segunda-feira, dezembro 22, 2014

Festivais BD - Comic Con Portugal 2014 - Inquérito a Autores, Editores, Livreiros e Bloguistas (IV) - André Azevedo




Termina aqui, com as respostas do bloguista e especialista de BD André Azevedo, a série de mini-entrevistas tipo inquérito, relacionadas com a Comic Con Portugal (1ª edição, 5 a 7 de Dezembro de 2014) feitas a autores, editores, livreiros e bloguistas, todos da área da BD. 

É unânime a noção de que a empresa City Conventions in the Yard, representada por Paulo Rocha Cardoso, conseguiu criar um evento de grande dimensão com semelhanças aos que se realizam nos Estados Unidos da América - de que são exemplos maiores as Comic Con de San Diego e Nova Iorque.

Seguem-se as perguntas e respostas:  

G.Lino André Azevedo: Como bloguista de BD, esteve presente na estreia do evento Comic Con Portugal. 
Gostaria que fizesse a comparação entre este tipo de eventos, com características americanas, e os portugueses (Amadora e Beja - Festivais; Moura e Viseu - Salões; Porto - Central Comics Fest) e europeus - Angoulême ou outro que conheça.


André Azevedo - O modelo americano, as denominadas "Comic Con", são claramente direccionadas para o comércio, para a venda de "produtos" relacionados com a cultura pop, onde se inclui, muito redutoramente, a Banda Desenhada, que contudo beneficia aqui de todo o aparato festivo destes eventos, podendo assim chegar a outros públicos receptivos a conhecer obras de figuração narrativa por estas já terem sido adaptadas ao cinema, à televisão ou terem a sua iconografia em artigos de "merchandising". Aqui a figura principal é o Consumidor.

Uma nota: as comic conventions já existem nos EUA desde pelo menos 1970 (Golden State Comic Book Convention, a antecessora da San Diego Comic-Com), e por cájá temoseste modelo,ou similares,mas em menor escala (Anicomjcs, Central Comics Fest).

Os Festivais de BD são mais direccionados para a arte em si, onde, não descurando o lado comercial, promovem-se deiversas exposições de pranchas originais, encontros com autores e editores nacionais e estrangeiros, edição de catálogos e outras publicações e actividades mais centradas na banda desenhada, podendo captar públicos não só da área mas também com interesse por outras artes, como por exemplo através de concertos de música e/ou projecção de filmes. Aqui, naturalmente, o Autor é a figura principal.

Os Salões de BD são eventos semelhantes aos Festivais mas de dimensões mais reduzidas e por vezes com escassos meios de trabalho e níveis de produção, mas importantes na manutenção denúcleos locais com interesse pela BD e que a divulga de forma militante. Aqui continua a ser o Autor a figura principal. 

De igual importância são as Feiras, onde edições mais "alternativas" (à falta de melhor termo) se encontram à venda, muitas vezes pelos próprios autores, criando uma maior proximidade com o público, eles próprios quase sempre também autores. 
Em ambientes underground festivos, onde a música nuna falta, a intersecção com as outras artes, sejam elas gráficas ou sonoras, estão sempre presentes, gerando um ambiente estimulante à criação DIY. 

Aqui o Evento em si é a figura principal, pois autores, editores, divulgadores e público, participam dele de forma mais orgânica. 

Apesar, ou mesmo, por causa destas diferenças, todos estes modelos são importantes para a difusão de cultura, a da BD em particular.   


G.L. - Pensa que este evento multidisciplinar - onde coexistem banda desenhada, cosplay, videojogos, cinema, televisão, espaços comerciais com BD e diversos tipos de "merchandising" - fazia falta em Portugal?
 

André Azevedo - Com esta dimensão fazia, principalmente aos editores e livreiros. São eventos que apostam claramente no comércio,na venda de produtos, onde se inclui, obviamente e sem romantismos, os livros de BD.

G.L. - Surpreendeu-o o facto de ter havido uma autêntica avalanche de público - cerca de 30.000 visitantes -, apesar de a Exponor se localizar em Matosinhos, a razoável distância do Porto, e as entradas terem um preço algo elevado?

André Azevedo - Já tinha ficado surpreendido quando a organização anunciou a pré-venda de milhares de bilhetes, mas conseguirem cerca de 30.000 visitantes é sem dúvida um sinal que este tipo de eventos onde são convidados actores de séries com muitos seguidores tem público interessado, apesar do preço elevado dos bilhetes. 

Quanto à localização, a Exponor, que fica a uns meros 15 minutos de carro do centro do Porto (20 de autocarro), é para mim um dos locais ideais para a Comic Con Portugal.
    
G.L. - Como bloguista (ou "blogger") de BD, acha que teve vantagem em estar presente?

André Azevedo - Claro, sem dúvida! Apesar de não ser o meu modelo favorito de “festival” não poderia faltar a esta primeira edição da Comic Con, isto para além de ter tido a oportunidade de contactar com alguns autores e divulgadores que ainda não conhecia pessoalmente e adquirir algumas edições fundamentais para a minha bedeteca.     

G.L. - É de opinião que a área destinada aos autores de BD era suficiente? E considera-a bem localizada?

André Azevedo - Se a tendência é para crescer e naturalmente aumentar o número de autores no Artist’s Alley, então o espaço a eles destinado não é suficiente e deverá estar futuramente mais integrado com a área comercial. Este deverá ser um dos pontos a rever pela organização.          

G.L. - No seu ponto de vista, a exposição de BD era suficiente, em termos de imagens expostas? Que aspectos considera terem sido menos bem conseguidos?
 

André Azevedo - Já não é admissível nos dias de hoje expor umas meras impressões de pranchas.
De modo geral, ou se expõem originais ou então não lhe chamem exposição. No entanto, se fosse algo digno desse nome, o número de pranchas teria sido muito insuficiente, mas também não acho que seja algo que se integre bem numa Comic Con. 


G.L. - O que achou de mais interessante no evento? 

André Azevedo - O mais interessante foi mesmo a interacção que se gerou entre os diferentes tipos de público / editores / autores.

G.L. - E que aspectos considera terem sido menos bem conseguidos?

André Azevedo - O menos conseguido, para além da área destinada às crianças ser pouco apelativa, foi mesmo a demora da entrada do público no recinto devido ao sistema de controlo utilizado, sendo este um dos pontos principais a melhorar e que a organização deverá ter bem em mente nas próximas edições.
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AZEVEDO, André

Síntese autobiográfica


Mário André Fonseca Azevedo (Porto, 1974)

Licenciado em Escultura pela Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto, publicou nesses anos académicos diversos fanzines sobre arte: O Medo, Desvio 265 e Hotel, onde se incluiu banda-desenhada.


Através do seu Tio Neca, que gostava de bd’s de guerra (foi Comando no Ultramar, voltou, mas nunca de lá saiu), de cerveja e do Benfica (não necessariamente por esta ordem), ganhou o gosto também por cerveja e por ler o Falcão, Guerra, Condor e muitas outras pequenas publicações que abundavam nos quiosques nos anos 80.


É do FCP.


Iniciou em 2012 o blogue “BD no Sótão” (já terminado) e em 2014 o blogue “A Garagem” por absoluta necessidade em partilhar, falar e divulgar Banda Desenhada. 

Publicou a sua primeira BD, e única até ao momento, no fanzine Tertúlia BDzine nº 177, editado por Geraldes Lino em 2013.
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Imagens que ilustram o presente "post":
1. Banner do blogue BD no Sótão, o primeiro de André Oliveira
2. Banner do actual blogue do mesmo bloguista 
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sexta-feira, dezembro 19, 2014

Festivais BD - Comic Con Portugal 2014 - Inquérito a autores, editores, livreiros e bloguistas (III) - João Lameiras




Continuando a auscultação a gente da BD presente na Comic Con Portugal, reproduzo a mini-entrevista-inquérito feita a João Miguel Lameiras - autor (argumentista), docente, livreiro, bloguista e ex-radialista, tudo isto na área da BD.

Como se pode verificar, tanto Lameiras como os anteriores entrevistados - Jorge Coelho e Pepedelrey - sublinharam os quadrantes positivos do evento, que foram bastantes. 
Embora não tenham omitido os aspectos menos bons, ressalvando o facto de ter sido a estreia, sendo de esperar que a entidade organizadora, a City Conventions in the Yard, representada por Paulo Rocha Cardoso, possa encontrar soluções pragmáticas para aspectos negativos por eles apontados - e que eu confirmo, visto que também os presenciei.

Segue-se a mini-entrevista/inquérito:  


G.Lino João Lameiras: Como participaste na estreia do evento Comic Con Portugal, gostaria que fizesses a comparação entre este tipo de evento, com características americanas, e os festivais europeus, designadamente o de Angoulême.


João Lameiras - São modelos claramente diferentes, a Comic Con segue o modelo das Comic Cons americanas, como a de San Diego. Ou seja, umtipo de evento centrado na cultura pop em geral, com um ênfase repartido pela BD, cinema, séries de TV, e jogos de computador.
O Festival de Angoulême, com a importância que dá às exposições, com originais e cenografias elaboradas, é um modelo que está muito mais próximo da Amadora do que da Comic Con.

G.L. - Pensas que este evento multidisciplinar - onde coexistem banda desenhada, cosplay, videojogos, cinema, televisão, espaços comerciais com BD e diversos tipos de "merchandising"  - fazia falta em Portugal?
 

João Lameiras - Sem dúvida! O sucesso desta primeira edição só vem comprová-lo.

G.L. - Surpreendeu-te o facto de ter havido uma autêntica avalanche de público - cerca de 30.000 visitantes -, apesar de a Exponor se localizar em Matosinhos, a razoável distância do Porto, e as entradas terem um preço algo elevado?

João Lameiras - Confesso que não esperava tanta gente (nem a organização). 
Mas é a prova que a divulgação foi bem feita e resultou, tal como a aposta no mercado espanhol, especialmente da Galiza.

G.L. - Como autor de BD na área do argumento, docente do tema e livreiro, achas que tiveste vantagem em participar? Em qual das tuas actividades sentiste que lucraste mais com esta participação? 

João Lameiras - Como livreiro, compensou claramente! Infelizmente, por ter que estar grande parte do tempo no stand, acabei por não poder aproveitar tanto como gostaria a outros níveis.

G.L. - O que achaste de mais interessante no evento? 
João Lameiras - A dinâmica e o ambiente geral,um público entusiasta, a qualidade e variedade do cosplay, no mais positivo.

G.L. - E que aspectos consideras terem sido menos bem conseguidos?
 

João Lameiras - O pouco destaque dado às exposições, e os problemas logísticos causados pela verdadeira invasão de sábado, nos aspectos negativos.

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LAMEIRAS, João Miguel

Síntese autobiográfica


João Miguel Salgado Lameiras Crisóstomo dos Santos, Coimbra, 13 Setembro 1966.

Licenciado em História da Arte pela Universidade de Coimbra, e Mestre em História da Arte Moderna pela mesma universidade.

É docente convidado da Licenciatura de Banda Desenhada e do Mestrado de Ilustração da ESAP (Escola Superior Artística do Porto - Pólo de Guimarães) desde Março de 2011.

Trabalhou como conselheiro editorial das Edições Devir e tradutor de Banda Desenhada para as Edições Devir e Vitamina BD.
Desde 2006 é um dos proprietários da Livraria Dr. Kartoon, livraria de Coimbra especializada em Banda Desenhada.
Actualmente, escreve regularmente sobre Banda Desenhada no jornal Público, no BD Jornal, na revista Bang! e no seu blogue Por Um Punhado de Imagens
Colaborou semanalmente no Diário As Beiras durante vinte anos (de Maio de 1994 a Maio de 2014) e em outras publicações, tendo ganhopor três vezes o Prémio de Imprensa do Festival de Banda Desenhada da Amadora com os seus textos sobre Banda Desenhada.
Foi comissário de várias exposições de sobre BD para os Festivais do Porto, Lisboa e Amadora, e para o CNBDI, da Amadora.
Como argumentista publicou em co-autoria os livros Crossroads e A Revolução e Éden 2.0, tendo igualmente publicado As Cidades Visíveis, um ensaio ficcionado sobre a série de BD As Cidades Obscuras de Schuiten e Peeters.

Foi responsável, entre 1990 e 2002, do programa sobre BD, Balada do Mar Salgado, na Rádio Universidade de Coimbra, criado com João Ramalho Santos e o saudoso Olímpio Ferreira. 
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Imagens que ilustram o presente "post":
1. João Lameiras, de pé, e de Filipe Melo, sentado, a dar autógrafos (Foto por Ricardo Cabral)
2. Logótipo da Comic Con Portugal

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