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quarta-feira, novembro 07, 2012

Artigos sobre BD, Os meus artigos (I) "Crise nas revistas de BD"



Estava um destes dias a mexer na minha vastíssima colecção fanzinística, e deparou-se-me o exemplar nº 20, de Setembro de 1993, do fanzine Banda, dedicado à BD, editado por Rui Brito, zine esse que obteve vários prémios. E, como dizia na capa "Quando o Fim Chega", excitou-me a curiosidade de o folhear.

Lá encontrei colaboração minha (1) de que me lembrava parcialmente, mas já não tinha ideia de que fazia parte do conteúdo daquele número, último do Banda.

Na minha opinião - suspeita, admito - considerei que o meu texto, dividido em duas partes, tinha suficiente actualidade para o incluir aqui - sendo a primeira parte uma análise ao momento de crise de interesse pela leitura de BD, das revistas em especial, que já então se verificava - ou seja, esse tema já vem de há muitos anos -, e as principais razões do fenómeno. 

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A CRISE NAS REVISTAS DE BD

Antes de mais, não será despiciendo começar por dizer que o tempo de crise atingiu há muito a banda desenhada.

Após ter sido, para a juventude de décadas anteriores à de setenta, o que depois passou a ser a televisão, tem vindo gradualmente a decrescer de importância enquanto forma de entretenimento. Mesmo considerando que, em alguns casos - Astérix, Heróis Disney - ainda se mantêm elevados índices de popularidade.

Analisando-se as causas da crise (2), não restam dúvidas que uma das mais evidentes é a irresistível facilidade de se poder ver em nossa casa, num pequeno rectângulo luminoso, heróis inter-galácticos, agentes ultra-secretos, super-polícias impolutos, versões romanceadas da história. E para se ter tudo isso em movimento, som e cor, basta premir-se uma tecla, que até pode ser à distância. É quase um gesto automático, dir-se-ia sonâmbulo, por vezes, que vai alastrando, subjugando um universo cada vez mais alargado de pessoas, em número e idades, imobilizando-os na maior parte do seu tempo disponível. Poder-se-ia definir tal fenómeno hodierno por "tirania do pequeno écrã".

Como estranhar, então, que os jovens se lhe submetam (3), e se habituem, desde muito cedo, a receber directamente em casa, a desejada parcela de  evasão à rotina do quotidiano.

Adicione-se-lhe, no que concerne à juventude actual, o fascínio hipnótico dos jogos de vídeo e de computador. E compreender-se-á assim que, irreversivelmente, passou o tempo em que os jovens procuravam o sonho consciente no cinema, na literatura ou na banda desenhada.

LER CADA VEZ MENOS

De acordo com esta abordagem da realidade actual, ler passou a constituir um escape lúdico e cultural "em vias de extinção". Ou, por um prisma menos pessimista, pressente-se que corre o risco de ficar reduzido a prazer de elites cada vez mais restritas. E como a BD tem uma habitual componente de texto, é natural que dentro desta perspectiva, esteja condenada a fim semelhante.

Cingindo-se a presente análise ao panorama português, há outro aspecto penalizante: é que entre nós, durante décadas, a banda desenhada teve apenas por suporte um tipo de revistas que privilegiavam, quase invariavelmente, o sistema de histórias em continuação. Isto exigia, do leitor/visionador, razoável dose de paciência para aguardar o evoluir dos episódios de número para número. Com a agravante de que as revistas eram, na generalidade, semanais ou quinzenais...

Aliás, tal sistema era igualmente usual noutros países europeus, nomeadamente Itália, Bélgica, França ou Espanha. Isso sem embargo de sempre terem existido, em simultâneo, algumas revistas que preferiam incluir episódios completos, em especial nos Estados Unidos, com os seus "comic books".

A comparação dos resultados obtidos por revistas usando esquemas tão diferentes terá sido favorável às que apenas incluíam histórias conclusivas em cada número. Mas nem essa solução, frequentemente adoptada, foi suficiente para evitar a visível crise das publicações periódicas de BD. Prova bem concreta tem sido a vida efémera de algumas delas, ou o fim abrupto de outras que, ao longo de anos, tinham transmitido a imagem de uma estabilidade inabalável.

De pouco tem valido aos editores a procura de uma solução de compromisso entre as duas hipóteses, passando a inserir várias pequenas histórias curtas em cada número, em simultaneidade com pequenas parcelas - uma, duas ou poucas mais páginas - de séries longas, mantendo assim a componente tradicional do género que ainda hoje tem os seus adeptos, apreciadores da expectativa criada pela frase "continua no próximo número".

A diminuição da popularidade das revistas de banda desenhada tornou-se um facto concreto, em especial a partir da década de setenta. Em Portugal prova-se tal afirmação citando os títulos VISÃO, JORNAL DA BD, MOSQUITO (V SÉRIE) e SELECÇÕES BD, todas de curta existência.

Fenómeno semelhante se tem verificado em países onde a BD beneficia de mercado bem mais amplo e de maior poder económico. É o caso, por exemplo, de Espanha, Bélgica e França onde, nas décadas de setenta e oitenta, desapareceram alguns títulos de grande prestígio, nomeadamente BLUE JEANS, BOOMERANG, TOTEM, COMIX INTERNACIONAL, CAIRO, TINTIN,CHARLIE, PILOTE, MÉTAL HURLANT e CIRCUS - para apenas citar as de mais longa existência - além de uma das raras revistas dedicada em exclusivo ao estudo, crítica e informação, os CAHIERS DE LA BANDE DESSINÉE. E, muito recentemente (4), cessou de publicar-se a prestigiosa VÉCU (ilustra o topo do "post" a imagem da capa do nº 37, de 2003) .

Para além das razões já focadas anteriormente - tirania da TV, dos videojogos e jogos de computador - a par com a notória e crescente falta de paciência para acompanhar histórias publicadas parcelarmente, há que apontar desassombradamente para um factor decisivo, gerado no próprio meio editorial: a deliberada preferência das editoras pelos álbuns, em detrimento das revistas.

Não se justifica dissecar-se exaustivamente neste artigo os motivos dessa preferência. Mas, aflorando apenas o problema, poder-se-á dizer que uma das razões principais tem a ver com as diferenças de tempo de "vida" entre a revista e o álbum, com nítida vantagem para este. Efectivamente, cada número de uma revista está à venda nas bancas, papelarias ou livrarias, uma semana no máximo, sendo logo as sobras - já com alguns exemplares em mau estado - devolvidas à distribuidora e mais tarde à editora; em contrapartida, os álbuns podem permanecer à venda nas livrarias por períodos de tempo consideráveis. A diferença de garantias na recuperação dos investimentos pende, vantajosamente, para o álbum   

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(1) Por falha que me desagradou, o nome do autor do artigo não ficou registado sob o título, ao invés do que acontecia com outros autores de textos naquele exemplar, como era o caso de Domingos Isabelinho, Fernando Vieira e o próprio faneditor, Rui Brito.

(2) Note-se a persistência da palavra crise neste pobre país.

(3) Agora, além da televisão, são também os jogos de computador, de vídeo, as consolas, enfim, a conhecida parafernália informática.

(4) Aqui, a frase "muito recentemente" tem de ser lida com a noção de que este artigo foi escrito em 1993 

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As anteriores postagens relacionadas com este tema podem ser vistas, basta para isso clicar no item Artigos sobre BD - Os meus visível aqui no rodapé

quinta-feira, março 10, 2011

Revistas BD (IX) - Estrangeiras


Chega agora a vez de falar da revista Casemate, continuando na onda de analisar publicações de banda desenhada que se editam em França, e que comprei logo à chegada a Angoulême - aquela revistaria/jornalaria na gare é uma perdição para quem chega de um país periférico chamado Portugal, praticamente um deserto no que se refere a revistas de BD.
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Casemate é uma revista que, por acaso, até chega com regularidade a Lisboa - não sei se ao resto do país . Costumo comprá-la num quiosque do Areeiro, mas outras vezes vou à baixa e compro-a na livraria Tema. Por isso, não há nesta postagem qualquer frisson de novidade. Apenas lhe faço referência para simplesmente completar, o mais possível, o panorama actual da especialidade em França - e para, sadicamente, pôr os aficionados portugueses a rangerem os dentes comparando-o com o que (não) há entre nós. Mas também para esmiuçar uma parte do seu conteúdo.
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Estamos em presença do nº 33, referente a Janeiro (deste ano, claro), que alguns portugueses já terão comprado (Quantos exemplares virão para Portugal? Talvez através da distribuidora se possa saber).
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A ilustrar a capa, em grande destaque, uma figura de mulher nua desenhada por Juillard que está, na actualidade, ligado a um estilo bem diferente, como se sabe, a de desenhar a série Blake et Mortimer.
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Mas desiluda-se quem não conhecer ainda a a revista, se pensa que nela vai encontrar muitas bandas desenhadas no seu miolo: na realidade, o conceito que prevalece é o da apresentação das obras em estreia ou em publicação, através de entrevistas com os respectivos autores (identificados por uma pequena foto), e mostrando-se com abundância imagens a elas respeitantes.
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Assim é com François Boucq, envolvido recentemente num trabalho hercúleo, o de desenhar cerca de duzentas capas para a obra San Antonio, muito popular em França, tanto em BD (através de tiras diárias no jornal France Soir), como em filmes.
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Boucq já esteve a ser tentado para realizar um álbum com a personagem, mas resistiu à tentação devido aos seus múltiplos compromissos: entre outros, fez mais de vinte pranchas para "XIII Mistery, Colonel Amos", e estava a fazer (estamos a falar do mês de Janeiro) o terceiro episódio de Janitor, do qual, além de o desenhar, é co-argumentista.


Assim é, também, com Gerry Alanguilan, filipino, autor de uma novela gráfica em que um galo tem o papel principal. Como justificação, o articulista traz à baila o facto de, em Alice, haver um coelho como personagem. E eu acrescentaria que, na BD, há uma enorme galeria de personagens antropomórficas, estou a lembrar-me de uma das mais recentes, chamada Blacksad...
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Gerry, na entrevista, teria forçosamente de falar desta sua obra intitulada Elmer, em edição de Ça et lá, uma das chancelas que teve destaque nos prémios de Angoulême.

Jimmy Beaulieu, canadiano do Quebec, fala da sua Comédie sentimentale pornographique, um tema ousado, com personagens adultas e permissivas, onde a homossexualidade feminina (lesbianismo, se preferirem) parece fascinar o autor.


Juillard tem direito, na sua entrevista, a sete páginas da revista. Ressalta, entre muitas das suas respostas, a que revela o ambiente em que se desenrolará o próximo Blake et Mortimer: na universidade inglesa de Oxford.
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E a terminar a longa conversa com os seus dois entrevistadores, Juillard confessa o seu desejo de vir a criar um mundo de ficção científica.
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Não por acaso, a capa da Casemate é essencialmente baseada em imagens desenhadas por Juillard.


Os argumentistas/guionistas não são, geralmente,entrevistados com a frequência com que são os desenhadores, mas na revista Casemate a situação altera-se e quase que se inverte.
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Yann, chefe de redacção da revista Spirou, responde aqui às perguntas acerca da obra Grand Duc, cuja componente gráfica (de boa qualidade no estilo realista) é da autoria de Romain Hugault e que já vai no terceiro episódio, em edição da Paquet (editora bem nossa conhecida por ter sido por ela publicado o português Rui Lacas).
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A personagem principal de Gran Duc é o ás da aviação Wulf, um alemão que, num contexto de pós-guerra, fará parte de um grupo de pilotos aviadores que se exilam em África. Wulf,segundo Yann, foi baseado no ás da aviação Ernst Schäffer, o qual, apesar de alemão, era anti-nazi convicto. Tanto assim, que recusava a cruz suástica no avião que pilotasse, e exigia que fosse todo pintado de negro.
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Yann demonstra, nesta entrevista, o seu entusiasmo pelo tema, tanto que tenciona pedir a Romain para acrescentar algumas pranchas ao terceiro tomo, já que o seu parceiro desenhador não está interessado em continuar a "viver" com os nazis.
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Aliás, neste último episódio, Yann descreve o ambiente em que os alemães viviam na Primavera de 1945, quando a derrota nazi era já previsível, mostrando muitos pilotos a recorrerem às anfetaminas para levarem a bom termo as missões desesperadas de que os encarregavam. Mas falar deste uso imoderado de drogas (o chamado "dopping") causou a Yann e a Romain alguns aborrecimentos com especialistas da aviação (ou até mesmo aviadores, digo eu), que os acusaram de destruir a boa imagem dos pilotos...




Acerca de Wollodrïn - outra obra escolhida para ser analisada na Casemate - eis de novo um argumentista em foco, David Chauvel, conhecido pelo contestado (classificado de soporífico) enredo ficcional de Arthur, e que desta vez fez duo com o desenhador Jérôme Lereculey, criando uma história medieval, de cariz fantástico, em que as personagens são sete condenados à morte, contratados para salvar uma princesa em território orc.
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Chauvel tenta agora realizar uma saga com maior vivacidade das peripécias, e sem os recitativos que sobrecarregavam Arthur, embora continuem a respeitar um ambiente eivado de classicismo.



Yves Swolfs é um artista ecléctico, bem conhecido pela série de género "western" Durango, mas está igualmente à vontade a criar (argumento e desenho) obra em ambiente medieval, Légende, que atingiu agora o quinto volume, intitulado Hauteterres.
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De resto, Swolfs deu-se conta, ao escrever o argumento, que a sua extensão dava para cinco álbuns e meio, embora tenha decidido que iria sintetizar um pouco, de forma a que a obra coubesse nos cinco volumes previstos.
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Será por isso que, neste quinto episódio, terá lugar o duelo final entre Tristan, o cavaleiro solitário, e Eol, o terrível filho de Shaggan.
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Dada a categoria do autor e a relevância da sua obra, a entrevista que lhe é feita e as respectivas ilustrações ocupam dez páginas da Casemate.




Marzena Sowa, polaca, argumentista, a trabalhar em duo com o desenhador Sylvain Savoia, participou na criação da personagem Marzi, jovem que vive numa Polónia em situação ainda indefinida após a queda do comunismo. Nas páginas da Casemate, ela e o desenhador, seu companheiro, são entrevistados e, nesta entrevista, após uma resposta de Marzena, observam-lhe que a obra acaba por dar a impressão de que "era melhor antes", e ela esclarece o que pensa, dizendo:
"A queda do comunismo não significava que, de um só golpe, tudo iria ser maravilhoso "(...) Mas,na verdade, a queda do Muro significou que todo o trabalho começava! Que era necessário pensar em recriar o país, utilizar esta liberdade para fazer algo de belo".
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Mazi atingiu agora o 6º volume, com o sub-título "Tout va mieux", em edição da Dupuis.
Sylvain Savoia, à pergunta habitual "Como é que trabalham os dois?", responde: "Como todos os duos de desenhador/argumentista, mas tendo em conta que nós formamos um casal na vida real. Esse facto traz ao nosso trabalho uma sensibilidade e uma emoção que dificilmente existiria se fossemos apenas colegas."
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Em 2009, Marzi serviu de base a um filme de desenhos animados, deu azo a uma exposição e a um documentário fílmico, o que é representativo do êxito desta série.

A série Makabi teve início na editora Dupuis, mas está actualmente a ser publicada pelas Éditions Bamboo, e já atingiu o volume de seis álbuns, embora dois ainda inéditos. Lloyd Singer, personagem da série, é o director financeiro de uma agência do FBI, em Richmond, Estados Unidos.
Luc Brunschwig, argumentista (co-autor da série com o desenhador Olivier Neuray), é aqui o entrevistado.
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À pergunta "Como é que Makabi está agora com a Bamboo, sob um novo título?", Luc responde:

"Em dez anos, a série conheceu quatro directores de colecção diferentes na Dupuis. O último deles, ao aperceber-se das vendas em queda, decidiu publicar um integral do segundo ciclo, em Junho de 2010. O primeiro tomo deste ciclo tinha saído em 2007, e Olivier Neuray desenhara os dois seguintes, ainda inéditos até então.
Mas os serviços comerciais apresentaram este relançamento como se fosse apenas um simples integral dos volumes já editados, e não como uma novidade. Donde as encomendas de apenas 3000 exemplares, e a esperança de vendas se reduzir a 1500. A série estava morta."
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Esta amarga resposta de Luc, baseada em factos concretos, dá bem a ideia de como os problemas podem surgir por deficiente gestão das editoras, mesmo num mercado bem vasto como é o francês.



Le Chanteur sans nom (na vida real, de apelido Avellis) deu azo a uma banda desenhada que se baseia em episódios verdadeiros,cujo desenvolvimento se deve ao argumentista, romancista, cantor e bloguista (viva, confrade!) Arnaud Le Gouefflec, coadjuvado pelo desenhador Olivier Balez.
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Mais uma vez, os responsáveis da revista Casemate começaram por entrevistar o argumentista, e é ele que conta como lhe surgiu a ideia de criar uma banda desenhada em que a personagem principal fosse um cantor mascarado, caído no esquecimento.
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Obviamente, sendo Arnaud também cantor, a ideia de desenvolver a história fascinou-o. Quanto a Olivier Balez, seu cúmplice, afirma ter mergulhado em cinco documentações diferentes, entre as quais alguns filmes aconselhados pelo categorizado argumentista Pierre Christin, longas conversas com Françoise Avellis, filha do "cantor sem nome", que acedeu a mostrar o seu acervo pessoal, constituído por discos de 78 rotações da época, fotos de seu pai junto a Charles Aznavour e também na companhia de Edith Piaf.


Não tanto como nos Estados Unidos da América, mas também na Europa os Super-Heróis têm uma enorme falange de admiradores, e Batman é indubitavelmente um desses heróis sobredotados.
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Essa admiração contamina tanto os simples leitores, sem qualquer jeito para o desenho, como aqueles que já nascem com a capacidade inata da criatividade gráfica. Tony Daniel (Antonio Salvador Daniel, americano apesar do nome com som português, nascido em 1963) está entre estes últimos.
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Battle for the Cowl é uma mini-série que, após ter sido sucesso nos States (o que surpreendeu a própria DC Comics), teve também publicação em França. Aliás, a DC queria que se fizesse um episódio com este título, mas com Dick Grayson, ex-Robin, que aparece agora com o vestuário de Batman. Todavia, Mike Marts, editor da personagem, após conversa com Tony Daniel, propôs-lhe que fosse ele a escrever também o argumento, partindo de uma ideia invulgar: cada episódio será contado por um Robin diferente, e em consequência disso sob uma perspectiva diversa, sempre no conceito de "one shot".
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É de tudo isto que fala Tony Daniel em quatro páginas da Casemate, e do seu grande prazer em desenhar mulheres (por exemplo Catwoman, o grande amor de Bruce Wayne), e do seu trabalho para Batman com o argumentista Grant Morrison, que o influenciou na forma de ele próprio escrever, quando lhe calha também a componente ficcional: primeiro, organizar as ideias mestras; em seguida, fazer avançar a história, episódio a episódio; e, por fim, quando o conjunto lhe parece estar bem definido, ele relê tudo e burila os diálogos, os detalhes da acção.

Tanquerelle, artista da Banda Desenhada, admira, desde a adolescência, Munch (Edvard Munch, 1863-1944), artista norueguês da Pintura, em especial a obra "Le Cri", cuja reprodução Hervé Tanquerelle tinha pendurada na parede do seu quarto.
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Na entrevista que lhe é feita na Casemate para a rubrica "Un auteur, un peintre, un tableau", o autor de BD lembrou-se de Munch e daquele seu famoso quadro, e não deixou de sublinhar quanto a imagem do rosto a soltar um grito lancinante tem a ver com as vivências dele, que ainda muito jovem se viu confrontado com a morte da mãe e da irmã, vítimas de tuberculose.
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Algo coincidentemente, a admiração de Tanquerelle pelo pintor norueguês teve agora reflexo na sua obra que acaba de ser editada, Les Racontars Arctiques, cujo texto foi adaptado por Gwen de Bonneval do romance de Jorn Riel passado na Groenlândia, embora alguns dos caçadores que participam sejam noruegueses.


"As técnicas secretas dos grandes mestres da banda desenhada" é uma rubrica interessante e didáctica, que mostra os layouts preparatórios das pranchas, acompanhados de notas a lápis do próprio desenhador, o que nos permite sentir como que o arfar do criativo, as suas hesitações, ou seja, sermos testemunhas, a posteriori, do acto de criação de uma figuração narrativa. O que constitui, sem dúvida, uma autêntica lição - neste caso a 33ª, tantas quantas os números já editados da Casemate até Janeiro, exemplar que comprei em Angoulême.
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Conheci esta revista logo no seu início, e quando vi a rubrica e respectivo conteúdo, de imediato tive a noção de estar em presença da concretização de uma brilhante ideia.
Nela colaboraram já - mostrando as suas techniques secrètes - alguns dos grands maîtres de la bande dessinée, nomeadamente Lewis Trondheim (iniciador e permanente coordenador da rubrica), Guy Delisle, Mathieu Sapin, Jason, Manu Larcenet, Killofer, Cyril Pedrosa, Charles Berberian, Florence Cestac, entre outros.
Coube neste número a vez de Fabrice Tarrin, admirador confesso do enorme Franquin, desde os 14 anos, idade com que enviou uma prancha ao seu ídolo, e de quem recebeu vários conselhos dentro de balões de BD, como se pode ver (razoavelmente) na página da revista, mas melhor no blogue de Fabrice (por exemplo: num dos balões consegue ler-se: "as raparigas são difíceis de desenhar, faz esboços de raparigas").
Se Franquin o disse...

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Entretanto, quem quiser ver as oito postagens anteriores, poderá fazê-lo clicando no item que está visível aqui por baixo no rodapé, e que tem a legenda "Etiquetas: Revistas BD"

quarta-feira, fevereiro 23, 2011

Revistas BD (VIII) - Estrangeiras















"Vive la provoc!" lê-se na capa de L'Echo des Savanes, que, não por acaso, se auto-intitula "mensário satírico". De facto, este magazine francês sempre publicou bandas desenhadas loucas, desestabilizadoras, bizarras, provocatórias.
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Número 300 "e ainda temos os dentes todos", diz Claude Maggiore, director artístico dum magazine de BD que já conta trinta e oito anos de existência!
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"Um magazine desrespeitoso, irreverente (...) que escolheu definitivamente o riso, a insolência (...), são ainda palavras do citado Maggiore. E basta observar a capa de Manara, mais as páginas seguintes de Vuillemin, para se lhe dar toda a razão.

A Vuillemin, um colaborador de há muitos anos, segue-se Tronchet, com menos tendência para o escatológico, mas capaz de criar tramas envolvendo cenas bem divertidas, como sucede com a última prancha publicada neste número, em que o ingénuo Maurice pede autógrafo a um futebolista que ele pensa ser o Drogba, não reparando que todos eles usam camisolas com o nome do famoso jogador estampado nas costas.

Claro que atingido um número bem redondo como é o 300, nada como fazer um flashback até ao seu início, de que se vêem os números 1, 2 e 3 da primeira série (1972, 1973), onde pontuam Gotlib, Bretécher e Mandryka, e o nº1 da nova série (Novembro 1982), em que surge a personagem "Ranxerox", de Liberatore, mais o nome de um autor de culto, Reiser.

Wolinski - com direito a foto - conta-nos como, após o fim do Harakiri, teve a ideia de fazer algo que se asemelhasse com L'Assiette au beurre, velho jornal satírico.
Após ter-se encontrado com Claude Maggiore, que tinha acabado de modificar o grafismo do jornal Libération, ambos se propuseram fazer um jornal de BD com humor e sacanagem. Mas, como escreve Wolinski, não contava com a personalidade de Maggiori, que acabou por fazer sozinho o jornal (de louvar o "fair play" de Maggiori, redactor-chefe e director artístico, em relação a este artigo que o atinge).

"Le Déclic", de Milo Manara, teve a sua estreia nas páginas de L'Echo. E, apesar de toda a abertura ao erotismo que há décadas existe em França, este magazine era o mais apropriado para se poderem apreciar "les plus belles fesses de toute l'histoire de la BD".

E ainda hoje, em França, L'Echo des Savanes continua a ser a publicação mais propícia às imagens, belas e truculentas, assinadas por Manara, sob argumento de Jodorowsky, nas recentes páginas da obra "Borgia. Tout est vanité".

"Ranx", robô humanizado mas ultra-violento, que nutre um estranho amor pela adolescente Lubna, é personagem criada por Liberatore, no desenho, e Tamburini, no argumento.
"Ranx" teve lugar de relevo neste magazine, nele surgindo de novo, agora remasterizado pelo próprio Tanino Liberatore no seu primeiro episódio, de 42 pranchas, republicadas totalmente no presente número histórico.
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sexta-feira, fevereiro 11, 2011

Revistas BD (VII) - Estrangeiras: dBD Monographies






Panorama actual das revistas francesas de BD (II)
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Les dossiers de la bande dessinée é o significado da sigla dBD que identifica um magazine francês de banda desenhada já bem conhecido dos mais exigentes apreciadores portugueses da banda desenhada e... suficientemente conhecedores do idioma.
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Baseada na sólida implantação do dossiê de banda desenhada, a sua editora parisiense decidiu lançar um novo mensário complementar daquele, numa versão dedicada à publicação de vários assuntos interessantes, entre os quais monografias de autores de BD.
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Tal como aconteceu com o magazine de que falei anteriormente, o L'Immanquable, também este dBD Monographies HS#05 - ou seja, o nº5 do Hors-Série, uma colecção absolutamente fora de série - estava à venda na loja de jornais e revistas da estação de comboios de Angoulême, primeiro local que obrigatoriamente se depara a quem chega.

Depois de o HS#01 ter sido dedicado em exclusivo à mangá, os nºs 2 e 4 terem tratado do balanço (bilan) editorial francês de 2008 e 2009, respectivamente, e o #3 traçar exaustiva biobibliografia de Van Hamme (haja Zeus, um argumentista a merecer um número especial, só mesmo em França), saíu em Dezembro 2010 o dBD HS#5 consagrado a Hermann (1938, Bélgica), "Le stakhanoviste du dessin", como lhe chamam os editores bem visivelmente na capa.
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Hermann - que ainda o ano passado esteve em Portugal no Festival Internacional de Banda Desenhada de Beja - está indissoluvelmente ligado aos amantes de BD mais persistentes, que têm bem presentes as imagens vibrantes de várias séries, designadamente Bernard Prince (1966), Comanche (1969) - ambas sob argumento de Greg -, Jeremiah (o seu primeiro solo), Bois-Maury (inicialmente "Les Tours de Bois-Maury"), Nic (1980) - este sob argumento de Morphée, pseudónimo do seu cunhado Philippe Vandooren, Liens de Sang, Manhattan Beach, Zhong Guo, The Girl from Ipanema, Sur les traces de Dracula (várias destas obras já editadas em Portugal pela Vitamina BD).
De novo em obras de sua completa autoria surgem Sarajevo-Tango, Afrika e On a tué Wild Bill. Voltando a trabalhar com um argumentista, desta vez com Jean Van Hamme, desenhou Lune de Guerre (2000), obra editada entre nós pela editora BaleiAzul.
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Um trajecto profícuo, com muito talento espalhado por décadas de produção, tudo isso ressalta da longa entrevista nesta publicação cuja existência só é possível num tão vasto mercado como o francófono, onde decerto haverá suficientes leitores interessados neste tipo tão específico de projecto editorial, dedicado a temas especializados (Mangá, Balanços de produções anuais e Monografias), assuntos competentemente tratados, a que só falta, no caso das monografias, a respectiva biobibliografia do autor, organizada cronologicamente.
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Os visitantes deste blogue interessados em ver postagens anteriores relacionadas com este tema terão possibilidade de o fazer, bastando-lhes clicar no item "Etiquetas: Revistas BD", visível no rodapé

quinta-feira, fevereiro 03, 2011

Revistas BD (VI) - Estrangeiras: L'Immanquable






Panorama actual das revistas francesas de banda desenhada (I) - L'Immanquable, la BD en avant-première.
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Apesar de, em França, haver em publicação vários magazines dedicados à BD, tal não impede que, no amplo mercado daquele país haja lugar para mais um, o L'Immanquable (que se poderá traduzir, livremente, por "o infalível"), de que acaba de sair o nº1.
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Este magazine tem a finalidade - bem sinalizada no subtítulo - de ser uma espécie de mostruário de ante-estreias de obras de BD, o que dá a possibilidade de os seus leitores poderem avaliar antecipadamente o que está previsto para ser editado em álbum.

Curiosamente, a ideia-base é muito semelhante à que foi desenvolvida na revista portuguesa Selecções BD, tanto na 1ª série (Maio de 88 a Dez. 91) como na 2ª (1999). E, sei-o bem - uma das colaborações que tive nessa revista foi responder às cartas dos leitores, sob o pseudónimo "Bedéfilo" -, a reacção de muitos deles (seria uma minoria, ou seria um grupo representativo da opinião da maioria?) era negativa relativamente ao projecto. A opinião mais repetida era a de que a revista se tornaria desnecessária, visto a sua própria editora (Meribérica) ir seguidamente lançar essas mesmas histórias em álbuns.
Qual será agora a reacção dos leitores franceses a idêntico projecto? Na realidade, apesar de o mercado francês ser vasto, há um razoável leque de publicações de BD. E, como a experiência nos diz, ao entusiasmo inicial por uma novidade, segue-se, mais tarde ou mais cedo, o desinteresse - ainda não foi há muito que em França se deu o desaparecimento de três revistas, uma após outra: Vécu (totalmente dedicada a bandas desenhadas de cariz histórico), A Suivre (a mais importante e de mais longa existência), e BoDoï (a sua descendente).
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L' Immanquable
Periodicidade: Nº1 em 1 Jan.11; Nº 2 a sair em 20 Fevereiro (portanto, parece irregular)
Formato: 22x28,7cm
146 páginas (a p/b e cores)

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Vejamos, em breves sínteses, o conteúdo deste número inicial (as imagens das pranchas, no topo do poste, estão também pela mesma ordem):

1. Philippe et Francis - tome 2 - Le Piège machiavélique
Mesmo quem ainda não tenha travado conhecimento com o volume inicial apercebe-se de imediato - as figuras da dupla, apesar de caricaturadas, são identificáveis à primeira vista - de que se trata de paródia às personagens Blake et Mortimer, aliás, Philipe Mortimer e Francis Blake (ver 2ª imagem no topo), chamando-se os autores "parodiantes" Barral (desenhador) e Veys (argumentista), ambos claramente conhecedores da obra de Edgar Pierre Jacobs e do seu estilo.
A comicidade das figuras criadas por Barral terá sido motivo opcional para a sua utilização na capa do magazine, neste seu número de arranque.
Álbum com 46 páginas
Total de páginas publicadas neste nº: 14
Editora Dargaud, saída do álbum prevista para Abril 2011

2. Pavillon Noir (tomo 1 de 3)
Autores: Bingono (desenho), Corbeyran (argumento).
O retorno de um tema que já teve momentos brilhantes na BD, e de que ressalta a obra seminal Hernan el corsario, criada por José Luís Salinas, que mais tarde desenharia Cisco Kid, ícone da banda desenhada tipo western.
Álbum com 46 páginas
Total de páginas publicadas neste nº: 16
Editora Soleil. Saída do álbum: Março 2011

3. Les Boucliers de Mars - tomo 1: Casus belli.
Autores: Christian Gine (desenho), Gilles Chaillet (argumento), Antoine Quaresma (colorista).
Sim, para quem se lembrar do nome Gilles Chaillet, decerto terá a noção de o ter conhecido na qualidade de desenhador... E tem razão. De facto, apesar de habitualmente ser o autor dos desenhos, teve repentinamente a ideia para este argumento, e para a desenhar lembrou-se do amigo Gine, que antes fizera Capitaine Sabre.
Álbum com 56 páginas
Total de páginas publicadas neste nº: 16
Editora Glénat. Saída prevista para 9 Março 2011

4.Magasin Sexuel
Autor: Turf (desenhador, argumentista, colorista, talvez também legendador)
O arranque da peça promete: numa pacata aldeia, alguém rouba a letra i do letreiro de uma loja, o que irrita sobremaneira o sr. Nobel, dono do "Le Bar du Coin", transformado em bar do "con", palavrão pouco abonatório das virtudes da esposa. O estilo do desenho encaixa-se bem no tipo de argumento.
Álbum com 64 páginas
Total de páginas publicadas neste nº: 16
Editora Delcourt - saída prevista para 2 Março 2011

5.Un Sac de Billes
Autores: Kris e Vincent Bailly
Um episódio passado na 2ª Guerra Mundial, com cenas de "bullying"na escola, baseadas no anti-semitismo a crescer entre os adolescentes, em imagens de muita sensibilidade, talvez desenhadas pelo duo, visto que não indicam quais as especialidades de cada.
Álbum com 62 páginas
Total de páginas publicadas neste nº: 17
Editora Futuropolis - saída prevista para 7 abril 2011
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6.La Légende d'Horacio d'Alba
Autores: Nicolas Siner (desenho e colorização), Jérôme le Gris (argumento)
A Renascença italiana serve de pano de fundo ao combate intenso que se trava entre duas Academias de duelistas.
Jérôme le Gris é oriundo do meio cinematográfico. Na entrevista que lhe é feita, ele afirma que, através desta experiência na banda desenhada, descobriu um meio de expressão riquíssimo, na fronteira entre a literatura e o cinema.
Álbum com 54 páginas
Total de páginas publicadas neste nº: 17
Editora não indicada - saída prevista para 31 Março 2011

7.Les Innocentes Coupables - tomo 1: La Fuite
Autores: Anlor (desenho), Laurent Galandon (argumento)
O enredo tem por protagonistas quatro jovens delinquentes, o seu início dá-se sob um ambiente tenso e violento criado pelos encarregados da instituição (reformatório?), que se revelam depravados e tendencialmente abusadores dos jovens.
Álbum com 48 páginas
Total de páginas publicadas neste nº: 21.
Editora: Bamboo/Grand Angle - saída prevista para Março 2011
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Nota: Todos os episódios terão seguimento no nº 2 do magazine L'Immanquable
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Imagens a ilustrar o poste (de cima para baixo):
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1. Capa
2. Prancha 1 de "Philippe et Francis"
3. Prancha 1 de "Pavillon Noir"
4. Prancha 15 de "Les Boucliers de Mars"
5. prancha 6 de "Magasin Sexuel"
6. Prancha 1 de "Un sac de billes"
7. Prancha 10 de "La Legende D'Horacio d'Alba"
8. Prancha 9 de "Les Innocents Coupables"
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Para ver as postagens anteriores deste tema basta clicar no item "Revistas BD" que se vê no rodapé

terça-feira, março 30, 2010

Revistas BD (V) Estrangeiras: Fluide Glacial


Brake et Moltimer... Não, não é erro meu, trata-se do título de bem imaginada paródia - um pastiche, como dizem os franceses - publicada pela revista Fluide Glacial (Abril 2010, sim, há países onde é costume as publicações serem lançadas com alguma antecedência).
Da autoria de Romain P. Dutreix, foi este que baptizou, com aquele trocadilho, o célebre duo Blake et Mortimer, criando hilariante episódio em oito pranchas. Delas reproduzo apenas uma tira com três vinhetas, para dar ligeira ideia do enredo, que até faria gargalhar o criador original da obra, Edgar Pierre Jacobs, logo na leitura do título do episódio La Malédiction du mystère secret de la machination diabolique, absolutamente impagável para quem conhece os títulos dos diversos tomos da obra.
Uma curiosidade em relação à Fluide Glacial: este é o número 406, e tendo a revista a periodicidade mensal, dividindo 406 por 12 dá 33 anos e picos. Notável longevidade para uma revista de banda desenhada. Razões? Talvez o facto de se tratar de revista destinada a um público adulto, o que não tem a ver com banda desenhada erótico-pornográfica, que só esporadicamente aparece nas suas páginas, antes ao carácter evoluidamente satírico da BD que publica, desde sempre.
Também suscita curiosidade e sorrisos a forma como o autor da paródica bd goza com a simplicidade (para o bem e para o mal) da língua inglesa. Logo na 3ª vinheta da prancha inicial, quando Mortimer exclama indeed, em rodapé lê-se a tradução en effet; Mortimer repete a exclamação indeed, nas 3ª e 6ª pranchas (primeira e penúltima vinhetas, respectivamente), e em rodapé lê-se, sucessivamente, c'est vrai e tout à fait.
Gozo acessível a quem aprendeu francês, coisa rara nestes tempos de hegemonia anglófona...

terça-feira, março 10, 2009

Revistas BD (IV) - Estrangeiras: Revistas antigas são valiosas - Action Comics #1


Será que um exemplar do nº 1 da antiga revista Action Comics (editada em Junho de 1938) atingirá o valor de 400.000 dólares? Há quem diga que sim, e não é difícil acreditar, se atendermos a que, hoje, o valor atingido já está em 277.300 dólares (cerca de 220.000€) no leilão dum site americano especializado neste género de negócio, e as ofertas dos interessados serão aceites até ao próximo dia 13, que calha exactamente numa 6ª feira. O que pode ser desmoralizador para os supersticiosos negativos, ou entusiasmante para os supersticiosos positivos...
Como bem sabe a maioria dos visitantes deste blogue, esta revista Action Comics #1 (64 páginas a cores, a capa também, com o preço de dez cêntimos) foi o suporte da estreia (oficial) do Superman (ou Super-Homem, em português) geralmente considerado primeiro super-herói da Banda Desenhada (esta afirmação não é linear, mas não é agora o momento de a esclarecer), personagem criada por dois americanos, Jeremy (Jerry) Siegel, argumentista, e Joseph (Joe) Shuster, desenhador.
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Post Scriptum - Para quem não sentir a crise económica, ou, ao invés, seja abastado coleccionador (esta é uma indirecta para o meu querido amigo e enorme, em todos os sentidos, coleccionador de banda desenhada, Bana e Costa), aqui fica o endereço do site especializado onde decorre o acto leiloeiro:

sábado, outubro 13, 2007

Revistas BD (III) - Portuguesas: ZORRO

Capa do número incial do semanário juvenil Zorro, da autoria de (José Pires)

"Quando abrires este jornal, é possível que penses:«Mais um jornal para rapazes?». Era assim que se iniciava o texto de apresentação, não assinado, mas que seria decerto do director, Adolfo Simões Müller, em 13 de Outubro de 1962, há 45 anos. Hoje, certinhos.

E continuava assim a conversa:

"Não! Ao apresentar ao público juvenil o primeiro número do jornal «ZORRO», esperamos sinceramente que ele não seja MAIS UM JORNAL, mas o verdadeiro jornal dos jovens, feito para eles e por eles. Pocurámos, de facto, elaborar uma revista de acordo com as preferências dos leitores manifestadas através de vários inquéritos e das numerosas sugestões que nos têm chegado. Daí o formato de algibeira, o aspecto gráfico moderno e o conteúdo incluindo sempre uma aventura ilustrada completa, várias séries de «histórias em quadradinhos» em continuação (...)"

Cerca de quatro anos mais tarde, estava-se a 11 de Junho de 1966 (na capa festejava-se a noite essencialmente lisboeta de Santo António), e 192 números publicados, finava-se o sonho, com a amargura a ressaltar do texto de despedida, naturalmente do director, num artigo intitulado "Até breve!". Dizia ele, em palavras quase diametralmente opostas às da apresentação:

"Com este número vai cessar o diálogo vivo e amigo entre este magazine e os seus milhares de leitores. Dizemos milhares para acentuar bem como é grande o público do «Zorro». E, no entanto, esse número é insuficiente para permitir manter uma publicação com as características deste semanário, necessariamente caro.
Parece que grande parte do público juvenil do nosso país está um pouco desinteressado desta fórmula que é o semanário ilustrado (...) O mundo de hoje, com o cinema, a rádio, a TV e outras distracções, dir-se-ia afastar os nossos jovens da leitura (...)"

Estas palavras parecem ter sido escritas hoje, tal a sua actualidade. Apenas se teria de acrescentar, como motivos de afastamento da leitura, os jogos de vídeo, de consola e de computador, os "chats" na internet, e os copos nas noites de fins-de-semana prolongados, a partir de 5ª feira. Mas, claro, continua a haver uma significativa camada de gente - estamos a falar de quem se interessa pelas artes e pela cultura - com prazer na leitura/visionamento da banda desenhada. Não sejamos derrotistas...

Depois disso editou-se a [revista] Tintin, entre 1968 e 1982, com grande êxito nos primeiros dez anos, mais coisa menos coisa, e acabou no décimo quarto ano, com as vendas a baixarem visivelmente.

Que ilação se pode extrair deste facto recorrente? Eu costumo dizer que os bedéfilos são essencialmente volúveis e maldizentes. Volúveis porque o entusiasmo dura somente uma dúzia de anos ou pouco mais. A partir daí começam a dizer mal de tudo o que a revista publica, e vão deixando de comprar, até que os editores se rendem à evidência, e acaba a publicação.

A capa do Zorro - Magazine da Juventude, nº 5, de 10 Nov. 1962

No caso do Zorro, não se pode dizer que fosse por falta de motivos de interesse em termos bedéfilos. Muitas séries e heróis populares lhe animaram as páginas, como por exemplo Lucky Luke, Tintin (aliás, grafado Tim-Tim) e Astérix, três pesos pesados no que se refere a popularidade.

Capa do "magazine da juventude" Zorro, nº 26, de 6 Abr. 1963, em que é anunciado o episódio "Tim-Tim em As Jóias da Prima-Dona" (assim então chamaram a Madame Bianca Castafiore)

Uderzo, desenhador de Astérix, era também quem concretizava a imagem de Michel Tanguy, presente, com os seus aviões, nas páginas do Zorro. Talvez com menos impacte junto dos leitores, mas com qualidade gráfica e de argumento, houve ainda as séries Marc Dacier, Buck Danny, Charlie Chan (este em episódios autoconclusivos de umas tantas páginas em cada número), Lolocas e Pompom (Modeste et Pompom, no original), Buffalo Bill, Sexton Blake, Robin dos Bosques, Gaston Lagaffe (baptizado em português por Zacarias...), Sexton Blake (tal como este, vários dos mencionados "heróis" tinham sido êxitos no Cavaleiro Andante -1952/1962-, publicação congénere anterior regida pelo mesmo director), Umpá-pá (com esta grafia aportuguesada), Jerry Spring, Blondin et Cirage (versão portuguesa: Loirinho e Escarumba), Bessy, Jean Valhardi, Johan et Pirluit (transformados em "O Cavaleiro Patali"), Spirou et Fantasio ("Serafim e Flausino"), Jo, Zette e Jocko (que apareciam com estes seus nomes de origem nos episódios "O Manitoba não responde" e "A erupção do Karamako", mas que viriam mais tarde a ser forçados a adoptar os nomes de Joana, João e o macaco Simão), Howard Flynn, Michel Vaillant (Miguel Gusmão, não soa a nome de corredor de automóveis, mas foi o que lhe conseguiram arranjar mais parecido, digo eu).



As duas primeiras páginas do episódio Astérix e a foice doirada, título com que surgia esta famosa série na revista Zorro, no nº 27 de 13 Abril 1963

A plêiade de personagens deste jornal infanto-juvenil tinha resultado de uma boa selecção, onde não faltaria Astérix, mais o seu inseparável Obelix, apresentado como "alfaiate e distribuidor de menires", também Cantarix (assim se chamava o bardo, igualmente empossado da função de "professor-ensina os meninos", e o chefe supremo da aldeia era o Bigodix (a tendência para alterar os nomes das personagens de Goscinny e Uderzo já vem de longe), todos estes estão à disposição visual dos leitores a partir do nº 27, de 13 de Abril de 1963.
Falar-se de personagens da BD implica referir nomes dos autores-artistas e argumentistas que as criaram. E muitos deles são hoje bem sonantes.
Apesar de terem desaparecido praticamente todas as assinaturas (porque seria?), detectam-se, pelo estilo, entre os estrangeiros: Guido Buzzelli (é verdade!), Caprioli, Jijé, Franquin, Peyo, Hans Kresse, um dos Blasco (talvez o Alejandro), Mitacq, Morris, Hergé, Eddy Paape, Victor Hubinon, Renato Polese, Aidans, Raymond Reding, Weinberg, Gerald Forton, William Vance, Jean Graton, Tibet, Jacques Martin, Funcken...

Os portugueses é que foram poucos. Houve capas desenhadas por (José Pires), Manuel Ferreira (um muito bom desenhador pouco referenciado) e José Garcês. Este último, ao nível de BD, foi o único colaborador, tendo recriado, por exemplo, a figura de Texas Jack (!)

E pronto. Como "tristezas não pagam dívidas", assim diz o povo, a [revista] Zorro finou-se, num alegre dia de Santo António, com a feérica ilustração da capa do nº 192 a esconder a tristeza da circunstância de ser o derradeiro.

Zorro - semanário juvenil
Formato: 15x21cm
Director: Adolfo Simões Muller
Editor: M. Nunes de Carvalho
Propriedade da E.N.P. (Empresa Nacional de Publicidade)
Administração: Av. da Liberdade, 266
Lisboa
Telefone 48104 (!)