terça-feira, junho 22, 2010

Coleccionadores e Colecções de BD (I)




A Banda Desenhada constitui um tema rico em possibilidades de coleccionismo. Para todos os que sentem prazer em coleccionar - e pode dizer-se que raras são as pessoas insensíveis a isso -, a BD fornece múltiplas hipóteses.
É bem conhecido o afã com que milhares de bedéfilos - os amigos da BD - pesquisam em alfarrabistas, na Feira da Ladra, em leilões, etc., na mira de encontrar antigas colecções de revistas de histórias aos quadradinhos.

Mosquitos, Diabretes, Papagaios, Cavaleiros Andantes, Mundos de Aventuras, Tintins, são alguns dos títulos que se ouvem citar com frequência, como sendo das colecções mais procuradas.
Há igualmente coleccionadores que se dedicam, em simultâneo com as revistas e álbuns editados em Portugal, a adquirir novas e actuais revistas estrangeiras, bem assim como álbuns. São, em geral, adultos de razoável poder económico, e também de bom nível cultural, pois nem toda a gente está apta a ler com desenvoltura em espanhol, francês ou inglês.

Salões e Festivais de BD,
paraísos de coleccionadores

Todos os anos se realizam Salões ou Festivais em alguns países europeus.
É o caso de Espanha - Saló Internacional del Còmic de Barcelona; de França, onde, entre vários, sobressai o Salon International de la Bande Dessinée d'Angoulême; da Suiça, onde se realiza o Festival de BD de Sierre; e o decano de todas as manifestações do género, o Salone Internazionale dei Comics de Lucca (1).
Também há Convenções de BD em Bruxelas, Paris, Londres, San Diego (USA), entre outras.
Nós, autor destas linhas, há cerca de dez anos que somos visitante assíduo de Lucca, de Angoulême, e, mais recentemente, também de Barcelona.

VI Saló Internacional del Còmic - Barcelona 88
Pois foi agora, em Barcelona - no Saló, como escrevem os catalães, entre 26 e 29 de Maio - que nos ocorreu a ideia de que os motivos de agrado para os coleccionadores são, de facto, quase inesgotáveis. Demo-nos conta, a certa altura, de que poderíamos perfeitamente aumentar quase infinitamente esse prazer muito especial que é o de iniciar - e desenvolver posteriormente - colecções temáticas.
Vamos enumerá-las, ao acaso das lembranças:

1. Números UM de novas revistas

Estamos perfeitamente convencidos de que há numeroos coleccionadores deste tema. De jornais, conhecemos nós quem compre todos os números uns. Quanto a revistas de Banda Desenhada, não nos admiraria nada que alguém nos dissesse ser fã desse tipo de colecção. (2)
Quer haja ou não, aqui fica a ideia. E, a ilustrá-la, as capas do nº 1 das revistas Corto Maltese, Spirit, Richard Corben, Clássicos del Comic e TBO. E, já agora, a de uma portuguesa recentemente editada (Maio): as Selecções BD, da qual somos colaborador.

2. Desenhos originais

Um dos atractivos mais aliciantes destes eventos é o de podermos conhecer pessoalmente muitos dos autores que admiramos. Mas há ainda outra hipótese: é a de conseguir que nos façam um desenho ali mesmo, à nossa vista. Podemos assimver a técnica que usam, se são canhotos ou dextros, se têm facilidade em desenhar de improviso, ou necessitam de fazer um esboço inicial.
Praticamente, todos os desenhadores mostram agrado nessa tarefa. É habitual vê-los passar toda uma manhã, ou uma tarde inteira, no stand do respectivo editor, a autografar e a desenhar em cada álbum que os admiradores lhe põem à frente.
No que me diz respeito, houve uma fase inicial em que pedia a quase todos os desenhadores que me fizesem um desenho. Antes de ir a Barcelona, a minha colecção - no que se refere a artistas estrangeiros - comportava originais de Milo Manara, Bilal, Moebius, Palacios, Blasco, Servais, Hermann, Victor de la Fuente, Rosinsky, Craenhals, Manfred Sommer, José Ortiz, Muñoz, Segrelles, Gigi, Pepe Gonzalez, Juan Zanotto, Solano Lopez, Mordillo, Quino, Aragonés, Bonvi, Enrique Breccia, John Prentice, John Buscema, Neal Adams, Rick Veitch, além de vários outros menos famosos.
Agora em Barcelona obtive desenhos de Josep Toutain (actualmente, um dos mais importantes editores espanhóis, mas que, na juventude, também foi banda-desenhista), Hugo Pratt, John Romita (o pai, autor do Homem-Aranha nos anos sessenta, tal como, recentemente, o filho, John Romita Jr.), Josep Maria Beá, Vittorio Giardino (artista de rara sensibilidade), Horacio Altuna, Das Pastoras, Miguelanxo Prado (ou Miguel Angel Prado, se o nome for escrito em castelhano em vez de galego...), e Juan Gimenez, que há anos me prometia um desenho.
Para ilustrar este capítulo escolhi o Spider Man feito por John Romita. Não por ser o melhor, mas por ser mais difícil, para nós, europeus, enriquecer a nossa colecção com este tipo de "peças", oferecidas por desenhadores americanos. Por uma razão: raros são os que vêm à Europa. (3)
3. Sacos de plástico decorados com figuras da BD

Conhecemos quem seja coleccionador destas peças. Às vezes assalta-nos a tentação de também nós os coleccionarmos, de tal maneira alguns são bonitos. São mandados fazer de propósito pelas editoras, servindo assim de publicidade ambulatória, e também há anos que existem em Portugal.
4. Autocolantes e Posters

Ainda relacionado com os Salões e/ou Festivais, há quem coleccione os respectivos autocolantes (espero que o espaço dê para reproduzir o do Salão de Barcelona), e os posters alusivos a esses eventos. Quer uns quer outros são, na sua maioria, peças de grande nível imaginativo e estético.
Felizmente para nós, autor destas linhas, nunca nos deu para também os coleccionar. As colecções de revistas - portuguesas e estrangeiras -, e álbuns, já chegam e sobram para atafulhar a casa...
5. Fotos do género "o desenhador e eu"

Quem é que não gostaria de se ver retratado juntamente com o seu actor preferido, ou o jogador (de futebol, ténis, hóquei...) da sua predilecção, ou, no caso dos bedéfilos, com um dos muitos artistas da BD que admira?
Digamos que não somos dos que mais aproveitam essa possibilidade; mas, de vez em quando, as ocasiões proporcionam-se e... clic, já está!
(4)
Desta vez, em Barcelona, foi com o famosíssimo
Hugo Pratt; não diremos que enriquecemos a nossa colecção, porque não a fazemos. Mas, claro, é com muito gosto (e algum orgulho, confessamo-lo), que nos vemos retratados ao lado de uma figura de tamanho prestígio no Mundo da BD.6. Livros de estudo sobre BD

Nesta alínea consideramo-nos importante coleccionador. Temos cerca de três dezenas de livros (incluindo enciclopédias da especialidade) dedicados à BD.
Em Barcelona tivemos ocasião de adquirir mais três livros editados recentemente: COMICSARIAS (por Remesar e Altarriba), uma profunda e extensa obra de estudo sobre a historieta espanhola, editada por PPU - Promociones e Publicaciones Universitarias, de Barcelona (edição de 1987); TINTIN, HERGÉ Y LOS DEMÁS (por Juan E. d'Ors), lançado este ano por Ediciones Libertarias, Madrid; e CUANDO LA INOCENCIA MURIÓ (ensaio sobre a obra de Milton Caniff, TERRY E OS PIRATAS), por Javier Coma, das Ediciones Eseuve, de Madrid (com data de 1988).
Um manancial de informação e de pontos de vista, que proporcionam outro sabor quando se olha para as obras em análise.
***********************************Cremos que ficou bem demonstrada a frase com que iniciámos este artigo.
E, parafraseando os Dupond(t), repetitivos amigos do inesquecível Tintin, eu diria mesmo mais: a Banda Desenhada constitui um tema perigosamente rico em possibilidades de coleccionismo!
(5)


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Nota de rodapé importante
: este meu artigo foi publicado originalmente na revista mensal Coleccionando (nº 10 - 2ª série - Maio/Junho 1988), já desaparecida.
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(1)
O nome completo era Salone Internazionale dei Comics, del Cinema d'Animazione e dell'Illustrazione; ainda existe, mas passou a festival, e passou a denominar-se Festival Internazionale del Fumetto, del Gioco e del'Illustrazione. Note-se a mudança do termo usado internacionalmente "Comic" para o caracteristicamente italiano "fumetto".

(2) Muitos anos após ter escrito o presente artigo, aconteceu, na Livraria/alfarrabista Histórica e Ultramarina, do Sr. José Maria da Costa e Silva, ou Sr. Almarjão, como todas as pessoas o tratavam (falecido há alguns anos), aconteceu, repito, encontrar um lote de nºs. 1 de revistas de banda desenhada (Pisca-Pisca, Titã, Foguetão, Falcão, etc.), o que denunciava ter havido alguém que possuía esses exemplares separados, em forma de colecção!

(3) O panorama dos eventos europeus já mudou, é favor não esquecer que este artigo foi escrito em 1988


(4) Infelizmente não me recordo de quem fez aquela foto, pois seria justo registar o seu nome.

(5) Já não cabia, e teve de ser cortado, juntamente com imagens, um outro tema de coleccionismo, os postais com imagens de personagens da BD (por acaso a minha colecção é mais restritiva, apenas me interesso por postais com bandas desenhadas completas, autoconclusivas (numa só prancha, já se sabe), ou, no mínimo, reprodução de prancha pertencente a qualquer bd, tema para o qual já criei uma "categoria" (ver na "home page").

9 comentários:

António disse...

Viva GL
O Miguelanxo Prado é galego e não catalão.

Um abraço AASPI

Geraldes Lino disse...

Viva AASPI
Tens razão, agradeço-te a correcção, foi uma distracção minha na altura em que escrevi o texto, talvez por ter vindo de Barcelona nesse distante 1988 e vir com o vocábulo "catalão" muito presente.
Eu já conhecia o autor de BD/artista Prado, do tempo em que ele assinava Miguel Angel Prado. E um dia, ao falar com o pai dele, que conheci em Barcelona, fiz o comentário: "Então agora o Miguel mudou o nome para Miguelanxo Prado?"
"É verdade. É por influência da actual corrente reivindicativa de identidade galega."
Por conseguinte, quando escrevi o texto, sabia do motivo "galego" (e não "catalão") da alteração do nome, mas cometi o erro que detectaste (parabéns, vê-se que lês com atenção!).
Agora hesitei se deveria corrigir a "gaffe", visto que o texto original também está legível. Mas decidi corrigir pq o mais natural é que os leitores deste blogue leiam o texto que copiei, e não o da página reproduzida da revista.
Abraço.
GL

Gio disse...

Um foto que deve ser raríssima: Nem sabia que o Hugo Pratt e o Clark Gable se conheciam. Mas que ar de galã! :)
Um abraço
J.M.

Geraldes Lino disse...

Olha quem fala, Altíssimo :-)
O teu azar é seres portuga. Se vivesses em Hollywood, já te teríamos que gramar como galã...
Abraço.
GL

Post scriptum: mas que raio de foto é aquela que apresentas agora, com camisa às riscas, tu que andas sempre de camisa preta?

Geraldes Lino disse...

Camisa aos quadrados, corrijo

Geraldes Lino disse...

Camisa aos quadradinhos, corrijo :-(

Geraldes Lino disse...

Outra "gaffe" nesta caixa de comentários!
Isto pq costumo associar as iniciais J.M. ao meu amigo J.(Jorge) Mascarenhas que costumo tratar por "Altíssimo" devido ao seu cerca de 1,90m (é isto ou não, Mascarenhas?), e foi a ele que respondi.
Já depois de "colar" a resposta, deu-me para clicar em cima da foto, e oh! espanto! raios e coriscos! então não é que, de facto, a camisa aos quadradinhos -peça de vestuário que nunca tinha visto ao J.M. "Altíssimo", o autor do já famoso "Menino Triste" (sempre de camisa preta) - pertence ao Jorge Miguel, tb meu conhecido de longa data (desde que chegou de França, já lá vão uns anos), mas que não reconheci na foto...
Peço desculpa aos dois talentosos J.M. da BD, J. Miguel e J. Mascarenhas.
Abraço para ambos.
GL

Geraldes Lino disse...

E não é Jorge Mascarenhas mas sim João Mascarenhas (é o que faz estar a escrever depois se um almoço de sardinhas, bem regado com tinto e um uísque velho prà sossega... :-)
Desculpa, "Altíssimo".

Geraldes Lino disse...

E "last but not the least", agradeço ao Jorge Miguel, inesperado autor de "Camões - De vós não conhecido nem sonhado", e confrade bloguista de "Falta apagar o lápis" (endereço: http://faltaapagarolapis.blogspot.com), a visita ao meu blogue.
Espero também a sua visita à Tertúlia BD de Lisboa, no próximo dia 6 de Julho. Falámos disso quando nos (re)encontrámos em Beja, acho eu.