quarta-feira, junho 24, 2015

Fanzines, esses desconhecidos



 Já tem sido escrito, com frequência, por estudiosos dos fanzines - nos quais me incluo, permito-me dizer - que o neologismo "fanzine", nascido nos Estados Unidos (o conhecido Frederic Wertham, no seu livro "The World of Fanzines", indica o ano de 1930 para o The Comet, de Ficção Científica, como iniciador do movimento fanzinístico, mas em fontes diferentes surge outro antes, em 1929, o Cosmic Stories, também de FC) e absorvido na Europa nos anos mil novecentos e sessenta, sob o género masculino pelo facto de, na génese do vocábulo, estar o objecto literário, com imagens, o magazine, também popularizado em Portugal nessa época.

Fanzine, neologismo, mas já com verbete em dicionário (pela primeira vez, na 8ª edição da Porto Editora,de 2008), é formado pela contracção da palavra fan (fã, em português) e as duas últimas sílaba de magazine.

Logo, um fanzine é um magazine, editado por um ou uma fã, ou por um grupo, ou até por uma entidade cultural sem fins lucrativos, dedicado a qualquer tema, sendo em Portugal a Banda Desenhada um dos mais frequentes.



 
Capa do fanzine "Aquinocanto", da autoria de João Rubim. 

Note-se que em Espanha se diz "el fanzine" (em castelhano) e "o fanzine" (em galego, igual ao português).

Capa de "O Fanzine das Xornadas", editado aquando da realização das "VIII Xornadas de Banda Deseñada de Ourense" (na Galiza). 

O género masculino é também usado em França, visível no excerto de uma crítica extraída da revista "Vécu"





... ou no Brasil, como se pode ver na imagem seguinte

Livro da autoria do estudioso brasileiro Henrique Magalhães
 

ou em Portugal, num livro escrito por dois estudiosos portugueses do fenómeno fanzinístico (capa aqui por baixo)


Custa-me dizer isto - sou português... - mas nós, que somos um dos países europeus com maior índice de analfabetismo, e com elevada percentagem de iliteracia, tínhamos de ser os criadores desse absurdo linguístico que é mudar o género a um substantivo.

E o que é pior: quando pergunto a algum desses fanzinistas recentes, que dizem "a minha fanzine", por que motivo não dizem "o meu fanzine", respondem-me que é por ser uma revista (*), e como revista é uma palavra feminina...


E eu costumo objectar: então, como um pinheiro é uma árvore, temos de passar a dizer "uma pinheiro"?!


 Uma engraçada tira de banda desenhada da autoria de Laerte (in Diário de Notícias, 5 Jan. 2006)

Um universitário da Escola Superior de Design-ESAD, nas Caldas da Rainha - cidade onde há um buliçoso movimento fanzinístico -, reagindo à minha habitual discordância no uso do feminino para o fanzine dele, ripostou, com aquilo que começa a ser um chavão - já não é a primeira vez que oiço justificar asneiras com aquela frase -, "a língua portuguesa está sempre em evolução".

Eu sei isso, sou um estudioso da matéria. A componente mais visível dessa modificação é a constante absorção de vocábulos estrangeiros, aportuguesando-os por vezes, criando-se assim neologismos - blóguer ("blogger") ou bloguista, blogosfera, por exemplo.

Mas não há memória de, na língua portuguesa, ter havido mudança de género em algum substantivo. Estou a referir-me a mudanças correctas.

Porque, por iliteracia ou pura ignorância, há quem mude o género da palavra grama (peso).


Uma vez, uma funcionária dos correios, aqui em Lisboa, disse-me que a minha carta - com um fanzine dentro - pesava "vinte e duas gramas". Eu perguntei-lhe se ela também diria, para uma encomenda pesada, "vinte e duas quilogramas"...

Outro erro do género: há quem diga "o síndrome", quando o correcto, respeitando a etimologia, é "a síndrome". 

(*) Diferença entre fanzine e revista

Vigora ainda entre nós o erróneo conceito de que o termo fanzine apenas se aplica a publicações de pouca qualidade gráfica, compostas por fotocópias ou, na melhor das hipóteses - mais actualizada - em cópias digitais, diferentemente do que se entende por revista, publicação impressa em offset, de qualidade superior. 

Ora sempre houve fanzines impressos em offset, de excelente aspecto gráfico, mesmo em Portugal - esta expressão "mesmo em Portugal" não pretende ser depreciativa em relação ao nosso país, apenas realça o facto de haver grande desconhecimento do que se fez entre nós, desde 1972, Ano I do fanzinato português, com o aparecimento em Janeiro desse ano do nosso primeiro fanzine, o Argon. e de alguns impressos em offset, entre os oito editados nesse ano.

Mas quem já esteve em Angoulême, no grande festival francês de BD, indubitavelmente o maior evento europeu do género, pôde ver, no pavilhão dos fanzines, dezenas deles impressos em offset e até vários com lombada quando mais volumosos, exibindo uma apresentação gráfica a rivalizar com quaisquer publicações profissionais.

Ora à conta do fanzine Efeméride - um dos quinze títulos que já editei - tenho ouvido com frequência o comentário: "isto é uma publicação luxuosa, é uma revista, já não é um fanzine!".

Mantém-se ainda hoje, portanto - julgo que só em Portugal - este preconceito em relação aos fanzines.


Insisto: uma qualquer publicação pode ter ISSN, depósito legal, até código de barras, e uma impressão gráfica de nível equivalente a qualquer revista comercial/profissional. Mas se não for publicada por uma editora legalizada, mesmo de pequena dimensão, se quem a edita não o fizer para beneficiar dos lucros das vendas, se o seu editor e respectivos colaboradores colaborarem pro bono, isto é, não lhes seja paga a colaboração, se não tiver periodicidade, se a sua tiragem for pequena, e por isso não poder ter distribuição a nível nacional, ou, como acontece em alguns outros casos, tenha uma concepção gráfica irregular - por exemplo, mudar repentinamente de formato -, então, por uma questão conceptual e de diferenciação de géneros, deverá ser-lhe aplicada a classificação de fanzine .

Não há nesta classificação qualquer intenção depreciativa, porque, afinal de contas, um fanzine é um campo de liberdade para a criatividade, é a permissividade total para que a imaginação se expanda sem limites, a todos os níveis: desde o conteúdo e a forma das obras publicadas, até à diferenciação dos títulos: enquanto que os das revistas são geralmente formais (Visão, Sábado, Nova Gente) para serem bem aceites, ao invés dos dos fanzines, que são provocatórios, brincam com a ortografia e com as cacofonias (KBD, Nuxcuro, Carneiro Mal Morto, Nova Gina, Kaganiço). 
 

E na forma, um fanzine tanto pode ser modesto como luxuoso, depende da disponibilidade do faneditor, ou até de uma qualquer associação sem fins lucrativos - que também as há a editar publicações que se inserem na categoria de fanzines -, visto que essas associações não vivem das vendas, mas sim de apoios de beneméritos ou de associados. 

Em suma: um fanzine (ou um zine) pode apresentar-se sob o modo gráfico de revista, mas por todas as circunstâncias antes descritas, um fanzine não é uma revista, um fanzine é um fanzine é um fanzine.       

2 comentários:

Luís Graça disse...

Caro Lino:

Muito oportunas são as tuas palavras. Há bem poucos dias lembrei-me de ti, pois um anúncio do CM falava do pequeno suplemento "Geração Arte" como UMA fanzine.

Ora bem, aquilo nem é UM fanzine, quanto mais uma fanzine.

No número 5 (que saiu hoje com o CM)diz-se que é um ESPAÇO.

Aparece a fotografia da menina coordenadora (Daniela Polónia), jornalista e editora do "espaço Geração Arte".

Mas em letras muito pequeninas, na capa, sempre se diz que é um suplemento.

Geraldes Lino disse...

Caro Luís Graça

Grato pela tua achega.

Vá lá que, felizmente, acharam por bem substituir o vocábulo fanzine por espaço, caso contrário ficaria lá a bojarda, não teriam a humildade de aceitar a correcção.

Há uma iniciativa "online" chamada Le Cool Magazine, que dá boas informações, e até tem bons textos. Mas aparece sempre o seguinte apelo: SUBSCREVE A NOSSA MAGAZINE (assim, em maiúsculas bem visíveis).
Vê em: lisboa.lecool.com/inspirations/de-25-de-junho-1-de-julho

Se fanzine é um neologismo que muitas pessoas ainda desconhecem (apesar de já haver fanzines em Portugal desde 1972), outro tanto não acontece com o vocábulo magazine, que é bem antigo (tem verbete em qualquer dicionário que se preze), até lhes disse que nos anos 50 e 60 do século passado havia magazines de rádio e cinema, apresentados como "o magazine".
Por isso sugeri que alterassem a frase para "O NOSSO MAGAZINE", mas não me responderam nem SEQUER alteraram o erro absurdo.

Como vês, parece que ter um mínimo de "fair play" e admitir o erro é coisa "demodée"...