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domingo, julho 03, 2016

Revisão - Bandas Desenhadas dos Anos 70


A mítica revista de banda desenhada Visão surgiu que nem um furacão no panorama repetitivo e convencional da BD em Portugal, mas teve vida breve. Apenas doze números, entre Abril de 1975 e Maio de 1976.

Todavia deixou marcas indeléveis, e o editor Marcos Farrajota vai apresentar, quarenta anos após o seu desaparecimento, uma obra intitulada Revisão (com arranjo gráfico de Joana Pires) em que são recuperadas peças de BD extraídas da Visão bem como dos fanzines Evaristo e Estripador

O lançamento da obra, que será levada a efeito no dia 9 de Julho, às 16h, no evento que se auto-intitula Feira Morta, a decorrer na Bedeteca de Lisboa (Olivais), e terá a presença de Marcos Farrajota (editor), e os "visionários" António Pilar, Carlos Barradas, Carlos "Zíngaro", J.L. Duarte, Pedro Potier, Zepe (autores) e Ágata Simões (filha do autor já falecido Zé Paulo), no auditório da Biblioteca dos Olivais. 

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Os interessados em ver postagens anteriores dedicadas à revista Visão e aos seus autores, poderão fazê-lo clicando no item Visão-revista portuguesa de banda desenhada (1975-76), visível no rodapé

quarta-feira, dezembro 24, 2008

Zé Paulo, autor de BD - 1937-2008

Fotografia recente (Junho 08) de Zé Paulo
 Prancha do episódio-paródia "Esperman" com que Zé Paulo colaborou no fanzine Efeméride (nº 3-Jun.08) dedicado ao tema genérico Super-Homem no Século XXI

 
Fim-de-semana... num futuro muito próximo é o título da banda desenhada que Zé Paulo criou expressamente para o fanzine Tertúlia BDzine, cuja última prancha está sobre esta legenda

Faleceu ontem, 23 de Dezembro, pela 19h00, vítima de cancro, Zé Paulo (ou ZEPAULO, como ele costumava assinar), de seu nome completo José Paulo Abrantes Simões. Chegou o fim da aventura para um notável artista da BD, ilustrador, caricaturista, pintor.
Adeus, amigo Zé Paulo.
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Tive a honra de receber de Zé Paulo as suas últimas colaborações na BD, a derradeira das quais está visionável na obra colectiva "Super-Homem no Século XXI".
Ainda neste blogue se pode ler a entrevista que lhe fiz, acompanhada de fotografia (já na época o Zé Paulo andava em tratamento de quimioterapia, com efeitos notórios para quem o conhecia bem).
Quem estiver interessado em ler essa derradeira entrevista, e reprodução de pranchas suas na revista Visão, basta localizar o "post" de Junho 30, 2006.
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Biobibliografia de Zé Paulo publicada no fanzine Efeméride nº 3, a acompanhar a prancha do episódio autoconclusivo intitulado Esperman pertencente ao tema genérico Super-Homem no Século XXI


ZÉ PAULO
1937/2008

Biobibliografia


José Paulo Abrantes Simões. Lisboa, 4 de Novembro de 1937.
Curso de Pintura da Escola de Artes Decorativas António Arroio.

Em 1974 foram publicadas bandas desenhadas suas na revista alemã Pardon. Mas a sua produção mais importante foi divulgada na revista Visão, que teve doze números editados entre 1 de Abril de 1975 e Maio de 1976.

Para ali fez várias obras de grande nível e variados temas, algumas delas realizadas em colaboração, cujos títulos merecem aqui ficar registados:  
Abril Águas Mil (uma prancha a preto e branco) e Os Loucos da Banda (seis pranchas a cores), ambas as BD's no número 1; Fábula de Um Passado Recente, sete pranchas a p/b (número 4, 15 de Maio de 75) e H20, duas pranchas a pItálico/b (número 5, 1 Junho), ambas com argumento de Victor Mesquita; no n.º 7, Outubro, tem trabalho duplo: Histórias que a minha avó contava paItálicora eu comer a sopa toda (1.º episódio numa prancha a p/b), e a A Batalha de Rzang, 4 pranchas a p/b; no n.º 8, 10 Setembro, mais uma parte da série Histórias que a minha avó contava (...) e o episódio auto-conclusivo O Espantalho, em quatro pranchas a p/b; no n.º 9, de 20 Janeiro 76, outra parte das Histórias que a minha avó contava (...), iniciando-se neste número a narrativa gráfica A Família Slacqç com o episódio Bem Escondidinho, em quatro pranchas a p/b; no n.º 10 está o segundo episódio, Encontro com o Rato Mickey, mais quatro pranchas no n.º 11, O Teu Amor e Uma Cabana, quatro pranchas e no n.º 12, derradeiro da revista, com data de Maio 76, são publicados os últimos dois episódios quatro e quinto (como sempre, a quatro pranchas cada), dessa notável obra da BD portuguesa.
Em 1977 estreou-se no formato de álbum, com capa a cores e a bedê a preto e branco, A Direita de Cara à Banda (Desenhada) que tinha feito para o jornal Diário, com o título Os Direitinhas, de que foi aproveitada uma parte para o álbum.
Em 1979 escreveu e desenhou Memórias do Último Eléctrico do Carmo, bedê a preto e branco publicada no suplemento portador do curioso título DL Fanzine, do jornal Diário de Lisboa.
Colaborou com bedês de caracter infantil na revista Fungagá da Bicharada.
Na revista Lx Comics (n.º 3, Inverno 1991) fez uma prancha para o cadavre exquis Elxis, que tinha sido iniciado no n.º anterior por Bandeira, e foi continuada no seguinte por Pedro Burgos, mas o tal cadáver esquisito não chegou a ser acabado, porque a Lx Comics — que era propriedade de editora identificada pela sigla MFCR, apoiada pelo pelouro da cultura da Cãmara Municipal de Lisboa — finou-se nesse quarto número, talvez abafada pelos calores do Verão de 1991, ou por outra razão qualquer que não vem agora ao caso tentar deslindar.
Zé Paulo participou na obra colectiva Novas "fitas" de Juca e Zeca, editada num fanálbum em Julho de 2000, com o sarcástico episódio Satanás 3, Deus 1

Para o mesmo editor-amador têm sido as suas mais recentes colaborações em BD, todas em 2007: no fanzine Efeméride (n.º2 - Fevereiro), de novo a parodiar um herói clássico, "Príncipe Valente no Século XXI", com a sátira O Valente do Casal; depois, no fanzine Tertúlia BDzine (n.º 115 de Julho, n.º 117 de Setembro e n.º 120 de Dezembro) fez, respectivamente, as seguintes bandas desenhadas (todas com quatro pranchas a p/b): Fim-de-Semana... Num Futuro Muito Próximo, Príncipe Valente no Século XXI Descendo a Calçada dos Cavaleiros em Contramão, e A Mão Cheia, tratando-se esta última de bd redesenhada sobre original da década de 1980.

E para o renascido fanzine Eros (n.º10) também datado de 2007, quarto trimestre, escreveu e desenhou em quatro pranchas a p/b, a história Luisinha, uma peça ao mais recente estilo ZÉPAULO, como ele ultimamente assinava.
Derradeiramente, está presente no terceiro número do fanzine Efeméride em mais uma banda desenhada, intitulada Esperman, integrada na obra colectiva Super-Homem no Século XXI, onde voltou a trabalhar a cores, género que pouco cultivou na BD, mas que dominava com eficácia e sensibilidade.

Faleceu em 23 de Dezembro de 2008.
 Geraldes Lino
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Recebi nos comentários um emocionado e muito bonito texto de Ágata Simões, filha de Zé Paulo, texto esse que ela tinha exposto num painel da casa mortuária, juntamente com uma ilustração bastante ampliada da autoria de seu pai. Aqui fica o texto, mantendo a apresentação com que foi escrito:

Pai
A tua partida já estava anunciada se bem que
nunca o quis ver, e tão pouco acreditar.
É uma dor tão profunda, que nem a consigo designar.
Seguiste atrás de uma nova luz...
Luz essa que brilhando caminhou na tua direcção,
e foste em silêncio...
Sem um adeus...
Sem um beijo...
E partiste, deixando um ar pesado no teu quarto,
no meu peito.
Meu querido pai.
Meu grande amigo.
Meu mestre.
Foste e serás sempre o exemplo de homem para
os teus netos, que tanto aprenderam contigo.
És para eles um pai, um professor, um grande
amigo de paródia, e por todas essas vivências,
eles choram a tua partida, mas decerto que
jamais te esquecerão.
E eu?
Até um dia...
Quando o sol não me acordar...
Talvez um dia, quando as estrelas brilharem
numa noite de luar...
Talvez encontre no desabrochar de uma flor o teu
sorriso.
Mas até lá penso que estou no paraíso só de
pensar que talvez um dia te encontrarei.
Ágata Simões

domingo, dezembro 31, 2006

Visão (1975/76), revista de Banda Desenhada portuguesa (XI) - Falando hoje com... Zepe

Foto de Zepe, tirada no seu estúdio privativo


Zepe é um dos autores que se destaca na excepcional revista Visão (1975/76) de BD, tendo realizado, desde o número inicial, várias bandas desenhada a preto e branco e a cores, num estilo que rompia as margens estéticas em voga na época.

É o nono autor a ser entrevistado neste ciclo, dedicado aos autores/artistas que, subitamente, alteraram o panorama da BD portuguesa que se tinha imposto até então.

A primeira bd a cores de Zepe na Visão, saiu no nº 5 de 1 de Junho de 75


G.L. - Zepe, diz-me o teu nome completo
Zepe - José Pedro Tinoco Cavalheiro
G.L. - Onde nasceste, e quando?
Zepe - No Porto, em 1956.
G.L. – O que significou para ti a Visão?
Zepe – Vamos lá a ver. Na altura em que a Visão começou, eu já tinha publicado umas tantas ilustrações e bandas desenhadas, mas pouca coisa: nos jornais Diário de Lisboa, República, Capital, e numa revista chamada Seara Nova.
Na altura trabalhei com um tipo chamado Sttau Monteiro, num suplemento do Diário de Lisboa chamado "Mosca": fazia ilustrações para as crónicas dele – muitos dos cartunes que fiz para lá foram censurados ou até apreendidos, e eu não recuperava os originais.
Um dos métodos que a Censura tinha na altura era carimbar com a palavra "censurado" a vermelho sobre os originais, o que inviabilizava a reprodução posterior.
Tinha eu nesta altura dezasseis anos.
Um ano mais tarde tive um contacto com o Victor Mesquita e com o Carlos Barradas, que me propuseram trabalhar na revista Visão.
Nessa altura já tinha ocorrido o 25 de Abril, e foi aí também que conheci o Pedro Massano, o Zé Paulo e o Duarte.

Prancha inicial (1 de 3) da bd O Maravilhoso Mundo de Fred Zeppelin - in Visão nº 7, de 10 de Outubro de 1975

G.L. - Em Abril de 1975, tinhas dezanove anos, o que é que fazias? Ainda estudavas, claro.
Zepe – Sim, estava a tirar o 7º ano do Liceu.


Última prancha (de um total de três) da bd Encontro numa estação vazia às cinco e meia da tarde (Visão nº 8, de 10 de Novembro de 1975) Última prancha, de um conjunto de cinco, da derradeira bd de Zepe na revista Visão (nº 9, de 20 de Janeiro de 1976). Repare-se na originalidade de o título da obra, O Anfitrião, aparecer no canto inferior direito, indicando também os nomes dos restantes elementos que nela colaboraram

G.L. – Que fizeste em BD depois de Maio de 1976, data do fim da Visão?
Zepe – Colaborei com uma revista belga chamada Bitume, fiz para lá algumas bandas desenhadas.

G.L. – Extensas?
Zepe – Não. Eram de quatro pranchas cada, e sairam durante quatro números.
Quando fui para a Bélgica, estudar Animação, em 1976, raramente fiz BD. Ainda fiz algumas tentativas de trabalhos para levar a revistas, mas nunca chegava a acabá-las, ou nunca se proporcionava ocasião para publicação.
Posso dizer que, quando comecei a estudar Animação, e depois a fazê-la, foi na Bélgica, onde fiz o Curso Universitário de Cinema de Animação, completado ao fim de cinco anos, na École Nationale Supérieure d'Architecture et Arts Visuels.
Quando voltei, em 1981, isto era um deserto. Havia uma crise económica brutal - e eu comecei a perceber que nem com a Ilustração, nem com a Banda Desenhada, nem inclusivamente com a Publicidade, eu poderia subsistir.
A única pessoa com quem trabalhei na altura, em Animação, foi com o José Abel. Trabalhei com ele à volta de dois anos. E depois foi assim: como em Portugal as coisas não evoluiam a não ser no campo da Publicidade, eu estava mais interessado em profissionalizar-me em Animação. E então contactei um estúdio húngaro de Animação, e foi-me atribuída uma bolsa durante um ano.

G.L. – Por quem?
Zepe – Por um estúdio chamado Pannónia Film Studio, que era um estúdio do Estado húngaro. Estamos a falar de 1986, e o que eu fiz foi cenários para filmes e efeitos especiais para Animação.

G.L. – E BD na Hungria?
Zepe – Não havia nada.
Depois, quando voltei, comecei a dar aulas de Animação na Gulbenkian, e o mercado de Publicidade, em 1987, estava a melhorar. Comecei nessa altura a colaborar com o Nuno Amorim, sobretudo em Publicidade.
Foi por essa altura também que começaram a ser atribuídos subsídios pelo IPACA (depois substituído pelo ICAM - Instituto de Cinema, de Animação, Audiovisuais e Multimédia) a curtas metragens de Animação.

G.L. – Em vez de BD, o que é que tens feito para ganhar a vida?
Zepe – É assim: dou aulas.
Durante dezoito anos dei aulas na Gulbenkian, de Banda Desenhada e Animação. Isto para além de outros cursos, como, por exemplo, de Ilustração e Argumento.
Eu dirigi uma coisa na Gulbenkian, que era o CITEN – Centro de Imagem e Técnicas Narrativas, e que tinha cursos de Argumento, Ilustração, Cinema de Animação e de Banda Desenhada. E fui professor das últimas duas,
Esse Centro neste momento passou para as Belas Artes, ou melhor, para a FBAUL – Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa, enquanto Centro de Investigação., e dirijo os mesmos cursos lá.
Para além de orientar esses cursos, eu lecciono Animação na Licenciatura de Arte e Multimédia.
Paralelamente a isto, ao longo deste tempo, nos últimos dez anos, fiz cerca de cem filmes publicitários e genéricos de televisão, e três filmes de autor, apoiado pelo ICAM: Stuart, Cof Cof e Cândido.
A partir de Março vou fazer uma série de Animação para crianças.

G.L. – Há algum projecto de BD que ainda um dia gostasses de concretizar?
Zepe – Pá, eu gostaria de tentar de novo, repegar na questão da BD, mas o problema é que é difícil conjugar a BD com outras actividades: se tu começas a fazer um álbum, ficas dois anos dedicado a isso, e a Animação é uma coisa que já me absorve imenso tempo.
Mas é natural que, no futuro, tendo alguma estabilidade em termos universitários, possa parar durante algum tempo, e dedicar-me a um projecto
De qualquer maneira, seria sempre mais experimental do que comercial.

Entrevista e foto
Geraldes Lino

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"Posts" remissivos sobre a revista VISÃO (de Banda Desenhada)
(X) Novembo, 26 - Nuno Amorim
(IX) Setembro, 12 - Duarte
(VIII) Julho, 9 - Carlos Barradas
(VII) Junho, 30 - Zé Paulo
(VI) Junho, 15 - Corujo Zíngaro
(V) Junho, 13 - Isabel Lobinho
(IV) Maio, 31- Pedro Massano
(III) Maio, 30-Victor Mesquita
2ª Parte - Entrevistas a autores-artistas da revista
2006 (ver acima)

(II) Dezembro, 11
(I) Dezembro, 10
1ª Parte - Textos generalistas acerca da revista
2005 (ver acima)

Há ainda outro "post" (data: Junho 19), esse dedicado ao tema Lisboa na Banda Desenhada, em que se podem observar duas imagens (óptimas, vale a pena vê-las) da autoria de Zé Paulo, ambas extraídas da revista Visão http://divulgandobd.blogspot.com/search?updated-min=2006-01-01T00%3A00%3A00Z&updated-max=2007-01-01T00%3A00%3A00Z&max-results=50http://divulgandobd.blogspot.com/search?updated-min=2006-01-01T00%3A00%3A00Z&updated-max=2007-01-01T00%3A00%3A00Z&max-results=50

domingo, novembro 26, 2006

Visão (1975/76), revista de Banda Desenhada portuguesa (X) - Falando hoje com... Nuno Amorim

Prancha inicial da banda desenhada "Jim'Tómic", da autoria (argumento e desenho) de Nuno Amorim, reproduzida na revista de BD Visão (nº 8, de 10 Nov. 1975)

Nuno Amorim é outro dos autores de Banda Desenhada que reputo ser imprescindível focar, quando se pretenda falar da extinta revista Visão, de qualidade marcante mas de vida efémera, editada entre Abril de 1975 e Maio de 1976.

Esse autor ainda desconhecido, que viria a ser um dos colaboradores da novel publicação, tinha nascido em Lisboa a 9 de Abril de 1952, e recebera o nome de Nuno José Rosa Fernandes Amorim.

  
Licenciar-se-ia em Arquitectura, na ESBAL-Escola Superior de Belas Artes de Lisboa (actual FBAUL-Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa), e, a meio das funções que começara a exercer em 1973, num atelier de arquitectos, surgir-lhe-ia a possibilidade de fazer BD na dita revista Visão, quando ela atingia o seu número sete. Passava-se isto em Outubro de 1975.

Debutaria assim o jovem Nuno nessa invulgar e importante publicação, dedicada essencialmente à divulgação de novos autores portugueses, onde reessaltaram os nomes de Victor Mesquita, Pedro Massano, Isabel Lobinho, Zé Paulo, Carlos Barradas, Corujo Zíngaro, Duarte, Zepe e, naturalmente, Nuno Amorim, o entrevistado de hoje.


Outra das pranchas da banda desenhada "Jim'Tómic", a única de Nuno Amorim publicada em quadricromia

G.L.- Para ti, o que significou o aparecimento da revista Visão?
Nuno Amorim - Foi a possibilidade de editar bandas desenhadas com qualidade e bem impressas, e com boa distribuição.

G.L.- Dizes isso porque já conhecias a revista, visto que entraste a meio...
N.A.- Na fase em que eu entrei tinha havido uma mudança editorial que tornou a coisa mais interessante para mim. Aliás, eu entrei em resultado dessa mudança.

G.L.- Em Abril de 1975, fazias nesse mês vinte e três anos, ainda estudavas, ou já estavas a trabalhar?
N.A.- Já trabalhava. Trabalhava como arquitecto, num ateliê de arquitectura, onde estava desde 1973.

G.L.- Quando conheceste a revista Visão, já tinhas bandas desenhadas feitas, e alguma publicada?
N.A.-Sim, já tinha publicado num jornal semanal de Música, chamada Musicalíssimo. Fiz lá uma série chamada "Skeleton", aí uns doze episódios.

G.L.- Como é que surgiu a oportunidade de colaborares na Visão?
N.A.- Não sei, não me lembro, sei que alguém falou comigo, e eu fui lá à redacção, já não me lembro onde era.


Prancha da banda desenhada "Interlúdio - Não pare, não escute, não olhe", a primeira de Nuno Amorim publicada na Visão (nº 7, 10 Out. 1975)

G.L.- O tema das bedês com que colaboraste foi-te sugerido, ou aceitaram tudo o que apresentaste?
N.A.- Havia umas reuniões em que se combinava tratar um tema. Mas eu, quando comecei, levei umas bandas desenhadas, que aceitaram.
Só fiz, para a Visão, umas três ou quatro, uma delas intitulada "Não pare, não escute, não olhe", e outra com o título "Jim'Tómic".


Prancha inicial da banda desenhada "A Lição de História" (in Visão nº 9, de 20 Jan.1976)

G.L.- Que fizeste em BD depois de Maio de 1976, data do fim da Visão?
N.A.- Havia um jornal em que estava o Zepe (que tinha conhecido na Visão, e de quem tinha ficado amigo), chamado Pé-de-Cabra, feito ao modelo do Charlie Hebdo.

G.L.- O que é que fizeste para lá?
N.A.- Não me lembro. Sei que fiz para lá uns desenhos, mas não me lembro o que era.

G.L.- Em vez de BD, o que é que tens feito para ganhar a vida?
N.A.- Trabalhei na publicidade, e também na RTP como gráfico. Agora tenho uma produtora de filmes, a Animais, em que faço, sobretudo, Animação.

G.L.- Então e a Arquitectura?
N.A.- Arquitectura tenho feito só para mim e para amigos. Recuperei três montes no Alentejo, dois deles para mim, outro para um amigo.

G.L.- Há algum projecto de BD que estejas a realizar, ou que gostasses de concretizar, num futuro mais ou menos próximo?
N.A.- Não estou a ver, sinceramente não estou a ver. A vida está tão difícil, e não acredito que a BD seja rentável.


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"Posts" remissivos sobre a revista VISÃO (de Banda Desenhada)
 

2ª Parte - Entrevistas a autores-artistas da revista
(IX) Setembro, 12 - Duarte
(VIII) Julho, 9 - Carlos Barradas
(VII) Junho, 30 - Zé Paulo
(VI) Junho, 15 - Corujo Zíngaro
(V) Junho, 13 - Isabel Lobinho
(IV) Maio, 31- Pedro Massano
(III) Maio, 30-Victor Mesquita 2006

1ª Parte - Textos generalistas acerca da revista:
(II) Dezembro, 11 - (I) Dezembro, 10
2005 (ver acima)

Há ainda outro "post" (data: Junho 19), esse dedicado ao tema Lisboa na Banda Desenhada, em que se podem observar duas imagens (óptimas, vale a pena vê-las) da autoria de Zé Paulo, ambas extraídas da revista Visão

terça-feira, setembro 12, 2006

Visão, revista de Banda Desenhada Portuguesa (IX) - Falando hoje com... Duarte

Duarte (José Luís Carvalho Duarte - Parede, Novembro de 1945) foi um dos autores portugueses que considero terem obra importante na revista de banda desenhada Visão.

Trinta anos depois da efémera mas marcante revista ter desaparecido, resolvi fazer curtas entrevistas, todas praticamente iguais, a cada um desses autores/artistas.

Após Victor Mesquita, Pedro Massano, Isabel Lobinho, Corujo Zíngaro, Zé Paulo e Carlos Barradas, é hoje a vez de Duarte (ou J.L.Duarte, as duas formas que usa para se identificar na BD).

 
GL - O que significou para ti a Visão?
D - Foi a oportunidade de publicar, quando isso era muito difícil pelos circuitos editoriais normais.
Por outro lado, também foi uma oportunidade de publicar aquilo que se queria, sem grandes problemas de filtragens editoriais, ou seja, cada um de nós, colaboradores da Visão, depois de acordado o tema, criava a história que entendesse, com a certeza de que ia sair tal e qual.
Com a Visão fui encontrar um grupo com o qual me integrei, em que cada um tinha pontos de vista diferentes da realidade que nos rodeava, dos acontecimentos da época, que podíamos expressar com total liberdade, independentemente de opções políticas ou de vida que nos separassem do dia-a-dia.

Prancha da bd autoconclusiva "O Último Inimigo de Bill Trigger", da autoria de Duarte, publicada na contracapa do nº 8 da revista Visão


GL - Em Abril de 1975, data em que surgiu a revista, o que é que fazias?
D - Trabalhava numa Agência de Publicidade, para onde tinha entrado em 1972, foi aí o princípio da minha actividade como publicitário, nessa época como arte-finalista.

GL - Que fizeste em BD, depois de Maio de 1976, data do fim da Visão?
D - Após vinte e seis páginas publicadas na Visão, só voltei à BD entre 1983 e 1985, espaço de tempo em que desenhei "Os Fardetas" para o jornal Bisnau, onde foram publicadas vinte e cinco tiras.
Ainda em 85 (não garanto) acabei por publicar um álbum com o mesmo título, utilizando esse material e mais tiras que fiz de propósito para esse fim.
Mas lá bem para trás, entre 1970 e 71, tinha feito dezasseis pranchas para o suplemento Nau Catrineta do jornal Diário de Notícias, sobre um robô de nome "Telek".
Entre 72 e 73 fiz onze pranchas para o Jornal do Exército, cujo herói se chamava "Tapaxamas".
De 73 a 74 fiz "Os Kolans", uma série diária para o Diário de Lisboa, que acabariam por originar um álbum sob o título "Kolanville".
Para o Sempre Fixe, jornal humorístico, colaborei com os "Filocopos", que é como quem diz, os amigos da pinga.
A seguir é a Visão.

Prancha da banda desenhada Guloseima, autoconclusiva em duas pranchas, da autoria de Duarte
in revista Visão nº 8, de 10.Nov.1975

GL - Em vez de BD, o que é que tens feito para ganhar a vida?
D - Para ganhar a vida tenho trabalhado em Publicidade até aos dias de hoje, em que os últimos doze anos foram como Director Criativo, em mais de uma Agência.

GL - Há algum projecto de BD que estejas a realizar, ou que gostasses de concretizar num futuro mais ou menos próximo?
D - A minha actividade como publicitário tem-me impedido de fazer BD, tanto por falta de tempo, como por falta de disponibilidade mental. A função de Criativo na Publicidade ocupa-me plenamente, e não me deixa tempo para outras actividades criativas. No entanto, tenho de reconhecer que tem havido em mim um afastamento progressivo da BD, por limitações de comunicação que fui encontrando.
Embora tenha projectos para regressar à BD - uma vez que algo mudou na minha vida profissional - mas eventualmente na forma de tiras autoconclusivas sobre um mesmo tema, o que permite uma produção menos morosa, menos planificada, mais solta.

GL - Obrigado, Duarte, por esta breve entrevista para o meu blogue, e boa sorte para esse projecto de regresso à BD.----------------------------------------------
"Posts" remissivos sobre a revista VISÃO (de Banda Desenhada)
2ª Parte - Entrevistas a autores-artistas da revista
2006
(VIII) Julho, 9 - Carlos Barradas
(VII) Junho, 30 - Zé Paulo
(VI) Junho, 15 - Corujo Zíngaro
(V) Junho, 13 - Isabel Lobinho
(IV) Maio, 31- Pedro Massano
(III) Maio, 30-Victor Mesquita

1ª Parte - Textos generalistas acerca da revista:
2005
(I) Dezembro, 10
(II) Dezembro, 11

Há ainda outro "post" (data: Junho 19), esse dedicado ao tema Lisboa na Banda Desenhada, em que se podem observar duas imagens (óptimas, vale a pena vê-las) da autoria de Zé Paulo, ambas extraídas da revista Visão

domingo, julho 09, 2006

Visão, revista de Banda Desenhada Portuguesa (VIII) - Falando hoje com... Carlos Barradas

Viver não custa, título da bd a cores da autoria (desenho e argumento) de Carlos Barradas, publicada na revista Visão (nº3, de 1 de Maio de 1975)

Após entrevistas com Victor Mesquita, Pedro (Pedro Massano), Isabel Lobinho, Corujo Zíngaro e Zé Paulo, é hoje a vez de Carlos Barradas.
Para completar o lote dos Nove Magníficos (uma versão minha, mais abrangente), falta ainda entrevistar Duarte, Nuno Amorim e Zepe. Lá chegaremos.
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CARLOS BARRADAS (Carlos Manuel Barradas Teixeira, Lisboa, Fevereiro de 1947)

Carlos Barradas e eu encontrámo-nos em Oeiras, onde vive. Fomos até às docas lá do sítio para a nossa conversa. Que, como tem sido hábito, começou pela pergunta:

- O que significou para ti a Visão?
CB - Foi uma maneira de fazer uns bonecos, de deitar cá para fora a criatividade que a gente tinha.
A propósito de Visão: sabes como aquilo apareceu?

- Já alguém me contou uma vez. Dá-me a tua versão.
CB - Carlos Soares, que era jornalista e foi o argumentista daquela história dos ceguinhos publicada lá na revista Visão (nota do bloguista-entrevistador: a bd Clave Sem Sol, de que mais abaixo se reproduz a primeira prancha), foi meu colega no Liceu D.João de Castro. Ele adorava os meus desenhos, e as caricaturas que eu fazia.
Um dia perguntou-me se eu não queria fazer uma revista de banda desenhada, porque ele conhecia uma pessoa com "massas" - era construtor civil, e constou-se mais tarde que talvez quisesse arranjar uma coisa qualquer em que não se importava de ter prejuízos, porque seria um subterfúgio em relação a obter vantagens nos impostos.
E assim surgiu a hipótese de haver uma revista de boa qualidade para publicar BD portuguesa em Portugal.

- Julgo que isto - a história do início da Visão - nunca tinha sido escrita, fica agora registada, preto no branco, pela primeira vez. Mas voltando à questão acerca do que significou para ti aquela revista de BD...CB - Foi importante, fez descobrir uma data de gente da BD que estava escondida. A Visão foi uma montra para mostrar o produto nacional, que era tão bom como o dos outros, apesar de que nós não tínhamos escola como os franceses e os belgas.

- Em Abril de 1975, estudavas ou trabalhavas?
CB - Estudava. Estava na Escola Superior de Belas Artes e no IADE.

Foto recente (Maio 06) de Carlos Barradas

- Que fizeste em BD depois de 1976, após o fim da Visão?
CB - Fiz O Capital em Banda Desenhada, editado pelo maluco do Sérgio Guimarães - sim, ele era mesmo louco, era personagem para um filme de Almodôvar, se o Almodôvar o tivesse conhecido, teria feito um filme sobre a vida dele. Depois trabalhei com o Mário Henrique Leiria - também outra personagem - ele escrevia e eu desenhava, outras vezes fazia eu um desenho e ele escrevia uma história inspirada no desenho.
A seguir surgiu a ideia do Henrique Espírito Santo, produtor de Cinema, de fazer um álbum em BD para explicar como é que se faz um filme, desde a pré-produção, produção, rodagem, pós-produção, etc., os passos todos. Era uma coisa mais ou menos didáctico-pedagógica. Entretanto, como ainda não havia editora, e iam aparecendo outros trabalhos, a coisa foi ficando para trás, e olha...

- Em vez de BD, o que é que tens feito para ganhar a vida?
CB - Trabalhei como realizador e produtor - mais realizador do que produtor - na RTP, durante vinte e tal anos.
Agora estou a trabalhar como "free-lancer", a fazer de tudo - ilustração, "design", logos.
Quando saí da RTP ainda estive como Art Director da TV Medicina - um canal codificado só para médicos - e colaborei com a NBP para realizar a novela "A Filha do Mar".
Nos tempos mais recentes, em banda desenhada apenas participei naquele álbum Novas "fitas" de Juca & Zeca, que tu próprio editaste.


- Há algum projecto de BD que estejas actualmente a realizar, ou que gostasses de concretizar num futuro mais ou menos próximo?CB - Estou agora com uma hipótese de projecto que talvez se concretize - depende do orçamento - porque a editora achou o preço por prancha, que eu quero, muito caro.
Um canalizador, um marceneiro, ganham mais que nós, autores de BD.
Mas, convenhamos, eles, os editores, também sabem em que é que se vão meter, porque o mercado da Banda Desenhada é um mercado em que se vende pouco. 


Clave sem sol, título da bd da autoria de Carlos Barradas (desenho) e Carlos Soares (argumento), publicada na revista Visão nº 1, de 1 de Abril de 1975-----------------------------------------------------------------------------
"Posts" remissivos sobre a revista VISÃO de Banda Desenhada:
1ª Parte - Textos generalistas acerca da revista: 2005-(I) Dezembro, 10; (II) Dezembro, 11
2ª Parte - Entrevistas a autores-artistas da revista:
2006
(III) Maio, 30-Victor Mesquita
(IV) Maio, 31- Pedro Massano
(V) Junho, 13 - Isabel Lobinho
(VI) Junho, 15 - Corujo Zíngaro
(VII) Junho, 30 - Zé Paulo
Há ainda outro "post" (data: Junho 19), este dedicado ao tema Lisboa na Banda Desenhada, em que se podem observar duas imagens (óptimas, vale a pena vê-las) da autoria de Zé Paulo, ambas extraídas da revista Visão

sexta-feira, junho 30, 2006

Visão, revista de Banda Desenhada Portuguesa (VII) - Falando hoje com... Zé Paulo

Capa (excelente) da revista Visão (nº 10, de Fevereiro de 1976), da autoria de Zé Paulo, referente à sua própria bd intituladaA Família Slacqç

Continuando a relembrar a memorável revista de banda desenhada Visão (1975-76), estão publicados neste blogue dois textos com ela relacionados.

A fim de completar esta breve homenagem, há nove autores-artistas que considero mais importantes, e cujas palavras e respectivas fotografias actuais aqui ficarão registadas.
De Victor Mesquita, Pedro Massano, Isabel Lobinho e Corujo Zíngaro, já estão publicadas as entrevistas. Hoje é a vez de Zé Paulo. Faltam ainda Carlos Barradas, Duarte, Nuno Amorim e Zepe.

Foto recente (Junho 2006) de Zé Paulo
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ZÉ PAULO (José Paulo Abrantes Simões, Lisboa, Novembro de 1937)

- Zé Paulo: o que significou para ti a Visão?

ZP - Já fazia banda desenhada antes da Visão, no jornal A Capital.
A Visão foi a oportunidade de fazer banda desenhada de outro teor, se bem que, n'A Capital, eu tinha liberdade para fazer o que quisesse, mas estava limitado ao desenho cómico, que era aquilo que eles queriam no jornal. Eu nessa altura era grande admirador do Jacovitti, que era o que respondia melhor à minha faceta anarquista. E o que eu fazia para A Capital era Jacovitti puro.
A primeira história que desenhei na Visão, Os Loucos da Banda, ainda tinha muitas influências de Jacovitti, mas já me estava a libertar.
De certa maneira, na Visão eu podia desenhar cómico e sério, que era o que eu queria. E pode notar-se que eu desenhei muito mais sério que cómico. Ao fim e ao cabo foi isso: proporcionou-me desenhar as histórias que inventava.
N'A Capital, eu tive algumas histórias proibidas pela Censura, o que não acontecia na Visão. Também já era outro tempo.

-Em Abril de 1975, onde é que trabalhavas?
ZP - Era visualizador de uma Agência de Publicidade.



Prancha com o episódio intitulado O tio Hipólito ('tadinho), da bd Histórias que minha avó contava para eu comer a sopinha toda, in Visão nº 7, de 10 de Outubro de 1975


- Que fizeste em BD depois de 1976, após o fim da Visão?
ZP - Após o fim da Visão fiz banda desenhada na revista Mulheres, da Maria Teresa Horta. No jornal Diário de Lisboa, fiz a bd Memórias do último eléctrico do Carmo, e, esporadicamente, mais uma ou outra bd que me era solicitada para vários fins.
Noutro jornal, O Diário, criei Os Direitinhas - uma prancha todas as semanas, durante anos, de que, posteriormente, uma parte diminuta foi publicada em álbum.

-Em vez de BD, o que é que tens feito para ganhar a vida?
ZP - Eu ganhei a vida sempre a desenhar, só não desenhei quando estive na tropa, quando era soldado. Fui sempre desenhador.
Quando deixei a Publicidade, já no ano 2000, passei a pintar quadros, mas que são à mesma desenhos e as minhas histórias, sempre.
E com eles continuo a ganhar dinheiro que me dá para viajar até ao Brasil, Cuba, Holanda - onde tenho um amigo, no Brasil também tenho -, só em Cuba é que não, nem o Fidel.

Prancha inicial do 1º episódio da bd A Família Slacqç, obra de referência assinada por Zé Paulo, publicada no nº 9 (datado de 20 de Janeiro de 1976) da revista Visão


- Há algum projecto de BD que gostasses de concretizar, num futuro mais ou menos próximo?
ZP - Há. Gostaria de fazer uma banda desenhada sobre o cinema de Campolide, que se chamava Campolide Cinema, e que já não existe.
Dele tenho recordações e histórias que me dizem muito. Eu fiz um álbum com desenhos de recordações da minha infância no bairro de Campolide. Obviamente, o Campolide Cinema tem ali lugar de destaque.
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"Posts" remissivos sobre a revista VISÃO de Banda Desenhada:
1ª Parte - Textos generalistas acerca da revista: 2005-(I) Dezembro, 10; (II) Dezembro, 11
2ª Parte - Entrevistas a autores-artistas da revista: 2006- (III) Maio, 30-Victor Mesquita; (IV) Maio, 31- Pedro Massano; (V) Junho, 13 - Isabel Lobinho; (VI) Junho, 15 - Corujo Zíngaro

Há ainda outro "post" (data: Junho 19), este dedicado ao tema "Lisboa na Banda Desenhada", em que se podem observar duas imagens (óptimas, vale a pena vê-las) da autoria de Zé Paulo, ambas extraídas da revista Visão

quinta-feira, junho 15, 2006

Visão, revista de Banda Desenhada 1975-76 (VI) - Falando hoje com... Corujo Zíngaro

2ª prancha (de um conjunto de quatro) da bd As Aventuras de Cabral Eanes, da autoria de Corujo Zíngaro, publicada na Visão nº 8, de 10 de Novembro de 1975

Continuando a levar avante o projecto de entrevistar alguns dos autores-artistas da revista Visão, (Victor Mesquita, Pedro Massano, Isabel Lobinho, Corujo Zíngaro, Zé Paulo, Carlos Barradas, Duarte, Nuno Amorim e Zepe, os mais importantes "visionários", na minha opinião), ou seja, um núcleo não de sete, mas de nove magníficos, núcleo esse que marcou indelevelmente o panorama da banda desenhada portuguesa na década de setenta do século passado - alguns deles mantiveram-se em actividade na BD em datas muito posteriores -, chega hoje a vez de reproduzir as respostas (e a foto recente) do autor-artista de banda desenhada Corujo Zíngaro.

Esta sequência de pequenas entrevistas (tipo inquérito) iniciaram-se com Victor Mesquita ("post" de Maio, 30), Pedro Massano ("post" de Maio, 31) e Isabel Lobinho ("post" de Junho,13).

Foto recente de Corujo Zíngaro (nome artístico do banda-desenhista), ou de Carlos Zíngaro (nome artístico do músico)
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CORUJO ZÍNGARO
(Carlos Alberto Corujo Magalhães Alves - Lisboa, 1948)

- Corujo Zíngaro, o que significou para ti a Visão?
C.Z. - A oportunidade de estar finalmente inserido numa equipa profissional, com alguns dos melhores desenhadores/autores existentes na altura.
Assinalo porém que não participei na aventura desde o seu início por alegada oposição de Victor Mesquita, que nem conhecia pessoalmente e que me consideraria um autor menor.
Foi apenas a partir do número dos "7 Magníficos" que passei a integrar o grupo.
Refiro também que a minha colaboração se resumiu a três únicos números, pelo que dificilmente me poderei considerar uma parte do núcleo "duro" da Visão.
Ficou-me porém o prazer de saborosas reuniões, de imaginações transbordantes, e a vontade de fazer algo único no nosso país. Infelizmente, a partir de muito cedo,com morte anunciada...
Era uma produção caríssima, teoricamente subsidiada por lucros flutuantes, com uma distribuição péssima, que não tinha a mínima ideia de como colocar um produto daqueles e o atirava para as bancas juntamente com a Moda e Bordados e a Capricho...

- Em Abril de 1975, estudavas ou trabalhavas?
C.Z. - Estudava e trabalhava... Estava a acabar o curso de cenografia da Escola Superior de Teatro, onde depois ficaria ainda mais um ano enquanto assistente da cadeira de desenho e membro da Comissão Directiva.
Continuava com o meu grupo Plexus em concertos pelo país. Tinha integrado a fundação do grupo de Teatro Os Cómicos um ano antes, do qual era director musical e que sobreviveria até 1980 - ano a partir do qual eu reciclaria o espaço (no Teatro do Bairro Alto) em galeria de arte com o mesmo nome.
É em 1975 também que se inicia a minha actividade no estrangeiro, com participações e colaborações em seminários e festivais internacionais.

- Que fizeste em BD depois de 1976, após o fim da Visão?
C.Z. - Uma militante colaboração num fanzine, o Ovo, dos ex-Visão Nuno Amorim e Pedro Massano.
A recusa de Júlio Isidro em me integrar com a mesma equipa da Visão na revista infantil de BD - Fungagá da Bicharada - alegadamente por eu não saber fazer BD infantil... Coisa que nunca sequer me foi perguntada.
Finalmente, uma prancha para uma publicação complementar ao Arroz Doce - justamente programa de TV do referido apresentador (teoricamente já não infantil).
E mais uma prancha para uma revista do Ministério da Educação. Recentemente, uma colaboração para o livro sobre Carlos Paredes - que dificilmente poderei considerar BD.
Um período relativamente fértil em 1980/90 de ilustração e cartoon para as revistas do TNS, Carlos, revista de Artes Plásticas, Bisnau, Pão com Manteiga, etc., todas de morte mais ou menos anunciada, mas que me permitiram ganhar diversos prémios em Salões de Humor - Porto de Mós e Oeiras - assim como o desaparecimento de vários originais e o não pagamento de alguns outros...
Há mais de dez anos que a minha actividade gráfica é quase inexistente em termos profissionais e públicos.
Mas continuarei teimosamente a desenhar...

-Em vez de BD, o que é que tens feito para ganhar a vida?C.Z. - Música. Concertos - essencialmente no estrangeiro.
Música para teatro, dança e cinema (muito pouco no último caso...)
Dei aulas - Forum Dança, Chapitô, CEM, Escola Superior de Música de Coimbra, etc..
Desde 2003 sou fundador - presidente de uma associação ligada aos experimentalismos artísticos - fundamentalmente musicais - que é a Granular. Que, claro, não me dá qualquer receita, antes pelo contrário, e que é o meu derradeiro investimento colectivista em Portugal - podemos aprender tarde mas aprendemos...

- Há algum projecto de BD que estejas a realizar, ou que gostasses de concretizar um dia?
C.Z. - Projectos há imensos!
Um livro com textos do Rui Eduardo Paes, livremente baseado num espectáculo que fiz em 2003 - Senso - que está pronto mas com imensas dificuldades de edição pois não é nem ilustrativo, nem BD nem novela gráfica!
Projectos de instalação e desenvolvimento intermédia; cada vez mais interessado pelas possibilidades informáticas na manipulação vídeo e na concretização de pequenas animações.
Seriamente a pensar na publicação NET de tiras críticas ou abstractas perante a cada vez maior imbecilidade instalada...
Algo que compreendi há muito em relação à minha abordagem BD foi que preferencialmente me atraía o lado nonsense, exploração gráfica extrema, a experimentação plástica/visual/conceptual. Comecei essas ideias antes de tempo, há trinta anos, algumas viram esporadicamente a luz sem sucessão...
Hoje que finalmente alguns autores exploram justamente essas áreas, eu serei considerado velho e ultrapassado - ou pura e simplesmente ignorado, pois esta é uma tendência bem lusitana = nunca se fazer a história recente, pelo menos enquanto os seus protagonistas ainda estão vivos.
Há um ostensivo ignorar de quem veio antes, e continua-se alegremente a voltar à estaca zero...
E como isto acontece também nas músicas, presumo ser um mal nacional, eventualmente endémico.
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"Posts" remissivos sobre a revista VISÃO de Banda Desenhada:
1ª Parte -
Textos generalistas acerca da revista: 2005-(I) Dezembro, 10; (II) Dezembro, 11
2ª Parte - Entrevistas a autores-artistas da revista: 2006- (III) Maio, 30-Victor Mesquita; (IV)Maio, 31- Pedro Massano; (V)Junho, 13- Isabel Lobinho

terça-feira, junho 13, 2006

Visão, revista de Banda Desenhada 1975-76 (V) - Falando hoje com... Isabel Lobinho

Prancha da banda desenhada Por entre os dedos..., da autoria de Isabel Lobinho, publicada na Visão (nº5, editada a 1 de Junho de 1975)

Depois das breves entrevistas-inquérito feitas a Victor Mesquita ("post" de Maio, 30) e Pedro Massano ("post" de Maio, 31), falei agora com Isabel Lobinho, essencialmente publicitária e pintora, mas que, enquanto autora de BD, representa um dos nomes de referência de uma revista emblemática entre as publicações de banda desenhada portuguesa.

Fotografia actual de Isabel Lobinho, feita em Maio no Salão BD da Sobreda
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ISABEL LOBINHO
Vila Nova da Barquinha, Junho de 1947

- Isabel, o que significou para ti a Visão?
I.L.- Foi uma aventura muito interessante, porque deu resposta a uma série de coisas que a gente sentia, de emoções.
Eu tinha começado a fazer BD na revista Lorenti's, fiz a primeira banda desenhada em 1973.
Com o 25 de Abril aparece a Visão, em 1975, e dá resposta a vários desenhadores que gostavam de fazer BD, e que não tinham hipóteses de publicação.
A Visão foi um incentivo à criatividade, cada qual podia apresentar o tema que quisesse.

- Em Abril de 1975, estudavas ou trabalhavas?
I.L.- Trabalhava na Agência de Publicidade do Manuel Vinhas, a "Inforang" (que era de Angola).

- Que fizeste em BD depois de 1976, após o fim da Visão?
I.L.- Trabalhei para o jornal A Luta, onde estive dois anos, onde fazia a paginação. A seguir regressei à Publicidade. Mas, em 1986, ainda fiz a bd a cores Agora eu era a heroína, na revista dominical do Correio da Manhã, e colaborei no teu fanzine Eros.

- Em vez de BD, o que é que tens feito para ganhar a vida?
I.L.-Publicidade e Pintura, que é o que faço ainda.

- Há algum projecto de BD que estejas a realizar, ou que gostasses de concretizar, num futuro mais ou menos próximo?
I.L.-Não, não há, por razões de saúde. Faço Pintura, de vez em quando.
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"Posts" remissivos:
1º "Post" - Entradas anteriores neste blogue sobre a revista VISÃO: 2005-(I) Dezembro, 10; (II) Dezembro, 11 2º "Post" - Entradas anteriores com entrevista/inquérito a autores-artistas da VISÃO: 2006-Victor Mesquita-Maio 30; Pedro Massano-Maio 31

quarta-feira, maio 31, 2006

Visão, revista de Banda Desenhada, 1975-76 (IV) Falando hoje com... Pedro Massano

Capa da revista Visão (nº7, de 10 de Outubro de 1975), da autoria de Pedro. As figuras caricaturadas pelo autor estão alinhadas pela seguinte ordem: Pilar, Zé Paulo, Zepe, Pedro [Massano], Carlos Barradas, Corujo Zíngaro e Duarte

Prancha da banda desenhada Angola 1971, assinada por Pedro, na revista VISÃO (nº 7, de 10 de Outubro de 1975)

Trinta anos depois do desaparecimento da VISÃO, revista portuguesa de Banda Desenhada Portuguesa (repito, para que se percebam bem as características quase únicas, e irrepetíveis daquela publicação a nível assumidamente profissional/comercial), continuo a fazer, a alguns dos seus autores-artistas mais representativos, uma curta entrevista, para que possam ser vistos (através de fotos actuais) e entendida a sua trajectória até hoje..

Depois de ter conversado com Victor Mesquita, ("post" de Maio, 30), é agora a vez de Pedro (nome com que assinava as bandas desenhadas publicadas naquela revista, e até outras obras publicadas em álbum posteriormente, como foi o caso de O Abutre), mas que, a determinada altura, mudou para Pedro Massano, nome artístico pelo qual é actualmente conhecido.


Pedro Massano, no seu ateliê de Lisboa em Maio de 2006
(foto por G.Lino)
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PEDRO MASSANO
Lisboa, Agosto de 1948

- O que significou para ti a VISÃO?
P.M. - Olha, se me tivesses perguntado isso há 30 anos, eu sabia o que havia de te responder. Mas posso dizer-te que senti que era a possibilidade de, pela primeira vez em Portugal, se fazer uma revista daquele género, só com autores portugueses.

- Em Abril de 1975, ainda estudavas, ou já trabalhavas?
P.M. - Já estava a trabalhar no jornal A Luta, onde fazia cartunes e caricaturas.

- Que fizeste em BD depois de 1976, após o fim da VISÃO?
P.M. - Fiz vários álbuns: sete volumes do "Abutre", "Mataram-no Duas Vezes - A Lei do Trabuco e do Punhal", "A Minhoca Tropicalda", "A Conquista de Lisboa -I", "A Conquista de Lisboa -II", "Le Deuil Impossible - I e II" (editados em França pela Glénat), o álbum "Dik Tetiv" (editado pela C.M.de Moura), "Os Passarinhos - 1", e escrevi um livro "Como Fazer Banda Desenhada", além de várias colaborações para jornais e revistas.

- Em vez de BD, o que é que tens feito para ganhar a vida?
P.M. - Publicidade.

- Há algum projecto de BD que estejas a realizar, ou que gostasses de concretizar num futuro mais ou menos próximo?
P.M. - Gostaria de acabar o álbum que agora estou a fazer sobre a Batalha de Aljubarrota. Também gostaria de acabar a Camioneta Fantasma, e fazer o 3º volume de A Conquista de Lisboa.
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1º "Post" remissivo - Entradas anteriores neste blogue sobre a revista VISÃO: 2005-(I) Dezembro, 10; (II) Dezembro, 11

2º "Post" remissivo - Entradas anteriores com entrevista/inquérito a autores-artistas da VISÃO: 2006-Victor Mesquita-Maio 30

2º "Post" remissivo - Entradas anteriores neste blogue relacionadas com Victor Mesquita 2006-Maio, 13 (Picado e Contrapicado na BD); Maio, 21 (Lisboa na BD)