quarta-feira, outubro 31, 2007

Banda Desenhada portuguesa nos jornais (LXXI) - O Primeiro de Janeiro - Autor: Agonia Sampaio

Prancha (1 de 5) da banda desenhada Melancolia, da autoria de Agonia Sampaio

Um suplemento jornalístico infantil com banda desenhada é, hoje em dia, uma raridade. O jornal nortenho O Primeiro de Janeiro abre essa excepção com o suplemento semanal O Janeirinho, na edição de 26 de Outubro (deste ano 07), com a banda desenhada sem palavras Melancolia, da autoria, argumento e desenho de Agonia Sampaio, autor poveiro já com bem recheado currículo banda-desenhístico.
É certo que o argumento não se lê, visto que se trata de uma bedê muda, mas ele está lá subjacente às imagens (extremamente pormenorizadas nos cenários, ponto forte do grafista), o que, presumo, induziu os responsáveis editoriais do suplemento infantil a aproveitarem-na como exercício/desafio à imaginação e criatividade literária dos pequenos leitores de O Janeirinho, com a seguinte proposta:

"Através destas ilustrações cria uma história e remete-a (...) através do e-mail leitura@oprimeirodejaneiro.pt. As melhores composições serão aqui publicadas. Se quiseres, podes ainda pintar as ilustrações."
Fico com imensa curiosidade em ver publicados os resultados deste interessante desafio, uma ideia muito pouco vulgar, provavelmente surgida pela já citada característica de se tratar de uma banda desenhada sem palavras.
Embora não esteja especialmente optimista no que concerne ao número de respostas, um pouco devido ao facto de as cinco pranchas terem uma montagem não especialmente convidativa (só se for com a ajuda daqueles pais mais bedéfilos) algo encavalitadas em apenas três páginas do suplemento.
O Primeiro de Janeiro e a valiosa contribuição que prestou, em tempos idos, à divulgação de boa banda desenhada de origem americana
Aproveito para relembrar (ou dar a conhecer aos visitantes mais jovens) o facto de este jornal do Norte ter sido, em tempos, um importante suporte para a BD, razão pela qual, eu, lisboeta por nascimento e a viver em Lisboa, comprei durante anos a edição de domingo daquele jornal. Porque, somente nas suas páginas foi possível ver, por exemplo, a clássica série Príncipe Valente reproduzida a cores aparentadas com as originais das "Sunday pages dos jornais americanos, reproduzidas lá no enorme formato "standard" (por cá, no tablóide, portanto maior do que era habitual publicar BD em Portugal) durante muitos anos, o que, de imediato, apaixonou o meu amigo Manuel Caldas, que, por culpa desse "coup de foudre" se tornou um dos maiores especialistas mundiais daquela famosa série. Além de outras famosas obras serializadas, The Katzenjammer Kids ou The Captain and the Kids (com o título adaptado para português de várias maneiras, por exemplo Necas, Tonecas, Barbaças e Leocádia, estou a citar de cor, peço desculpa por alguma inexactidão, ou Os Sobrinhos do Capitão) obra criada por Rudolph Dirks e herdada por Hy Eisman) , além de O Coração de Julieta (The Heart of Juliet Jones, com desenho de Stan Drake(*), argumento de Eliot Caplin) e As Aventuras de Dick (salvo erro era este o título em português, correspondente a Dick's Adventures in Dreamland, com desenho de Neil O'Keefe, argumento de Max Trell), todas estas, não em simultâneo, claro, mais aquela tira a preto e branco noutra página, ainda hoje publicada, com o inenarrável e politicamente incorrecto machista Zé do Boné (Andy Capp, da autoria de Reg Smythe), apesar disso, ou precisamente por isso?, acabadinho de ter direito à publicação em álbum português!, um exclusivo de longos anos de O Primeiro de Janeiro, mas actualmente nele reproduzido sem a mínima consideração, reduzido a uma tira minúscula, em que as legendas quase só se conseguem ler com a ajuda de lente...
(*) Este Stan Drake trabalhou também para o mercado europeu. entre 1981 e 1988, ao desenhar, sob argumento de Leonard Starr, a série Kelly Green, dada a conhecer ao público português pela revista Jornal da BD (para a qual criei o Suplemento BD, apenas acessível nas encadernações que mantêm as capas da revista, e onde também respondia às cartas dos leitores sob o pseudónimo Ardina).
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Para os interessados neste tema de Banda Desenhada Portuguesa publicada nos jornais, há uma extensa lista remissiva acoplada ao "post" de Outubro, 25. Basta ir à coluna "Archives" e clicar, como qualquer habitual visitante sabe.

segunda-feira, outubro 29, 2007

Mangá "made in" Portugal (VII) - Autora: Inês Freitas

Prancha inicial da bd Ronin, da novel mangaka Inês Freitas

A mangá, vertente japonesa da BD, atrai cada vez mais a juventude, como leitores e como mangakas (autores), e, entre esta categoria, encontram-se várias jovens lusas com talento para o desenho, mais do que em qualquer outro tipo de banda desenhada. Inês Freitas é uma delas.

Ocorreu-me agora mencionar esse pormenor, ao rever o fanzine Venham + 5, devido ao facto de ter sido o galardoado, na categoria de Melhor Fanzine (2006/2007), no Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora.

Acerca deste fanzine já tinha falado no meu outro blogue, o
http://fanzinesdebandadesenhada.blogspot.com/
no "post" datado de Julho, 6. E volto agora a falar, mostrando outra das bandas desenhadas constantes do miolo do fanzine, e a respectiva capa.
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"Posts" anteriores dedicados ao mesmo tema:

(VI) Set. 8 - Autores: Hugo Teixeira (desenho), Vidazinha (argumento)
(V) Março 11 - Autor: Hugo Teixeira
2007 - Daqui para cima

(IV) Dez. 8 - Autora: Vanessa Nobre
(III) Dez., 8 - Autor: João Paulo Baptista
(II) Julho, 8 - Autores: Pedro Roxo Nogueira (desenho), Paula Cunha (argumento)
(I) Junho, 28 - Autores: Ana Freitas (desenho), Nuno Duarte (argumento)
2006 - Daqui para cima

quinta-feira, outubro 25, 2007

Banda Desenhada portuguesa nos jornais (LXX) - Mundo Universitário - Autor: Pedro Manaças

Prancha da banda desenhada Des-concerto, que introduz o anti-herói Manegas, da autoria de Pedro Manaças (in Mundo Universitário nº 82, de 22 Out. 07)

Continuando a funcionar como montra ecléctica da BD portuguesa, o jornal Mundo Universitário publicou na 2ª feira passada mais uma bd, a cores, da autoria de Pedro Manaças.
Como os meus caros amigos visitantes deste blogue devem ter a noção, não é fácil a tarefa (mas "quem corre por gosto não cansa", como diz o aforismo) que tenho, como coordenador daquela página, de conseguir uma banda desenhada todas as semanas. Com a experiência que me advém de longo percurso ao serviço da banda desenhada, como divulgador (também como editor amador), optei por arranjar uma equipa numerosa, composta por todos aqueles autores-artistas que demonstram ser capazes de realizar, com presteza, o tipo de banda desenhada que lhes peço, e que não é nada fácil: uma história autoconclusiva, numa só página.
Felizmente que tenho tido resposta positiva de muitos banda-desenhistas, neles se incluindo até alguns nomes importantes da BD nacional, como é o caso de Pedro Massano, Zé Paulo, Arlindo Fagundes, Nuno Saraiva, José Carlos Fernandes, Zé Manel... e de cerca de cinco dezenas de outros, que, não por menos consideração, mas apenas porque os nomes deles podem ser vistos na lista que incluo, como é meu hábito, no "post" remissivo em rodapé.
Note-se que a página já existe há dois anos. Inicialmente o Mundo Universitário era quinzenal, mas (e ainda bem), de há um ano a esta parte passou a semanário. Por isso, a tarefa é mais árdua, porque todos os autores-artistas que convido aceitam colaborar (ainda só houve um que declinou o convite), mas, o pior, é concretizarem o trabalho...
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Ver "posts" anteriores, deste mesmo tema, na coluna "arquivo" nas datas indicadas:

Out. 16 - Álvaro
" 12 - Pedro Alves
" 10 - Lam (João Lam)
" 3 - Autores: Ricardo Reis, Cristiano Baptista e André Oliveira
Set. 25 - Autor: Antero Valério
Agosto, 14 - Gui e Joca
Agosto, 13 - Joba e ML
Julho 12 - Luca
Junho 4 - Esgar Acelerado
Maio 31 - Algarvio
" 28 - Ricardo Cabral
" 14 - José Carlos Fernandes " 12 - Filipe Andrade (desenho), Filipe Pina (argumento)
" 1 - Vasco Gargalo
Abril 24 - Zé Manel
" 18 - Arlindo Fagundes (arg. e desenho), José Pedro Costa (cor)
Março 30 - Pedro Nogueira
" 23 - José Lopes (MU nº 61)
" 16 - Zé Paulo (MU nº 60)
" 7 - Lam (MU nº 59)
" 1 - Ricardo Correia (desenho), André Oliveira (argumento), Ana Maria Baptista (colorido) Fev.12 - Pedro Zamith
" 7 - Nazaré Álvares
" 7 - Marco Mendes
Jan. 23 - Ângela Gouveia
" 16 - Filipe Goulão
2007 - (lista acima)

Dez.6- A.Rechena
Nov.28 - José Lopes
" 21 - Pedro Alves
" 14 - Nuno Saraiva
" 8 - Pedro Morais
Out.31 - Ricardo Ferrand
" 24 - Algarvio
" 17 - Ricardo Cabral
" 11 - Álvaro
" 5 - Pedro Massano
Set.27 - Derradé
" 24 - Nuno Saraiva
Ainda em 2006, mas após as "férias grandes" (entre 8Jun. e 24Set, lapso de tempo em que o MU não foi editado), a lista de colaboradores vê-se daqui para cima

Jun.8 - Estrompa
Maio 31 - António Valjean
" 24 - Pedro Nogueira
" 20 - Zé Manel
" 16 - Ricardo Cabral e Jorge Cabral
" 12 - Pepedelrey
" 4 - J.Mascarenhas
Abril 5 - Cheila
Março 29 - Pedro Manaças
" 20 - Júcifer (Joana Figueiredo)
" 15 - Pedro Nogueira
Fev.14 - A.Rechena
" 8 - Derradé
Jan.19 - Pedro Alves
2006 (lista acima)

Dez.12 - Álvaro
Nov.24 - Luís Valente
" 15 - Paulo Marques e Bruno Silva
Out.28 - Fritz
" 13 - Francisco Sousa Lobo
2005 (Lista acima. Neste ano houve mais autores publicados no MU, mas cujas pranchas não foram reproduzidas aqui no blogue)

terça-feira, outubro 16, 2007

Concurso de Banda Desenhada em Odemira - Regulamento (síntese)

Um concurso de banda desenhada é sempre um desafio para quem se julga com talento para essa forma de arte. Porque, como regra geral, as entidades organizadoras expõem as obras galardoadas com os prémios principais, e também, quando há, as menções honrosas. Isso permite ao participante confrontar-se com as capacidades artísticas dos outros, e, eventualmente, tirar lições de como resolver determinados pormenores. É, indubitavelmente, uma experiência prática, constituída pelo próprio trabalho e pela análise do dos outros.

Vamos então falar deste concurso, já o segundo que é organizado pela Biblioteca Municipal José Saramago, de Odemira.

Antes de mais, vou registar 7 pormenores essenciais para esclarecimento dos interessados:

Um
A data limite para entrega das bandas desenhadas é 30 de Novembro (de 2007, obviamente);
Dois
A partir dos 16 anos, inclusive, todos podem participar;
Três
O tema é livre! (Ou seja, vale tudo: fazer estilo mangá, super-heróis, bedê humorística, realista, ou tipo ficção científica, é como lhes der mais jeito...)
Quatro
Todas as pranchas das bandas desenhadas concorrentes deverão ser apresentadas em folhas formato A3
(Ora aqui está uma exigência inédita, tanto quanto me permite afirmar como membro participante em cerca de três dezenas de júris de concursos de BD. O habitual é que os concorrentes possam usar folhas de papel A4 ou A3. Mas acho bem, para a finalidade de exposição, o formato A3 dá outro brilho à mostra que se fizer).
Cinco
As bandas desenhadas podem ser enviadas por correio, através de registo com aviso de recepção, para
Biblioteca Municipal "José Saramago" de Odemira
Cerro do Peguinho
7630 Odemira
e têm de estar na posse da organização até ao dia 30 de Novembro (se a data constante dos correios for posterior à data limite, a bd não será aceite).
A entrega em mão poderá fazer-se durante o funcionamento da Biblioteca Municipal (das 10h às 18h).
Seis
Prémios:
1º - 200€
2º - 100€
3º - 50€
Sete
A entrega dos prémios será feita em reunião pública a realizar na Biblioteca Municipal, no dia 15 de Dezembro (sábado), pelas 16 horas.

Vejamos agora outros pormenores, também importantes:
- Cada concorrente poderá participar com mais do que uma bedê, desde que as envie separadamente e com pseudónimos diferentes;
- As pranchas devem ser agrafadas, numeradas e assinadas com o pseudónimo no canto inferior direito;
- Juntamente com as obras participantes deverá ser anexado um envelope que conterá no exterior o pseudónimo do concorrente, e no interior, de forma bem clara e legível, os seguintes elementos identificativos do autor: nome, morada, nº de telefone, e, se for o caso, a escola que frequenta;
- Deverão ser enviadas, ou entregues (conforme o caso), além das pranchas originais, 3 cópias de cada prancha.
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"Post" remissivo
Relacionado com o tema tratado na presente postagem, pode ser lido um texto, da autoria deste bloguista, intitulado:
Concursos de Banda Desenhada - Subsídios para um estudo
"Post"visitável neste blogue na seguinte data: 2005, Julho 27

Banda Desenhada portuguesa nos jornais (LXIX) - Mundo Universitário - Autor: Álvaro

Prancha da bd As comoventes aventuras de Marco e Daniel, por Álvaro

Semana a semana, os universitários vêem, gratuitamente, Banda Desenhada em prancha inteira, formato grande (sensivelmente A3), a cores, no semanário Mundo Universitário.
Com a atávica tendência do portuga em apenas dizer mal (é o que parece bem, dá ar de inteligência e exigência), quem ler isto é capaz de dizer. "Olha a grande coisa, ainda se fosse uma banda desenhada com várias páginas". Pois é, o jornal não foi criado para divulgar a BD, inclui nas suas páginas temas diversos, e a Banda Desenhada (portuguesa!) é simplesmente um desses temas.
Se todos os jornais gratuitos que há por aí [Metro, Global, Meia Hora, Oje (não percebo este título, será espanhol, talvez)], fizessem o mesmo (o Destak tem uma tira de autor português, faça-se-lhe justiça), seria muito bom para a BD nacional, e não só.
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Ver "posts" anteriores, deste mesmo tema, na coluna "arquivo" nas datas indicadas:

Out. 12 - Pedro Alves
" 10 - Lam (João Lam)
" 3 - Autores: Ricardo Reis, Cristiano Baptista e André Oliveira
Set. 25 - Autor: Antero Valério
Agosto, 14 - Gui e Joca
Agosto, 13 - Joba e ML
Julho 12 - Luca
Junho 4 - Esgar Acelerado
Maio 31 - Algarvio
" 28 - Ricardo Cabral
" 14 - José Carlos Fernandes
" 12 - Filipe Andrade (desenho), Filipe Pina (argumento)
" 1 - Vasco Gargalo
Abril 24 - Zé Manel
" 18 - Arlindo Fagundes (arg. e desenho), José Pedro Costa (cor)
Março 30 - Pedro Nogueira
" 23 - José Lopes (MU nº 61)
" 16 - Zé Paulo (MU nº 60)
" 7 - Lam (MU nº 59)
" 1 - Ricardo Correia (desenho), André Oliveira (argumento), Ana Maria Baptista (colorido) Fev.12 - Pedro Zamith
" 7 - Nazaré Álvares
" 7 - Marco Mendes
Jan. 23 - Ângela Gouveia
" 16 - Filipe Goulão
2007 - (lista acima)

Dez.6- A.Rechena
Nov.28 - José Lopes
" 21 - Pedro Alves
" 14 - Nuno Saraiva
" 8 - Pedro Morais
Out.31 - Ricardo Ferrand
" 24 - Algarvio
" 17 - Ricardo Cabral
" 11 - Álvaro
" 5 - Pedro Massano
Set.27 - Derradé
" 24 - Nuno Saraiva
Ainda em 2006, mas após as "férias grandes" (entre 8Jun. e 24Set, lapso de tempo em que o MU não foi editado), a lista de colaboradores vê-se daqui para cima
Jun.8 - Estrompa
Maio 31 - António Valjean
" 24 - Pedro Nogueira
" 20 - Zé Manel
" 16 - Ricardo Cabral e Jorge Cabral
" 12 - Pepedelrey
" 4 - J.Mascarenhas
Abril 5 - Cheila
Março 29 - Pedro Manaças
" 20 - Júcifer (Joana Figueiredo)
" 15 - Pedro Nogueira
Fev.14 - A.Rechena
" 8 - Derradé
Jan.19 - Pedro Alves
2006 (lista acima)

Dez.12 - Álvaro
Nov.24 - Luís Valente
" 15 - Paulo Marques e Bruno Silva
Out.28 - Fritz
" 13 - Francisco Sousa Lobo
2005 (Lista acima. Neste ano houve mais autores publicados no MU, mas cujas pranchas não foram reproduzidas aqui no blogue)

segunda-feira, outubro 15, 2007

Banda Desenhada em Espanha num rápido olhar (III) - Uma revista: El jueves

Lo que nunca sale por la tele, uma bedê autoconclusiva (one shot) assinada por Azagra nas págines de El Jueves

O que nunca se vê na televisão, como diríamos nós em português, e como mostra o autor-artista Azagra, ao misturar ácido humor (a lista telefónica como exemplo de democracia é um achado) com crítica social aos "lobbies" ou às tendências dos "média" de se repetirem até à náusea.
Apenas uma das numerosas bandas desenhadas de grande comicidade e ironia corrosiva que preenchem as páginas da revista El Jueves, onde se reune um naipe de colaboradores (tanto no desenho como nos textos) de imensa categoria.

Capa de El Jueves, "la revista que secuestran los viernes", que vai no Ano XXX (!) e no nº 1584 (!!). Número que abarca a semana de 3 a 9 de Outubro de 2007

Com a sua periodicidade semanal, estes trinta anos de existência, para além de representarem uma longevidade editorial espantosa, representa, igualmente, o tipo de banda desenhada (bem como o cartune) que faz crítica impiedosa a tudo e todos, sem abdicar do humor.
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"Posts" anteriores relacionados com o tema "BD em Espanha num rápido olhar":
(II) Out. 11 - Um autor (F.Ibañez) e suas personagens (Mortadelo y Filemón) de sucesso
(I) Out. 8 - Um suplemento de jornal: Pequeño País

sábado, outubro 13, 2007

Revistas BD (III) - Portuguesas: ZORRO

Capa do número incial do semanário juvenil Zorro, da autoria de (José Pires)

"Quando abrires este jornal, é possível que penses:«Mais um jornal para rapazes?». Era assim que se iniciava o texto de apresentação, não assinado, mas que seria decerto do director, Adolfo Simões Müller, em 13 de Outubro de 1962, há 45 anos. Hoje, certinhos.

E continuava assim a conversa:

"Não! Ao apresentar ao público juvenil o primeiro número do jornal «ZORRO», esperamos sinceramente que ele não seja MAIS UM JORNAL, mas o verdadeiro jornal dos jovens, feito para eles e por eles. Pocurámos, de facto, elaborar uma revista de acordo com as preferências dos leitores manifestadas através de vários inquéritos e das numerosas sugestões que nos têm chegado. Daí o formato de algibeira, o aspecto gráfico moderno e o conteúdo incluindo sempre uma aventura ilustrada completa, várias séries de «histórias em quadradinhos» em continuação (...)"

Cerca de quatro anos mais tarde, estava-se a 11 de Junho de 1966 (na capa festejava-se a noite essencialmente lisboeta de Santo António), e 192 números publicados, finava-se o sonho, com a amargura a ressaltar do texto de despedida, naturalmente do director, num artigo intitulado "Até breve!". Dizia ele, em palavras quase diametralmente opostas às da apresentação:

"Com este número vai cessar o diálogo vivo e amigo entre este magazine e os seus milhares de leitores. Dizemos milhares para acentuar bem como é grande o público do «Zorro». E, no entanto, esse número é insuficiente para permitir manter uma publicação com as características deste semanário, necessariamente caro.
Parece que grande parte do público juvenil do nosso país está um pouco desinteressado desta fórmula que é o semanário ilustrado (...) O mundo de hoje, com o cinema, a rádio, a TV e outras distracções, dir-se-ia afastar os nossos jovens da leitura (...)"

Estas palavras parecem ter sido escritas hoje, tal a sua actualidade. Apenas se teria de acrescentar, como motivos de afastamento da leitura, os jogos de vídeo, de consola e de computador, os "chats" na internet, e os copos nas noites de fins-de-semana prolongados, a partir de 5ª feira. Mas, claro, continua a haver uma significativa camada de gente - estamos a falar de quem se interessa pelas artes e pela cultura - com prazer na leitura/visionamento da banda desenhada. Não sejamos derrotistas...

Depois disso editou-se a [revista] Tintin, entre 1968 e 1982, com grande êxito nos primeiros dez anos, mais coisa menos coisa, e acabou no décimo quarto ano, com as vendas a baixarem visivelmente.

Que ilação se pode extrair deste facto recorrente? Eu costumo dizer que os bedéfilos são essencialmente volúveis e maldizentes. Volúveis porque o entusiasmo dura somente uma dúzia de anos ou pouco mais. A partir daí começam a dizer mal de tudo o que a revista publica, e vão deixando de comprar, até que os editores se rendem à evidência, e acaba a publicação.

A capa do Zorro - Magazine da Juventude, nº 5, de 10 Nov. 1962

No caso do Zorro, não se pode dizer que fosse por falta de motivos de interesse em termos bedéfilos. Muitas séries e heróis populares lhe animaram as páginas, como por exemplo Lucky Luke, Tintin (aliás, grafado Tim-Tim) e Astérix, três pesos pesados no que se refere a popularidade.

Capa do "magazine da juventude" Zorro, nº 26, de 6 Abr. 1963, em que é anunciado o episódio "Tim-Tim em As Jóias da Prima-Dona" (assim então chamaram a Madame Bianca Castafiore)

Uderzo, desenhador de Astérix, era também quem concretizava a imagem de Michel Tanguy, presente, com os seus aviões, nas páginas do Zorro. Talvez com menos impacte junto dos leitores, mas com qualidade gráfica e de argumento, houve ainda as séries Marc Dacier, Buck Danny, Charlie Chan (este em episódios autoconclusivos de umas tantas páginas em cada número), Lolocas e Pompom (Modeste et Pompom, no original), Buffalo Bill, Sexton Blake, Robin dos Bosques, Gaston Lagaffe (baptizado em português por Zacarias...), Sexton Blake (tal como este, vários dos mencionados "heróis" tinham sido êxitos no Cavaleiro Andante -1952/1962-, publicação congénere anterior regida pelo mesmo director), Umpá-pá (com esta grafia aportuguesada), Jerry Spring, Blondin et Cirage (versão portuguesa: Loirinho e Escarumba), Bessy, Jean Valhardi, Johan et Pirluit (transformados em "O Cavaleiro Patali"), Spirou et Fantasio ("Serafim e Flausino"), Jo, Zette e Jocko (que apareciam com estes seus nomes de origem nos episódios "O Manitoba não responde" e "A erupção do Karamako", mas que viriam mais tarde a ser forçados a adoptar os nomes de Joana, João e o macaco Simão), Howard Flynn, Michel Vaillant (Miguel Gusmão, não soa a nome de corredor de automóveis, mas foi o que lhe conseguiram arranjar mais parecido, digo eu).



As duas primeiras páginas do episódio Astérix e a foice doirada, título com que surgia esta famosa série na revista Zorro, no nº 27 de 13 Abril 1963

A plêiade de personagens deste jornal infanto-juvenil tinha resultado de uma boa selecção, onde não faltaria Astérix, mais o seu inseparável Obelix, apresentado como "alfaiate e distribuidor de menires", também Cantarix (assim se chamava o bardo, igualmente empossado da função de "professor-ensina os meninos", e o chefe supremo da aldeia era o Bigodix (a tendência para alterar os nomes das personagens de Goscinny e Uderzo já vem de longe), todos estes estão à disposição visual dos leitores a partir do nº 27, de 13 de Abril de 1963.
Falar-se de personagens da BD implica referir nomes dos autores-artistas e argumentistas que as criaram. E muitos deles são hoje bem sonantes.
Apesar de terem desaparecido praticamente todas as assinaturas (porque seria?), detectam-se, pelo estilo, entre os estrangeiros: Guido Buzzelli (é verdade!), Caprioli, Jijé, Franquin, Peyo, Hans Kresse, um dos Blasco (talvez o Alejandro), Mitacq, Morris, Hergé, Eddy Paape, Victor Hubinon, Renato Polese, Aidans, Raymond Reding, Weinberg, Gerald Forton, William Vance, Jean Graton, Tibet, Jacques Martin, Funcken...

Os portugueses é que foram poucos. Houve capas desenhadas por (José Pires), Manuel Ferreira (um muito bom desenhador pouco referenciado) e José Garcês. Este último, ao nível de BD, foi o único colaborador, tendo recriado, por exemplo, a figura de Texas Jack (!)

E pronto. Como "tristezas não pagam dívidas", assim diz o povo, a [revista] Zorro finou-se, num alegre dia de Santo António, com a feérica ilustração da capa do nº 192 a esconder a tristeza da circunstância de ser o derradeiro.

Zorro - semanário juvenil
Formato: 15x21cm
Director: Adolfo Simões Muller
Editor: M. Nunes de Carvalho
Propriedade da E.N.P. (Empresa Nacional de Publicidade)
Administração: Av. da Liberdade, 266
Lisboa
Telefone 48104 (!)

sexta-feira, outubro 12, 2007

Banda Desenhada portuguesa nos jornais (LXVIII) - Mundo Universitário - Autor:Pedro Alves

Prancha da banda desenhada da autoria de Pedro Alves, reproduzida no semanário Mundo Universitário

Semanalmente, o jornal gratuito Mundo Universitário continua a ser a montra mais abrangente da BD portuguesa, já tendo sido publicados cerca de cinquenta autores.
Haverá pessoas que se sentirão intrigadas com este vasto número de banda-desenhistas, e pensem que finalmente, há condições de sobrevivência para quem quer viver apenas da Banda Desenhada. Não é isso. O que sucede é haver muita gente com talento para o desenho, que vive de fazer de tudo um pouco - banda desenhada, ilustração, desenho animado, publicidade... -, que gostam de aproveitar as oportunidades que surgem, e esta página do Mundo Universitário é uma delas.

quinta-feira, outubro 11, 2007

Banda Desenhada em Espanha num rápido olhar (II) - Autor (F.Ibañez) e personagens (Mortadelo y Filemón) de sucesso

Prancha do álbum Mortadelo y Filemón - El balón catastrófico

Claro que Espanha tem um vasto mercado e a população goza de boa capacidade económica. Junte-se a estes "pormaiores" o facto de Francisco. Ibáñez ter uma capacidade, diria eu que inesgotável, para criar situações meio loucas, de comicidade inaudita, para os seus anti-heróis cómicos, Mortadelo y Filemón (transpostos para um filme, com actores, que já foi exibido em Portugal).
Todos estes factores juntos fazem com que desta série já tenham sido publicados 176 números. E, mais espantoso ainda, alguns dos álbuns/episódios têm várias edições, cinco por exemplo tem este El balón catastrófico nº 63 a mais recente (que comprei agora em Badajoz) datada deste ano de 2007, tendo sido a 1ª em 1994, a 2ª em 1995, a 3ª em 1999, a 4ª em 2003, conforme se pode ler na ficha técnica, o que significa uma nova edição de quatro em quatro anos. É pena (muita) que não diga qual a tiragem. Mas não deixa de ser impressionante.
Para saber mais acerca do autor e da obra, visitar:
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"Post" anterior relacionado com o tema "BD em Espanha num rápido olhar":
(I) Out. 8 - Um suplemento de jornal: Pequeño País

quarta-feira, outubro 10, 2007

Seminário: A Arquitectura na Banda Desenhada - Local: UAL

Vinhetas desenhadas por Jiro Taniguchi, um artista japonês autor de mangá com estimulante abordagem da arquitectura, na opinião de João Paulo Cotrim, um dos conferencistas do seminário A Arquitectura na Banda Desenhada
Como costumo dizer: quanto mais elevado é o nível sócio-cultural das pessoas, mais consideração têm elas pela Banda Desenhada.
A comprová-lo, mais uma vez, surge imprevistamente um seminário numa universidade, congregando nomes de relevo na área do ensaísmo e da autoria da figuração narrativa nacional. Veja-se em detalhe o programa, iniciado o mês passado:
UAL (Universidade Autónoma de Lisboa) - Departamento de Arquitectura - Seminários 2007-08
1º semestre
Seminário: A Arquitectura na Banda Desenhada - 1º, 5º e 9º (inscritos no tema9 semestres:
Coordenação: Draª Dóris Graça Dias e Arqº Paulo Serôdio Lopes
Consultoria: Especialista em BD João Paulo Cotrim
*26/9 - sessão conjunta de Seminários, para lançamento dos dois temas do semestre e inscrição dos alunos do 9º semestre
- Apresentação dos seminários: Drª Dóris Graça Dias e Arqº Paulo Serôdio Lopes
- Conferência inaugural por José Manuel Fernandes: "Lisboa, Urbanismo e Arquitecturas"
*10/10 - sessão 2
- Conferência: João Paulo Cotrim, escritor e crítico de BD: "Habitar o Espaço entre os Quadradinhos"
- Debate
*7/11 - sessão 4
- Conferência: Miguel Rocha (ilustrador) e Dr. Francisco Oliveira (argumentita): "Cruzamento de linguagens na BD"
- Debate
*21/11 - sessão 3
- Conferência: Prof. Paulo Pereira, historiador: "Arquitectura, Património e BD"
- Debate
*28/11 - sessão 5
- teste de avaliação (teste-americano para todos inscritos no tema - 1º, 5º e 9º semestres)
- Conferência: Drs. João Ramalho Santos e João Miguel Lameiras: "As Cidades do Futuro"
- Debate
*12/12 - sessão 6
- Conferência final: Arqº Pedro Cabrito e autor de BD: "Arquitectura vs BD"
- Debate
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Pela sua utilidade e oportunidade, reproduzo aqui o comentário de visitante anónimo (que pena não se ter identificado...), ao que parece, bem informado e, espero, bem intencionado:
"E não é só para os alunos do curso de Arquitectura da UAL. Qualquer interessado que queira participar e assistir será bem-vindo.
Nas datas assinaladas, entre as 14h e as 17h, no Boqueirão dos Ferreiros, nº 11, em Santos, entre as ruas da Boavista e D. Luís I, perto da ETIC."

Festivais, Salões BD e afins - (Amadora) 18º Festival/2007

Cartaz do FIBDA 2007 (*)

Milo Manara, um dos expoentes da BD erótica (por vezes a saltar a ténue barreira que a separa da pornográfica) vai estar de novo na Amadora, e, obviamente, será um dos maiores atractivos do evento. Isto sem desprimor para outro autor bastante importante, embora de estilo e temática bem diferentes, Lewis Trondheim, que também virá a Portugal.

Talvez por o tema central deste ano do festival ser a Maioridade, uma das exposições localizadas no Piso1 do Fórum Luís de Camões será exlusivamente visionável por maiores de 18 anos, e as pranchas expostas pertencem a Milo Manara (claro), Liberatore (espantoso artista da BD), Mattioli e Leone Frollo.

Uma das exposições que mais atrairá os bedéfilos tem a ver com o projecto "100 BDs do Século" (que foi levado a cabo pelo CNBDI, e em que estiveram envolvidos vários especialistas, incluindo este bloguista), e que, por agora, deu azo à realização de uma mostra reduzida às dez obras de Figuração Narrativa mais votadas entre essas cem. O título será, pois, As 10 BD's do Século XX, e estarão representadas as seguintes personagens ou séries:
Little Nemo
Krazy Kat
Tintin
Batman
Spirit
Peanuts
Astérix, Blueberry, Corto Maltese
Maus

Para além do núcleo central do festival, que mantém a localização no Fórum Luís de Camões, na Brandoa, haverá, como em anos anteriores, outros núcleos exposicionais: Galeria Municipal Artur Bual, Casa Roque Gameiro, Recreios da Amadora e CNBDI.

(*) Não se estranhe o aspecto algo artesanal da imagem do cartaz, pois trata-se, neste caso, do aproveitamento da capa do catálogo distribuído à imprensa.

Banda Desenhada portuguesa nos jornais (LXVII) - Mundo Universitário - Autor: Lam

Prancha da banda desenhada desCLASSIFICADOS, da autoria (argumento, desenho e cor) de Lam

João Lam viveu uns anos em Macau. Quando chegou a Lisboa, teve a possibilidade de colaborar no semanário de humor e sátira social O Fiel Inimigo (que acabaria por simplificar o título para O Inimigo) , fazendo banda desenhada e ilustração. Foi aí que dei por ele, lhe apreciei o estilo e o talento.
Um dia, com grande espanto meu, fui encontrá-lo no Alentejo, a fazer parte do grupo dos componentes do Atelier Toupeira, de Beja. E isto porquê? Porque o Lam tinha familiares em Beja, e resolveu tomar conta da propriedade da família, ou seja, passou a ser agricultor.
A vida dá muitas voltas, como se costuma dizer, o João Lam voltou para Lisboa, e eu convidei-o de imediato a colaborar no Mundo Universitário, sendo esta a 2ª bd com que participa neste jornal.
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Ver "post" anterior, deste mesmo tema:

(LXVI) - Out. 3 - Autores: Ricardo Reis, Cristiano Baptista e André Oliveira
(LXV) - Set. 25 - Autor: Antero Valério (neste "post" tem a lista de outros autores que colaboraram anteriormente)

terça-feira, outubro 09, 2007

Banda Desenhada portuguesa nos fanzines (XVIII) - Autores: Miguel Marreiros, Ana Baptista, Ricardo Correia, Mariana Perry e André Oliveira

Prancha de Mariana Perry (desenho) e André Oliveira (argumento), duma bd intitulada Um Sentir Só

Miguel Torga merece todas as homenagens, e a Banda Desenhada não poderia deixar de participar. André Oliveira estudou a obra, o homem e o escritor, após o que escreveu quatro argumentos para outros tantos jovens banda-desenhistas, todos pertencentes ao colectivo informal Imaginarte.

Mariana Perry, uma das componentes, e grande talento em embrião, tem aqui a sua quota-parte, a banda desenhada Um Sentir Só, uma das quatro publicadas no fanzine Tertúlia BDzine (nº118, de 2 de Outubro de 2007).

Prancha de Ricardo Correia (desenho) e André Oliveira (argumento), respeitantes à banda desenhada Torga!

Dedicada ao próprio Miguel Torga, aliás, ao médico Adolfo Rocha, esta banda desenhada descreve (ou imagina?) a forma como surge o pseudónimo que haveria de se tornar importante na Literatura Portuguesa.
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Os interessados em ver mais duas das pranchas desta banda desenhada poderão fazê-lo no blogue http://fanzinesdebandadesenhada.blogpot.com/

segunda-feira, outubro 08, 2007

Banda Desenhada em Espanha num rápido olhar (I) - Um suplemento de jornal: Pequeño País

Banda Desenhada autoconclusiva, numa só prancha (one shot), que apresenta Natalia, uma heroína infantil criada (argumento e desenho) por Sergio Salma.
Local de publicação: Pequeño País, suplemento dominicial do jornal diário El País. Data: 7 de Outubro de 2007

Conheço este suplemento espanhol, de banda desenhada infantil, há muitos anos. Pena que não publique ficha técnica, nem possua numeração, pelo que não sei dizer qual a sua longevidade, embora, obviamente, tenha a noção da sua já longa existência.

O Pequeño País inclui bandas desenhadas de autores estrangeiros e espanhóis, totalmente a cores. Faz assim um trabalho de captação de novos leitores de banda desenhada (ou historietas, ou tebeos, ou comics, termos que usam indiscriminadamente), uma tarefa meritória.
Eu sei, em tempos idos houve vários suplementos, tanto de carácter infantil como juvenil, entre os quais posso citar, de memória: Pim Pam Pum (infantil, jornal O Século), Nau Catrineta (infantil, jornal Diário de Notícias), Pirilim (juvenil, jornal Comércio do Porto), Quadradinhos (juvenil, jornal A Capital). Mas, de hoje em dia, apenas estou a visualizar um, intitulado Terra do Nunca, à vezes com uma sequência visual desenhada por Fernanda Fragateiro, que se publica inserido no Notícias Magazine, um magazine (passe a redundância, mas é propositada, porque parece que há medo de se dizer magazine e cai-se no incrível pleonasmo de se dizer "a revista Artes Magazine"), portanto, repito, um magazine dominical editado em conjunto pelos jornais Diário de Notícias e Jornal de Notícias. É pouco, mas vá lá...

quarta-feira, outubro 03, 2007

Banda Desenhada portuguesa nos fanzines (XVII) - Autor: Zé Paulo

Prancha (2 de 4) da banda desenhada Príncipe Valente no Século XXI descendo a Calçada dos Cavaleiros em contramão, da autoria de Zé Paulo, publicada no fanzine Tertúlia BDzine nº 117 em Setembro 07

Zé Paulo (ou ZEPAULO, como ele assina), é um dos nomes mais importantes da revista Visão (de BD), que se publicou entre Abril de 1975 e Maio de 1976, e com um extenso currículo na Banda Desenhada portuguesa.
(Há entrevista com José Paulo Simões neste blogue, no "post" datado de 2006, Junho 30)
Prancha (3 de 4) da bd acima indicada

(Nesta prancha aparece alguém cuja cara não me é estranha... já a tenho visto como personagem noutras bandas desenhadas).

------------------------------------Quem estiver interessado em ver as 1ª e 4ª pranchas terá de visitar o meu outro blogue, no endereço http://fanzinesdebandadesenhada.blogspot.com/


Falar de BD em língua portuguesa em Espanha (Badajoz)

Cartaz das Jornadas de Língua Portuguesa e Cultura dos Países Lusófonos, um evento organizado bienalmente em Badajoz por um grupo de professores

Programa das II Jornadas de Lengua Portuguesa y Culturas Lusófonas, que irão ser realizadas nos dias 5 e 6 de Outubro de 2007, na Facultad de Biblioteconomia (Plazuela Ibn Marwan - Badajoz.
Entidade organizadora: APPEX - Asociación del Profesorado de Portugués de Extremadura.

Será inusitado falar-se de BD em língua portuguesa em Espanha (Badajoz). Mas é isso que vai aontecer, no próximo sábado, dia 6, como se pode ver pelo programa acima reproduzido (como se sabe, é necessário ampliar a imagem, a fim de ficar legível) de um evento dedicado essencialmente à temática linguística, mas onde a Banda Desenhada Portuguesa também será falada... e em português.
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Texto escrito "a posteriori"
Estas Jornadas de Língua Portuguesa têm, entre os elementos organizadores, três pessoas com quem contactei: Pedro Luís Cuadrado, Luís Leal Pinto e Fátima Merino. Tenho de agradecer muito especialmente aos dois primeiros, porque foram incansáveis na resolução de um problema associado à projecção de imagens através de um retroprojector. E graças a eles, em cima da hora, a quase impossibilidade imprevista foi superada.
Tudo está bem quando acaba bem, como se costuma dizer.
Pormenores desta excelente iniciativa que um grupo de professores de português levam a cabo bienalmente podem ser vistos nos endereços:
E, já agora, o jovem, simpático e eficiente (e bedéfilo) professor Luís Leal Pinto, também bloguista, merece que se visite o seu blogue. Eis o endereço:
http://cronicasdanonaarte.blogspot.com/

Banda Desenhada Portuguesa nos jornais (LXVI) - Mundo Universitário - Ricardo Reis (desenho), Cristiano Baptista (cor), André Oliveira (arg.)

Prancha da banda desenhada O "Convento" do Barba Rosa

Uma banda desenhada de cariz metafórico (os alunos da Faculdade de Belas Artes de Lisboa tê-la-ão entendido melhor do que ninguém), da autoria de Ricardo Reis (desenho), Cristiano Baptista (cor) e André Oliveira (argumento).
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Ver "post" anterior, deste mesmo tema:
(LXV) - Set., 25 - Autor: Antero Valério
(neste "post" tem a lista de outros autores que colaboraram anteriormente)

domingo, setembro 30, 2007

Tertúlia BD de Lisboa (277º Encontro) -José Padinha, colaborador literário de "O Mosquito"

Capa do exemplar dos Cadernos de Banda Desenhada dedicado a José Padinha,
com estupenda ilustração de Eduardo Teixeira Coelho (ou E.T.Coelho, ou ETC) relacionada com uma das novelas de Padinha, Tamir, o terror do deserto

José Padinha, prolífico e talentoso novelista, foi um dos colaboradores literários de O Mosquito, popular revista de banda desenhada que se publicou entre 1936 e 1953.
Pois é este novelista, escritor tout court, o homenageado (póstumo) da Tertúlia BD de Lisboa, no seu XXII Ano, 277º Encontro, com data de 2 de Outubro (como sempre, primeira terça feira do mês).
José Manuel Padiña (*) Sacramento nasceu em Lisboa, a 26 de Setembro de 1915, e faleceu a 14 de Novembro de 1962 em Lourenço Marques (actual Maputo, capital de Moçambique)
Foi colaborador da revista infanto-juvenil O Mosquito, para a qual escreveu trinta e quatro novelas entre 1943 e 1946.
Essa colaboração foi de elevada craveira ficcional e estilística, além de abranger temas bastante diversificados, que se deduzem de alguns dos títulos: Amigo, tu vencerás, Um caçador fez testamento, Quero ser palhaço, Roubaram um bebé, Vêm ai os flibusteiros, A cidade dos músicos, A cavalgada dos gelos eternos, A ilha da tartaruga verde, Tamir, o terror do deserto, etc.
Além de prolífico a escrever ficções, foi-o também na criação de pseudónimos, os seguintes entre muitos outros: Juan L. Guancho, Peter Teneriffe (aí estão visíveis as raízes paternas) e J. Montes de Oca. Aliás, sob pseudónimo grafado de forma ligeiramente diferente (J. Montesdeoca) assinou artigos biográficos sobre autores de BD na já extinta revista Flama.
O historiador Jorge Magalhães, na edição não numerada dos Cadernos de Banda Desenhada, com o título "José Padinha - Um grande novelista d'O Mosquito" (de onde foram extraídos elementos para este texto), faz-lhe o seguinte elogio: "Pela pena de Padinha não houve nenhuma região exótica do Globo, nem nenhum tema aventuroso que não tivesse sido retratado n'O Mosquito".
Haja esperança de que o valioso espólio literário deste escritor, especializado em novelas, venha a ser renido em livro. Aqui fica a sugestão.

(*) Nome com que o apresentam os familiares. De facto, ele era filho de espanhol nascido nas Ilhas Canárias com esse apelido.
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quinta-feira, setembro 27, 2007

Tintim e Hergé (IX) Centenário de Hergé (VIII)


Capa do nº 1, de Junho de 1985, da publicação editada pela Associação Les Amis de Hergé
(Nota: Apesar de ter sido comprado, nos anos 1990, no stand montado por aquela associação no Festival Internacional de Banda Desenhada de Angoulême, este exemplar foi fotocopiado pelos ADH, em virtude de a edição estar esgotada).

I – Elementos biobibliográficos de Hergé
Nasce a 22 de Maio de 1907, em Etterbeek, uma comuna da região de Bruxelas,
Georges Prosper Remi Remi, que se tornou conhecido no mundo da Banda Desenhada por Hergé, pseudónimo formado pelas iniciais do nome próprio Georges e do apelido Remi, G e R, mas invertidas, por conseguinte, R.G.
Entre 1914 e 1918. durante a Grande Guerra (com Bruxelas ocupada pelos alemães), Georges frequenta a escola comunitária de Ixelles, e torna-se escoteiro (em Portugal, a palavra escoteiro escrita com o refere-se à componente laica, visto que os pertencentes à componente religiosa escrevem-se com u, escuteiros).
1920 – O pai, Alexis Remi, era empregado numa loja de confecções para crianças, cujo patrão era muito católico, e que o pressiona para que Georges Remi faça os estudos secundários numa escola religiosa, o Institut S. Boniface, onde os professores eram padres.

Por esta mesma altura, a família tira-o dos escoteiros da Bélgica, os tais não religiosos, para o inscrever na Federação dos Escuteiros Católicos. Esta mudança causa algum sofrimento psicológico ao jovem.
1923 – Os seus primeiros desenhos, com a assinatura Georges Remi, aparecem no jornal escuteiro do Institut S. Boniface intitulado Jamais Assez.
1924 – É neste ano que, nesse jornal para escuteiros Jamais Assez, ele assina ilustrações, pela primeira vez, com o pseudónimo Hergé.
1925 – Começa a trabalhar, após terminados os estudos secundários, no Le Vingtième Siècle, um jornal católico politicamente bastante à direita. O seu director é Norbert Wallez, um abade, que o encarrega de tratar das assinaturas.
Em Julho de 1926, com dezanove anos, e sem quaisquer estudos de desenho, visto que o jovem Remi nunca quis ouvir Alexis Remi, seu pai, que o aconselhava a estudar desenho na Escola de S. Luc, preferindo ele o estudo autodidáctico através de livros especializados. Assim, Hergé inicia-se na banda desenhada com a série Totor C.P. des Hannetons (Totor C.P. dos Besouros, título com que foi publicada em Portugal na revista Tintin) para o jornal dos escuteiros Le Boy-Scout Belge, que desenha até 1930.

Totor pela evidente semelhança, prefigurava Tintin (visto que este ainda não existia). Mas é recorrente o costume de quem escreve sobre estes assunto, insistir na ideia de que Paul Remi, irmão de Hergé mais novo cinco anos do que ele, terá sido o modelo de Tintin. Mas tendo em conta que Totor apareceu antes de Tintin, eu diria que Paul Remi foi, primeiramente, o modelo de Totor e este irá servir, por sua vez, de modelo para a figura de Tintin. Aliás, já escrevi algures uma ideia que me ocorreu: Totor e Tintin terão sido os primeiros clones gráficos, com a particularidade de até os nomes terem alguma semelhança, pois ambos apresentam a letra T duas vezes.
Em 1928, Hergé é nomeado chefe de redacção do Le Petit Vingtième, suplemento semanal do diário Le Vingtième Siècle destinado à juventude, criado pelo director do jornal, o abade Robert Wallez em 1 de Novembro de 1928.
Les Aventures de Flup, Nénesse, Poussette et Cochonet, sob argumento de Desmedt, jornalista desportivo do Vingtième Siècle, é a sua primeira colaboração em BD para este suplemento. Esta série, de curta existência, raramente é mencionada, e nunca foi publicada em Portugal.
Graças a jornais mexicanos enviados para Bruxelas por um correspondente do Le Vingtième Siècle, Hergé descobre a série americana Bringing Up Father (publicada em Portugal sob vários títulos, um dos quais foi Educando o Papá), e entusiasma-se com a utilização dos balões de fala, além de ter sido algo influenciado pelo estilo do respectivo autor, o grande artista americano Geo McManus, que possuía um traço que se poderia classificar, avant la lettre, de "linha clara", visto que esse estilo acabaria por ser considerado como criação de Hergé.
Muito honestamente, o autor belga reconheceu essa influência, mas igualmente, e muito anterior, a sua admiração pelo estilo de Benjamin Rabier, e de Alain Saint-Ogan, autor da série Zig et Puce.
10 de Janeiro de 1929 –é uma data histórica na BD europeia: Hergé cria, para o Le Petit Vingtième, uma personagem de poupa e calças de golfe, a quem dá o nome de Tintin.
A sua primeira aventura intitula-se, precisamente, As Aventuras de Tintim no país dos Sovietes, e Tintim é apresentado como repórter com destino à Rússia soviética, ou, nas palavras de Hergé numa entrevista a Numa Sadoul, à Rússia bolchevista, como então se dizia.
De facto, é neste episódio que se vê, pela primeira e única vez, Tintim a exercer a profissão de jornalista-repórter, a escrever à máquina naquelas folhas de papel a que, no jargão dos jornais, se chamavam "linguados" (e que eu próprio usei nas minhas colaborações sobre BD em jornais, caso do Diário Popular, por exemplo).
Os desenhos desta primeira aventura de Tintin ainda eram algo incipientes, e algumas cenas tinham um violento cunho anti-soviético e bastante caricatural. Por exemplo, numa cena de votação, os participantes eram obrigados a votar na lista do partido comunista sob a ameaça de pistolas empunhadas pelos três membros da mesa de votos.
Convém notar que Hergé se baseou, para fazer o guião desta aventura, num livro que lhe foi recomendado pelo abade Wallez, livro esse intitulado Moscou sans voiles (Moscovo sem véus), escrito por um antigo cônsul da Bélgica na Rússia. Este episódio nunca foi redesenhado nem colorido, contrariamente ao que aconteceu com todos os outros.
De facto, as histórias iniciais de Tintin foram editadas originalmente em álbuns a preto e branco, com enorme extensão (por exemplo Tintin no País dos Sovietes tem 138 páginas), pois Hergé ia desenvolvendo a trama conforme lhe apetecia. Mais tarde, todas elas, excepto esta dos Sovietes, irão ser redesenhadas e coloridas, e também sintetizadas, de forma a terem apenas 62 páginas.
Para este importante trabalho, Hergé contou com a colaboração, em tempos diferentes em alguns dos casos, com vários artistas de reputação, nomeadamente Edgar Pierre Jacobs (autor da série Blake e Mortimer), Jacques Martin (criador de Alix), Bob de Moor (Cori le Moussaillon) e Roger Leloup (Yoko Tsuno).
Mas a verdade é que essa primeira aventura teve grande sucesso popular, o que levou o abade Norbert Wallez a organizar uma chegada triunfal, com uma multidão a assistir, na Gare du Nord, de Bruxelas, à chegada de um jovem figurante mascarado de Tintin, acompanhado por um cão fox-terrier, (a raça de Milu, seu primeiro companheiro de aventuras), aventuras essas que só acabarão com Tintin e os Pícaros, 23ª história publicada em 1976, quase 50 anos mais tarde (a 24º história, Tintin et l'Alph Art, foi publicada inacabada em 1986, três anos depois da morte de Hergé).
Praticamente em simultâneo com Tintin, Hergé criou em Janeiro de 1930, a série Quick et Flupke (Quim e Filipe na versão portuguesa)
Tintin no Congo foi a segunda aventura de Tintin, terminada em 9 de Julho de 1931. O Congo era então uma colónia belga, e os nativos congoleses são tratados de forma colonialista, quase racista, com os jovens negros a darem mostras de grandes limitações ao nível da inteligência, e a falarem de forma caricatural: "És tu, Siô Tintin? Eu poder sair?" (ou, na versão original, "C'est toi, missiê Tintin? Moi peux venir?"). Hergé justificará estes e outros pormenores caricaturais com o facto de, na época, haver o conceito generalizado de que os africanos eram uma espécie de crianças pouco desenvolvidas.
Esta segunda aventura foi publicada em Portugal sob o título Tim-Tim em Angola, na revista infantil O Papagaio.
Para terceira viagem, Hergé coloca Tintin na América (Tintin en Amérique), que iria ser a primeira história publicada em Portugal na já citada revista O Papagaio (com início em 16 Abril de 1936) cujo director era Adolfo Simões Müller, um nome importante da literatura infantil portuguesa da época, o qual acabará por estabelecer uma relação epistolar com Hergé, e até, no período da ocupação da Bélgica pelos nazis (entre 1940 e 1944), devido à escassez de alimentos, lhe enviará latas de conserva e outros comestíveis, como forma de pagamento dos direitos de publicação em Portugal. Um pormenor importante é o facto de essa aventura de Tintin ter sido publicada a cores n' O Papagaio, a primeira vez que tal aconteceu, porque até mesmo na Bélgica a edição tinha sido a preto e branco.
A aventura seguinte intitular-se-á Os Charutos do Faraó (na tradução literal portuguesa), onde, na primeira edição, vão aparecer dois polícias aparentemente gémeos, sob os nomes X-33 e X-33bis, que nas edições posteriores serão chamados Dupond e Dupont (um com D, outro com T). O que invalida, respeitando a lógica, a ideia de serem irmãos, visto terem apelidos diferentes!
Como sabem todos os tintinófilos, estas desopilantes personagens apenas se distinguem pelo formato do bigode. Eu diria mesmo mais: o formato do bigode dos dois polícias é ligeiramente diferente, sendo que o do Dupont (com T) tem as pontas na horizontal, a fazer lembrar a parte superior do T, enquanto que o Dupont (com D) tem o bigode com as pontas para baixo, a parecer um D.
É também neste episódio que surge outra figura impagável, o português Oliveira da Figueira, o branco-que-vende-tudo, como lhe chamam os árabes, um comerciante capaz de vender cubos de gelo no Polo Norte. Hergé terá sabido da frequência de nomes de árvores nos apelidos dos portugueses, e resolveu juntar logo dois, o que é extremamente invulgar na realidade, e lhe dá um efeito bastante cómico.
Com o O Lótus Azul, Hergé pretende que Tintin viaje até à China. Para obter informações sobre mais um país que não conhece, tem a sorte de ser posto em contacto com um estudante chinês da Académie Royale des Beaux Artes de Bruxelas, Tchang-Tchong Jen, que lhe fornece elementos sobre o seu país. Esta aventura funcionará como uma denúncia do conflito sino-japonês.
Nesta fase inicial, as aventuras de Tintin publicavam-se bastante regularmente, com cerca de 15 meses a separar cada uma delas. É neste ritmo que surgirão A Orelha Quebrada, A Ilha Negra e O Ceptro de Ottokar.
Após o início da publicação das aventuras de Tintin na Bélgica, no Le Petit Vingtième, o semanário católico francês Coeurs Vaillants passou igualmente a publicá-las. Todavia, os seus responsáveis consideraram que faltava ao herói da poupa uma família, de forma a poder ser tomado como exemplo pelos jovens leitores.
Por isso, pedem a Hergé para ele criar uma nova série, em que os pequenos heróis tenham familiares visíveis.
É assim que surge, em 1936, a série Jo, Zette et Jocko, título adaptado em português para Joana, João e o Macaco Simão.
Já no decorrer da 2 ª Guerra Mundial, em Maio de 1940, a Bélgica foi ocupada pela Alemanha. E, em consequência desse facto, o jornal Le Vingtième Siècle deixa de se publicar.
Hergé recomeça a desenhar Tintin para o suplemento Le Soir Jeunesse, do jornal diário Le Soir, que entretanto tinha passado a ser controlado pelos ocupantes alemães.
Ainda com a agravante de, devido às restrições de papel, aquele suplemento desaparecer, e a história O Caranguejo das Tenazes de Ouro ter passado a ser publicada em tiras no corpo principal do jornal.
É neste episódio que surge o tonitruante Capitão Haddock, que, "com mil milhões de macacos", vai ser uma das personagens deveras marcantes da obra.
Para aquele jornal Le Soir, e apenas em tiras, Hergé irá realizar mais as seguintes aventuras:
A Estrela Misteriosa, O Segredo do Licorne e O Tesouro de Rackham o Terrível. É neste último que surge o Professor Girassol, Trifólio Girassol, mais a sua impagável surdez.
Uma curiosidade recente: no passado mês de Junho, o ainda existente diário belga Le Soir lançou uma edição especial, vendida com o próprio jornal, em que, pela primeira vez, com total fidelidade, foram reproduzidas num álbum as tiras constituintes desta aventura de Rackham, le Rouge, tal como tinham aparecido originalmente naquele mesmo jornal
É em 1943 que Hergé obtém a colaboração de Edgar Pierre Jacobs, o futuro autor da famosa série Blake e Mortimer, que o vai ajudar a reformular os álbuns iniciais. Jacobs teve a seu cargo redesenhar os cenários e os uniformes de O Ceptro de Ottokar.
A aventura As 7 Bolas de Cristal iniciada ainda no diário Le Soir, acabou por ser feita apenas parcialmente neste jornal, visto ter sido interrompida a publicação em 3 de Setembro de 1944, com a libertação da Bélgica, e Hergé ter ficado impedido de exercer a única profissão para a qual estava preparado: a de autor-artista de Banda Desenhada.
Apenas em 1946 Hergé voltará a trabalhar, graças a ter sido contactado por Raymond Leblanc, um antigo elemento da Resistência, que lhe propôs criarem uma nova revista de bandas desenhadas, a qual se apresentará pelo título Tintin, aproveitando a fama da homónima personagem.
Em 26 de Setembro desse ano de 1946 surge o primeiro número do novo semanário, que mais tarde terá uma edição em França e, posteriormente (1968) também em Portugal, onde se manterá em publicação até 1982, sempre com o herói homónimo em publicação exclusiva (entre nós, em álbuns na língua portuguesa, por esses anos só se conheciam as edições brasileiras).
Nesta nova revista continuar-se-ão as aventuras do herói da poupa e calças à golfe: O Templo do Sol, As Sete Bolas de Cristal, No País do Ouro Negro, Rumo à Lua, Explorando a Lua, e todos as restantes até à derradeira, intitulada Tintin e os Pícaros, terminada em 1976.
Esse conjunto de 23 episódios que formam uma complexa rede de aventuras tem tido o reconhecimento como obra de elevada categoria.
Em Portugal, por exemplo, houve um evento intitulado Festival dos 100 Dias, integrado na Expo 98, onde se incluiu uma exposição no Centro Cultural de Belém intitulada Os 100 Livros do Século, escolhidos entre os editados desde 1900 por Fernando Pinto do Amaral, poeta e conceituado homem de cultura.
Entre as obras literárias seleccionadas estavam quatro pertencentes à Figuração Narrativa, vulgo Banda Desenhada: Tintin, Little Nemo in Slumberland, de Winsor McCay, Corto Maltese, de Hugo Pratt, e Astérix, de Goscinny e Uderzo.
Para quem julgue despropositada a inclusão destas obras compostas pelo binómio texto e imagem numa selecção dedicada à Literatura, esclarece-se que há estudiosos que defendem a expressão Literatura Gráfica como a mais correcta para definir a Banda Desenhada.
Principais influências reconhecidas por Hergé na sua obra, e o que ele pensava do estilo "linha clara"
Já referi anteriormente o facto de este banda-desenhista belga ter sido geralmente considerado como criador da linha clara.
A esse respeito tem todo o cabimento ouvir a sua própria opinião, numa entrevista que lhe foi feita por Benoit Peeters.
Após ter reconhecido a influência que sobre ele exerceram Geo McManus, Benjamin Rabier e Alain Saint-Ogan, Hergé acrescentou:
"A linha clara não é apenas uma questão de estilo de desenho. Naturalmente, o desenho é um aspecto importante, porque há que tentar eliminar tudo o que é graficamente acessório, de estilizar o mais possível, de escolher a linha que melhor ilumina a figura.
Infelizmente, nesta corrente de que estamos a falar, esta componente é habitualmente valorizada, em detrimento da história. Ora, a linha clara, não é apenas o desenho, é também o argumento e a técnica de narração. E eu creio – mas não vou dar exemplos concretos – que há casos em que o desenho é muito conseguido e muito legível, mas onde nos perdemos completamente no argumento".
Factos, opiniões e pormenores invulgares relativos a Hergé
3 Março de 1983 é a data do falecimento de Hergé, oficialmente noticiado como tendo sido por leucemia. Mas um dos seus biógrafos, Philippe Goddin, afirmou em tempos que a morte de Hergé terá sido devido a sida. Sabe-se que Hergé sofria de uma rara doença congénita que o obrigava a sofrer transfusões de sangue periódicas, e por esse facto não se estranha que possa ter havido uma contaminação.
De facto, Hergé, nos últimos anos de vida, estava constantemente a sofrer de gripes, pneumonias e bronquites.
Em Maio deste ano, à conta do centenário do nascimento de Hergé, foi dada grande visibilidade pelo jornal Le Figaro à notícia, dando-lhe um carácter sensacionalista, por
se tratar de uma personalidade de grande renome artístico.
Hergé nunca assumiu chamar-se Georges Prosper Remi Remi, apenas escrevia o seu nome como Georges Prosper Remi, talvez por não gostar da repetição. Só em 1998, o biógrafo hergeano Van Opstal, no seu livro Tracé Hergé, dá conhecimento deste pormenor invulgar, que equivale a um português chamar-se, por exemplo, José Ramos Ramos (e conheci alguém com este nome).
Em 1932 Hergé casou com Germaine Kieckens, que era a secretária do Abade Norbert Wallez. Ela foi, além de esposa, também sua assistente.
Mas, em 1956, Hergé enamora-se de Fanny Vlaminck, que trabalhava no seu estúdio como colorista. Por esse motivo, Hergé e Germaine divorciaram-se em 1960. Este facto foi bastante traumatizante para Hergé, devido à sua educação católica, que fez com que ele sempre considerasse esse momento um drama, por assim faltar à palavra dada. Entretanto, pelas normas impostas pela Igreja, só em 1977 pôde concretizar o casamento com Fanny Vlaminck.
Hergé não teve filhos, nem de Germaine, nem de Fanny.
Hergé colaboracionista?
Em finais de 1944, após a libertação da Bélgica, Hergé foi preso, sob a acusação de colaboracionista, pelo Mouvement National Belge e também pela Front de l'Indépendence. Mas nada se tendo provado, foi sempre posto em liberdade pouco tempo depois.
Apesar disso. há quem mantenha a suspeita de que Hergé tenha sido, a certa altura da ocupação alemã, influenciado por algumas personalidades com quem contactou, designadamente Léon Degrelle, que lhe fez a proposta de ele passar a ser o desenhador do movimento rexista, uma organização fascista financiada por Mussolini, o que Hergé recusou formalmente.
Ainda a propósito da posição ideológica de Hergé (que, partindo de uma atitude inicial conservadora, racista e reaccionária, foi evoluindo ao longo da vida e da obra até olhar o mundo de um ângulo mais independente e humanista), será interessante registar um pequeno excerto de um texto escrito por José Augusto França no jornal Diário de Lisboa, em 24 de Março de 1983, referindo-se ao autor belga que falecera há três semanas:
"(…) Um velho amigo a quem sempre estive anonimamente agradecido pelos pequenos prazeres que me deu com as aventuras do Tintin por esse mundo fora, em prol dos justos e para castigo dos maus – que tinham sempre certa duvidosa cor vermelha, desde a primeira das histórias, passada no «país dos sovietes», em 1929…
A ideologia era com o autor, e a verdade é que o Balzac também era reaccionário e não deixa, por isso, de ser quem é (…)".
José Augusto França também poderia ter falado do anti-americanismo de Hergé, muito em voga na época, latente em Tintin na América.
E sobre a sua evolução política, será justo recordar a figura de um tal Mussler que aparece n'O Ceptro de Ottokar (1938). Na vida real, a Áustria tinha sido anexada pela Alemanha. Em paralelo, no reino imaginário da Sildávia, o rei está ameaçado pelo ditador militar que domina a Bordúria, cujos soldados vestem à maneira nazi. E na própria Sildávia há um conspirador, o tal Mussler (mistura de "Muss", como Mussolini, e "ler", última sílaba de Hitler) que trabalha em prol do ditador. Bastante sintomático da posição ideológica que já começava a caracterizar Hergé. Mas voltando à acusação que sobre ele ainda hoje pende de colaboracionismo, e a favor da tese da sua inocência, é de realçar a consideração demonstrada por Hergé pelo membro da Resistência, Raymond Leblanc, ao convidá-lo para colaborar na tal nova revista Tintin.
As atitudes fundamentalistas tomadas por algumas forças políticas, após a libertação da Bélgica foram ao ponto, como já disse anteriormente, de interditar o exercício da profissão a todos os jornalistas que tivessem participado na redacção de qualquer jornal durante a ocupação.
E repetindo o argumento que já defendi noutro texto: segundo tal premissa, isso poderá significar que toda a gente que escrevia, ou desenhava, ou fotografava nos jornais, para se sustentar, estava nas mesmas circunstâncias.
Mas assim como os jornalistas, também médicos, professores, arquitectos, autores de banda desenhada – caso de Hergé, o mais conhecido autor belga – operários e agricultores, tinham continuado a lutar pela subsistência.
E poder-se-á acusar todos os belgas, – excepto os que tinham "corajosa e patrioticamente" emigrado – de terem sido colaboracionistas?
Todos nós, portugueses, que continuámos a viver neste país durante a ditadura salazarista, fomos coniventes com o fascismo?
Hergé misógino?
Misógino é, por definição, o homem que tem aversão às mulheres, que pode ir ao extremo da recusa de contacto sexual.
Como homem, Hergé, além de ter casado duas vezes, até consta que terá tido relações extraconjugais durante o casamento com Germaine. Com este comentário que reproduzo, não estou propriamente a louvá-lo, apenas a considerar absurda, enquanto comportamento da pessoa real, essa tese. E sabe-se como a vida real se reflecte na Arte e na Literatura.
Mas o facto de, na obra de Hergé em geral, e em particular na série dedicada às aventuras de Tintin, rarearem as figuras femininas, sendo que há apenas uma única mulher importante, a cantora de ópera Bianca Castafiore, já por vários críticos tinha sido referida essa possível, embora subtil, misoginia.
Mas nunca se tinha chegado ao ponto de se considerar Hergé claramente um misógino pelo facto de não utilizar personagens femininas influentes no desenrolar das histórias, com a já citada única excepção da Madame Castafiore, o "rouxinol milanês", que, para cúmulo caricatural, cria sucessivos "gags" com a estridência da sua voz a cantar a ária das jóias, da ópera "Fausto", de Gounod.
Essa sugestão, bem clara e assertiva, é feita pela portuguesa Ana Bravo na sua tese de mestrado, transformada em livro editado no início deste ano, sob o título A invisibilidade do género feminino em Tintin, em que ela sublinha o facto de a única mulher com importância na trama ficcional criada por Hergé ter uma imagem caricatural e pejorativa em relação ao sexo feminino.
Ora na galeria de personagens criadas por Hergé, praticamente todas elas têm uma forte componente caricatural. Começando pelo cão Milou, que comenta comicamente os factos e reage muitas vezes às situações de maneira inesperada e pouco consentânea com a sua espécie, e passando pelo Capitão Haddock, o que ressalta em quase todos os protagonistas masculinos das vinte e três aventuras, é a sua faceta mais imprevisível, geralmente cómica, mas nem sempre a mais simpática (o contacto inicial do leitor/visionador com Haddock não é propriamente sedutora), e a absoluta surdez do professor Girassol, se por vezes desperta a hilaridade, consegue também esporadicamente atingir a fronteira da irritação.
Afinal de contas, Hergé sempre compôs as personagens ao nível de estereótipos – é precisamente isso que acontece com a figura da Castafiore, de maneira alguma se sentindo que através dela estivesse a discriminar as mulheres –, extraindo de todos os intervenientes as características que melhor pudessem contribuir para a criação de uma atmosfera divertida, que acaba por ser a componente mais marcante do conjunto da obra, temperada quantas vezes por forte dose de louvor às facetas positivas do ser humano, como sejam a coragem, a fraternidade e a amizade
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João Paiva Boléo, crítico de BD no semanário Expresso, irá hoje apresentar a sua palestra intitulada Tintim em Portugal.
Isto na sequência das intervenções anteriores, a primeira a cargo deste bloguista, e a de ontem devida a Nelson Done, director do Festival Internacional de BD da Amadora.
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"Posts" anteriores da rubrica "Centenário de Hergé"
(XII) Set. 10 - Exosição documental Tintim e(m) Portugal
(XI) Julho 13 - Hergé e suas personagens em exposição na C.M.Odivelas - Centenário de Hergé
(X) Junho 25 - Castelos na Banda Desenhada (XX) - Fictício - Autor: Hergé - Centenário de Hergé - X
(IX) Junho 19 - Tintin em edições piratas (I) Tintin en El Salvador - Centenário de Hergé - IX
(VII) Junho 17 - Álbuns imprevisíveis e difíceis de obter (V) - Le Trésor de Rackham le Rouge (Centenário de Hergé-VIII
(VII) Junho 16 - Selos e Banda Desenhada- Centenário de Hergé - VII
(VI) Junho 14 - Lisboa na Banda Desenhada (VII) - Tintin em Lisboa - Autores: C. Moreno (desenho), C.Moreno e G.Lino (argumento) - Centenário de Hergé - VI
(V) Junho 14 - Postais com BD - A m/ colecção (II) - Autor: Hergé
(IV) Junho 13 - Tintim no fanzine Tertúlia BDzine
(III) Junho 12 - Tintin, herói de muitas Artes
(II) Junho 8 - BD Portuguesa em revistas não especializadas (XX) - Pedro Massano, José Carlos Fernandes, António Jorge Gonçalves - Centenário de Hergé (II)
(I) Maio 22 - Hergé (1907-1989) - Centenário de Hergé 2007

terça-feira, setembro 25, 2007

Banda Desenhada portuguesa nos jornais (LXV) - Mundo Universitário - Autor: Antero Valério

Prancha única da banda desenhada auto-conclusiva Ensinópolis, da autoria (argumento e desenho) de Antero Valério

Voltou a BD ao MU! Desde Junho que o semanário gratuito Mundo Universitário não publicava a sua já bem conhecida página de Banda Desenhada. Isto porque, em tempo de praia e noitadas nas férias universitárias, os responsáveis do jornal (onde se inclui a sua dinâmica directora, Raquel Louçã Silva, sempre com ideias inovadoras, ou a elas receptiva) decidiram transformá-lo num jornal reversível, sendo uma das metades dirigidas a quem lesse o MU na praia, por exemplo, e a outra parte, reproduzida em sentido contrário, a quem quisesse viver a noite, ou conhecer programas para a dita cuja.
Chamo a atenção - e não desisto de o fazer, de vez em quando, porque sei bem que quem vem à internet nem sempre lê o "post" do princípio ao fim... - para o facto de esta página coordenada por este mesmo bloguista, poder considerar-se, actualmente, o espaço mais abrangente da Banda Desenhada portuguesa. Porquê? Porque nele já colaboraram mais de quarenta autores, a maioria gente nova, mas igualmente uns tantos consagrados.
E isto não fica assim!
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"Post" remissivo
Eis um tema abundante, felizmente, que me dá muito que fazer. O que só prova, para os mais distraídos, que há mais gente do que parece "à vista desarmada" a trabalhar na banda desenhada cá no cantinho português.
Quem quiser confirmar, basta ir à coluna "Arquivo do blogue" e clicar nas datas indicadas.

Agosto, 14 - Gui e Joca
Agosto, 13 - Joba e ML
Julho 12 - Luca
Junho 4 - Esgar Acelerado
Maio 31 - Algarvio
" 28 - Ricardo Cabral
" 14 - José Carlos Fernandes
" 12 - Filipe Andrade (desenho), Filipe Pina (argumento)
" 1 - Vasco Gargalo
Abril 24 - Zé Manel
" 18 - Arlindo Fagundes (arg. e desenho), José Pedro Costa (cor)
Março 30 - Pedro Nogueira
" 23 - José Lopes (MU nº 61)
" 16 - Zé Paulo (MU nº 60)
" 7 - Lam (MU nº 59)
" 1 - Ricardo Correia (desenho), André Oliveira (argumento), Ana Maria Baptista (colorido)
Fev.12 - Pedro Zamith
" 7 - Nazaré Álvares
" 7 - Marco Mendes
Jan. 23 - Ângela Gouveia
" 16 - Filipe Goulão
2007 - (lista acima)

Dez.6- A.Rechena
Nov.28 - José Lopes
" 21 - Pedro Alves
" 14 - Nuno Saraiva
" 8 - Pedro Morais
Out.31 - Ricardo Ferrand
" 24 - Algarvio
" 17 - Ricardo Cabral
" 11 - Álvaro
" 5 - Pedro Massano
Set.27 - Derradé
" 24 - Nuno Saraiva
Ainda em 2006, mas após as "férias grandes" (entre 8Jun. e 24Set, lapso de tempo em que o MU não foi editado), a lista de colaboradores vê-se daqui para cima
Jun.8 - Estrompa
Maio 31 - António Valjean
" 24 - Pedro Nogueira
" 20 - Zé Manel
" 16 - Ricardo Cabral e Jorge Cabral
" 12 - Pepedelrey
" 4 - J.Mascarenhas
Abril 5 - Cheila
Março 29 - Pedro Manaças
" 20 - Júcifer (Joana Figueiredo)
" 15 - Pedro Nogueira
Fev.14 - A.Rechena
" 8 - Derradé
Jan.19 - Pedro Alves
2006 (lista acima)

Dez.12 - Álvaro
Nov.24 - Luís Valente
" 15 - Paulo Marques e Bruno Silva
Out.28 - Fritz
" 13 - Francisco Sousa Lobo
2005 (Lista acima. Neste ano houve mais autores publicados no MU, mas cujas pranchas não foram reproduzidas aqui no blogue)