Mostrar mensagens com a etiqueta António J. Ferreira. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta António J. Ferreira. Mostrar todas as mensagens

sábado, setembro 22, 2012

Coleccionadores e Colecções de BD (III) - António J. Ferreira






Em 1984, ocorreu-me entrevistar coleccionadores de BD para a revista Coleccionando, de que era colaborador. A primeira pessoa de que me lembrei para o efeito foi aquele que era - e é ainda, felizmente - o mais veterano dos coleccionadores de revistas de banda desenhada, António Joaquim Ferreira, que acumula com uma outra faceta, a de ser um dos notáveis estudiosos da especialidade.

A presente entrevista (que fica reproduzida mais abaixo) com A.J.Ferreira, o seu nome literário, foi publicada no nº 4 da citada revista, em Março de 1984. É esta data já recuada que terá de ser tida em conta ao ler-se o texto.

Por exemplo: na 1ª coluna da 2ª página, escrevi: "(...) E como se aproxima dos sessenta anos - nasceu a 25 de Outubro de 1924, em Gouveia (...), agora terá de se actualizar o texto, fazendo as contas; "como se aproxima dos oitenta e oito anos, que fará daqui a três dias (e aproveito para dizer que este meu amigo octogenário está de saúde e faz diariamente os seus passeios, em cujos percursos há por vezes uma breve paragem na livraria/alfarrabista Vilelivros, sita na Calçada (vulgo "Escadinhas") do Duque.

Outro pormenor que implica situarmo-nos nos anos 1980 tem a ver com os valores citados pagos por revistas antigas. Por exemplo: quando lhe pergunto: "Qual o preço mais elevado que pagou por uma peça portuguesa e/ou estrangeira?", e o Sr. A.J.Ferreira me responde "oitenta escudos, há uns cinco anos, por um suplemento grátis de O Mosquito, "Uma Estranha Aventura", de 1946 (...) dá vontade de rir, comparativamente aos valores de hoje... Oitenta escudos são o equivalente, como sabemos, a quarenta cêntimos do euro...

Há outros pormenores que têm de ser inseridos na época em que a entrevista foi feita. Mas acho que vale a pena lê-la, e ficar a conhecer, minimamente, uma personalidade ímpar, um especialista da figuração narrativa com grande prestígio entre coleccionadores, estudiosos e amantes da BD em geral.
---------------------------------------------------------------

Coleccionar revistas de BD
é um passatempo sem fim... e ainda bem
- curiosa expressão de António J. Ferreira

"Como as bibliotecas não são suficientes, só o trabalho dos coleccionadores poderá preservar as revistas que servirão aos estudos que outros farão mais tarde."

É assim que encara o papel de coleccionador, a personalidade que escolhemos para iniciar esta rubrica. Bem conhecido no nosso pequeno mundo da BD, António Joaquim Ferreira é um nome que, de há uns anos a esta parte, tem aparecido com frequência a assinar artigos sobre Banda Desenhada - ou Histórias aos Quadradinhos, como ele prefere dizer.

Quem consultar o BOLETIM - fanzine do Clube Português de Banda Desenhada - ali irá encontrar, no nº2, referente a Junho de 1977, o seu primeiro estudo sobre o assunto. Trata-se de um artigo sobre coleccionismo de BD, em que analisa as circunstâncias que podem levar um leitor ocasional a tornar-se coleccionador. Este artigo era completado com uma listagem de jornais e revistas infantis portuguesas por ordem cronológica, tendo tido a colaboração de Carlos Gonçalves na parte brasileira.

Aquela primeira experiência agradou-lhe, decerto, pois em breve o seu nome começou a aparecer noutros espaços dedicados à BD: "Correio da Banda Desenhada" (suplemento do Correio da Manhã), "Banda Desenhada" (suplemento de O País, recentemente extinto), "Especial Quadradinhos" (no vespertino A Capital) e no Mundo de Aventuras

António J. Ferreira (ou A.J.Ferreira, a sua forma predilecta de assinar os artigos) é um antigo Controlador de Tráfego Aéreo. Agora que se encontra retirado da sua absorvente profissão, tem finalmente tempo para esmiuçar todos os pormenores que fazem a delícia dos coleccionadores ou dos estudiosos da Banda Desenhada.

É nesse folhear incansável que ele vai encontrar a matéria para os seus artigos, sempre repletos de pormenores de inestimável valor.
Mas não é como estudioso da BD que nos interessa agora ouvi-lo. É, isso sim, na sua faceta de coleccionador, que nunca deixou esmorecer, é nessa busca constante de peças que lhe faltam onde reside um dos prazeres de que não abdica.

Entrar na casa de A.J.Ferreira é como que entrar num Museu da BD. Com efeito, ele acumulou, ao longo da sua vida, numerosas colecções: algumas delas são contemporâneas da sua infância. E como se aproxima dos sessenta anos - nasceu a 25 de Outubro de 1924, em Gouveia - é fácil avaliar a quantidade de raridades que se escondem naquela velha casa do bairro da Graça.

É exactamente isso que justifica a primeira pergunta que lhe fizemos:

- Quando começou a coleccionar revistas de banda desenhada?
- Há mais de cinquenta anos, pois ainda tenho algumas revistas que meus pais me compraram nos anos vinte. Ouvia lerem-me as histórias, aprendia de cor as legendas em verso das Histórias aos Quadradinhos, e coloria os desenhos. Mas só comecei a completar as colecções nos últimos vinte anos.

- Quais as melhores colecções que tem?
- Tomando em consideração a sua raridade, o valor do conteúdo, e o bom estado de conservação... talvez O Gafanhoto, de 1903, e o Notícias Miudinho, de 1924.

- Qual o preço mais elevado que pagou por uma peça portuguesa e/ou estrangeira, e quando?
- Oitenta escudos, há uns cinco anos, por um suplemento grátis de O Mosquito, "Uma Estranha Aventura", de 1946. Nunca fui vítima de grandes especulações. Isto quanto às revistas portuguesas; porque há cerca de nove anos, diante dum bouquiniste das margens do Sena, fui tentado por um exemplar de L'AS, revista francesa de 1938, preço de capa 75 cêntimos; paguei-a a preço de ouro, 50 francos. Devo esclarecer que era uma peça excepcionalmente cara; o mesmo livreiro vendeu-me números de revistas de maior antiguidade, como L'Echo, Le Petit Detective, e Mon Journal, a preços à volta de 5 francos.

- Colecciona mais alguma coisa?
- Colecciono livros policiais do tipo romance-problema, desde os primitivos Edgar Pöe, Emile Gaboriau e Wilkie Collins, até à actual parelha Boileau-Narcejac. 
E colecciono gravações de ópera da escola italiana do período entre Rossini e Puccini. E também revistas de cinema, até fins da 2ª Guerra Mundial.

- Qual a colecção de BD que lhe deu, ou está a dar, mais dificuldades em completar?
- Tenho ainda várias colecções incompletas, algumas com falta de um só número. Por exemplo, o Titã e o Có-Có-Ró-Có. Todas me têm dado muito trabalho... e muito prazer. E mesmo quando julgamos ter completado uma determinada colecção... vimos a descobrir que afinal houve mais uns números extraordinários..., ou uns suplementos..., ou uns números que chegaram a ser impressos mas não foram postos à venda...
Coleccionar revistas é um passatempo sem fim - e ainda bem!

- Conte um episódio pitoresco da sua actividade de coleccionador.
- Faltavam-me dois números para completar a colecção do ABC-zinho, e essa situação eternizava-se. Um dia, na Feira da Ladra, estava à venda um molho de fascículos do Texas Jack antigos. Folheei-os e, no meio deles... estava um dos zinhos em falta.
Da feira segui para um alfarrabista do Bairro Alto. Quando eu entrava, o livreiro estava a acabar de comprar a um jovem cliente um molho de Texas Jack. Folheei-os... e lá estava um ABC-zinho, um só... o outro que me faltava!

- Tem alguma recordação desagradável, em relação à perda, por qualquer motivo, de exemplares ou colecções que tenha possuído em tempos?
- Lamento, como todos, não ter sabido prever o interesse que viria a ter por estas revistas, para as ter adquirido enquanto era fácil encontrá-las.
Das que tive e perdi, só uma peça não consegui ainda recuperar: um volume de vinte fascículos do "Stoerte-Becker", um émulo do "Capitão Morgan", que nunca mais foi reeditado.

- Qual a influência, para a BD, resultante da actividade dos coleccionadores?
- Só a consulta de colecções nos pode dar uma ideia correcta da evolução da arte das Histórias aos Quadradinhos, e só o trabalho dos coleccionadores poderá preservar as revistas que servirão aos estudos que outros farão mais tarde. 
As bibliotecas não são suficientes, bastando dizer que até nós, simples particulares e nada abastados, possuimos peças que não existem na Biblioteca Nacional (onde é afinal o Grão-Coleccionador, mas um pouco cego, um tanto passivo, e demasiado confiante na durabilidade do património)...

Entrevista e foto
Geraldes Lino   

------------------------------------------------------------------
As imagens que ilustram o topo do "post" são as seguintes:

1. Capa da revista ABCzinho - Ano I - Nº 2 (Desenho de Stuart)
2. António J. Ferreira (foto da época, feita em casa dele, mostrando revistas da sua colecção.  
- Nota: apesar de já se terem passado vinte e oito anos, o rosto do fotografado não apresenta grandes alterações!
3. As duas páginas ocupadas pelo texto de apresentação do coleccionador e estudioso, seguido pela entrevista
4. Capa da revista mensal Coleccionando - número 4, Março 1984 - Preço 70$00

-----------------------------------------------------------------------
Os visitantes interessados em ver os dois artigos anteriores poderão fazê-lo, clicando no item Coleccionadores e Colecções de BD visível no rodapé