Para quem tiver curiosidade em seguir este conjunto de entrevistas a coleccionadores de banda desenhada, alerto para o facto de se tratar de pessoas que na década de 1980 - época em que as entrevistei - eram todas bem conhecidas nos meios afectos à BD.
Mas, hoje em dia, os nomes de algumas dessas pessoas nada dirão aos bedéfilos mais novos. É o caso de Raul Ribeiro, coleccionador em foco desta vez na presente rubrica, por onde já passaram nomes bem importantes no coleccionismo e estudo da BD, nomeadamente A.J.Ferreira, António Dias de Deus, Vasco Granja e Carlos Gonçalves.
Passo a reproduzir a entrevista com Raul Ribeiro, na íntegra, tal como foi publicada na revista Coleccionando (Nº 1 - 2ª Série - Novembro de 1985).
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Na Feira da Ladra, no meio do chão com coleccionadores a rondarem
- eis como Raul Ribeiro obteve uma raridade da BD
Raul Gomes Ribeiro é, entre os aficionados da BD, um dos mais conhecidos coleccionadores.
Nascido em Castelo Branco, a 22-10-1946, possui como habilitações literárias o Curso Geral de Comércio. Exerce, há bastantes anos, a profissão de funcionário bancário, tendo atingido uma confortável posição na importante instituição onde trabalha.
Activo participante em torneios de problemas policiários, em que tem obtido classificações de destaque, é também autor de problemas deste tipo. No que se refere à banda desenhada, ele foi, desde muito cedo, um entusiasta.
Além de leitor e coleccionador, tem sido destacado concorrente de testes sobre BD, além de ser autor de diversos textos espalhados por publicações e rubricas especializadas.
O seu nome apareceu a assinar artigos de estudonas revistas "Selecções Mistério", "XYZ Magazine", "Mundo de Aventuras", nos suplementos "Banda Desenhada" (do extinto semanário "O País"), e "Correio da Banda Desenhada" ("Correio da Manhã").
Este é, a traços largos, Raul Ribeiro. Vejamos agora, em pormenor, a sua faceta de coleccionador nesta especialidade.
- Raul Ribeiro: quando começaste a coleccionar revistas de banda desenhada?
- Foi há cerca de trinta anos, quando uma familiar minha, que trabalhava na Editorial Fomento de Publicações, Lda., me ofereceu as colecções completas das revistas "Titã", "Flecha", e os respectivos álbuns.
É evidente que essas e outras colecções se perderam na voragem do tempo, com trocas e empréstimos.
Há cerca de oito anos recomecei a coleccionar, desta vez a sério e, de então para cá, já comprei muitos milhares de revistas.
- O CPBD tem exactamente oito anos de existência. Há alguma relação entre esta coincidência de datas?
- Há. Como sabes, eu sou sócio-fundador do CPBD. Na altura em que o clube se fundou, em 1976, eu já tinha recuperado muitos exemplares de revistas que tinha possuído em tempos.
Mas não estava ainda metido a fundo nessa recuperação, sempre difícil e morosa. O contacto com alguns sócios do CPBD, grandes coleccionadores, deu-me um grande alento, e voltei a entusiasmar-me profundamente.
- Quais as colecções que tens completas?
- São muitas, mas acho que só vale a pena referir as mais importantes: "O Mosquito", "Condor Mensal", "Mundo de Aventuras", "Diabrete", "Cavaleiro Andante", "Álbuns do Cavaleiro Andante", "Zorro", "Tintin", "Titã", "Flecha".
- E estrangeiras?
- Não colecciono revistas estrangeiras.
- Porquê?
- O meu parco conhecimento de línguas não me permite ler, com facilidade, revistas francesas ou americanas. E não me interessa acumular revistas, se não puder ter o gozo de as ler. Só ver os desenhos não é suficiente para mim.
- Mas há revistas espanholas de BD muito boas. E não é difícil ler castelhano.
- Sim, de facto já seria mais fácil. Mas são caras e, além disso, não tenho espaço. Já estiveste em minha casa, e viste bem que está tudo cheio.
Por isso optei por coleccionar apenas revistas portuguesas. E só a partir de "O Mosquito" para cá. Tanto assim é, que já vendi a colecção quase completa do "Tic-Tac" - duzentos e tal números - a outro coleccionador, exactamente porque essa publicação é anterior ao "Mosquito".
- Entre as colecções que possuis, quais as que consideras mais valiosas quanto à raridade?
- "Mosquito", "Mundo de Aventuras", "Titã" e "Condor Popular".
- E quanto ao conteúdo?
- "Cavaleiro Andante" e "Tintin".
- E no que se refere a ambos os aspectos - valor quanto à raridade e conteúdo?
- "Diabrete".
- Qual é a revista mais antiga que possuis?
- O nº1 do "Mosquito", editado em Janeiro de 1936.
- Qual a colecção que te deu, ou está a dar ainda, maior dificuldade em completar?
- A "Condor Popular".
- Estás neste momento a coleccionar alguma revista portuguesa de BD?
- Estou a coleccionar três: "Mundo de Aventuras", "Jornal da BD" e "Mosquito", que são, lamentavelmente, as únicas em publicação que têm alguma qualidade.
- Tens alguma recordação ligada a qualquer das revistas que possuis?
- Nada de especial que mereça referência.
- Terá havido na tua infância ou adolescência - até te pode ter acontecido recentemente - uma fase em que, em determinado dia da semana, ias à rua comprar uma revista de BD que estivesses a coleccionar. Ocorre-te algo (acontecimentos, sensações) ligados a essa fase?
- Ainda recentemente, e antes do "Mundo de Aventuras" entrar na fase de declínio, eu esperava ansiosamente a 5ª feira para o comprar.
- Qual o preço mais elevado que pagaste por uma peça da tua colecção?
- Paguei vários "Mosquitos" a 200$00 há já dois ou três anos, o que equivalia a uma refeição completa num restaurante de média categoria.
- Colecionas álbuns de BD? Qual o critério que segues?
- Colecciono, mas sem qualquer critério; ou melhor, o meu critério é o de comprar tudo o que seja editado em Portugal, desde que tenha qualidade.
- Coleccionas mais alguma coisa?
- Selos e moedas, livros policiais e de ficção científica. Mas sem a paixão com que colecciono BD.
- A que atribuis essa paixão especialmente dedicada à BD?
- Talvez se deva ao facto de o meu pai ter trabalhado numa tipografia, o que me levou, desde muito jovem, a estar em contacto com livros e revistas. Por outro lado, o meu pai também escrevia uns versozinhos, e isso fez com que eu me empenhasse mais em tudo o que se realciona com a leitura.
- Conta-nos um episódio pitoresco da tua actividade de coleccionador de BD.
- Este, por exemplo: Eu costumo ir todos os sábados de manhã cedinho - aí por volta das 7 horas - à Feira da Ladra. Um dia, isto há cerca de quatro meses, excepcionalmente cheguei mais tarde, por volta das nove horas. Foi exactamente nesse dia que comprei a que considero a peça mais valiosa da minha colecção: o PONTO NEGRO, CAVALEIRO ANDANTE, um pequeno álbum da família do "Mosquito", pois pertencia à mesma editora.
No local onde encontrei essa publicação rara, que estava no meio do chão misturada com outras revistas, mas bem à vista, já tinham estado mais coleccionadores, por exemplo o Bretes e o Varandas, entre outros de que desconheço o nome.
Foi realmente um golpe de sorte.
- Deve ter sido cara, essa peça...
- O vendedor queria dez escudos e eu, por hábito, ainda regateei. Acabei por comprá-la por cinco escudos! Foi uma pechincha inacreditável.
- Sei que um dia houve em tua casa um episódio de que foi potagonista a tua filha. Gostaria que o contasses em pormenor, masnão sei se o queres antes incluir nas recordações tristes...
- Bem, atendendo a que foi passado com uma criança, prefiro que o incluas na parte a que se refere a casos pitorescos, embora entre aspas.
Esse episódio a que te referes teve como intervenientes a minha filha Guida, que tinha nessa altura cerca de um ano, e o meu sobrinho Paulo Jorge, da mesma idade.
Quando começaram a andar, a primeira grande obra que fizeram foi entreterem-se a rasgar, a um e um, quase completamente a minha colecção do "Zorro". Fui encontrá-los, todos satisfeitos, nessa "tarefa", no momento em que estavam a arrancar as folhas do meio, onde aparecia o Tintin, pelo qual mostravam especial "predilecção"...
Acrescento que esses pequenos vândalos são hoje apaixonados apreciadores de Banda Desenhada.
- Conta lá agora as recordações que consideras tristes, relacionadas com as tuas colecções de BD.
- Recordações tristes relacionadas com as minhas colecções tenho várias, mas que apenas têm a ver comprocedimentos menos correctos assumidos por outros coleccionadores.
Por exemplo, já me aconteceu com um coleccionador, que considero amigo, o seguinte: combinei com ele ficar-lhe com uma das colecções que ele tem em excedente - o "Pirilim" e o "Faísca" - e que estava interessado em vender.
Quando lhe telefonei, como tínhamos combinado, para marcarmos um encontro, mandou a esposa responder-me que estava adoentado, mas comprometeu-se a telefonar-me depois.
Nunca mais me disse nada, e posso supor, sem grandes hipóteses de erro, que ele já mudou de ideias. O que me magoa, neste caso, é a falta de limpidez deste tipo de atitudes, para além da falta de elegância, especialmente entre pessoas que mantêm, há anos, relações de amizade.
Como curiosidade, acrescento que o coleccionador com quem se passou esse episódio é o mesmo a quem eu cedi a tal colecção quase completa do "Tic-Tac".
Outro caso aborrecido foi o que se passou com um volume da "Colecção Aventuras". O Ernesto Assis tinha-se comprometido a ceder-mo; um dia, quandolhe perguntei pelo volume, disse-me que o tinha trocado contigo por um volume encadernado do "Diabrete" (formato grande).
- Foi exactamente assim. Por acaso o Assis acabou por vender esse volume do "Diabrete" ao Jaime das Escadinhas do Duque, por quinhentos escudos. Mais tarde tornou a comprá-lo por um conto e quinhentos! Negócios à Assis...
Em relação ao tal compromisso que ele teria contigo, eu desconhecia-oem absoluto, como ficou esclarecido na altura.
- É verdade. Entretanto o Assis acabou por recuperar o volume do "Diabrete"; eu é que nunca mais consegui o tal volume do "Aventuras". A propósito: queres-mo vender? Dou-te cinco contos.
- A parte de "negócios" fica para depois. Mas desde já te digo que não estou interessado em desfazer-me dessa peça.
Responde-me agora à última pergunta deste questionário/entrevista: Na tua opinião, qual a influência, para a BD, que pode resultar da actividade dos coleccionadores?
- Acho que a actividade dos coleccionadores tem uma influência extremamente benéfica, já que vai recuperar revistas que, de outra forma, acabariam por se perder irremediavelmente.
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Imagens que ilustram o "post":
1. "O Mundo de Aventuras" - Capa do nº 2, de 25 de Agosto (5ª feira) de 1949
2. "Álbum do Cavaleiro Andante" - Capa do nº 55, de Dezembro de 1958
3. "Flecha" - capa do nº 2, de 4 de Novembro de 1954
4. "Zorro" - capa do nº 58, de 16 de Novembro de 1963
5. "Condor Popular" - capa do nº4 - Volume 25 - (sem data indicada)
6. "Titã" - capa do nº 11 (da autoria de Hal Foster, atenção Manuel Caldas, conhecias esta capa?) de 21 de Dezembro de 1954
7 e 8 - Páginas da revista "Coleccionando" onde está publicada a entrevista.
9 - Capa da revista "Coleccionando" - Nº 1 - 2ª Série - Novembro de 1985
10 - Retrato do coleccionador Raul Ribeiro
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