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terça-feira, fevereiro 23, 2016

Artigos sobre BD, Os meus - Cuto, "O Mosquito"









Continuando na mesma justa onda de falar de O Mosquito na efeméride dos oitenta anos após o seu "nascimento", ocorreu-me reproduzir o artigo que escrevi para a revista Gerador (nº6 - Outubro a Dezembro 2015).

Nesse texto, embora não dedicado em exclusivo àquela quase mítica revista de banda desenhada (ou, recuando à fraseologia do tempo, de histórias aos quadradinhos), foco-a, com o intuito de associá-la ao primeiro herói de BD que admirei: Cuto!

Essa personagem, criada pelo autor (argumentista/desenhador) espanhol Jesús Blasco, era apresentada como sendo um ardina, a vender jornais nas ruas de Lisboa.

Na realidade, o juvenil herói tinha sido criado na revista (no "tebeo", como dizem os espanhóis), Chicos, com o curioso pormenor - que vim a saber muitos anos mais tarde pela boca do próprio Jesús Blasco na sua casa de Barcelona - de que a personagem, com o seu caracol sobre a testa, tinha sido baseada fisicamente no seu irmão mais novo, o Alejandro Blasco, miúdo reguila e atrevido a quem davam o carinhoso nome de Cuto.
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Eis o meu texto publicado na citada revista Gerador, antecedida por uma apresentação da autoria de algum dos seus colaboradores: 

Todos na Gerador adoramos histórias aos quadradinhos ou banda desenhada, se preferirem. De uma estatística interna descobrimos que 90% dos nossos colaboradores já leu , pelo menos, uma aventura do Tio Patinhas ou do Tintim. Os outros 10% estão agora a descobrir que antes da internet havia a televisão e antes disso coisas ainda mais interessantes com nomes bem divertidos. Ave, Geraldes, pelo teu artigo que veio mesmo a jeito!

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NO MEU TEMPO NÃO HAVIA TELEVISÂO


Sim, por muito estranho que isso pareça à geração actual, houve um tempo em que a televisão ainda não tinha chegado a este país periférico, o que só aconteceria no já remoto ano de 1957, com grande atraso em relação a outros países.  

Muito antes disso, nós, os putos do meu bairro lisboeta, tínhamos por entretenimento brincarmos aos caubóis, jogarmos à bola e ao berlinde, e ler/ver revistas de histórias aos quadradinhos - ainda não havia a expressão banda desenhada - que tinham títulos sugestivos para crianças e adolescentes, Papagaio, Mosquito, Diabrete, Cavaleiro Andante.

A minha preferência tinha ido para a Mosquito, já não faço ideia porquê. Comprava-a numa pequena papelaria da rua Morais Soares, e mal chegava a casa cortava-lhe com impaciência as páginas - vinham fechadas - para ver o que tinha acontecido ao Cuto, o primeiro herói de papel que admirei.

As peripécias em que se envolvia ainda permanecem indeléveis na minha memória. Cuto era apresentado na revista como sendo português, ardina de profissão. Só muito mais tarde soube, por leituras em livros especializados, que o valente miúdo, de caracol sobre a testa, tinha tido a sua origem na revista espanhola Chicos, de Barcelona, de onde também era natural o autor, Jesús Blasco. Assim se explicava tão invulgar alcunha.

Ignorava-o nessa fase da minha inocência, mas mesmo que o soubesse não creio que tivesse qualquer significado. Para mim o que importava era seguir-lhe as aventuras que lia/via avidamente, em especial uma intitulada O Mundo Perdido, onde Cuto fazia dupla com um adulto de boa aparência chamado Pedro de Lencastre. As peripécias em que se envolviam eram emocionantes - hoje considero que seriam classificáveis mais juvenis do que infantis, daí a profunda impressão que nos causavam. Como exemplo concreto recordo a minha angústia quando ambos, em pleno deserto, eram engolidos lentamente pelas areias movediças, ficando apenas visível a mão crispada de um deles. Morreriam? A habitual frase de rodapé era inexorável: continua no próximo número. Depois de vários dias de ansiedade, respirei, respirámos de alívio: os dois amigos tinham sobrevivido, e deparava-se-lhes uma cidade subterrânea, parada no tempo, em que os egípcios residentes ainda se vestiam como no tempo dos faraós, e onde protagonizariam uma emocionante embora anacrónica aventura.

Claro que estas aventuras entusiasmantes eram contadas a conta-gotas, duas ou três páginas em cada número. Para nós, pequenos leitores, alunos da escola primária - como se dizia na época - ou até para alguns mais crescidos, era intensa a ansiedade com que aguardávamos o dia da saída da revista. No meu caso tinha sorte, não esperava muito: O Mosquito, que era excepcionalmente popular, publicava-se duas vezes por semana.

Ainda hoje me espanto com a prodigalidade dos meus pais que, apesar de pouco abonados, me davam sempre os cinco tostões às quartas e sábados, dias de saída do jornal, como lhe chamavam os editores. 

Havia mais um herói que muito me entusiasmava pela imponente figura e impressionante coragem chamado Tarzan. Esse era da revista Diabrete, que eu lia por empréstimo de outro puto. Além das lutas com inimigos de feroz catadura, impressionavam-me muito os desenhos, a poderosa musculatura de Tarzan e dos seus antagonistas. A certa altura tinha começado a reparar nos nomes dos desenhadores, e esse que tanto admirava, assinava Hogarth. Eu quase nem queria acreditar na minha sorte quando o conheci pessoalmente no Salone Internazionale dei Comics, del Cinema d'Animazione e dell'Illustrazione de Lucca, em Itália, muitos anos mais tarde, no já distante 1978.

Falando do meu entusiasmo pelos desenhos, que cada vez mais se acentuava, aconteceu-me em O Mosquito começar a ficar fascinado pelas ilustrações das capas, com cenas de grande dinâmica protagonizadas por figuras extraordinariamente bem desenhadas. 


Cedo me apercebi do nome do ilustrador, que assinava E.T.Coelho, muitas vezes apenas ETC, e que atingiu níveis elevadíssimos de qualidade na extensa saga histórica O Caminho do Oriente, em figuração narrativa, como também nas adaptações às HQ (depois BD) de romances e contos, designadamente os de Eça de Queirós, publicados até ao fim da revista, em 1953. 

Antes disso também já eu comprava o Mundo de Aventuras que tivera início em 1949, onde tomara contacto com novos heróis, todos eles de origem americana: Roldan (aliás Flash Gordon), Steve Canyon, Mandrake, Fantasma, Rip Kirby, Luís Euripo...
Dez anos depois chegaria a televisão, que para mim ficaria até hoje como segunda escolha, salvo honrosas excepções.

Ou seja: ficaram preponderantes na minha sensibilidade as imagens sobre papel em detrimento das mostradas num ecrã. Admito que a minha geração esteja em vias de extinção, não só pela ordem natural da vida, mas também pela supremacia avassaladora das imagens virtuais em múltiplos ecrãs portáteis.

Geraldes Lino
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Nota: As cores da capa da Gerador estão preparadas para o efeito 3D. Para o efeito a revista oferece óculos especiais.

Revista Gerador
Nº6 - Outubro a Dezembro 2015
Periodicidade: Trimestral  
Editor: Associação Cultural Gerador
Avenida Infante Santo, nº60L, 3ºA
Lisboa

Director: Pedro Saavedra - pedro.saavedra@gerador.eu
Mestre de Obras: Tiago Sigorelho - tiago.sigorelho@gerador.eu
"Ele": Miguel Bica - miguel.bica@gerador.eu   

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As anteriores postagens relacionadas com este tema podem ser vistas, basta para isso clicar no item Artigos sobre BD - Os meus visível aqui no rodapé

quinta-feira, novembro 08, 2012

Artigos Sobre BD - Os meus (II) - Fanzines, Focos de Resistência


No anteriormente citado meu artigo, publicado no fanzine Banda datado de Setembro de 1993 - que dividi em duas partes, estando a primeira na postagem anterior -, tratei da tradicional vida breve das revistas de BD.

Que fique claro: entram nessa categoria de revista de banda desenhada apenas as publicações comerciais/profissionais, lançadas por editoras legalizadas, que as editam com a finalidade de obterem lucro, a fim de cobrirem as despesas de edição - onde se inclui o pagamento aos autores colaboradores, um ponto fundamental para a classificação de revista.

As publicações editadas por editores não profissionais - ou seja, amadores, a nível individual, ou em grupo, ou mesmo em associações culturais sem fins lucrativos, que não pagam aos autores colaboradores, trabalhando estes pro bono -, eis os fanzines

Reproduzo em seguida esse meu texto, escrito há quase vinte anos, mas que se mantém com suficiente actualidade.  
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 FANZINES, FOCO DE RESISTÊNCIA

Para análise do artigo anterior [dedicado à vida mais ou menos efémera das revistas de BD comerciais], conclui-se que seria natural o aparecimento de uma solução alternativa.

Assim se chega a esse fenómeno editorial amador, humilde mas activo componente da imprensa paralela que são os fanzines.

Editados em curtas tiragens, por apaixonados apreciadores de vários temas com aceitação relativamente restrita, fazem parte do fandom, abreviatura de origem americana pela qual passou a ser conhecido o domínio dos comic books e dos zines, onde se incluem os newzines, graphzines, slimzines e prozines.

Verifica-se, através deles, que a maioria dos bedéfilos mantém as suas justas exigências artísticas - quer como apreciadores, quer como autores - e também as suas necessidades de acesso à informação actualizada, permitindo que os fanzines se mantenham imprescindíveis, (1) enquanto activos e constantemente renovados suportes de BD.

Uma das suas facetas mais evidentes e positivas, é a de neles participarem vários estratos de bedéfilos: os que têm tendências artísticas, mas que não vêem quaisquer hipóteses de serem publicados de outra forma; os que gostam de escrever, quer se trate de argumentos, estudos ou críticas; por último, os que preferem ser editores, seja para divulgarem as suas próprias produções, seja para terem o prazer de publicar autores que conhecem e apreciam.

Em qualquer dos casos, vários nomes actualmente bem conhecidos no meio tiveram a sua estreia em fanzines.
Entre nós, as várias dezenas de fanzinistas que colaboram em qualquer das vertentes, são de escalões etários diversos. No que concerne aos numerosos desenhadores - e também aos argumentistas, estes bem mais raros -, eles são bastante jovens, quase sem excepção.
Algo diferente é o panorama que abrange editores, críticos e estudiosos, onde é habitual encontrar considerável número de adultos.

Sabem todos os apreciadores de BD mais informados - em especial os fanzinéfilos e fanzinólogos - que os fanzines se dividem em três géneros: os que se dedicam em exclusivo à publicação de bandas desenhadas; os que são totalmente preenchidos por textos (estudos, críticas, biografias e noticiário); e os mistos, que englobam estas duas facetas.

O primeiro fanzine de que há memória foi o Giff-Wiff, (2) editado em França em 1962. Era de boa qualidade, e dedicava-se em especial à exegese da BD, mas também à informação.
Quer isso dizer, portanto, que a primeira necessidade sentida pelos faneditores pioneiros foi a de poderem publicar textos sobre a matéria.  
É natural que assim tenha acontecido: estava-se num período de prosperidade editorial, havia suficientes revistas para publicar banda desenhada propriamente dita e, consequentemente, apenas se fazia sentir a falta de uma publicação que se dedicasse em exclusivo àquela nova tarefa.

Quanto ao que aconteceu por cá, dez anos mais tarde - o fandom português iniciou-se com o Argon, editado em Janeiro de 1972 - foi, nos seus começos, exactamente o oposto. Além de aspecto bastante artesanal, este iniciador do movimento fanzinístico em Portugal - há um anterior, o Melro, curioso caso de pioneirismo avant la lettre, embora mera iniciativa isolada e inconsequente - ocupava todas as suas páginas com bandas desenhadas de autores principiantes, sinal de que era aí que doía. Ou seja:os jovens sentiram a necessidade de um espaço permissivo onde pudessem publicar as primeiras tentativas. Todavia, no seu quarto e último número, o Argon passava também a incluir notícias e artigos, diversificando o seu conteúdo.

Daí por diante, o panorama fanzinístico nacional continuou por trilhos semelhantes, apenas sendo de realçar o nível gráfico alcançado por alguns dos títulos publicados, ou a sua longevidade.
Mas, com maior ou menor qualidade, mais ou menos longa duração, todos os fanzine têm tido uma luta comum: a de constituirem campos de ensaio abertos a vários tipos de experiências gráficas, a novos ensaísta, críticos e estudiosos, e até - embora esporadicamente, já aconteceu  - a provocarem o surgimento de editores amadores.

Numa época eminentemente recessiva, no que à BD se refere, é indubitável que os fanzines dão azo a que se mantenha em actividade grande número de quadradinhófilos - termo aplicável a quem prefere a tradicional denominação de histórias aos quadradinhos - que facilitam a divulgação de novos valoresnas diversas áreas, e permitem o aperfeiçoamento das já existentes.

Em última análise, é graças aos fanzines que o meio bedéfilo permanece vivo, e se vai alargando de Norte a Sul do país.
Pode acontecer que, chegados a certo ponto, se depare aos fanzinistas a impossibilidade de atingir a meta ambicionada: a publicação das suas bandas desenhadas, estudos, ensaios ou críticas em revistas profissionais, pelo simples facto da sua inexistência. 

Mas enquanto existirem fanzines, haverá onde coninuar a albergar as produções artísticas e literárias de todos os bedéfilos, jovens ou menos jovens.
Com a sua vitalidade e, algumas vezes, irreverência, os fanzines significam, no mínimo, um permanente ponto de encontro e conhecimento mútuo dos bedéfilos.
E é possível que possam vir a constituir, em desespero de causa, um último e constantemente renovado foco de resistência e sobrevivência da banda desenhada.(3)

 Notas
(1) Esta afirmação, que era pertinente em 1993, deixou de o ser nesta última década. Já não há publicações em papel, amadoras ou profissionais, imprescindíveis. Mesmo as francesas e as espanholas vão desaparecendo umas após outras, tal como também acontece com os jornais. Para o bem e para o mal, existe a Internet. 

(2) Posteriormente obtive informação acerca do fanzinato nos Estados Unidos da América, e concluí que, afinal, tinham sido faneditores americanos a editarem os primeiros fanzines, tendo sido também lá que se criou esse neologismo em 1940, por um tal Louis Russel Chauvenet.

Por conseguinte, aproveito para corrigir e actualizar aquela informação:
O primeiro de todos os fanzines foi dedicado à Ficção Científica e teve por título Cosmic Stories, editado em 1929 por um jovem chamado Jerome (Jerry) Siegel, que, como é sabido por todos os que lerem estas notas, haveria de ser um famoso argumentista, tanto quanto o herói Super-Homem para o qual iria escrever múltiplos argumentos para o seu amigo Joe Shuster desenhar.

Quanto ao primeiro fanzine dedicado à BD foi o Fantasy World (mais tarde com o título mudado para Phantasy World) começado a editar por David A. Kyle, em Fevereiro de 1936.     

(3) Quando escrevi isto devia estar muito optimista. 

quarta-feira, novembro 07, 2012

Artigos sobre BD, Os meus artigos (I) "Crise nas revistas de BD"



Estava um destes dias a mexer na minha vastíssima colecção fanzinística, e deparou-se-me o exemplar nº 20, de Setembro de 1993, do fanzine Banda, dedicado à BD, editado por Rui Brito, zine esse que obteve vários prémios. E, como dizia na capa "Quando o Fim Chega", excitou-me a curiosidade de o folhear.

Lá encontrei colaboração minha (1) de que me lembrava parcialmente, mas já não tinha ideia de que fazia parte do conteúdo daquele número, último do Banda.

Na minha opinião - suspeita, admito - considerei que o meu texto, dividido em duas partes, tinha suficiente actualidade para o incluir aqui - sendo a primeira parte uma análise ao momento de crise de interesse pela leitura de BD, das revistas em especial, que já então se verificava - ou seja, esse tema já vem de há muitos anos -, e as principais razões do fenómeno. 

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A CRISE NAS REVISTAS DE BD

Antes de mais, não será despiciendo começar por dizer que o tempo de crise atingiu há muito a banda desenhada.

Após ter sido, para a juventude de décadas anteriores à de setenta, o que depois passou a ser a televisão, tem vindo gradualmente a decrescer de importância enquanto forma de entretenimento. Mesmo considerando que, em alguns casos - Astérix, Heróis Disney - ainda se mantêm elevados índices de popularidade.

Analisando-se as causas da crise (2), não restam dúvidas que uma das mais evidentes é a irresistível facilidade de se poder ver em nossa casa, num pequeno rectângulo luminoso, heróis inter-galácticos, agentes ultra-secretos, super-polícias impolutos, versões romanceadas da história. E para se ter tudo isso em movimento, som e cor, basta premir-se uma tecla, que até pode ser à distância. É quase um gesto automático, dir-se-ia sonâmbulo, por vezes, que vai alastrando, subjugando um universo cada vez mais alargado de pessoas, em número e idades, imobilizando-os na maior parte do seu tempo disponível. Poder-se-ia definir tal fenómeno hodierno por "tirania do pequeno écrã".

Como estranhar, então, que os jovens se lhe submetam (3), e se habituem, desde muito cedo, a receber directamente em casa, a desejada parcela de  evasão à rotina do quotidiano.

Adicione-se-lhe, no que concerne à juventude actual, o fascínio hipnótico dos jogos de vídeo e de computador. E compreender-se-á assim que, irreversivelmente, passou o tempo em que os jovens procuravam o sonho consciente no cinema, na literatura ou na banda desenhada.

LER CADA VEZ MENOS

De acordo com esta abordagem da realidade actual, ler passou a constituir um escape lúdico e cultural "em vias de extinção". Ou, por um prisma menos pessimista, pressente-se que corre o risco de ficar reduzido a prazer de elites cada vez mais restritas. E como a BD tem uma habitual componente de texto, é natural que dentro desta perspectiva, esteja condenada a fim semelhante.

Cingindo-se a presente análise ao panorama português, há outro aspecto penalizante: é que entre nós, durante décadas, a banda desenhada teve apenas por suporte um tipo de revistas que privilegiavam, quase invariavelmente, o sistema de histórias em continuação. Isto exigia, do leitor/visionador, razoável dose de paciência para aguardar o evoluir dos episódios de número para número. Com a agravante de que as revistas eram, na generalidade, semanais ou quinzenais...

Aliás, tal sistema era igualmente usual noutros países europeus, nomeadamente Itália, Bélgica, França ou Espanha. Isso sem embargo de sempre terem existido, em simultâneo, algumas revistas que preferiam incluir episódios completos, em especial nos Estados Unidos, com os seus "comic books".

A comparação dos resultados obtidos por revistas usando esquemas tão diferentes terá sido favorável às que apenas incluíam histórias conclusivas em cada número. Mas nem essa solução, frequentemente adoptada, foi suficiente para evitar a visível crise das publicações periódicas de BD. Prova bem concreta tem sido a vida efémera de algumas delas, ou o fim abrupto de outras que, ao longo de anos, tinham transmitido a imagem de uma estabilidade inabalável.

De pouco tem valido aos editores a procura de uma solução de compromisso entre as duas hipóteses, passando a inserir várias pequenas histórias curtas em cada número, em simultaneidade com pequenas parcelas - uma, duas ou poucas mais páginas - de séries longas, mantendo assim a componente tradicional do género que ainda hoje tem os seus adeptos, apreciadores da expectativa criada pela frase "continua no próximo número".

A diminuição da popularidade das revistas de banda desenhada tornou-se um facto concreto, em especial a partir da década de setenta. Em Portugal prova-se tal afirmação citando os títulos VISÃO, JORNAL DA BD, MOSQUITO (V SÉRIE) e SELECÇÕES BD, todas de curta existência.

Fenómeno semelhante se tem verificado em países onde a BD beneficia de mercado bem mais amplo e de maior poder económico. É o caso, por exemplo, de Espanha, Bélgica e França onde, nas décadas de setenta e oitenta, desapareceram alguns títulos de grande prestígio, nomeadamente BLUE JEANS, BOOMERANG, TOTEM, COMIX INTERNACIONAL, CAIRO, TINTIN,CHARLIE, PILOTE, MÉTAL HURLANT e CIRCUS - para apenas citar as de mais longa existência - além de uma das raras revistas dedicada em exclusivo ao estudo, crítica e informação, os CAHIERS DE LA BANDE DESSINÉE. E, muito recentemente (4), cessou de publicar-se a prestigiosa VÉCU (ilustra o topo do "post" a imagem da capa do nº 37, de 2003) .

Para além das razões já focadas anteriormente - tirania da TV, dos videojogos e jogos de computador - a par com a notória e crescente falta de paciência para acompanhar histórias publicadas parcelarmente, há que apontar desassombradamente para um factor decisivo, gerado no próprio meio editorial: a deliberada preferência das editoras pelos álbuns, em detrimento das revistas.

Não se justifica dissecar-se exaustivamente neste artigo os motivos dessa preferência. Mas, aflorando apenas o problema, poder-se-á dizer que uma das razões principais tem a ver com as diferenças de tempo de "vida" entre a revista e o álbum, com nítida vantagem para este. Efectivamente, cada número de uma revista está à venda nas bancas, papelarias ou livrarias, uma semana no máximo, sendo logo as sobras - já com alguns exemplares em mau estado - devolvidas à distribuidora e mais tarde à editora; em contrapartida, os álbuns podem permanecer à venda nas livrarias por períodos de tempo consideráveis. A diferença de garantias na recuperação dos investimentos pende, vantajosamente, para o álbum   

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(1) Por falha que me desagradou, o nome do autor do artigo não ficou registado sob o título, ao invés do que acontecia com outros autores de textos naquele exemplar, como era o caso de Domingos Isabelinho, Fernando Vieira e o próprio faneditor, Rui Brito.

(2) Note-se a persistência da palavra crise neste pobre país.

(3) Agora, além da televisão, são também os jogos de computador, de vídeo, as consolas, enfim, a conhecida parafernália informática.

(4) Aqui, a frase "muito recentemente" tem de ser lida com a noção de que este artigo foi escrito em 1993 

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