quarta-feira, novembro 14, 2012

Improvisos na Toalha de Mesa (XII)




Não é habitual um autor de BD fazer de improviso, na toalha de mesa, uma imagem em registo de banda desenhada infantil. Mas foi exactamente o que fez Hugo Teixeira que se esmerou ao ponto de colorir a ilustração realizada na Tertúlia BD de Lisboa, no seu 340º encontro, que teve lugar no passado dia 6 de Outubro.

Haverá quem ache bizarro que um ilustrador/autor de BD, durante um convívio que inclui jantar, se dê ao trabalho de pintar um simples desenho feito de improviso na toalha de mesa.
Mas, no caso de HugoTeixeira, isso não será de estranhar, porquanto ele anda sempre com uma pequena mochila onde transporta um caderno de esboços e uma caixa de aguarelas. Foi com elas que pintou o desenho que ilustra o presente "post".

Aproveito para deixar aqui um recado à simpática Dona Gina, proprietária do restaurante que porta o seu nome, onde mensalmente se realiza a tertúlia: o Hugo Teixeira queixa-se de que o papel das toalhas de mesa já não é o que era há uns tempos atrás, ou seja, já não tem a mesma qualidade (para desenhar, claro...).
Efeitos da crise? 
-----------------------------------------------------------------

HUGO TEIXEIRA

Biobibliografia

Hugo César Ribeiro Teixeira nasceu a 1 de Setembro de 1980, em Amarante, em cuja escola secundária completou o 12º ano, e onde a BD fazia parte do programa de Educação Visual.

Impulsionado pelo gosto que sempre tinha tido pelo desenho, no 9º ano fez a sua primeira banda desenhada na disciplina de Português. Desde então, o seu currículo tem-se ampliado, com bifurcação para duas áreas, a das exposições e a da publicação das suas bedês, maioritariamente usando o estilo da BD japonesa (vulgo mangá).

No que se refere a exposições, participou no FIBDA - Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora, em 2006; na Casa da Animação (Porto), no âmbito da entrega dos troféus do portal Central Comics, para um dos quais tinha sido nomeado, e numa dedicada em exclusivo à mangá, na Biblioteca Municipal Albano Cerveira, de Amarante, em Fevereiro de 2008.

Quanto à componente de publicação, teve a sua estreia no BDJornal, nº 14, Ag./Set. 2006, com as bandas desenhadas "Os Monótonos Monólogos de um Vagabundo" e "Um Olhar", ambas de sua completa autoria (argumento e desenho).

Em Agosto de 2007 colaborou no Tertúlia BDzine (nº116) com a mangá "Os Corvos de Guerra", dessa vez sob argumento de Vidazinha; ainda em 2007, fez para a revista BDVoyeur (nº2-Set.), "A Dança das Fodas", mas a capa da revista anunciava "A Dança das Fadas", e é esse o título que constará num currículo mais sério do que este. Ainda em 2007 (Out.), surgiu "Bang-Bang", a primeira mangá portuguesa editada em álbum, de sua total autoria.

Em 2008, mês de Janeiro, foi-lhe publicada a bd "ESC-S-H", uma prancha a cores, no jornal Mundo Universitário; meses mais tarde fez a bd "O Gato", sob argumento de Vidazinha, para o fanzine Tertúlia BDzine (nº128-Jun.); e a finalizar o ano (Outubro), realizou o 2º tomo da obra "Bang-Bang".

Logo no início de 2009, de novo em equipa com Vidazinha, desenhou o episódio "Tintim em Mundos Alheios", para a obra colectiva "Tintim no Século XXI", publicada no fanzine Efeméride (nº4-Jan.09). E em Outubro apareceu o título "Bang-Bang Ultimate", que juntava os dois volumes num só, estando a obra valorizada com dois capítulos novos.

Com data de Outubro de 2011, mais uma vez a fazer duo com a argumentista Vidazinha, realizou os desenhos, coloriu e legendou o álbum "Mahou. Na Origem da Magia", com a chancela das Edições ASA, uma editora do grupo LeYa.

Numa área bem diversa, a da apresentação pública, Hugo Teixeira tinha sido entrevistado por Machado-Dias para a obra Monótonos Monólogos de Um Vagabundo em livro (de capa brochada com badanas, e miolo de 58 páginas), editado por Pedranocharco, em Maio de 2009.


Geraldes Lino


-----------------------------------------------------------------
Para o caso de alguém querer ver outras ilustrações improvisadas reproduzidas nos 11 "posts" anteriores, poderá fazê-lo clicando sobre o item 
 Improvisos na toalha de mesa 
visível no rodapé

terça-feira, novembro 13, 2012

Comic Jam (nº 46)


Eis o cadáver esquisito elaborado na Tertúlia BD de Lisboa, sob o título anglófono comic jam, na sua mais recente composição, ou seja, a 47ª banda desenhada feita de improviso por seis ilustradores/banda-desenhistas, cujos nomes aqui ficam registados, pela ordem sequencial das respectivas vinhetas que compõem a prancha:

1ª vinheta - Fil (Convidado Especial do 340º Encontro da Tertúlia BD de Lisboa
2ª vinheta - Carlos Páscoa
3ª vinheta - Miguel Gabriel
4ª vinheta - André Oliveira
5ª vinheta - Pedro Brito
6ª vinheta - Nuno Duarte "Outro Nuno"

Nota do bloguista (apenas para os iniciantes): Para aumentar convenientemente a imagem de forma as legendas dos balões ficarem bem legíveis, é necessário clicar duas vezes sobre a imagem (a segunda é quando aparece uma lente).

----------------------------------------------------------------------------
  
Os visitantes interessados em verem os "posts"anteriores deste tema, poderão fazê-lo com um simples clique no item Comic Jam visível no rodapé


quinta-feira, novembro 08, 2012

Artigos Sobre BD - Os meus (II) - Fanzines, Focos de Resistência


No anteriormente citado meu artigo, publicado no fanzine Banda datado de Setembro de 1993 - que dividi em duas partes, estando a primeira na postagem anterior -, tratei da tradicional vida breve das revistas de BD.

Que fique claro: entram nessa categoria de revista de banda desenhada apenas as publicações comerciais/profissionais, lançadas por editoras legalizadas, que as editam com a finalidade de obterem lucro, a fim de cobrirem as despesas de edição - onde se inclui o pagamento aos autores colaboradores, um ponto fundamental para a classificação de revista.

As publicações editadas por editores não profissionais - ou seja, amadores, a nível individual, ou em grupo, ou mesmo em associações culturais sem fins lucrativos, que não pagam aos autores colaboradores, trabalhando estes pro bono -, eis os fanzines. 

Reproduzo em seguida esse meu texto, escrito há quase vinte anos, mas que se mantém com suficiente actualidade.  
..............................................................................
 FANZINES, FOCO DE RESISTÊNCIA

Para análise do artigo anterior [dedicado à vida mais ou menos efémera das revistas de BD comerciais], conclui-se que seria natural o aparecimento de uma solução alternativa.

Assim se chega a esse fenómeno editorial amador, humilde mas activo componente da imprensa paralela que são os fanzines.

Editados em curtas tiragens, por apaixonados apreciadores de vários temas com aceitação relativamente restrita, fazem parte do fandom, abreviatura de origem americana pela qual passou a ser conhecido o domínio dos comic books e dos zines, onde se incluem os newzines, graphzines, slimzines e prozines.

Verifica-se, através deles, que a maioria dos bedéfilos mantém as suas justas exigências artísticas - quer como apreciadores, quer como autores - e também as suas necessidades de acesso à informação actualizada, permitindo que os fanzines se mantenham imprescindíveis, (1) enquanto activos e constantemente renovados suportes de BD.

Uma das suas facetas mais evidentes e positivas, é a de neles participarem vários estratos de bedéfilos: os que têm tendências artísticas, mas que não vêem quaisquer hipóteses de serem publicados de outra forma; os que gostam de escrever, quer se trate de argumentos, estudos ou críticas; por último, os que preferem ser editores, seja para divulgarem as suas próprias produções, seja para terem o prazer de publicar autores que conhecem e apreciam.

Em qualquer dos casos, vários nomes actualmente bem conhecidos no meio tiveram a sua estreia em fanzines.
Entre nós, as várias dezenas de fanzinistas que colaboram em qualquer das vertentes, são de escalões etários diversos. No que concerne aos numerosos desenhadores - e também aos argumentistas, estes bem mais raros -, eles são bastante jovens, quase sem excepção.
Algo diferente é o panorama que abrange editores, críticos e estudiosos, onde é habitual encontrar considerável número de adultos.

Sabem todos os apreciadores de BD mais informados - em especial os fanzinéfilos e fanzinólogos - que os fanzines se dividem em três géneros: os que se dedicam em exclusivo à publicação de bandas desenhadas; os que são totalmente preenchidos por textos (estudos, críticas, biografias e noticiário); e os mistos, que englobam estas duas facetas.

O primeiro fanzine de que há memória foi o Giff-Wiff, (2) editado em França em 1962. Era de boa qualidade, e dedicava-se em especial à exegese da BD, mas também à informação.
Quer isso dizer, portanto, que a primeira necessidade sentida pelos faneditores pioneiros foi a de poderem publicar textos sobre a matéria.  
É natural que assim tenha acontecido: estava-se num período de prosperidade editorial, havia suficientes revistas para publicar banda desenhada propriamente dita e, consequentemente, apenas se fazia sentir a falta de uma publicação que se dedicasse em exclusivo àquela nova tarefa.

Quanto ao que aconteceu por cá, dez anos mais tarde - o fandom português iniciou-se com o Argon, editado em Janeiro de 1972 - foi, nos seus começos, exactamente o oposto. Além de aspecto bastante artesanal, este iniciador do movimento fanzinístico em Portugal - há um anterior, o Melro, curioso caso de pioneirismo avant la lettre, embora mera iniciativa isolada e inconsequente - ocupava todas as suas páginas com bandas desenhadas de autores principiantes, sinal de que era aí que doía. Ou seja:os jovens sentiram a necessidade de um espaço permissivo onde pudessem publicar as primeiras tentativas. Todavia, no seu quarto e último número, o Argon passava também a incluir notícias e artigos, diversificando o seu conteúdo.

Daí por diante, o panorama fanzinístico nacional continuou por trilhos semelhantes, apenas sendo de realçar o nível gráfico alcançado por alguns dos títulos publicados, ou a sua longevidade.
Mas, com maior ou menor qualidade, mais ou menos longa duração, todos os fanzine têm tido uma luta comum: a de constituirem campos de ensaio abertos a vários tipos de experiências gráficas, a novos ensaísta, críticos e estudiosos, e até - embora esporadicamente, já aconteceu  - a provocarem o surgimento de editores amadores.

Numa época eminentemente recessiva, no que à BD se refere, é indubitável que os fanzines dão azo a que se mantenha em actividade grande número de quadradinhófilos - termo aplicável a quem prefere a tradicional denominação de histórias aos quadradinhos - que facilitam a divulgação de novos valoresnas diversas áreas, e permitem o aperfeiçoamento das já existentes.

Em última análise, é graças aos fanzines que o meio bedéfilo permanece vivo, e se vai alargando de Norte a Sul do país.
Pode acontecer que, chegados a certo ponto, se depare aos fanzinistas a impossibilidade de atingir a meta ambicionada: a publicação das suas bandas desenhadas, estudos, ensaios ou críticas em revistas profissionais, pelo simples facto da sua inexistência. 

Mas enquanto existirem fanzines, haverá onde coninuar a albergar as produções artísticas e literárias de todos os bedéfilos, jovens ou menos jovens.
Com a sua vitalidade e, algumas vezes, irreverência, os fanzines significam, no mínimo, um permanente ponto de encontro e conhecimento mútuo dos bedéfilos.
E é possível que possam vir a constituir, em desespero de causa, um último e constantemente renovado foco de resistência e sobrevivência da banda desenhada.(3)

 Notas
(1) Esta afirmação, que era pertinente em 1993, deixou de o ser nesta última década. Já não há publicações em papel, amadoras ou profissionais, imprescindíveis. Mesmo as francesas e as espanholas vão desaparecendo umas após outras, tal como também acontece com os jornais. Para o bem e para o mal, existe a Internet. 

(2) Posteriormente obtive informação acerca do fanzinato nos Estados Unidos da América, e concluí que, afinal, tinham sido faneditores americanos a editarem os primeiros fanzines, tendo sido também lá que se criou esse neologismo em 1940, por um tal Louis Russel Chauvenet.

Por conseguinte, aproveito para corrigir e actualizar aquela informação:
O primeiro de todos os fanzines foi dedicado à Ficção Científica e teve por título Cosmic Stories, editado em 1929 por um jovem chamado Jerome (Jerry) Siegel, que, como é sabido por todos os que lerem estas notas, haveria de ser um famoso argumentista, tanto quanto o herói Super-Homem para o qual iria escrever múltiplos argumentos para o seu amigo Joe Shuster desenhar.

Quanto ao primeiro fanzine dedicado à BD foi o Fantasy World (mais tarde com o título mudado para Phantasy World) começado a editar por David A. Kyle, em Fevereiro de 1936.     

(3) Quando escrevi isto devia estar muito optimista. 

quarta-feira, novembro 07, 2012

Artigos sobre BD, Os meus artigos (I) "Crise nas revistas de BD"



Estava um destes dias a mexer na minha vastíssima colecção fanzinística, e deparou-se-me o exemplar nº 20, de Setembro de 1993, do fanzine Banda, dedicado à BD, editado por Rui Brito, zine esse que obteve vários prémios. E, como dizia na capa "Quando o Fim Chega", excitou-me a curiosidade de o folhear.

Lá encontrei colaboração minha (1) de que me lembrava parcialmente, mas já não tinha ideia de que fazia parte do conteúdo daquele número, último do Banda.

Na minha opinião - suspeita, admito - considerei que o meu texto, dividido em duas partes, tinha suficiente actualidade para o incluir aqui - sendo a primeira parte uma análise ao momento de crise de interesse pela leitura de BD, das revistas em especial, que já então se verificava - ou seja, esse tema já vem de há muitos anos -, e as principais razões do fenómeno. 

--------------------------------------------------------------------------

A CRISE NAS REVISTAS DE BD

Antes de mais, não será despiciendo começar por dizer que o tempo de crise atingiu há muito a banda desenhada.

Após ter sido, para a juventude de décadas anteriores à de setenta, o que depois passou a ser a televisão, tem vindo gradualmente a decrescer de importância enquanto forma de entretenimento. Mesmo considerando que, em alguns casos - Astérix, Heróis Disney - ainda se mantêm elevados índices de popularidade.

Analisando-se as causas da crise (2), não restam dúvidas que uma das mais evidentes é a irresistível facilidade de se poder ver em nossa casa, num pequeno rectângulo luminoso, heróis inter-galácticos, agentes ultra-secretos, super-polícias impolutos, versões romanceadas da história. E para se ter tudo isso em movimento, som e cor, basta premir-se uma tecla, que até pode ser à distância. É quase um gesto automático, dir-se-ia sonâmbulo, por vezes, que vai alastrando, subjugando um universo cada vez mais alargado de pessoas, em número e idades, imobilizando-os na maior parte do seu tempo disponível. Poder-se-ia definir tal fenómeno hodierno por "tirania do pequeno écrã".

Como estranhar, então, que os jovens se lhe submetam (3), e se habituem, desde muito cedo, a receber directamente em casa, a desejada parcela de  evasão à rotina do quotidiano.

Adicione-se-lhe, no que concerne à juventude actual, o fascínio hipnótico dos jogos de vídeo e de computador. E compreender-se-á assim que, irreversivelmente, passou o tempo em que os jovens procuravam o sonho consciente no cinema, na literatura ou na banda desenhada.

LER CADA VEZ MENOS

De acordo com esta abordagem da realidade actual, ler passou a constituir um escape lúdico e cultural "em vias de extinção". Ou, por um prisma menos pessimista, pressente-se que corre o risco de ficar reduzido a prazer de elites cada vez mais restritas. E como a BD tem uma habitual componente de texto, é natural que dentro desta perspectiva, esteja condenada a fim semelhante.

Cingindo-se a presente análise ao panorama português, há outro aspecto penalizante: é que entre nós, durante décadas, a banda desenhada teve apenas por suporte um tipo de revistas que privilegiavam, quase invariavelmente, o sistema de histórias em continuação. Isto exigia, do leitor/visionador, razoável dose de paciência para aguardar o evoluir dos episódios de número para número. Com a agravante de que as revistas eram, na generalidade, semanais ou quinzenais...

Aliás, tal sistema era igualmente usual noutros países europeus, nomeadamente Itália, Bélgica, França ou Espanha. Isso sem embargo de sempre terem existido, em simultâneo, algumas revistas que preferiam incluir episódios completos, em especial nos Estados Unidos, com os seus "comic books".

A comparação dos resultados obtidos por revistas usando esquemas tão diferentes terá sido favorável às que apenas incluíam histórias conclusivas em cada número. Mas nem essa solução, frequentemente adoptada, foi suficiente para evitar a visível crise das publicações periódicas de BD. Prova bem concreta tem sido a vida efémera de algumas delas, ou o fim abrupto de outras que, ao longo de anos, tinham transmitido a imagem de uma estabilidade inabalável.

De pouco tem valido aos editores a procura de uma solução de compromisso entre as duas hipóteses, passando a inserir várias pequenas histórias curtas em cada número, em simultaneidade com pequenas parcelas - uma, duas ou poucas mais páginas - de séries longas, mantendo assim a componente tradicional do género que ainda hoje tem os seus adeptos, apreciadores da expectativa criada pela frase "continua no próximo número".

A diminuição da popularidade das revistas de banda desenhada tornou-se um facto concreto, em especial a partir da década de setenta. Em Portugal prova-se tal afirmação citando os títulos VISÃO, JORNAL DA BD, MOSQUITO (V SÉRIE) e SELECÇÕES BD, todas de curta existência.

Fenómeno semelhante se tem verificado em países onde a BD beneficia de mercado bem mais amplo e de maior poder económico. É o caso, por exemplo, de Espanha, Bélgica e França onde, nas décadas de setenta e oitenta, desapareceram alguns títulos de grande prestígio, nomeadamente BLUE JEANS, BOOMERANG, TOTEM, COMIX INTERNACIONAL, CAIRO, TINTIN,CHARLIE, PILOTE, MÉTAL HURLANT e CIRCUS - para apenas citar as de mais longa existência - além de uma das raras revistas dedicada em exclusivo ao estudo, crítica e informação, os CAHIERS DE LA BANDE DESSINÉE. E, muito recentemente (4), cessou de publicar-se a prestigiosa VÉCU (ilustra o topo do "post" a imagem da capa do nº 37, de 2003) .

Para além das razões já focadas anteriormente - tirania da TV, dos videojogos e jogos de computador - a par com a notória e crescente falta de paciência para acompanhar histórias publicadas parcelarmente, há que apontar desassombradamente para um factor decisivo, gerado no próprio meio editorial: a deliberada preferência das editoras pelos álbuns, em detrimento das revistas.

Não se justifica dissecar-se exaustivamente neste artigo os motivos dessa preferência. Mas, aflorando apenas o problema, poder-se-á dizer que uma das razões principais tem a ver com as diferenças de tempo de "vida" entre a revista e o álbum, com nítida vantagem para este. Efectivamente, cada número de uma revista está à venda nas bancas, papelarias ou livrarias, uma semana no máximo, sendo logo as sobras - já com alguns exemplares em mau estado - devolvidas à distribuidora e mais tarde à editora; em contrapartida, os álbuns podem permanecer à venda nas livrarias por períodos de tempo consideráveis. A diferença de garantias na recuperação dos investimentos pende, vantajosamente, para o álbum   

-------------------------------------------------

(1) Por falha que me desagradou, o nome do autor do artigo não ficou registado sob o título, ao invés do que acontecia com outros autores de textos naquele exemplar, como era o caso de Domingos Isabelinho, Fernando Vieira e o próprio faneditor, Rui Brito.

(2) Note-se a persistência da palavra crise neste pobre país.

(3) Agora, além da televisão, são também os jogos de computador, de vídeo, as consolas, enfim, a conhecida parafernália informática.

(4) Aqui, a frase "muito recentemente" tem de ser lida com a noção de que este artigo foi escrito em 1993 

-------------------------------------------------------------------------------
As anteriores postagens relacionadas com este tema podem ser vistas, basta para isso clicar no item Artigos sobre BD - Os meus visível aqui no rodapé

segunda-feira, novembro 05, 2012

Tertúlia BD de Lisboa - 340º Encontro - Novembro 2012


Vai realizar-se no dia 6 de Novembro 2012, primeira 3ª feira do mês, o 340º Encontro da Tertúlia BD de Lisboa, que, como sempre desde há vinte e seis anos, se realiza no único restaurante (actualmente) existente no Parque Mayer. 

Haverá, como habitualmente, um autor de BD na condição de Convidado Especial. No caso presente é alguém que assina Fil como nome artístico, e já tem a seu crédito um significativo número de bandas desenhadas, daí a distinção que lhe é prestada, como incentivo, na TBDL.

As imagens que ilustram a postagem são as seguintes:
1) 1ª prancha da bd "The Night" - in Zona Gráfica - Vol. 1 (2010)
2) Estudo para a bd IDW (2010)
3) Prancha da bd "Nocturna", feita sob argumento de André Oliveira - in Zona Negra 2 (2010)
-----------------------------------------------------------------
Fil

Síntese biográfica

Luís Filipe Vieira da Silva Lopes, Porto,15 de Novembro de 1977. Possui doutoramento em Ciências Biomédicas.Teve uma introdução à Pintura sob orientação do artista plástico Dagoberto Silva, e foi orientado na área da Ilustração Científica pelo ilustrador Pedro Salgado. 
Embora na Banda Desenhada seja autodidacta, Fil (o seu nome artístico) tem desenvolvido uma constante actividade na BD nos seus tempos livres, umas vezes como autor completo, outras simplesmente no papel de desenhador, fazendo dupla com arrgumentistas.
Além disso, ele lançou um dos mais importantes fanzines portugueses de banda desenhada da actualidade, tanto no conteúdo como no aspecto gráfico, o Zona, (a que mais tarde se associou André Oliveira na equipa editorial). O Zona desdobra-se em diversos temas (indicados no subtítulo), e onde Fil tem publicado a maior parte da sua produção em BD:
Zona Zero - Maio 2009 - Fez a ilustração da capa, uma ilustração interior, e uma bd de três pranchas, a cores, intitulada "Anomalia";
Zona Negra - Set. 2009 - Uma ilustração, e a bd a preto e branco,"Rotina", em quatro pranchas, sob argumento de Gustavo Carreira; 
Zona Fantástica - Março 2010 - Uma bd a cores, de quatro pranchas, com o título "Dador Universal";
Zona Gráfica (Vol.1) - Maio 2010 - Criou a bd "A Noite" em quatro pranchas, a cores, mas publicada no fanzine a preto e branco; fez, em parceria com André Oliveira, a bd "3ª directa";
Zona Gráfica (Vol.2) - Maio 2010 - Uma bd a cores de quatro pranchas, intitulada "Married Style", sob argumento de Geoff Sebesta e Justin Humphries;
Zona Negra 2 - Nov. 2010 - A bd "Nocturna", de três pranchas, com argumento de André Oliveira;
Zona Monstra - Março 2011 - Uma bd de quatro pranchas com argumento de André Oliveira, e uma bd de duas pranchas, a cores, intitulada "Cabaret Monstra", sob argumento de Gabriel Martins;
Zona Gráfica 2 - Maio 2011 - A bd "Sangue", de quatro pranchas, com argumento de André Oliveira;
Zona Nippon - Maio 2012 - A bd "Samurai - Aquele Que Serve", cinco pranchas sob argumento de Gabriel Martins;
Zona Desenha - Out. 2012 - Uma bd sem título, feita com o filho David, de cinco anos, na altura da colaboração.
Fil faz parte da direcção da Associação Tentáculo, que tem publicado diversas obras de BD, Ilustração, Poesia e ficção. Visível em:
e é fundador, editor e designer gráfico do Zona (ver em)
Tem participado em exposições individuais de Pintura e Desenho, e já foi formador num workshop de BD intitulado "Do Esboço à Arte Final", integrado no evento "BD ao Forte" (Lisboa, 2012).  
Além dos anteriores indicados, tem activos mais dois espaços internéticos:
Geraldes Lino 

----------------------------------------------------------------------------------------                           Lista de presenças neste 340º Encontro da TBDL

(Lista elaborada a posteriori e susceptível de ter falhas; por isso agradeço que quem notar alguma, envie comentário):
1.Adelina Menaia

2.Álvaro
3.Ana Saúde
4.Ana Vidazinha
5.André Oliveira
6.António Isidro
7.Carlos Páscoa
8.Cristina Amaral
9.Falcato
10.Fil (Convidado Especial)
11.Filipe Bravo
12.Filipe Duarte
13.Francisco Cunha
14.Frederico Carvalho
15.Geraldes Lino
16.Helder Jotta
17.Horácio
18.Hugo Teixeira
19.Inês Ramos
20.João Amaral
21.João Figueiredo
22.José Pinto Carneiro
23.Manuel Valente
24.Miguel Ferreira
25.Miguel Gabriel
26.Miguel Sousa Ferreira
27.Moreno
28.Nuno Amado
29.Nuno Duarte "Outro Nuno"
30.Nuno Neves
31.Paulo Costa
32.Pedro Bouça
33.Rui Domingues
34.Sá-Chaves, João Paulo
35.Simões dos Santos



--------------------------------------------------------------------
Os visitantes interessados em ver as anteriores postagens poderão fazê-lo clicando no item Tertúlia BD de Lisboa, incluído em rodapé  

domingo, novembro 04, 2012

Festivais, Salões BD e afins - (Amadora) - 23º Amadora BD/2012 - Prémios e Premiados (4º de 5 "posts")


Na postagem anterior ficaram registadas as categorias - obras de BD, nacionais e estrangeiras, álbuns de tiras humorísticas, clássicos portugueses, fanzines - candidatos aos diversos prémios, que foram sujeitos a análise e votação de um júri de especialistas de banda desenhada.

Na cerimónia que hoje se realizou, a partir das 18h30, no edifício dos Recreios da Amadora, foram publicitados todos esses prémios - inclusive os que foram atribuídos aos vencedores do concurso de BD, este ano, excepcionalmente, com tema livre.

Como é habitual, o espectáculo decorreu de forma agradável, desta vez com a parte de espectáculo preenchida pelo duo Carlos Barreto (bem conhecido músico de Jazz, a tocar contrabaixo) e António Eustáquio, no guitolão, alternando com os premiados a subirem ao palco para a respectiva entrega dos prémios, que distinguiram as seguintes obras e autores:

PRÉMIO CIDADE DA AMADORA
José de Matos-Cruz

CLÁSSICOS DA 9ª ARTE
Obra: “Sangue Violeta e outros contos”
Autor: Fernando Relvas
Editora:El Pep
Nota do bloguista: A capa deste álbum serve de ilustração ao topo da postagem

BD PORTUGUESA - MELHOR ÁLBUM
“As Aventuras de Dog Mendonça e Pizzaboy II – Apocalipse”
Autores: Filipe Melo (arg.) e Juan Cavia (des.)
Editora: Tinta da China


BD PORTUGUESA - MELHOR ARGUMENTO
Obra: “O Pequeno Deus Cego”
Argumentista: David Soares
Editora: Kingpin Books

BD PORTUGUESA - MELHOR DESENHO
Obra: “Pontas Soltas – Cidades”
Desenhador: Ricardo Cabral
Editora: ASA

MELHOR ILUSTRAÇÃO PARA LIVRO INFANTIL
Ilustradora: Madalena Matoso
Obra: “Todos Fazemos Tudo”
Editora: Planeta Tangerina

PRÉMIO JUVENTUDE
Obra: “Pontas Soltas – Cidades”
Autor: Ricardo Cabral
Editora: ASA


MELHOR ÁLBUM ESTRANGEIRO
Obra “Blankets”
Autor: Craig Thompson
Editora: Biblioteca de Alice/Devir


MELHOR ÁLBUM DE TIRAS HUMORÍSTICAS
Obra: “Os Nossos Mutts”
Autor: Patrick McDonnell
Editora: Devir

MELHOR FANZINE
Título: “Fábrica, Baldios, Fé e Pedras atiradas à lama”
Tiago Baptista (coordenador)
Editora: Oficina do Cego (editor)

Nota do bloguista: Corrijo o comentário inicial: na realidade, esta edição corresponde à categoria de fanzine, visto que a Oficina do Cego, é uma associação não lucrativa.
  

---------------------------------------------------------------------------

CONCURSO DE BANDA DESENHADA
- T E M A  L I V R E -
Vencedores
E S C A L Ã O  A
1 º P R É M I O
Bernardo Anjos Majer Baptista da Silva, Lisboa.
2 º P R É M I O
Ana Sofia Vieira Fernandes, Azóia.
3 º P R É M I O
Carlos Duarte Neves Pires, Odivelas.
M E N Ç ÃO  H O N R O S A
Nuno Miguel Lourenço Rodrigues, Lisboa.
M E N Ç Ã O H O N R O S A
João Duarte Alcântara Guapo de Almeida, Turcifal.
E S C A L ÃO A +
1 º P R É M I O
Sérgio Rafael Malheiro De Almeida Nunes, Lisboa.
M E N Ç Ã O  H O N R O S A
João André Machado de Almeida Ribeiro/
Joana Leite Cabral Caldeira, Amadora.
M E N Ç Ã O  H O N R O S A
Duarte Nuno Ferreira da Silva Lázaro, Lisboa.

E S C A L Ã O  B
1 º P R É M I O
Filipe Jorge Hichwa Leitão, Oeiras
.
2 º P R É M I O
Bernardo Serra Motta, Setúbal
.
3 º P R É M I O
Tiago Rodrigo Constantino Pereira, Setúbal.

C A R T O O N
1 º P R É M I O
Bernardo João de Almeida Moreira
, Colares.
2 º P R É M I O
Jorge André Bernardo Catarino, Amadora.
3 º P R É M I O
Jorge André Bernardo Catarino
, Amadora.
---------------------------------------------------------------------------
Para ver as três postagens anteriores referentes a este 23º Festival BD da Amadora e também mais antigos de outras edições, bastará clicar no item Etiquetas: Festivais, Salões BD e afins, visível no rodapé      

sábado, novembro 03, 2012

Festivais, Salões BD e afins - (Amadora) - 23º Amadora BD/2012 - Candidatos aos Prémios (3º de 5 "posts")


Como sempre acontece de há uns anos a esta parte, é no primeiro dia do segundo fim de semana do Festival BD da Amadora (desta vez, no Sábado, dia 3 de Novembro), que se realiza a cerimónia da entrega dos prémios atribuídos às mais importantes componentes da Banda Desenhada: autores (desenhadores e argumentistas) e obras.


O local, já usado muitas vezes, é o auditório dos Recreios da Amadora, a hora é também a habitual, 18h30.

Para quem nunca assistiu a uma destas cerimónias, poderá pensar tratar-se de uma grande estopada, com muitos discursos.
A realidade é bem diferente: trata-se de uma sessão bastante animada, habitualmente apoiada em pequenos "sketches" teatrais e/ou musicais que intercalam o acto de entrega dos prémios aos vencedores,nos diversos escalões, do concurso de BD, e outorga dos troféus aos autores e obras votadas como vencedores das respectivas categorias.

Seleccionados os autores e escolhidas as obras por um júri composto por especialistas de BD, só hoje se irá saber qual o/a vencedor/a em cada item.

Aqui fica o registo completo de autores e obras a disputar os prémios:

BD PORTUGUESA - MELHOR ÁLBUM
“As Aventuras de Dog Mendonça e Pizzaboy II – Apocalipse”
Autores: Filipe Melo (arg.) e Juan Cavia (des.)
Editora: Tinta da China

“Diário Rasgado”
Autor: Marco Mendes
Editora: Mundo Fantasma

“Hän Solo”
Autor: Rui Lacas
Editora: Polvo

“O Pequeno Deus Cego”
Autores: David Soares (arg) e Pedro Serpa (des)
Editora: Kingpin Books

“Pontas Soltas – Cidades”
Autor: Ricardo Cabral
Editora: ASA

“Sobrevida”
Autores: Carlos Pinheiro e Nuno Sousa
Editora: Imprensa Canalha

BD PORTUGUESA - MELHOR ARGUMENTO
“As Aventuras de Dog Mendonça e Pizzaboy II – Apocalipse”
Argumentista: Filipe Melo
Editora: Tinta da China

“Hän Solo”
Argumentista: Rui Lacas
Editora: Polvo

“O Menino Triste - Punk Redux”
Argumentista: João Mascarenhas
Editora: Qual Albatroz

“O Pequeno Deus Cego”
Argumentista: David Soares
Editora: Kingpin Books

“Pontas Soltas – Cidades”
Argumentista: Ricardo Cabral
Editora: ASA

BD PORTUGUESA - MELHOR DESENHO
“Diário Rasgado”
Desenhador: Marco Mendes
Editora: Mundo Fantasma

“Hän Solo”
Desenhador: Rui Lacas
Editora: Polvo

“O Pequeno Deus Cego”
Pedro Serpa
Editora: Kingpin Books

“Pontas Soltas – Cidades”
Desenhador: Ricardo Cabral
Editora: ASA

“Sobrevida”
Autores: Carlos Pinheiro e Nuno Sousa
Editora: Imprensa Canalha

MELHOR ÁLBUM ESTRANGEIRO
“Blankets”
Autor: Craig Thompson
Editora: Biblioteca de Alice/Devir

“Bouncer" -  Tomo 6 e 7
Autores: Boucq e Jodorowsky
Editora: ASA

“Maria e Eu”
Autores: María Gallardo e Miguel Gallardo
Editora: ASA

“Persépolis”
Autora: Marjane Satrapi
Editora: Contraponto

“Spirou, Nas Origens do Z”
Autores: Morvan, Yann e Munuera~
Editora: ASA

“Thor, As Idades do Trovão”
Autor: vários
Editora: Levoir

MELHOR ÁLBUM DE TIRAS HUMORÍSTICAS
“Dilbert, Liberdade é só mais uma palavra para as pessoas descobrirem que és
incompetente”

Autor: Scott Adams
Editora: ASA

“Há Piores!”
Autores: Geral & Derradé
Editora: Polvo

“Os Nossos Mutts”
Autor: Patrick McDonnell
Editora: Devir

“Provérbios… com gatos!”
Autora: Catherine Labey
Editora: ASA

MELHOR ILUSTRAÇÃO PARA LIVRO INFANTIL
Ilustradora: Ana Biscaia
Obra: “A Cadeira que Queria ser Sofá”
Editora: Lápis de Memórias

Ilustrador: Bernardo Carvalho
Obra: “Ir e Vir”
Editora: Planeta Tangerina

Ilustradora: Catarina Sobral
Obra: “Greve”
Editora: Orfeu Mini

Ilustrador: Daniel Silvestre da Silva
Obra: “A Mãe que Chovia”
Editora: Quetzal

Ilustrador: Gonçalo Viana
Obra: “Esqueci-me como se chama”
Editora: Bruaá Editora

Ilustradora: Madalena Matoso
Obra: “Todos Fazemos Tudo”
Editora: Planeta Tangerina

Ilustrador: Nuno Saraiva
Obra: “A Crise explicada às Crianças”
Editora: A Esfera dos Livros

Ilustrador: Pedro Brito
Obra: “A Casa Sincronizada, uma história musical”
Editora: Caminho

Ilustrador: Richard Câmara
Obra: “Histórias às Cores”
Editora: Everest

CLÁSSICOS DA 9ª ARTE
Obra: “Capitão América, a Lenda Viva”
Autor: vários autores
Editora: Levoir

Obra: “Corto Maltese na Sibéria”
Autor: Hugo Pratt
Editora: ASA

Obra: “O País dos Cágados”
Autores: António Gomes DAlmeida (arg.) e Artur Correia (des.)
Editora: Bertrand Editora


Obra: “Sangue Violeta e outros contos”
Autor: Fernando Relvas
Editora:El Pep

Obra: “Spirou, QRN sobre Bretzelburgo”
Autores: Franquin e Greg
Editora: ASA

FANZINE
“Efeméride" nº5, "Corto Maltese no Século XXI”
Geraldes Lino (coord. e editor)

“Fábrica, Baldios, Fé e Pedras atiradas à lama”
Tiago Baptista (coord)
Oficina do Cego (editor)

“Franco Caprioli, no centenário do desenhador poeta”
Jorge Magalhães (coord.)
Editor: Câmara Municipal de Moura


“Lodaçal Comix" nº6
Rudolfo e Ruru Comix (coord e editor)

“Magical Otaku 1”
Rudolfo e Ruru Comix (coord. e editor)

“Zona Nippon 1”
Editor: Associação Tentáculo
--------------------------------------------------------------------------
Para ver postagens anteriores acerca de Festivais BD, bastará clicar no item
Etiquetas: Festivais, Salões BD e afins, visível no rodapé

quinta-feira, novembro 01, 2012

Coleccionadores e Colecções de BD (IV) - Carlos Gonçalves





Ouvir coleccionadores de BD falar das suas colecções de revistas e álbuns de banda desenhada, é acompanhar em pensamento as tentativas, com êxito ou fracassadas, de conseguir uma determinada peça em falta, ou uma colecção antiga completa, dificílima de conseguir encontrar.

É também uma viagem no tempo, a acompanhar um coleccionador de BD - afinal, em última análise, um compulsivo apaixonado pela Banda Desenhada.
É o caso de Carlos Gonçalves, que entrevistei para a revista Coleccionando em Abril de 1984 - e é tendo em atenção os quase trinta anos que entretanto se passaram, que esta entrevista deve ser lida. Repare-se que os preços mencionados pelo coleccionador ainda são em escudos... 

Imagens que ilustram a postagem (de cima para baixo):
1. Capa do nº 110, Ano 3º, de 20 de Janeiro de 1935, da revista Tic-Tac
2. Capa do nº 216, Ano 5, de 31 de Janeiro de 1937, da revista Tic-Tac
3. Foto do coleccionador Carlos Gonçalves (a diferença mais visível, actualmente, é a de ter passado a usar bigode)
4. 1ª página da rubrica "Coleccionando bd" (nº3)
5. 2ª página da mesma rubrica
6, Capa da revista Coleccionando (nº5 - Abril 1984 - Preço 70$00) 
----------------------------------------------------------------------------------
(Reprodução do texto da entrevista realizada em Abril de 1984)  

O "TIC-TAC" a forrar um soalho
- Sacrilégio para um coleccionador de BD

Embora se trate de um facto insólito, CARLOS GONÇALVES foi dele espantada testemunha.
É claro que coisas destas muito dificilmente acontecem hoje, pois a notícia do interesse que despertam as antigas revistas de histórias aos quadradinhos já é bastante divulgada.
Todavia, ainda há bem poucos anos era possível presenciarem-se cenas iguais ou semelhantes, como se pode verificar pelo relato do nosso entrevistado.

Apaixonado pela BD, Carlos Alberto Davis Mártires Gonçalves nasceu em 10 de Novembro de 1941, em Lisboa, sendo actualmente Chefe de Departamento numa empresa ligada ao ramo automóvel. Fora da sua actividade profissional ele é, além de coleccionador de BD, um dos mais activos dirigentes do Clube Português de Banda Desenhada - CPBD, de que foi um dos fundadores.
Como exemplo da sua infatigável acção, cita-se o facto de manter, praticamente sozinho, duas secções dedicadas ao estudo e divulgação da especialidade: "Correio da Banda Desenhada" (às 5ªs feiras no "Correio da Manhã"), e "A Coluna da Banda" (na edição dominical do "Diário Popular").
Possuidor de uma capacidade de trabalho bastante invulgar, tomou também a seu cargo, desde 1977 - salvo esporádicas excepções - a montagem do "BOLETIM", fanzine bimestral do CPBD.
Ouçamo-lo na sua faceta de coleccionador.
- Carlos Gonçalves: quando começaste a coleccionar revistas de Banda Desenhada?
- Tanto quanto me lembro, desde os 5 anos, pois nessa altura a minha mãe trabalhava em modista, numa casa em Benfica, cujo dono tinha "O Mosquito" desde o número 1, que li, e dos quais me foram dados alguns. Posteriormente desapareceram... Mas a minha primeira colecção que adquiri toda, semana a semana, foi o "Cavaleiro Andante" (que ainda possuo). A partir daí comecei a comprar tudo o que saía, embora no ano em que fui para a tropa, tenha vendido muitas das revistas que possuía na altura, e que voltei a adquirir mais tarde.
- Quais as melhores colecções que tens?
- A melhor é "O Mosquito", contando também com o "Diabrete", "O Mundo de Aventuras", "O Senhor Doutor" e principalmente muitas brasileiras, mesmo antigas.
A mais rara para mim é o "Escudo", revista portuguesa da qual sairam três números em 1956/7.
- Qual o preço mais elevado que pagaste por uma peça portuguesa e/ou estrangeira e quanto?
- O mais caro que paguei por exemplares de revistas portuguesas foram 50$00. Adquiri alguns números do "Tic-Tac" por este preço.
- Coleccionas mais alguma coisa?
- Já coleccionei postais e caixas de fósforos.
- Qual a colecção que te deu ou está a dar mais dificuldade em completar?
- A mais difícilde completar tem sido o "Abczinho" e o "Tic-Tac". Desta última não conheço ninguém que a tenha completa.
- Lembras-te de algum episódio pitoresco da tua actividade de coleccionador?
- Lembro-me de três por sinal, que não me importo de contar, desde que não mace os leitores... Ao mesmo tempo servirá para dar uma ideia da paciência que o coleccionador deverá ter para conseguir adquirir as revistas que lhe faltam na colecção e da grande dose de sorte, que normalmente o deve acompanhar, quando procura ansiosamente aquilo que gostaria de ter.
Vamos aos episódios:
Aí em 1976 (mais ou menos) - foi depois que alguns dos residentes no Ultramar voltaram à Metrópole -, adquiri uma colecção do "Diabrete", numa banca de revistas antigas a menos de 1$00 cada exemplar. Custou-me 860$00. Hoje vale 25.000$00.
Passado pouco tempo, talvez um ano depois, adquiri um exemplar do Almanaque de "O Mosquito" de 1945, que estava no meio do chão, na rua, misturado com outras revistas mais recentes que um pobre homem vendia junto ao Jardim da Estrela. Custou-me 2$50. Hoje custaria duzentas vezes mais, pelo menos. Não pagou o seu valor.
Mas o episódio mais curioso que tenho, quanto à aquisição de revistas de Banda Desenhada é o de uma vez, passando muito despreocupadamente por uma tabacaria, no bairro onde moro, verifiquei que o soalho de tábuas (à antiga), se encontrava muito lavadinho e a forrar o mesmo, porque este ainda apresentava indícios de humidade, várias folhas de banda desenhada. Curioso, aproximei-me, e qual não é o meu espanto quando vi que se tratava de páginas pertencentes à revista "Tic-Tac". Perguntei à senhora onde tinha conseguido aquelas folhas. Amavelmente respondeu-me que tinha umas revistas dessas para qualquer canto e depois de muito procurar, lá as encontrou. Foram 160 números da revista mais rara em Portugal, compradas a  1$00 cada. É claro, trouxe também as folhas soltas que andavampelo sobrado fora, algumas já pisadas pela senhora e por mim. Com elas ainda completei mais alguns números, que me foram oferecidos...
- Tens alguma recordação desagradável com a perda, por qualquer motivo, de exemplares ou colecções que tenhas possuído em tempos?
- Não. Unicamente recordo as revistas que vendi. Mas essas, quase que as recuperei todas.
- Qual a influência para a Banda Desenhada de haver coleccionadores?
- A maior influência que tem é que quanto maior for a procura, menor será a oferta, consequentemente, os preços sobem, o que aliás se tem verificado de 2/3 anos a esta parte.
"O Mosquito" que era a revista mais cara, custava 10$00, hoje custa 50$00, bem como muitas outras revistas que ninguém comprava. 
Hoje tudo se vende e normalmente a preços proibitivos, isto já sem contar com a dificuldade que se tem em encontrar material. 
Texto e foto por Geraldes Lino         

-------------------------------------------------------------------------
Os visitantes interessados em ver os três artigos anteriores poderão fazê-lo, clicando no item Coleccionadores e Colecções de BD visível no rodapé