quinta-feira, agosto 16, 2018

La Mort du Batailleur, por José Pires
















     Quando José Pires andava discretamente a colaborar na revista Tintin belga, na década de 1980, o seu nome ainda era praticamente desconhecido entre nós, porque a sua colaboração no Cavaleiro Andante estava assinada simplesmente por Zé.
     Por mero acaso, uma amiga minha chamou-me a atenção para a existência desse autor de BD nosso compatriota, e deu-me o contacto dele. Fiquei então a saber que José Pires já tinha assinalável colaboração na revista belga, para onde enviava por correio normal as suas pranchas dirigidas às Editions du Lombard, em Bruxelas, num tempo em que outros autores portugueses tinham emigrado para Espanha, França, Bélgica, Inglaterra, Itália, para colaborarem in loco com as editoras desses países.
     No exemplar nº48, 42ºano, 24-11-87, surge este recit geant complet com o título "La Mort du Batailleur". Sob argumento de um desconhecido M. Tecedeiro, apoiado nos desenhos realistas de Pires, assiste-se à saída do castelo de Beja do idoso Gonçalo Mendes da Maia que, do alto dos seus noventa e cinco anos, decidiu afrontar o chefe árabe Almoleimar. A descrição gráfica da batalha é demonstrativa do talento do então quase ignorado autor português, que ainda colaboraria na revista Hello BD após o fecho da Tintin belga.
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Logo depois de o ter conhecido, José Pires colaborou no meu fanzine Eros (nº5-2º quadrimestre de 1988) com uma banda desenhada erótica.
Mostrei nessa altura a sua foto e dei informações acerca de tão mal conhecido autor. Reproduzo o texto que escrevi no zine.
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Quem é Quem no Eros
                                 JOSÉ PIRES
      
     Veio de longe, na BD portuguesa, começou tão-somente como Zé. Estava-se em fim de ano, era, concretamente, o dia 2 de Dezembro de 1961, e aparecia à venda o Cavaleiro Andante nº518, com uma capa assinada pelo tal Zé. O título da história relativa ao desenho da capa era O Último Prato de Tenton Gant, e aparecia, dentro da então popular revista, em quatro páginas a preto e branco e duas a cores. Era a estreia na banda desenhada de José Pires. Meses depois, em Fevereiro de 1962, no Cavaleiro Andante nº529, era a vez para uma banda desenhada intitulada Fumo de Pólvora em Gallows Crossing, a qual novamente trazia à baila esse tão popular diinutivo português, Zé.
     Aliás, no "Cavaleiro Andante", o mesmo Zé ainda poderia ter publicado outra banda desenhada, uma adaptação de Eurico o Presbítero, de que já tinha prontas as primeiras seis páginas. Mas acabou por desistir quando soube o cachet: 150$00 por prancha! "Era um preço ridiculamente baixo, mesmo para a época, se atendermos a que cada página estrangeira da King Features Syndicate custava 300$00. E, como você sabe, o material que vem do estrangeiro era - e dificilmente deixará de ser - mais barato", palavras textuais de José Pires. 
     Muito mais tarde - dezoito anos depois! - em 13 de Março de 1980, no Mundo de Aventuras nº336 (2ª série - 5ª fase), aparecia uma bd em estilo "western", intitulada Homens do Oeste, que iria terminar no nº340, e que era a terceira incursão de José Pires na Banda Desenhada em Portugal.
     Pouca coisa para tão grande entusiasmo como o que José Pires nutria - e nutre! - pela BD. E aí se lança ele a concretizar uma ideia audaciosa: envia fotocópias de dez pranchas de um herói chamado Will Shannon, por correio, para a redacção da Lombard, editora belga do Tintin. Passado um mês, aparece-lhe uma carta enviada por Jean-Luc Vernal, chefe de redacção da revista, propondo-lhe fazer equipa com o argumentista belga Jean Dufaux. Claro que José Pires aceitou, entusiasmado, a proposta. E logo em seguida começou a trabalhar na personagem Irigo.
     Assim se dava início a uma colaboração constante, que englobaria sete episódios de IRIGO, como, por exemplo (cito as que conheço pessoalmente), "Le souffle de la haine" (15 pranchas a cores), no Tintin nº31 (42º ano-28/07/87), e "The last bullet" (Super Tintin nº 31-4º trim. 1985); desviando-se para os temas históricos, que também domina com mestria, fez "La Mort du Batailleur", baseada em "A Morte do Lidador", de Alexandre Herculano (9 pranchas, a cores, Tintin nº48 - 42º Ano, 24/11/87). Uma pequena obra que se pode considerar pertença da BD portuguesa, todavia inédita em Portugal. (1) Ainda de ambiente medieval fez "Les Messagers" e mais cinco bedês (de cinco a seis pranchas cada) sobre Bertrand Du Guesclin.
     Mas antes, para enviar ao "Tintin" como se escreveu anteriormente, a fim de dar provas da sua capacidade, já o nosso artista tinha criado (a nível de desenhos e argumento), o tal herói de "western", Will Shannon, que é um pouco a projecção do seu próprio autor. Como diz José Pires: "É o meu imaginário. Apenas tem um rosto diferente: parece-se com o Gary Cooper, que era também, afinal, um ídolo da minha juventude, mas no Cinema".
     Juventude essa passada em Lisboa, a partir dos doze anos, apesar de José Pires (José Augusto Direitinho Pires) ter nascido em Elvas, a 10 de Outubro de 1935. Logo aos dois anos já vivia no Monte Estoril ("passei a Guerra lá", como ele diz) e, aos doze, (tinha acabado há pouco a 2ª Guerra Mundial) mudava-se de novo, agora para Lisboa. Como começara a estudar no Monte Estoril, no Colégio João de Deus, para lá continuava a ter de ir, todos os dias. Era uma longa viagem, primeiro o eléctrico para o Cais do Sodré, depois o comboio... Isso levou-o a ficar saturado, além de que "gostava mais de fazer bonecos"... E, é claro, acabou por desistir de estudar, ainda não tinha completado o 5º ano.
     Resultado: aos catorze anos José Pires começou a trabalhar numa tipografia, a Gráfica do Ultramar (que já não existe). Quanto ao seu entusiasmo pela BD, nascera cedo: passaram-lhe pelas mãos várias revistas: "Mosquito", "Diabrete" "Senhor Doutor", "Pluto", "Faísca", "Titã", "Cavaleiro Andante"... Entusiasmou-se com Vítor Péon (nessa altura o seu ídolo), E.T.Coelho, José Garcês, Jayme Cortez. Dos estrangeiros gostava de Burne Hogarth e, especialmente, de José Luís Salinas. Nunca, até hoje, algum artista ou herói da BD conseguiu dele maior admiração do que a que dedicou a Salinas e à personagem que mais o popularizou, o famoso Cisco Kid. 
     Mas voltando a Will Shannon: José Pires já tinha feito quarenta e oito pranchas para um primeiro episódio intitulado "Le Puis de la Mort". A Lombard gostou muito: Georges Pernin, um responsável daquele editora, dir-lhe-ia que, apesar disso, não o editariam, pois não estavam interessados em episódios soltos. "Eu escrevi-lhe a explicar que aquele seria o primeiro de um conjunto de histórias - contou-me José Pires - mas ele não deve ter percebido o meu inglês. Resultado: Will Shannon, como herói a solo (ele já tinha participado nos três últimos episódios de "Irigo") vai estrear-se em Portugal pela mão desse grande carola da Banda Desenhada que é o Chaves Ferreira. (2)
     Mas o Irigo acabou. O título pertence ao argumentista Jean Dufaux, e ele passou-se da Lombard para a Jacques Glénat. A José Pires restou-lhe a solução de criar ele próprio outra personagem a quem chamou Viriato, e que neste caso, será um novo herói de "western".
     Quanto à curta bd aqui estreada no EROS, o que há a dizer? Que o argumento foi extraído da Portugaliae Monumenta Histórica, e que se refere a um caso verídico passado no século XII. Além disso, diz o seu autor gráfico, "tratava-se de um projecto em que eu, o Zé Paulo, o Paiva, o Zepe, mais um rapaz brasileiro que cá vivia chamado Carlos Campos, e também o Álvaro Mata, iríamos trabalhar, para ser editado em álbum. O título seria Depois da Queca, mas, como tantos outros projectos que se fazem neste país, ficou em águas de bacalhau. Quem apanhou com esta história foi o Geraldes Lino, que ficou com estas duas páginas completamente grátis. Portanto, guardada estava a queca para quem a haveria de dar", graceja, a finalizar, José Pires.
     E eu acrescento: ora bem! Entretanto, vou remoendo uma curiosidade: seria este projecto em que entrava José Pires, anterior ou posterior àquele, extremamente semelhante, que conta José Luís Duarte no EROS nº4?
     Há coincidências de nomes de desenhadores envolvidos, e do tipo de história; mas, curiosamente, José Pires não conhece, nem sequer de nome, José Luís Duarte...
                                                      Geraldes Lino             
                                 
(1) Ou seja: é neste blogue que se publica em Portugal pela primeira vez.
(2) Já falecido. Era dono da extinta Editorial Futura.

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