Prancha de banda desenhada vencedora de concurso, da autoria de Bandeira, mais conhecido como cartunista do que como autor de banda desenhada
Sujeitos a tema ou livres de qualquer imposição temática, os concursos de banda desenhada - recorrente forma de criar actividades culturais e artísticas para a juventude, bem como apoiar quem sente potencialidades nesta forma de arte - têm significativamente longa tradição em Portugal, visto que há registo da sua realização, pelo menos de um, em meados da já longínqua década de cinquenta do século passado.
Habitualmente, esse tipo de iniciativas é direccionada para ambos os sexos inseridos em escalões etários, cujos limites geralmente não ultrapassam os trinta anos de idade, embora haja um ou outro caso, raro, em que não é imposta limitação de idade aos concorrentes.
Na concretização dos concursos, ao longo do tempo, tem-se verificado o envolvimento das mais diversas entidades, públicas e privadas.
Nas públicas surgem estabelecimentos de ensino, mais propriamente as Associações de Estudantes de várias Faculdades (Arquitectura, Belas Artes, Letras, Instituto Superior Técnico) e escolas secundárias, mas igualmente instituições estatais, como foi em tempos o caso do extinto FAOJ - Fundo de Apoio aos Organismos Juvenis, posteriormente substituído pelo IPJ - Instituto Português da Juventude (através das suas delegações de Faro, Viseu e outras), bem como Câmaras Municipais (Lisboa, Amadora, Moura, Loulé, Matosinhos), departamentos culturais como aconteceu com a Secretaria Regional da Educação e Cultura (Açores), e Juntas de Freguesia (Sobreda, Amora, Olhão).
Nas entidades privadas têm, ou já tiveram, lugar de destaque: CPBD-Clube Português de Banda Desenhada, GBS-Grupo Bedéfilo Sobredense, COMICARTE-Comissão de Jovens de Ramalde, GICAV-Grupo de Intervenção Cultural e Artístico de Viseu, Associação SOS Racismo (que, exemplo único até hoje, organizou um concurso de argumentos para BD), UNICER-União Cervejeira, CPAI-Clube Português de Artes e Ideias, CNC-Centro Nacional de Cultura, CNBDI-Centro Nacional de Banda Desenhada e Imagem, e duas livrarias, Dr. Kartoon, de Coimbra, e Barata, de Lisboa.
Em diferente quadrante, têm sido levadas a efeito iniciativas do género, embora esporadicamente, por publicações de vária índole. A mais importante terá sido a realizada em meados dos anos cinquenta do século XX por uma popular revista de BD da época, titulada "Mundo de Aventuras", que, sob um título algo ambíguo, "Grandioso Concurso de Desenho", abrangeu diversas áreas: caricatura, anedota ilustrada (ou "cartoon") e, naturalmente, banda desenhada. Nos anos 90, a já citada livraria Dr. Kartoon teve também importante papel no assunto, ao organizar concursos e publicar as bedês vencedoras na sua newsletter "Phylactère". Já em 2008, um magazine, também coimbrão, intitulado "Maca" que, não sendo de BD, se candidata a ser mais um suporte deste género de iniciativas.
É de registar também o importante papel que têm desempenhado, na montagem de exposições e na capacidade de as tornar visionáveis publicamente, os diversos eventos da especialidade: o já extinto Festival de Banda Desenhada de Lisboa (organizado pelo CPBD entre 1982 e 1996), o Salão Internacional de BD de Sobreda (Almada), o Salão Internacional de BD do Porto (que já não existe, mas que foi inicialmente organizado pela Comicarte-Comissão de Jovens de Ramalde), a Semana de BD de Amora, o Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora, o Salão Int. de BD de Viseu, o Salão Int. de BD de Moura e, mais recentemente, o Salão Int. de BD de Beja.
Ocorre à evidência que, para terem impacte público, os concursos de BD têm de ser complementados pela respectiva exposição, se possível na totalidade das pranchas originais de todas as bandas desenhadas premiadas - tanto as dos prémios principais como as das menções honrosas - e ainda, se houver espaço, para as dos demais participantes.
A última parte da iniciativa cultural e artística, que encerra harmoniosamente o ciclo, é a publicação das obras distinguidas pelo júri, completando assim a justa divulgação pública, iniciada com a exposição, dos talentos emergentes.
Nestes mais de cinquenta anos de realização de concursos da especialidade - em que o autor destas linhas tem tido numerosas participações como membro de júri, desde 1979 -, vários são os nomes, entre os vencedores de alguns dos prémios, que obtiveram notoriedade, designadamente Álvaro, Pedro Nogueira, Agonia Sampaio, Ricardo Blanco, Marina Palácio, J. Mascarenhas, Serafim, Phermad, Francisco Vidal, relevando-se outros já como firmes referências na BD nacional, casos de António Jorge Gonçalves, José Carlos Fernandes, Nuno Saraiva, Jorge Mateus, Diniz Conefrey, Pepedelrey, Jorge Coelho, João Fazenda, Rui Lacas, Pedro Burgos, Ricardo Ferrand, Richard Câmara, Potier, Daniel Maia, Zeu e Miguel Montenegro - estes três últimos já com obra publicada no estrangeiro - ou Bandeira, que constitui caso especial por ter passado a dedicar-se apenas ao Cartunismo.
Entre os que se limitaram à obtenção de menções honrosas destaca-se Carlos Rocha, que se tem evidenciado pela publicação de numerosas bedês em fanzines e jornais regionais, assim como pela sua inclusão em exposições. Também com participação positiva em concursos, há vários outros que, após curta obra bedística, optaram por trabalhar em ilustração ou publicidade, situação em que se podem incluir Pedro Sousa Dias, Rui Abrantes, "Micky" (Jorge Macedo) e o seu argumentista Miguel Corte Real, ou que se fixaram no ensino, como fez Ângela Gouveia, licenciada em Engenharia Química, ou os que preferiram dar seguimento profissional aos respectivos cursos, casos dos arquitectos Rá (Rui Alves), Miguel Cabral, Ricardo Cabrita e José Morim, estes dois últimos ainda com esporádicas aparições como autores, um em obras institucionais ou fanzines (Cabrita), ou de banda desenhada histórica, num álbum e em livro escolar (Morim).
Obviamente que, na área da BD, como em outras artes, quem quiser singrar profissionalmente tem de conjugar talento com a indispensável formação técnica. Mas é indubitável que, como forma de primeira experiência e público incentivo para os iniciantes, a abrangente trilogia concurso/exposição/publicação - infelizmente nem sempre cumprida na totalidade - já deu suficientes provas dos seus méritos.
Geraldes Lino