. Mas todos os dias podem surgir verdadeiras raridades. 
Por exemplo: A Arca de Noé, jornal infantil da União Zoófila, datada de 1953, de que tenho alguns exemplares, é uma raridade. Eu, pelo menos, assim o considero, pois não conheço ninguém que os tenha.

- Quantos exemplares é que tem, afinal?

- Só tenho quatro, dois números um, e dois números dois, mas que têm datas e formatos diferentes.
Suponho que deve ter havido duas tentativas de lnçar a revista que, aliás, era de distribuição gratuita pelas Escolas.

- Entre as suas colecções, qual a que lhe deu, ou está a dar, mais dificuldade em completar?

- Tive grande dificuldade em completar a colecção do Pardal, revista que saiu em 1961, e que só tem vinte números! Durante sete anos tentei, e não consegui, completá-la.
Por sorte, acabei por adquirir, posteriormente, uma colecção completa.

- Está neste momento a coleccionar alguma revista de BD?

- Continuo a tentar completar as colecções com faltas. Mas, claro, quando sai uma nova revista portuguesa, estou pronto a coleccioná-la.

- Qual a que coleccionou, acompanhando-a no momento da publicação?

- Acompanhei a publicação do Cavaleiro Andante, Mundo de Aventuras e Zorro.

- Tem alguma recordação especial ligada a qualquer das revistas que possui?

- Tenho várias recordações, algumas bem especiais, ligadas à minha vida de coleccionador.
Por exemplo: quando me faltavam apenas cinco números de O Mosquito (1ª Série), um grande coleccionador da nossa praça teve a gentileza de mos oferecer. O nome dispensa comentários: Bana e Costa.

- Terá havido na sua infância ou adolescência (até pode ter sido recentemente), uma fase em que, num certo dia da semana, ia à rua de propósito para comprar uma revista.
Ocorre-lhe qualquer recordação ligada a essa fase?

- Quando se publicava o Cavaleiro Andante, ia de propósito comprá-lo a um jornaleiro que vendia à esquina da Rua da Bica do Sapato com a Rua Diogo Couto, perto do Chafariz, junto ao muro do Lavadouro Público.
Já desapareceram o jornaleiro, o chafariz e o lavadouro público.

- Onde é que ficava isso?

- Perto de Santa Apolónia.

- Qual o preço mais elevado que pagou por uma peça portuguesa, ou de outra qualquer nacionalidade?

- Paguei muito recentemente pelo nº 357 do Senhor Doutor o valor de seis vezes o preço de um bilhete de cinema.
É preciso ver que só me faltava este número na minha colecção!
O alfarrabista Martinho tinha-o num lote de 350 números, e só ao fim de várias semanas o consegui obter. E mesmo assim, com a ajuda do nosso Grande Amigo A. J. Ferreira, que fez a sua força para convencer o homem.

- Colecciona álbuns de BD?

- Colecciono quase todos os álbuns que vão sendo publicados.
Os mais antigos que tenho são os que foram publicados por O Mosquito, Camarada, os da Editora Íbis, etc.

- Segue algum critério nessas colecções?

- Dou especial atenção às personagens, deixando para segundo plano os autores.

- E quais são as personagens?

- Há várias. "Blueberry", "Corto Maltese", de que gosto muito. Mas tenho preferência especial pelos clássicos: "Flash Gordon", "Tarzan", "Cisco Kid" e outros.

- Colecciona mais alguma coisa?

- Colecciono várias outras coisas. 
Por exemplo: cadernetas de cromos, de que tenho vários exemplares desde os anos trinta até aos nossos dias, algumas de rara beleza e que são verdadeiras bandas desenhadas.
Colecciono também brinquedos antigos, de folha, e de preferência mecânicos. 
E outras pequenas coisas, tais como soldados de recortar e construções, livros infantis ilustrados, selos, moedas, emblemas e postais.

- Quais são essas colecções de cromos que considera autênticas bandas desenhadas?

- Principalmente as feitas por Carlos Alberto: a História de Portugal, a História de Lisboa e aquelas sobre personagens históricas.

- Conte um episódio pitoresco na sua actividade de coleccionador de BD.

- Tenho muitos episódios pitorescos ligados às colecções de BD.
Uma vez o Carlos Gonçalves deu-se ao trabalho de publicar na página de BD do Correio da Manhã a minha lista de faltas de O Mosquito, onde eu tinha desenhado os "mosquitos" que me faltavam com os respectivos números na camisola.

- Tem alguma recordação triste relacionada com as suas colecções?

- Posso dizer que fiquei muito triste quando dispensei a colecção do Grilo ao Raul Ribeiro, embora eu tenha nessa altura posto a espada no prato da balança.

- E alguma muito agradável?

- Olhe, quando encontrei o emblema de O Mosquito. Foi um momento muito especial para mim. Devo ser o único coleccionador de BD que tem este emblema.

- Qual o destino que prevê, ou que desejaria, para as suas colecções?

- Só o futuro poderá dizer alguma coisa, mas o meu grande sonho seria fundar um pequeno museu onde figurassem todas as minhas colecções, e que estão de uma maneira geral ligadas à infância.

- O que acharia ideal para que fossem preservadas as colecções que existem em poder de particulares?

- A maior parte das nossas bibliotecas não têm estudo e consulta de colecções que têm sido publicadas em Portugal. Fico na dúvida se estaria certo recolhê-las em bibliotecas... Neste momento, estando nas mãos de coleccionadores ciosos, estão preservadas.

- Qual a influência para a BD resultante da existência de coleccionadores?

- Os coleccionadores são consumidores exigentes po excelência.
Deveriam pelo menos influenciar a consciência dos produtores de Banda Desenhada e fazê-la cada vez mais cuidada, para uso e abuso dos mesmos.

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Imagens que ilustram esta postagem, de cima para baixo:

1. Jornal do Cuto (Nº 172 - 1 Dezembro 1977 - Lisboa) - Capa (não assinada) ilustrada por Carlos Alberto

2. O Pirilau (nº4 - Dezembro 1963 - Lisboa) - Capa de F. Ramos

3. Titã (Nº 11 - 21 Dezembro 1954 - Lisboa) - Capa com ilustração assinada por Hal Foster

4. Cavaleiro Andante (Número Especial de Natal de 1953 - Lisboa) - Capa com ilustração de Fernando Bento

5. O Mosquito (Nº 1200 - 23 Dezembro 1950 -Lisboa) - Capa (não assinada) com ilustração de Eduardo Teixeira Coelho

6. O Gafanhoto (Nº 3 - 25 Dezembro 1948 - Lisboa) - Capa (não assinada) talvez montagem de Tiotónio

7. Camarada (Nº 27 - 25 Dezembro 1948) - Capa com ilustração assinada por Júlio Gil

8. Diabrete (Nºs 363-364* Natal de 1946 - Lisboa) - Capa com ilustração de Fernando Bento
*Uma curiosidade: este número é considerado duplo

9. Pluto (Nº 5 - 25 Dezembro 1945 - Lisboa) - Capa (não assinada) com ilustração de Vítor Péon

10. O Papagaio (Nº 454 - 23 Dezembro 1943) - Capa de Rudy

11. Faísca (Nº 42 - 25 Dezembro 1942 - Lisboa) - Capa (não assinada) provavelmente de António Barata

12. ABCzinho (Nº 5 - Dezembro 1921) - Capa (não assinada), provavelmente de Cottinelli Telmo 

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