Mostrar mensagens com a etiqueta Vilhena. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Vilhena. Mostrar todas as mensagens

sábado, outubro 03, 2015

José Vilhena - O Fim










José Vilhena terminou na madrugada de hoje, dia 3 de Outubro, o seu longo percurso de vida que durou oitenta e oito anos, tornado penoso na fase final pelo implacável Alzheimer.

Homem de talento plurifacetado, de grande coragem e impressionantemente prolífico, Vilhena escreveu e ilustrou dezenas de livros e foi editor de diversas revistas, sendo ele igualmente quem escrevia os textos e os ilustrava, além de compor cartunes e bandas desenhadas, das quais a mais constante e popular tinha por personagem fixa uma atraente repórter chamada Dorita, sempre activa nas suas sondagens, explanadas em duas páginas plenas de sátira a costumes e situações sociais e políticas. 
Mas igualmente inesquecíveis foram os pastiches porno em que utilizava as personagens dos Peanuts, com destaque para Charlie Brown, Lucy e Snoopy, decerto à revelia de Schulz.

As revistas que editou foram bem populares, sendo a primeira, logo em Maio de 1974, intitulada Gaiola Aberta. Após ter publicado várias outras, a sua actividade editorial terminaria com uma 2ª série daquele primeiro título, já no decorrer do ano 2000.

Em todas elas fervilhava o seu espírito crítico, pleno de humor cáustico e sentido político acutilante.

Antes do 25 de Abril de 1974, Vilhena tinha sido perseguido pela censura, e o lápis azul daquela sinistra instituição fez desaparecer das livrarias uma parte substancial das tiragens das mais de cinco dezenas de livros de sua autoria, que editou às próprias custas.

Imagens que ilustram a postagem: 

1 - Vilhena - Auto-retrato em pintura

2 - Vilhena - Fotografia recente

3 - "Gaiola Aberta - Quinzenário de Mau Humor"- Capa do Nº2 - 1ªsérie - Maio 1975 

4 e 5 - Dorita e Suas Sondagens: Acha Que Este País Tem Futuro? 
           (Duas pranchas da banda desenhada protagonizada por Dorita, a    personagem que Vilhena mais frequentemente utilizou na área da BD)

6 - "Fala Barato - Jornal Satírico" - Capa do Nº34 - Dezembro 1990

7 - "O Cavaco - Pasquim Abjecto" - Capa do Nº5 - Fevereiro 1995 

8 - "O Moralista - Revista Cultural de Artes e Letras :-)" Capa do Nº64 - Set. 2002

9 - "Gaiola Aberta - Revista de humor fundada em 25 de Abril de 1974" - Director Vitalício: José Vilhena -Nº17 (2ªSérie) - Setembro 2004

10 - Capa do livro "Contos de Terror", uma antologia de dezassete contos de terror, de autores estrangeiros, em edição e tradução de J.Vilhena 
- circa 1962
Nota - Infelizmente, ao ser encadernado, o encadernador aparou ligeiramente a capa do livro, assim desaparecendo a assinatura.
Trata-se de uma raridade, pertencente à colecção do Dr. António Monteiro
----------------------------------------------------------------

JOSÉ VILHENA
Síntese biográfica

José Alfredo de Vilhena Rodrigues nasceu a 7 de Julho de 1927, em Figueira de Castelo Rodrigo, e faleceu em Lisboa a 3 de Outubro de 2015.

Fez o curso liceal em Lisboa, e frequentou até ao quarto ano de arquitectura na ESBAP - Escola Superior de Belas Artes do Porto.

Após o serviço militar, em 1952, o seu nome aparece como cartunista e caricaturista no jornal Diário de Lisboa, e em 1955 começa a colaborar na revista Mundo Ri. onde esteve até  ao fim da publicação,em 1966.

Finda a colaboração no matutino lisboeta, em 1958, lança-se na escrita crítica e humorística de maior fôlego, e o resultado são dois livros, ambos editados em 1960, Manual de Etiqueta e História Universal da Pulhice Humana, que de imediato foram retirados das livrarias pela PIDE, outra sinistra instituição do Estado Novo que era a concretizadora das decisões da censura. 
Vilhena deu-lhes bastante trabalho, visto que a sua produção chegou a ser de um livro por mês, atingindo a impressionante fasquia de catorze títulos num único ano, com tiragens de quarenta a cinquenta mil exemplares de alguns dos seus livros.

A actividade polifacetada de Vilhena manifestou-se fulgurantemente nas revistas que editou. A primeira, intitulada Gaiola Aberta teve o seu lançamento em Maio de 1974.

Talvez para renovar o interesse do público, Vilhena foi desactivando os anteriores títulos e editando periodicamente outros: Fala Barato, O Cavaco, O Moralista, recuperando a Gaiola Aberta, numa 2ª série, sua derradeira aventura editorial, que durou até meados de 2006.

Escritor, pintor, cartunista, caricaturista, editor, até distribuidor, José Vilhena, personagem ecléctica foi também autor de banda desenhada, pelo que foi homenageado pela Tertúlia BD de Lisboa em Janeiro de 2004. 

A imagem que ilustra esta síntese biográfica
é um auto-retrato em pintura de Vilhena

sexta-feira, julho 06, 2012

Exposições BD avulsas (XXI)


Aviso desde já que não se trata, de facto, de uma exposição de banda desenhada a que vai estar, a partir de amanhã, dia 7 de Julho (até 14 do mesmo mês), na Biblioteca Museu da República e Resistência. 

Mas José Vilhena, que me merece incondicional admiração e respeito, é o nome de um criativo contestatário em diversas áreas da cultura: na caricatura, no cartune, nos textos críticos e demolidores, mas, lá está, também nas suas bandas desenhadas curtas, geralmente de carácter brejeiro e humorístico (presentes em numerosos pastiches dedicados às personagens das séries de BD Peanuts e Mafalda, impagáveis em absoluto), espalhadas pelas várias revistas de que tem sido editor, Gaiola Aberta, Fala Barato, O Cavaco, O Moralista, entre outras.

Como é óbvio, se outras razões pertinentes não houvesse, bastaria essa sua faceta de autor de BD, esporádico mas com carácter e talento, para, com muita consideração se registasse neste blogue o nome de Vilhena, e se desse a devida relevância à exposição que, justificadamente, lhe é dedicada, "que comporta praticamente 50 anos de actividade editorial, essencialmente livros e revistas, e alguns relatórios de leitura da censura, que, regra geral, são no mínimo hilariantes", conforme texto de Alexandre Rodrigues, responsável pela iniciativa. É também deste estudioso da obra de Vilhena o seguinte texto:

----------------------------------------------------------------------------------

VILHENA

Síntese biográfica

Editor, escritor, cartunista, humorista, ilustrador e pintor português, JOSÉ Alfredo VILHENA Rodrigues nasce em Figueira de Castelo Rodrigo a 7 de Julho de 1927.

Filho de uma professora primária e de um "pequeno terratenente", passa a sua infância em Freixedas, concelho de Pinhel com as suas irmãs. Aos dez anos vai estudar para Lisboa até ao terceiro ano do liceu e depois para o Porto onde conclui o ensino liceal.

Interessado desde muito cedo pelo desenho e pintura, ingressa na Escola de Belas-Artes do Porto escolhendo arquitectura em vez de pintura por aquela ser "uma profissão". Contudo, começa a desenhar para jornais e não chega a concluir o curso.

Após o serviço militar, no início dos anos 1950, regressa a Lisboa e fixa-se em frente aos armazéns Grandela, na rua do Carmo e começa a publicar desenhos nos jornais «Diário de Lisboa» e «Diário Popular», e mais tarde nas revistas «Cara Alegre» e «O Mundo Ri».

Em simultâneo, publica livros. No início são essencialmente compilações, antologias e traduções mas, progressivamente, a produção original ganha força, especialmente após o fim de «O Mundo Ri», em 1966. É a partir daqui que solidifica a sua máquina de distribuição e cimenta a marca "Vilhena". A produção entra em velocidade de cruzeiro (praticamente um livro por mês) chegando a publicar catorze livros num único ano (1972).

Os textos e ilustrações que publica, alguns deles usando a censura como tema de paródia, provocam-lhe problemas com a polícia e com a PIDE, que lhe apreende sistematicamente as suas obras e lhe proporciona algumas estadias na prisão (nomeadamente em 1964 e 1966).

Os problemas com a censura e a PIDE tornam-no muito popular entre os leitores chegando a fazer tiragens de 40 a 50 mil exemplares de alguns dos seus livros. Segundo o relatório da Comissão do Livro Negro sobre o Regime Fascista, José Vilhena é o autor com mais obras proibidas (24 livros, 6 fascículos da sua grande enciclopédia e 4 traduções).

Em 20 anos, de 1954 até ao 25 de abril de 1974 Vilhena redige, publica e distribui mais de 50 livros originais e mais uma vintena de traduções e compilações.
A sua máquina está tão bem oleada que apenas vinte dias depois do 25 de Abril, Vilhena lança a «Gaiola Aberta», uma revista quinzenal com um grande impacto social e enorme sucesso de vendas, chegando a fazer tiragens de 150 mil exemplares durante o PREC.

Entre 1983 e 1987, suspende a actividade editorial e dedica-se em exclusivo ao negócio da restauração e diversão nocturna.

Em Julho de 1987, após ter acabado com os negócios de restauração, volta à carga com o jornal mensal «O Fala Barato», mas regressa rapidamente ao formato revista que ele bem conhece.

Inspirando-se na revista de Bordalo Pinheiro «O António Maria» baptizado com o nome do presidente da república, Vilhena acaba com o «Fala Barato» e lança, em Outubro de 1994, «O Cavaco» em alusão ao primeiro-ministro.

Cavaco Silva acaba o seu mandato e Vilhena lança «O Marginal» mas, devido à fraca adesão do público, retira rapidamente este título substituindo-o por «O Moralista».

Em 1996 a Câmara de Lisboa patrocina uma exposição da sua pintura no palácio Galveias.

Em Janeiro de 2003, a Galeria Barata promove uma exposição com mais de 100 obras de pintura e ilustração. 

Em Maio do mesmo ano, Vilhena lança a «Gaiola Aberta», 2ª série, que manterá até meados de 2006.
----------------------------------------------------------
Os visitantes deste blogue que, por mera curiosidade, queiram ver os restantes vinte "posts" do presente tema, poderão fazê-lo clicando no item Etiquetas: Exposições BD avulsas, visível no rodapé