domingo, julho 07, 2013
Entrevistas antigas a autores de BD (I) - Jorge Colombo
Jorge Colombo foi o grafista com que iniciei, no jornal Diário Popular, um conjunto de entrevistas e publicação das respectivas bandas desenhadas. Foi isto em meados da década de 1980, quando o mais velho dos irmãos Colombo - o outro é o Vasco - era ainda um jovem, e eu - em representação do Clube Português de Banda Desenhada -, tinha conseguido, com grande alegria, convencer os responsáveis do já citado vespertino, a criar um suplemento de duas páginas a que chamaria Tablóide, e que teria início a 21 de Setembro de 1985.
Jorge Colombo era (é) dono de um talento singular. Como pessoa, era igualmente alguém que surpreendia, e foi com ele que decidi estrear aquele suplemento.
Comecei por lhe pedir para fazer o grafismo do título, sugerindo-lhe que escrevesse em maiúsculas as letras B e D do vocábulo tablóide.
Em contrapartida, o Jorge exigiu que fosse dele a primeira banda desenhada do suplemento taBlóiDe, a que acedi com satisfação.
Ao olhar para a colecção de folhas de jornal, impecavelmente preservadas pelo coleccionador Hugo Tiago, ocorreu-me reproduzir as entrevistas feitas àqueles então ainda jovens iniciantes na área da BD.
A acompanhar as entrevistas, no verso da folha, iniciava-se a banda desenhada, da autoria dos entrevistados, que continuava (e, eventualmente, terminava) no Sábado seguinte.
É curioso verificar como as afirmações do entrevistado Jorge Colombo - há muitos anos a viver nos EUA, casado com uma americana, provavelmente já com dupla nacionalidade -, é curioso, repito, como as suas afirmações, feitas há quase três décadas, reflectem uma realidade que não se distancia muito da que existe hoje em dia neste país.
(Reproduzo, em seguida, a entrevista, para facilitar a leitura.
Relembro que tudo aquilo que ali é dito tem de ser lido com a noção cronológica de se estar em 1985)
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Não faço BD
porque não há onde
- diz Jorge Colombo, desenhador
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Jorge Colombo, que aparece na estreia deste "taBlóiDe", começou a tornar-se conhecido no tempo, ainda recente, em que assinava, num conhecido semanário, uma coluna de crítica de banda desenhada, a "BDSete".
Polémico nas suas opiniões, irregular na assiduidade, demonstrou, inequivocamente, uma invulgar capacidade no manejo da escrita. Após um interregno em que parecia ter-se eclipsado, voltou a aparecer, agora no JL, fazendo ilustrações diversas, incluindo o grafismo de primeiras páginas, ramificando-se ainda em textos diversos - críticas de Banda Desenhada e de Cinema, por exemplo.
Dentro da sua versatilidade, Jorge Colombo é também um autor de BD. Para além de algumas experiências desgarradas, foi distinguido com um dos primeiros prémios do concurso da ESBAL, em 1984. A sua mais recente participação neste campo foi a prancha que realizou no programa televisivo "Arroz Doce", dando continuidade às desconcertantes aventuras da Isidriana, personagem de "Godofredo Leite Fresco".
Frequentador esporádico da ESBAL, quisemos saber a sua opinião sobre o ensino ministrado naquela escola superior em relação à Banda Desenhada.
"Uma escola é, normalmente, um ensino do tipo «pronto-a-vestir». Quando uma pessoa lá entra, não se ralam com as suas particulares aptidões ou dificuldades numa ou noutra matéria. Eu aprendi muito mais - quando ainda andava no liceu - ao frequentar o "atelier" de Victor Mesquita, ou o curso de José Garcês, na Galeria de Arte Moderna, ou a trabalhar em publicidade, ou até, simplesmente, a ver com muita atenção filmes e revistas de Banda Desenhada. É preciso é uma pessoa fazer a autópsia daquilo que lhe cai nas mãos, perceber como é que determinados efeitos são conseguidos.
Mas, voltando à polémica que há, se as Belas Artes ajudam quem quer fazer BD, eu acho que sim, porque não ensinando nada sobre BD, impedem as pessoas de se esclerosarem, de pensarem só nisso."
Mas quando um jovem que gosta de desenhar pensa em fazer Banda Desenhada precisa de conhecer autores, analisar-lhes o estilo, treinar nas suas soluções gráficas, Jorge Colombo, por exemplo, manifesta um certo pendor para cultivar o estilo patente nas bandas desenhadas de Loustal, Serge Clerc ...
"Para além de um fascínio, o muito imediato pelo universo revivalista dessas bandas - mas isso é um gosto pessoal - e de achar que qualquer deles desenha com grande perícia, eu encontro sobretudo nos trabalhos conjuntos de desenhista Loustal e do argumentista Paringaux, inovações que nada têm a ver com o plano gráfico. Acontece que esta dupla evita sistematicamente a redundância palavra/imagem, e distante de uma forma inédita o tempo das suas narrativas. Em relação ao desenho, até sou capaz de gostar mais de Mário Botas ou de David Hockney."
Este conhecimento crítico dos novos caminhos da BD, e uma natural convivência com as edições estrangeiras que chegam até nós, não o deveriam induzir a realizar, com maior assiduidade, neste campo?
"Acontece que eu tenho montes de ambições, desde a mais tenra idade: fazer capas de discos ou de livros, filmes, escrever prosa ou poesia, sei lá... e álbuns de banda desenhada. Até agora tenho feito aquilo a que é mais fácil dar sequência. Escrevo porque basta ter papel e caneta, faço grafismos porque a edição portuguesa tem uma certa animação. Mas, por exemplo, não faço filmes por que não há dinheiro, nem BD porque não vejo sítios onde a publicar."
Um panorama sem dúvida pobre o da BD portuguesa. Haverá alguma coisa nela, hoje, que valha a pena destacar?
"As pastas onde o Pedro Morais ou o Pedro Cavalheiro guardam os seus originais são dos meus locais de leitura favoritos. Se eu tivesse uma data de contos para perder, editava-os."
Ter uma data de contos... O que faz Jorge Colombo para ganhar alguns? Onde ocupa ele o seu tempo?
"Ando ocupado a ganhar dinheiro em vários lados. Faço ilustrações para jornais ("JL", "O Jornal"), capas de livros e os grafismos de uma série de discos nacionais. Gosto particularmente dos que fiz para os Heróis do Mar."
Um dia desses fui a uma galeria, no Bairro Alto, ver uma exposição de desenhos de Jorge Colombo. Uma nova experiência?
"Sim, há dois meses experimentei fazer desenhos grandes - eu trabalho sempre em formato minúsculo -, emoldurá-los e colocá-los numa galeria. As pessoas parece terem gostado... Mas não faço muita carreira disso."
Agora, neste «taBlóiDe» que hoje nasce, uma incursão na BD. Experiência isolada, ou novo alento para trabalho mais contínuo?
"Sempre que houver um sítio para que me convidem usarei a minha disponibilidade a trabalhar para ele, embora não se ganhe tanto como na ilustração".
O que terá significado para Jorge Colombo ir à TV participar no «Arroz Doce»?
"Eu devo dizer que fui anunciado na TV antes de ser convidado pessoalmente, embora o Carlos Barradas já me tivesse contactado. Foi engraçado, porque o Júlio Isidro, aparentemente, era o único a não saber que eu não publicava Banda Desenhada. A iniciativa teve, como possível vantagem, homologar publicamente uma série de artesãos da matéria. Foi um prazer ver a minha página ser retomada por tantos colegas."
E desta ideia do «taBlóiDe», que acha dela Jorge Colombo?
"Melhor que aquela horrorosa «Flecha 2000». Pelo menos o título é melhor. E somos poupados aos Lucky Luke requentados."
Sempre polémico, este Jorge Colombo, nascido na Rua da Junqueira, aos 20 de Julho de 1963.
Com vinte e dois anos apenas, ele é bem o retrato de mais uma geração com múltiplos talentos e minguadas oportunidades.
Entrevista e foto por
Geraldes LIno
sexta-feira, julho 05, 2013
Feira de Poesia e Banda Desenhada
Tantas biografias de poetas têm sido contadas pelas imagens sequenciais da BD, e até há poesias transformadas em quadradinhos!
Daí que bem se compreenda a ideia que teve Inês Ramos de organizar uma feira em que ambas as formas de expressão estejam contempladas. É o que ela tem feito, na Feira do Livro de Poesia e Banda Desenhada, desde 29 de Setembro de 2012, todos os Sábados. A persistência e capacidade organizativa da Inês é um espanto!
Desta vez, para além das peças antigas e modernas de BD que ela lá tem à venda, a preços acessíveis, de diversos pequenos editores independentes, haverá também, entre as 15h e as 19h, uma sessão de autógrafos desenhados e caricaturas ao vivo, com vários banda-desenhistas e cartunistas, entre os quais Álvaro, Andreia Rechena, Estrompa, Filipe Duarte, João Mascarenhas. É natural que ainda apareçam mais, até só para conversar, como será o caso de Machado-Dias, também este blóguer, e talvez mais alguns, o espaço do Palácio Laguares, em Campolide, é suficientemente amplo para receber todos os grafistas que queiram desenhar. A Inês arranja lugares para todos!
quarta-feira, julho 03, 2013
Comic Jam da Tertúlia BD de Lisboa (2ª Fase - nº1 - Total 54)
O quarteto que passou a organizar a Tertúlia BD de Lisboa demonstrou saber a lição de cor e salteado. Por exemplo o "cadáver esquisito", que na tertúlia se tornou conhecido pela versão anglófona de "comic jam", continuou a ser realizado com eficiência, ao mesmo nível da imaginação dos ilustradores que fizeram esta banda desenhada improvisada onde eu, apesar de pela primeira vez não ter estado presente, participo como personagem. Ou seja: o meu nariz aparece nas 2ª, 3ª e 4ª vinhetas, e metade do meu corpo submerso também por lá anda a nadar. Mas a minha caricatura na última vinheta está espantosa, obrigado João Sequeira! (*)
Quem fez as seis vinhetas da bd? Os seguintes (segundo texto de Álvaro, que me enviou o material por email):
Nuno Neves com arte final de João Amaral
João Amaral
Filipe Duarte
Ana Saúde
Álvaro
João Sequeira
(*) Ao talentoso amigo João Sequeira
Preciso de enviar um retrato ou uma caricatura minha para o Brasil, para o fanzinista Márcio Sno (*) incluir no 3º Anuário de Fanzines, Zines e Publicações Alternativas.
Posso aproveitar esta caricatura, a mais recente e muito realista?
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Texto extraído do blogue do fanzinista Márcio Sno, brasileiro de São Paulo:
Márcio Sno
Pai do Calvin e do Hulk e marido da Joelma.
Nos anos de 1990 editou diversos zines.
É pesquisador de zines e já registrou suas pesquisas na cartilha Fanzines de Papel e na série de documentários Fanzineiros do Século Passado.
As pessoas falam que ele é documentarista, mas ele duvida muito.
O que pode garantir é que faz muitas coisas ao mesmo tempo e não ganha nada com isso.
Mas é feliz.
Nos anos de 1990 editou diversos zines.
É pesquisador de zines e já registrou suas pesquisas na cartilha Fanzines de Papel e na série de documentários Fanzineiros do Século Passado.
As pessoas falam que ele é documentarista, mas ele duvida muito.
O que pode garantir é que faz muitas coisas ao mesmo tempo e não ganha nada com isso.
Mas é feliz.
http://marciosno.blogspot.com
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Os visitantes interessados em verem os 54 "posts" anteriores deste tema, poderão fazê-lo com um simples clique no item Comic Jam visível no rodapésegunda-feira, julho 01, 2013
Tertúlia BD de Lisboa - 349º Encontro - Julho 2013 - Ciclo: Blógueres da Blogosfera BD
O ciclo "Blógeres da Blogosfera BD" continua a ser realizado mensalmente na Tertúlia BD de Lisboa. No encontro de 2 de Julho será a vez de Nuno Neves, editor, coordenador e redactor de mais um blogue dedicado à banda desenhada, o "Notas Bedéfilas", cujo "banner" ilustra o presente "post".
Para se ficar a conhecer o blóguer, reproduz-se em seguida a sua autobiografia:
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Um pormenor a registar neste 349º Encontro da Tertúlia BD de Lisboa, de 2 de Julho de 2013:
Esta associação informal (sem corpos gerentes, sem sócios e, claro, sem quotas) deixou em Junho de ser coordenada pelo seu fundador (este mesmo blóguer), para passar a realizar-se, a partir deste mês de Julho inclusive, sob coordenação de um quarteto composto por Álvaro, Inês, Isidro e Moreno.
Eis o texto de despedida:
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Lista de presenças neste 349º Encontro da TBDL
1. Álvaro
2. Ana Lúcia Tiago
3. AnaSaúde
4. António Isidro
5. Carlos Moreno
6. Cátia Alves
7. Cristina Amaral
8. Cristina Silva
9. Filipe Duarte
10. Gabriel Martins
11. Gastão Travado
12. Helder Jotta
13. Hugo Tiago
14. Inês Ramos
15. Isabel Fonseca
16. Isabel Viçoso
17. João Amaral
18. João Sequeira
19. João Vidigal
20. José Pinto Carneiro
21. Luís Graça
22. Luís Ramos
23. Luís Salvado
24 Miguel Ferreira
25. Nuno Neves
26. Paulo Costa
27. Pedro Bouça
28. Rui Domingues
29. Rui Rôlo
30. Simões dos Santos
31. Victor Jesus
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Blogosfera da BD,
Tertúlia BD de Lisboa
quinta-feira, junho 27, 2013
Escola e BD - Livros Escolares com BD (I) - A Odisseia, por Rodrigues Neves
A banda desenhada baseia-se em duas componentes, o texto literário ou argumento, complementado pela sua concretização em imagens sequenciais, formando assim a figuração narrativa, ou banda desenhada, que vale por si própria enquanto expressão literário-artística autónoma.
Mas a verdade é que a BD tem sido usada, com alguma frequência, como forma subsidiária ou suporte de outras formas de expressão, designadamente a literatura, adaptando obras literárias consagradas à forma desenhada sequencialmente.
É nesta faceta que a BD, funcionando como suporte visual, tem sido aproveitada nos manuais escolares, desde longa data - digamos que desde os anos de 1950, a meio do século passado -, como é o caso do livro "Mar Alto - Volume I", dirigido por Virgílio Couto.
Neste livro de leituras várias - contos, poesias, histórias tradicionais - incluem-se várias obras literárias adaptadas à BD.
Para iniciar esta nova rubrica (ou etiqueta, como quer a nomenclatura bloguística), seleccionei a versão de A Odisseia feita por João de Barros, ilustrada sequencialmente por Rodrigues Neves, arquitecto e autor de BD já falecido.
Tomo a liberdade de reproduzir o texto com que é apresentada esta adaptação do poema épico de Homero a texto literário por João de Barros:
"Esta é a história gloriosa de Ulisses, o navegador das mil façanhas e ardis, o herói grego que - depois do cerco, tomada e incêndio de Tróia, cidade célebre da Ásia Menor - visitou as terras mais diversas, conheceu gentes estranhas, e enfeitiçou a alma de povos distantes.
Num frágil navio, errou sobre as ondas incertas, cheio de angústia, transido de aflição, perseguido por monstros cruéis, abandonado de socorros.
Tudo venceu, afinal, mercê da inteligência, da audácia e, sobretudo, da sua clara e serena razão."
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Escola e BD,
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sexta-feira, junho 21, 2013
Exposições BD avulsas (XXXVI)
É sabido que o acrónimo BDSM é definidor de actividades sexuais, com o significado de Bondage, Discipline, Sadism, Masochism.
Mas se as consoantes BD ficarem separadas de SM, como sagazmente fez o comissário da exposição Traços BD[SM], já o título nos direcciona para um evento que inclui BD, mas também Ilustração, em que tanto as bandas desenhadas como as ilustrações que o compõem são de cariz erótico-porno-sado-maso.
Ou seja: está-se em presença de temas - erotismo, pornografia, sadismo e masoquismo - praticamente tabus em Portugal nas mostras públicas de BD. Embora haja à venda entre nós obras de alguns dos autores representados, designadamente Eric Stanton, George Pichard e Guido Crepax.
Além dos três anteriormente citados, aqui ficam os nomes dos restantes autores com reproduções (são cerca de 70 cópias digitais) patentes na exposição: Erenisch, Fernando, Gary Roberts, John Willie, Robert Bishop, Sardax, Shiniez.
Esta inesperada exposição de BD e Ilustração (e aproveito para dizer que está com excelente aspecto, e a selecção de pranchas tem assinalável critério), inserida no evento Lisbon Fetish 2013 - com co-organização de CSS-ConSenSual e Fabrice Ziegler, este em representação da Fábrica Braço de Prata -, está montada na Sala Wittgenstein, no piso superior da Fábrica Braço de Prata (Rua da Fábrica de Material de Guerra, nº1 - Lisboa), e estará visitável, com entradas grátis, até 30 deste mês de Junho de 2013 (foi inaugurada em 30 de Maio).
Horário da exposição:
4ª e 5ª feira- das 20h00 às 02h00
6ª e Sábado - das 20h00 às 04h00
Mais pormenores em:
www.lisbonfetishweekend.com
Imagens que ilustram o "post":
1. Cartaz da expo com pormenor de bd da autoria de John Willie
2. Prancha de Crepax
3. Prancha de Pichard
4. Prancha de Gary Roberts
5. Prancha (de formato invulgar) de Shiniez
6. Cartaz do evento geral, da autoria de"The Black Sheep Group"
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Os visitantes deste blogue que, por mera curiosidade, queiram ver os restantes trinta e cinco "posts" sobre exposições, poderão fazê-lo clicando no item Exposições BD avulsas visível no rodapé.
Etiquetas:
Erotismo e/ou pornografia,
Exposições BD avulsas
segunda-feira, junho 17, 2013
Coleccionadores e Colecções de BD (IX) - Raul Ribeiro
Para quem tiver curiosidade em seguir este conjunto de entrevistas a coleccionadores de banda desenhada, alerto para o facto de se tratar de pessoas que na década de 1980 - época em que as entrevistei - eram todas bem conhecidas nos meios afectos à BD.
Mas, hoje em dia, os nomes de algumas dessas pessoas nada dirão aos bedéfilos mais novos. É o caso de Raul Ribeiro, coleccionador em foco desta vez na presente rubrica, por onde já passaram nomes bem importantes no coleccionismo e estudo da BD, nomeadamente A.J.Ferreira, António Dias de Deus, Vasco Granja e Carlos Gonçalves.
Passo a reproduzir a entrevista com Raul Ribeiro, na íntegra, tal como foi publicada na revista Coleccionando (Nº 1 - 2ª Série - Novembro de 1985).
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Na Feira da Ladra, no meio do chão com coleccionadores a rondarem
- eis como Raul Ribeiro obteve uma raridade da BD
Raul Gomes Ribeiro é, entre os aficionados da BD, um dos mais conhecidos coleccionadores.
Nascido em Castelo Branco, a 22-10-1946, possui como habilitações literárias o Curso Geral de Comércio. Exerce, há bastantes anos, a profissão de funcionário bancário, tendo atingido uma confortável posição na importante instituição onde trabalha.
Activo participante em torneios de problemas policiários, em que tem obtido classificações de destaque, é também autor de problemas deste tipo. No que se refere à banda desenhada, ele foi, desde muito cedo, um entusiasta.
Além de leitor e coleccionador, tem sido destacado concorrente de testes sobre BD, além de ser autor de diversos textos espalhados por publicações e rubricas especializadas.
O seu nome apareceu a assinar artigos de estudonas revistas "Selecções Mistério", "XYZ Magazine", "Mundo de Aventuras", nos suplementos "Banda Desenhada" (do extinto semanário "O País"), e "Correio da Banda Desenhada" ("Correio da Manhã").
Este é, a traços largos, Raul Ribeiro. Vejamos agora, em pormenor, a sua faceta de coleccionador nesta especialidade.
- Raul Ribeiro: quando começaste a coleccionar revistas de banda desenhada?
- Foi há cerca de trinta anos, quando uma familiar minha, que trabalhava na Editorial Fomento de Publicações, Lda., me ofereceu as colecções completas das revistas "Titã", "Flecha", e os respectivos álbuns.
É evidente que essas e outras colecções se perderam na voragem do tempo, com trocas e empréstimos.
Há cerca de oito anos recomecei a coleccionar, desta vez a sério e, de então para cá, já comprei muitos milhares de revistas.
- O CPBD tem exactamente oito anos de existência. Há alguma relação entre esta coincidência de datas?
- Há. Como sabes, eu sou sócio-fundador do CPBD. Na altura em que o clube se fundou, em 1976, eu já tinha recuperado muitos exemplares de revistas que tinha possuído em tempos.
Mas não estava ainda metido a fundo nessa recuperação, sempre difícil e morosa. O contacto com alguns sócios do CPBD, grandes coleccionadores, deu-me um grande alento, e voltei a entusiasmar-me profundamente.
- Quais as colecções que tens completas?
- São muitas, mas acho que só vale a pena referir as mais importantes: "O Mosquito", "Condor Mensal", "Mundo de Aventuras", "Diabrete", "Cavaleiro Andante", "Álbuns do Cavaleiro Andante", "Zorro", "Tintin", "Titã", "Flecha".
- E estrangeiras?
- Não colecciono revistas estrangeiras.
- Porquê?
- O meu parco conhecimento de línguas não me permite ler, com facilidade, revistas francesas ou americanas. E não me interessa acumular revistas, se não puder ter o gozo de as ler. Só ver os desenhos não é suficiente para mim.
- Mas há revistas espanholas de BD muito boas. E não é difícil ler castelhano.
- Sim, de facto já seria mais fácil. Mas são caras e, além disso, não tenho espaço. Já estiveste em minha casa, e viste bem que está tudo cheio.
Por isso optei por coleccionar apenas revistas portuguesas. E só a partir de "O Mosquito" para cá. Tanto assim é, que já vendi a colecção quase completa do "Tic-Tac" - duzentos e tal números - a outro coleccionador, exactamente porque essa publicação é anterior ao "Mosquito".
- Entre as colecções que possuis, quais as que consideras mais valiosas quanto à raridade?
- "Mosquito", "Mundo de Aventuras", "Titã" e "Condor Popular".
- E quanto ao conteúdo?
- "Cavaleiro Andante" e "Tintin".
- E no que se refere a ambos os aspectos - valor quanto à raridade e conteúdo?
- "Diabrete".
- Qual é a revista mais antiga que possuis?
- O nº1 do "Mosquito", editado em Janeiro de 1936.
- Qual a colecção que te deu, ou está a dar ainda, maior dificuldade em completar?
- A "Condor Popular".
- Estás neste momento a coleccionar alguma revista portuguesa de BD?
- Estou a coleccionar três: "Mundo de Aventuras", "Jornal da BD" e "Mosquito", que são, lamentavelmente, as únicas em publicação que têm alguma qualidade.
- Tens alguma recordação ligada a qualquer das revistas que possuis?
- Nada de especial que mereça referência.
- Terá havido na tua infância ou adolescência - até te pode ter acontecido recentemente - uma fase em que, em determinado dia da semana, ias à rua comprar uma revista de BD que estivesses a coleccionar. Ocorre-te algo (acontecimentos, sensações) ligados a essa fase?
- Ainda recentemente, e antes do "Mundo de Aventuras" entrar na fase de declínio, eu esperava ansiosamente a 5ª feira para o comprar.
- Qual o preço mais elevado que pagaste por uma peça da tua colecção?
- Paguei vários "Mosquitos" a 200$00 há já dois ou três anos, o que equivalia a uma refeição completa num restaurante de média categoria.
- Colecionas álbuns de BD? Qual o critério que segues?
- Colecciono, mas sem qualquer critério; ou melhor, o meu critério é o de comprar tudo o que seja editado em Portugal, desde que tenha qualidade.
- Coleccionas mais alguma coisa?
- Selos e moedas, livros policiais e de ficção científica. Mas sem a paixão com que colecciono BD.
- A que atribuis essa paixão especialmente dedicada à BD?
- Talvez se deva ao facto de o meu pai ter trabalhado numa tipografia, o que me levou, desde muito jovem, a estar em contacto com livros e revistas. Por outro lado, o meu pai também escrevia uns versozinhos, e isso fez com que eu me empenhasse mais em tudo o que se realciona com a leitura.
- Conta-nos um episódio pitoresco da tua actividade de coleccionador de BD.
- Este, por exemplo: Eu costumo ir todos os sábados de manhã cedinho - aí por volta das 7 horas - à Feira da Ladra. Um dia, isto há cerca de quatro meses, excepcionalmente cheguei mais tarde, por volta das nove horas. Foi exactamente nesse dia que comprei a que considero a peça mais valiosa da minha colecção: o PONTO NEGRO, CAVALEIRO ANDANTE, um pequeno álbum da família do "Mosquito", pois pertencia à mesma editora.
No local onde encontrei essa publicação rara, que estava no meio do chão misturada com outras revistas, mas bem à vista, já tinham estado mais coleccionadores, por exemplo o Bretes e o Varandas, entre outros de que desconheço o nome.
Foi realmente um golpe de sorte.
- Deve ter sido cara, essa peça...
- O vendedor queria dez escudos e eu, por hábito, ainda regateei. Acabei por comprá-la por cinco escudos! Foi uma pechincha inacreditável.
- Sei que um dia houve em tua casa um episódio de que foi potagonista a tua filha. Gostaria que o contasses em pormenor, masnão sei se o queres antes incluir nas recordações tristes...
- Bem, atendendo a que foi passado com uma criança, prefiro que o incluas na parte a que se refere a casos pitorescos, embora entre aspas.
Esse episódio a que te referes teve como intervenientes a minha filha Guida, que tinha nessa altura cerca de um ano, e o meu sobrinho Paulo Jorge, da mesma idade.
Quando começaram a andar, a primeira grande obra que fizeram foi entreterem-se a rasgar, a um e um, quase completamente a minha colecção do "Zorro". Fui encontrá-los, todos satisfeitos, nessa "tarefa", no momento em que estavam a arrancar as folhas do meio, onde aparecia o Tintin, pelo qual mostravam especial "predilecção"...
Acrescento que esses pequenos vândalos são hoje apaixonados apreciadores de Banda Desenhada.
- Conta lá agora as recordações que consideras tristes, relacionadas com as tuas colecções de BD.
- Recordações tristes relacionadas com as minhas colecções tenho várias, mas que apenas têm a ver comprocedimentos menos correctos assumidos por outros coleccionadores.
Por exemplo, já me aconteceu com um coleccionador, que considero amigo, o seguinte: combinei com ele ficar-lhe com uma das colecções que ele tem em excedente - o "Pirilim" e o "Faísca" - e que estava interessado em vender.
Quando lhe telefonei, como tínhamos combinado, para marcarmos um encontro, mandou a esposa responder-me que estava adoentado, mas comprometeu-se a telefonar-me depois.
Nunca mais me disse nada, e posso supor, sem grandes hipóteses de erro, que ele já mudou de ideias. O que me magoa, neste caso, é a falta de limpidez deste tipo de atitudes, para além da falta de elegância, especialmente entre pessoas que mantêm, há anos, relações de amizade.
Como curiosidade, acrescento que o coleccionador com quem se passou esse episódio é o mesmo a quem eu cedi a tal colecção quase completa do "Tic-Tac".
Outro caso aborrecido foi o que se passou com um volume da "Colecção Aventuras". O Ernesto Assis tinha-se comprometido a ceder-mo; um dia, quandolhe perguntei pelo volume, disse-me que o tinha trocado contigo por um volume encadernado do "Diabrete" (formato grande).
- Foi exactamente assim. Por acaso o Assis acabou por vender esse volume do "Diabrete" ao Jaime das Escadinhas do Duque, por quinhentos escudos. Mais tarde tornou a comprá-lo por um conto e quinhentos! Negócios à Assis...
Em relação ao tal compromisso que ele teria contigo, eu desconhecia-oem absoluto, como ficou esclarecido na altura.
- É verdade. Entretanto o Assis acabou por recuperar o volume do "Diabrete"; eu é que nunca mais consegui o tal volume do "Aventuras". A propósito: queres-mo vender? Dou-te cinco contos.
- A parte de "negócios" fica para depois. Mas desde já te digo que não estou interessado em desfazer-me dessa peça.
Responde-me agora à última pergunta deste questionário/entrevista: Na tua opinião, qual a influência, para a BD, que pode resultar da actividade dos coleccionadores?
- Acho que a actividade dos coleccionadores tem uma influência extremamente benéfica, já que vai recuperar revistas que, de outra forma, acabariam por se perder irremediavelmente.
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Imagens que ilustram o "post":
1. "O Mundo de Aventuras" - Capa do nº 2, de 25 de Agosto (5ª feira) de 1949
2. "Álbum do Cavaleiro Andante" - Capa do nº 55, de Dezembro de 1958
3. "Flecha" - capa do nº 2, de 4 de Novembro de 1954
4. "Zorro" - capa do nº 58, de 16 de Novembro de 1963
5. "Condor Popular" - capa do nº4 - Volume 25 - (sem data indicada)
6. "Titã" - capa do nº 11 (da autoria de Hal Foster. Atenção Manuel Caldas: conhecias esta capa?) de 21 de Dezembro de 1954
7 e 8 - Páginas da revista "Coleccionando" onde está publicada a entrevista.
9 - Capa da revista "Coleccionando" - Nº 1 - 2ª Série - Novembro de 1985
10 - Retrato do coleccionador Raul Ribeiro
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