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terça-feira, maio 30, 2006

Visão, revista de Banda Desenhada, 1975-76 (III) Falando hoje com... Victor Mesquita

Imagem da primeira prancha da banda desenhada Eternus 9 - Regresso do nada, de Victor Mesquita, no nº 1 (Abril 1975) da revista Visão

Falei aqui no blogue, em Abril de 2005, da revista Visão, surgida trinta anos antes, exactamente em Abril de 1975.

Volto agora, trinta anos após o seu fim - Maio de 1976 - a homenageá-la, falando (ou tentando falar), a pouco e pouco, com os mais representativos autores-artistas que constituiram o núcleo de maior importância na breve vida da revista. E que eu considero que foram os seguintes:

Victor Mesquita, Pedro Massano (que, na altura, assinava apenas Pedro), Corujo Zíngaro, Isabel Lobinho, Nuno Amorim, Carlos Barradas, Zé Paulo e Zepe.


Victor Mesquita
Foto tirada em Maio 2006, no local onde vive, Aldeia de Irmãos, Azeitão (Foto:G.Lino)
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VICTOR MESQUITA 
Lisboa, Abril 1939

- Victor Mesquita: O que significou para ti a Visão?  
VM - A Visão foi a aventura possível. E, como se diz, eu estava no tempo e no sítio certo. Foi um sonho que já vinha da minha infância, um sonho não formulado, mas que despoletou o sentido de rara oportunidade que era, nessa circunstância socialmente tão conturbada como foi o pós 25 de Abril, de realizar um trabalho qualitativo que fosse um marco para a Banda Desenhada Portuguesa.


- Em Abril de 1975, estudavas ou trabalhavas?
VM - Estava desempregado. No ano anterior tinha sido despedido do jornal A Capital, sem justa causa, e nesse momento vivia de ilustrações e "story-boards" para a Publicidade, que sempre fora a minha profissão.

- Que fizeste em BD depois de 1976, após o fim da Visão?
VM - Por ordem cronológica: a trilogia "Lisboa com Tejo ao Fundo", que engloba "A Ilha da Bruma" (que tinha sido publicada anteriormente no semanário Expresso); "Os Navegadores do Infinito" e "O Homem que não se chamava Hemingway". E, em 96, a pedido da Câmara Municipal da Amadora, fiz "O Síndroma de Babel".

- Em vez de BD, o que é que tens feito para ganhar a vida?
VM - Publicidade, Pintura e Ilustração.

- Há algum projecto de BD que estejas a realizar, ou que gostasses de concretizar num futuro mais ou menos próximo?
VM - Presentemente estou a trabalhar em três projectos em simultâneo: O Regresso do Eternus 9, onde será introduzido um novo conceito de Banda Desenhada; já em fase bastante avançada; Ernesto Santelmo, cujo protagonista é um engenheiro genético, de origem luso-americana, em confronto com uma nova Máfia. E para finalizar, Mahata Samuri, um mangá, cujo objectivo é ser lançado no mercado japonês.
Posso acrescentar que, actualmente, estou dedicado a tempo inteiro à Banda Desenhada, à Literatura e à Pintura.
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1º "Post" remissivo - Entradas anteriores neste blogue sobre a revista VISÃO:
2005-(I) Dezembro, 10; (II) Dezembro, 11

2º "Post" remissivo - Entradas anteriores neste blogue relacionadas com Victor Mesquita
2006-Maio, 13 (Picado e Contrapicado na BD); Maio, 21 (Lisboa na BD)

domingo, dezembro 11, 2005

VISÃO - revista de Banda Desenhada, 1975-76 (II)



Continuando a análise da trajectória da revista, mas dando um salto para o sexto número, verifica-se que a capa, ilustrada por Pedro (Pedro Massano), apresenta a data de 15 de Junho, mas no editorial são pedidas desculpas pelo enorme atraso, o que significa que apareceu no mercado bem mais tarde.

Nesse mesmo texto são avisados os leitores de que, devido a problemas económicos e outros a nível de entendimento (desentendimento, se calhar seria mais o caso), iria ser aproveitado o mês de Agosto para reestruturar a actividade interna da editora Edibanda - Sociedade Editorial de Banda Desenhada, Lda., entidade sediada em Lisboa, de existência tão efémera quanto a respectiva revista.

O interregno foi maior do que o previsto. O nº7 tem a data de 10 de Outubro. O nº8, de 10 de Novembro, respeita a nova periodicidade mensal. Mas o nº9 só sairia a 20 de Janeiro de 1976. A partir do nº10, datado de Fevereiro, os responsáveis da revista, surpreendem os leitores - e os estudiosos de hoje - ao passarem a classificar a publicação como álbum, vocábulo que aparece na capa nessa edição, e continua presente nos restantes números: 11 (Abril)e 12 (Maio), ambos de 1976.

No que se refere a autores/artistas revelados, além dos já citados na primeira parte deste artigo (Victor Mesquita, Zé Paulo, Carlos Barradas, Zepe, Pedro, André e o argumentista Machado da Graça), que pontificam no número de estreia, haverá que citar mais alguns nomes de elevada qualidade: Duarte (José Luís Duarte), Lobinho (Isabel Lobinho), Pilar (António Pilar) e Corujo Zíngaro (Carlos "Zíngaro", hoje músico conceituado), entre vários outros autores de menor dimensão.

Nota para os bloguistas:
Este 2º artigo sobre a revista "Visão" ainda não completa o trabalho encetado no "post" anterior, que continuará com mais um texto e, seguidamente, com a publicação de notas biográficas relativas a alguns dos autores/artistas que nela colaboraram.

sábado, dezembro 10, 2005

VISÃO, revista de Banda Desenhada, 1975-76 - (I)



Foi há trinta anos, contas redondas, que surgiu a revista "Visão". A capa apresentava o subtítulo: "Para uma nova Banda Desenhada Portuguesa", que constituia a finalidade programática dos seus mentores e colaboradores.

Lançada em 1 de Abril de 1975, prometia sair nos "dias 1 e 15 de cada mês", ou seja, a periodicidade previa-se quinzenal. Apresentava-se em formato tipo B4, em papel "couché" de elevada gramagem, com capa e contracapa a cores, enquanto o miolo, constituído por 36 páginas, alternava umas a cores com outras a preto-e-branco.

No conjunto dos apenas doze números publicados, a "Visão" constituiu uma "pedrada no charco", pelo estilo gráfico e conteúdo ficcional que nada tinha a ver com a banda desenhada a que se estava habituado nas revistas portuguesas.

O desenho da capa do nº1 - uma imagem relacionada com a bd Matei-o a 24 - estava identificado por Mesquita, nome (mais propriamente, apelido) que se repetia no cabeçalho da página três, ao lado do título Eternus 9 - Regresso do Nada, mas agora já se apresentando com o nome próprio: Victor.
Esta obra, que ficaria incompleta no conjunto dos doze números, apresentava-se em três pranchas sem palavras, suficientes para revelar um estilo que impressionava pela imaginação e beleza dos pormenores, além de se basear numa ficção com algo de esoterismo.

Victor Mesquita foi um dos autores importantes da "Visão", embora também já fosse conhecido dos leitores da revista "Mundo de Aventuras", onde debutara.

Entretanto, nesse número inicial da novel revista, apareciam os primeiros colaboradores sob nomes ou psedónimos que a maioria dos bedéfilos desconhecia: André, "Zepe", Zé Paulo, Carlos Barradas, e os argumentistas "Vícaro", Machado da Graça e Carlos Soares. Mas o traço e a ficção desses desconhecidos iriam gradualmente ganhando apreciadores, e vários entre eles iriam ter obras publicadas posteriormente.

André, por exemplo, tornar-se-ia conhecido a seguir pela personagem Tónius, o Lusitano, mas aqui iniciava-se com uma série humorística, a cores, que continuaria em números seguintes, intitulada Gemadinha, o herói de Pedras Baixas, sob argumento de "Vícaro" (pseudónimo de Victor Mesquita). Esta mesma dupla assinava outra bd, em apenas duas páginas, a preto-e-branco, sob o título Imundus, uma estranha alegoria.

Na página onze podia ler-se uma apresentação sob o título "Diálogo para uma nova Banda Desenhada", assinada pelas iniciais M.G. (Machado da Graça).

"Zepe" (pseudónimo ainda hoje usado por José Pedro Cavalheiro) criava um "gag" numa só prancha, a preto e branco.

Zé Paulo (José Paulo Simões) assinava Abril Águas Mil, episódio humorístico que deixava espaço para, em rodapé, apresentar a ficha técnica, onde aparecia o nome de Victor Mesquita como director, e os de Machado da Graça, José Maria André, Pedro, Nobre, Carlos Barradas, Artur Tomé, Mário António Martins e C. Soares, como colaboradores.

Clave sem Sol, banda desenhada a preto-e-branco, tinha autoria de Carlos Barradas e Carlos Soares. A qualidade dos desenhos de Barradas era absolutamente excepcional, apoiados por ficção invulgar de um ainda hoje desconhecido Carlos Soares.

Victor Mesquita, com diversificado talento e participação repetida, surge de novo no mesmo exemplar de estreia, a desenhar mais outra obra em entregas parciais, titulada Matei-o a 24, sob argumento de Machado da Graça, e em cujo conteúdo se basearia para criar uma ilustração para a capa, como já foi dito anteriormente.
As três primeiras pranchas apresentadas nesse número, a cores, mostravam o início do episódio passado em Lisboa, tendo como protagonista um homem novo, Eduardo, traumatizado por cenas ocorridas na guerra colonial. Trata-se, neste caso, de uma banda desenhada que se apresenta em estilo realista, bem conseguido.

Os Loucos da Banda, desopilante episódio em seis pranchas, a cores, escrito e desenhado por Zé Paulo, ecléctico e prolífico, e talvez também o mais "louco" entre todos os autores que se revelaram na "Visão".

Este número histórico iniciava uma fase totalmente diferente na banda desenhada portuguesa, revolucionando-a tanto ao nível temático como estilístico.

Nota para os bloguistas:
O presente trabalho sobre a "Visão" será continuado noutros "posts", incluindo notas biográficas dos autores mais representativos da revista. A partição do texto tem por finalidade evitar uma excessiva extensão).