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sexta-feira, junho 30, 2006

Visão, revista de Banda Desenhada Portuguesa (VII) - Falando hoje com... Zé Paulo

Capa (excelente) da revista Visão (nº 10, de Fevereiro de 1976), da autoria de Zé Paulo, referente à sua própria bd intituladaA Família Slacqç

Continuando a relembrar a memorável revista de banda desenhada Visão (1975-76), estão publicados neste blogue dois textos com ela relacionados.

A fim de completar esta breve homenagem, há nove autores-artistas que considero mais importantes, e cujas palavras e respectivas fotografias actuais aqui ficarão registadas.
De Victor Mesquita, Pedro Massano, Isabel Lobinho e Corujo Zíngaro, já estão publicadas as entrevistas. Hoje é a vez de Zé Paulo. Faltam ainda Carlos Barradas, Duarte, Nuno Amorim e Zepe.

Foto recente (Junho 2006) de Zé Paulo
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ZÉ PAULO (José Paulo Abrantes Simões, Lisboa, Novembro de 1937)

- Zé Paulo: o que significou para ti a Visão?

ZP - Já fazia banda desenhada antes da Visão, no jornal A Capital.
A Visão foi a oportunidade de fazer banda desenhada de outro teor, se bem que, n'A Capital, eu tinha liberdade para fazer o que quisesse, mas estava limitado ao desenho cómico, que era aquilo que eles queriam no jornal. Eu nessa altura era grande admirador do Jacovitti, que era o que respondia melhor à minha faceta anarquista. E o que eu fazia para A Capital era Jacovitti puro.
A primeira história que desenhei na Visão, Os Loucos da Banda, ainda tinha muitas influências de Jacovitti, mas já me estava a libertar.
De certa maneira, na Visão eu podia desenhar cómico e sério, que era o que eu queria. E pode notar-se que eu desenhei muito mais sério que cómico. Ao fim e ao cabo foi isso: proporcionou-me desenhar as histórias que inventava.
N'A Capital, eu tive algumas histórias proibidas pela Censura, o que não acontecia na Visão. Também já era outro tempo.

-Em Abril de 1975, onde é que trabalhavas?
ZP - Era visualizador de uma Agência de Publicidade.



Prancha com o episódio intitulado O tio Hipólito ('tadinho), da bd Histórias que minha avó contava para eu comer a sopinha toda, in Visão nº 7, de 10 de Outubro de 1975


- Que fizeste em BD depois de 1976, após o fim da Visão?
ZP - Após o fim da Visão fiz banda desenhada na revista Mulheres, da Maria Teresa Horta. No jornal Diário de Lisboa, fiz a bd Memórias do último eléctrico do Carmo, e, esporadicamente, mais uma ou outra bd que me era solicitada para vários fins.
Noutro jornal, O Diário, criei Os Direitinhas - uma prancha todas as semanas, durante anos, de que, posteriormente, uma parte diminuta foi publicada em álbum.

-Em vez de BD, o que é que tens feito para ganhar a vida?
ZP - Eu ganhei a vida sempre a desenhar, só não desenhei quando estive na tropa, quando era soldado. Fui sempre desenhador.
Quando deixei a Publicidade, já no ano 2000, passei a pintar quadros, mas que são à mesma desenhos e as minhas histórias, sempre.
E com eles continuo a ganhar dinheiro que me dá para viajar até ao Brasil, Cuba, Holanda - onde tenho um amigo, no Brasil também tenho -, só em Cuba é que não, nem o Fidel.

Prancha inicial do 1º episódio da bd A Família Slacqç, obra de referência assinada por Zé Paulo, publicada no nº 9 (datado de 20 de Janeiro de 1976) da revista Visão


- Há algum projecto de BD que gostasses de concretizar, num futuro mais ou menos próximo?
ZP - Há. Gostaria de fazer uma banda desenhada sobre o cinema de Campolide, que se chamava Campolide Cinema, e que já não existe.
Dele tenho recordações e histórias que me dizem muito. Eu fiz um álbum com desenhos de recordações da minha infância no bairro de Campolide. Obviamente, o Campolide Cinema tem ali lugar de destaque.
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"Posts" remissivos sobre a revista VISÃO de Banda Desenhada:
1ª Parte - Textos generalistas acerca da revista: 2005-(I) Dezembro, 10; (II) Dezembro, 11
2ª Parte - Entrevistas a autores-artistas da revista: 2006- (III) Maio, 30-Victor Mesquita; (IV) Maio, 31- Pedro Massano; (V) Junho, 13 - Isabel Lobinho; (VI) Junho, 15 - Corujo Zíngaro

Há ainda outro "post" (data: Junho 19), este dedicado ao tema "Lisboa na Banda Desenhada", em que se podem observar duas imagens (óptimas, vale a pena vê-las) da autoria de Zé Paulo, ambas extraídas da revista Visão

domingo, novembro 26, 2006

Visão (1975/76), revista de Banda Desenhada portuguesa (X) - Falando hoje com... Nuno Amorim

Prancha inicial da banda desenhada "Jim'Tómic", da autoria (argumento e desenho) de Nuno Amorim, reproduzida na revista de BD Visão (nº 8, de 10 Nov. 1975)

Nuno Amorim é outro dos autores de Banda Desenhada que reputo ser imprescindível focar, quando se pretenda falar da extinta revista Visão, de qualidade marcante mas de vida efémera, editada entre Abril de 1975 e Maio de 1976.

Esse autor ainda desconhecido, que viria a ser um dos colaboradores da novel publicação, tinha nascido em Lisboa a 9 de Abril de 1952, e recebera o nome de Nuno José Rosa Fernandes Amorim.

  
Licenciar-se-ia em Arquitectura, na ESBAL-Escola Superior de Belas Artes de Lisboa (actual FBAUL-Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa), e, a meio das funções que começara a exercer em 1973, num atelier de arquitectos, surgir-lhe-ia a possibilidade de fazer BD na dita revista Visão, quando ela atingia o seu número sete. Passava-se isto em Outubro de 1975.

Debutaria assim o jovem Nuno nessa invulgar e importante publicação, dedicada essencialmente à divulgação de novos autores portugueses, onde reessaltaram os nomes de Victor Mesquita, Pedro Massano, Isabel Lobinho, Zé Paulo, Carlos Barradas, Corujo Zíngaro, Duarte, Zepe e, naturalmente, Nuno Amorim, o entrevistado de hoje.


Outra das pranchas da banda desenhada "Jim'Tómic", a única de Nuno Amorim publicada em quadricromia

G.L.- Para ti, o que significou o aparecimento da revista Visão?
Nuno Amorim - Foi a possibilidade de editar bandas desenhadas com qualidade e bem impressas, e com boa distribuição.

G.L.- Dizes isso porque já conhecias a revista, visto que entraste a meio...
N.A.- Na fase em que eu entrei tinha havido uma mudança editorial que tornou a coisa mais interessante para mim. Aliás, eu entrei em resultado dessa mudança.

G.L.- Em Abril de 1975, fazias nesse mês vinte e três anos, ainda estudavas, ou já estavas a trabalhar?
N.A.- Já trabalhava. Trabalhava como arquitecto, num ateliê de arquitectura, onde estava desde 1973.

G.L.- Quando conheceste a revista Visão, já tinhas bandas desenhadas feitas, e alguma publicada?
N.A.-Sim, já tinha publicado num jornal semanal de Música, chamada Musicalíssimo. Fiz lá uma série chamada "Skeleton", aí uns doze episódios.

G.L.- Como é que surgiu a oportunidade de colaborares na Visão?
N.A.- Não sei, não me lembro, sei que alguém falou comigo, e eu fui lá à redacção, já não me lembro onde era.


Prancha da banda desenhada "Interlúdio - Não pare, não escute, não olhe", a primeira de Nuno Amorim publicada na Visão (nº 7, 10 Out. 1975)

G.L.- O tema das bedês com que colaboraste foi-te sugerido, ou aceitaram tudo o que apresentaste?
N.A.- Havia umas reuniões em que se combinava tratar um tema. Mas eu, quando comecei, levei umas bandas desenhadas, que aceitaram.
Só fiz, para a Visão, umas três ou quatro, uma delas intitulada "Não pare, não escute, não olhe", e outra com o título "Jim'Tómic".


Prancha inicial da banda desenhada "A Lição de História" (in Visão nº 9, de 20 Jan.1976)

G.L.- Que fizeste em BD depois de Maio de 1976, data do fim da Visão?
N.A.- Havia um jornal em que estava o Zepe (que tinha conhecido na Visão, e de quem tinha ficado amigo), chamado Pé-de-Cabra, feito ao modelo do Charlie Hebdo.

G.L.- O que é que fizeste para lá?
N.A.- Não me lembro. Sei que fiz para lá uns desenhos, mas não me lembro o que era.

G.L.- Em vez de BD, o que é que tens feito para ganhar a vida?
N.A.- Trabalhei na publicidade, e também na RTP como gráfico. Agora tenho uma produtora de filmes, a Animais, em que faço, sobretudo, Animação.

G.L.- Então e a Arquitectura?
N.A.- Arquitectura tenho feito só para mim e para amigos. Recuperei três montes no Alentejo, dois deles para mim, outro para um amigo.

G.L.- Há algum projecto de BD que estejas a realizar, ou que gostasses de concretizar, num futuro mais ou menos próximo?
N.A.- Não estou a ver, sinceramente não estou a ver. A vida está tão difícil, e não acredito que a BD seja rentável.


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"Posts" remissivos sobre a revista VISÃO (de Banda Desenhada)
 

2ª Parte - Entrevistas a autores-artistas da revista
(IX) Setembro, 12 - Duarte
(VIII) Julho, 9 - Carlos Barradas
(VII) Junho, 30 - Zé Paulo
(VI) Junho, 15 - Corujo Zíngaro
(V) Junho, 13 - Isabel Lobinho
(IV) Maio, 31- Pedro Massano
(III) Maio, 30-Victor Mesquita 2006

1ª Parte - Textos generalistas acerca da revista:
(II) Dezembro, 11 - (I) Dezembro, 10
2005 (ver acima)

Há ainda outro "post" (data: Junho 19), esse dedicado ao tema Lisboa na Banda Desenhada, em que se podem observar duas imagens (óptimas, vale a pena vê-las) da autoria de Zé Paulo, ambas extraídas da revista Visão

domingo, julho 09, 2006

Visão, revista de Banda Desenhada Portuguesa (VIII) - Falando hoje com... Carlos Barradas

Viver não custa, título da bd a cores da autoria (desenho e argumento) de Carlos Barradas, publicada na revista Visão (nº3, de 1 de Maio de 1975)

Após entrevistas com Victor Mesquita, Pedro (Pedro Massano), Isabel Lobinho, Corujo Zíngaro e Zé Paulo, é hoje a vez de Carlos Barradas.
Para completar o lote dos Nove Magníficos (uma versão minha, mais abrangente), falta ainda entrevistar Duarte, Nuno Amorim e Zepe. Lá chegaremos.
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CARLOS BARRADAS (Carlos Manuel Barradas Teixeira, Lisboa, Fevereiro de 1947)

Carlos Barradas e eu encontrámo-nos em Oeiras, onde vive. Fomos até às docas lá do sítio para a nossa conversa. Que, como tem sido hábito, começou pela pergunta:

- O que significou para ti a Visão?
CB - Foi uma maneira de fazer uns bonecos, de deitar cá para fora a criatividade que a gente tinha.
A propósito de Visão: sabes como aquilo apareceu?

- Já alguém me contou uma vez. Dá-me a tua versão.
CB - Carlos Soares, que era jornalista e foi o argumentista daquela história dos ceguinhos publicada lá na revista Visão (nota do bloguista-entrevistador: a bd Clave Sem Sol, de que mais abaixo se reproduz a primeira prancha), foi meu colega no Liceu D.João de Castro. Ele adorava os meus desenhos, e as caricaturas que eu fazia.
Um dia perguntou-me se eu não queria fazer uma revista de banda desenhada, porque ele conhecia uma pessoa com "massas" - era construtor civil, e constou-se mais tarde que talvez quisesse arranjar uma coisa qualquer em que não se importava de ter prejuízos, porque seria um subterfúgio em relação a obter vantagens nos impostos.
E assim surgiu a hipótese de haver uma revista de boa qualidade para publicar BD portuguesa em Portugal.

- Julgo que isto - a história do início da Visão - nunca tinha sido escrita, fica agora registada, preto no branco, pela primeira vez. Mas voltando à questão acerca do que significou para ti aquela revista de BD...CB - Foi importante, fez descobrir uma data de gente da BD que estava escondida. A Visão foi uma montra para mostrar o produto nacional, que era tão bom como o dos outros, apesar de que nós não tínhamos escola como os franceses e os belgas.

- Em Abril de 1975, estudavas ou trabalhavas?
CB - Estudava. Estava na Escola Superior de Belas Artes e no IADE.

Foto recente (Maio 06) de Carlos Barradas

- Que fizeste em BD depois de 1976, após o fim da Visão?
CB - Fiz O Capital em Banda Desenhada, editado pelo maluco do Sérgio Guimarães - sim, ele era mesmo louco, era personagem para um filme de Almodôvar, se o Almodôvar o tivesse conhecido, teria feito um filme sobre a vida dele. Depois trabalhei com o Mário Henrique Leiria - também outra personagem - ele escrevia e eu desenhava, outras vezes fazia eu um desenho e ele escrevia uma história inspirada no desenho.
A seguir surgiu a ideia do Henrique Espírito Santo, produtor de Cinema, de fazer um álbum em BD para explicar como é que se faz um filme, desde a pré-produção, produção, rodagem, pós-produção, etc., os passos todos. Era uma coisa mais ou menos didáctico-pedagógica. Entretanto, como ainda não havia editora, e iam aparecendo outros trabalhos, a coisa foi ficando para trás, e olha...

- Em vez de BD, o que é que tens feito para ganhar a vida?
CB - Trabalhei como realizador e produtor - mais realizador do que produtor - na RTP, durante vinte e tal anos.
Agora estou a trabalhar como "free-lancer", a fazer de tudo - ilustração, "design", logos.
Quando saí da RTP ainda estive como Art Director da TV Medicina - um canal codificado só para médicos - e colaborei com a NBP para realizar a novela "A Filha do Mar".
Nos tempos mais recentes, em banda desenhada apenas participei naquele álbum Novas "fitas" de Juca & Zeca, que tu próprio editaste.


- Há algum projecto de BD que estejas actualmente a realizar, ou que gostasses de concretizar num futuro mais ou menos próximo?CB - Estou agora com uma hipótese de projecto que talvez se concretize - depende do orçamento - porque a editora achou o preço por prancha, que eu quero, muito caro.
Um canalizador, um marceneiro, ganham mais que nós, autores de BD.
Mas, convenhamos, eles, os editores, também sabem em que é que se vão meter, porque o mercado da Banda Desenhada é um mercado em que se vende pouco. 


Clave sem sol, título da bd da autoria de Carlos Barradas (desenho) e Carlos Soares (argumento), publicada na revista Visão nº 1, de 1 de Abril de 1975-----------------------------------------------------------------------------
"Posts" remissivos sobre a revista VISÃO de Banda Desenhada:
1ª Parte - Textos generalistas acerca da revista: 2005-(I) Dezembro, 10; (II) Dezembro, 11
2ª Parte - Entrevistas a autores-artistas da revista:
2006
(III) Maio, 30-Victor Mesquita
(IV) Maio, 31- Pedro Massano
(V) Junho, 13 - Isabel Lobinho
(VI) Junho, 15 - Corujo Zíngaro
(VII) Junho, 30 - Zé Paulo
Há ainda outro "post" (data: Junho 19), este dedicado ao tema Lisboa na Banda Desenhada, em que se podem observar duas imagens (óptimas, vale a pena vê-las) da autoria de Zé Paulo, ambas extraídas da revista Visão

terça-feira, setembro 12, 2006

Visão, revista de Banda Desenhada Portuguesa (IX) - Falando hoje com... Duarte

Duarte (José Luís Carvalho Duarte - Parede, Novembro de 1945) foi um dos autores portugueses que considero terem obra importante na revista de banda desenhada Visão.

Trinta anos depois da efémera mas marcante revista ter desaparecido, resolvi fazer curtas entrevistas, todas praticamente iguais, a cada um desses autores/artistas.

Após Victor Mesquita, Pedro Massano, Isabel Lobinho, Corujo Zíngaro, Zé Paulo e Carlos Barradas, é hoje a vez de Duarte (ou J.L.Duarte, as duas formas que usa para se identificar na BD).

 
GL - O que significou para ti a Visão?
D - Foi a oportunidade de publicar, quando isso era muito difícil pelos circuitos editoriais normais.
Por outro lado, também foi uma oportunidade de publicar aquilo que se queria, sem grandes problemas de filtragens editoriais, ou seja, cada um de nós, colaboradores da Visão, depois de acordado o tema, criava a história que entendesse, com a certeza de que ia sair tal e qual.
Com a Visão fui encontrar um grupo com o qual me integrei, em que cada um tinha pontos de vista diferentes da realidade que nos rodeava, dos acontecimentos da época, que podíamos expressar com total liberdade, independentemente de opções políticas ou de vida que nos separassem do dia-a-dia.

Prancha da bd autoconclusiva "O Último Inimigo de Bill Trigger", da autoria de Duarte, publicada na contracapa do nº 8 da revista Visão


GL - Em Abril de 1975, data em que surgiu a revista, o que é que fazias?
D - Trabalhava numa Agência de Publicidade, para onde tinha entrado em 1972, foi aí o princípio da minha actividade como publicitário, nessa época como arte-finalista.

GL - Que fizeste em BD, depois de Maio de 1976, data do fim da Visão?
D - Após vinte e seis páginas publicadas na Visão, só voltei à BD entre 1983 e 1985, espaço de tempo em que desenhei "Os Fardetas" para o jornal Bisnau, onde foram publicadas vinte e cinco tiras.
Ainda em 85 (não garanto) acabei por publicar um álbum com o mesmo título, utilizando esse material e mais tiras que fiz de propósito para esse fim.
Mas lá bem para trás, entre 1970 e 71, tinha feito dezasseis pranchas para o suplemento Nau Catrineta do jornal Diário de Notícias, sobre um robô de nome "Telek".
Entre 72 e 73 fiz onze pranchas para o Jornal do Exército, cujo herói se chamava "Tapaxamas".
De 73 a 74 fiz "Os Kolans", uma série diária para o Diário de Lisboa, que acabariam por originar um álbum sob o título "Kolanville".
Para o Sempre Fixe, jornal humorístico, colaborei com os "Filocopos", que é como quem diz, os amigos da pinga.
A seguir é a Visão.

Prancha da banda desenhada Guloseima, autoconclusiva em duas pranchas, da autoria de Duarte
in revista Visão nº 8, de 10.Nov.1975

GL - Em vez de BD, o que é que tens feito para ganhar a vida?
D - Para ganhar a vida tenho trabalhado em Publicidade até aos dias de hoje, em que os últimos doze anos foram como Director Criativo, em mais de uma Agência.

GL - Há algum projecto de BD que estejas a realizar, ou que gostasses de concretizar num futuro mais ou menos próximo?
D - A minha actividade como publicitário tem-me impedido de fazer BD, tanto por falta de tempo, como por falta de disponibilidade mental. A função de Criativo na Publicidade ocupa-me plenamente, e não me deixa tempo para outras actividades criativas. No entanto, tenho de reconhecer que tem havido em mim um afastamento progressivo da BD, por limitações de comunicação que fui encontrando.
Embora tenha projectos para regressar à BD - uma vez que algo mudou na minha vida profissional - mas eventualmente na forma de tiras autoconclusivas sobre um mesmo tema, o que permite uma produção menos morosa, menos planificada, mais solta.

GL - Obrigado, Duarte, por esta breve entrevista para o meu blogue, e boa sorte para esse projecto de regresso à BD.----------------------------------------------
"Posts" remissivos sobre a revista VISÃO (de Banda Desenhada)
2ª Parte - Entrevistas a autores-artistas da revista
2006
(VIII) Julho, 9 - Carlos Barradas
(VII) Junho, 30 - Zé Paulo
(VI) Junho, 15 - Corujo Zíngaro
(V) Junho, 13 - Isabel Lobinho
(IV) Maio, 31- Pedro Massano
(III) Maio, 30-Victor Mesquita

1ª Parte - Textos generalistas acerca da revista:
2005
(I) Dezembro, 10
(II) Dezembro, 11

Há ainda outro "post" (data: Junho 19), esse dedicado ao tema Lisboa na Banda Desenhada, em que se podem observar duas imagens (óptimas, vale a pena vê-las) da autoria de Zé Paulo, ambas extraídas da revista Visão

domingo, dezembro 31, 2006

Visão (1975/76), revista de Banda Desenhada portuguesa (XI) - Falando hoje com... Zepe

Foto de Zepe, tirada no seu estúdio privativo


Zepe é um dos autores que se destaca na excepcional revista Visão (1975/76) de BD, tendo realizado, desde o número inicial, várias bandas desenhada a preto e branco e a cores, num estilo que rompia as margens estéticas em voga na época.

É o nono autor a ser entrevistado neste ciclo, dedicado aos autores/artistas que, subitamente, alteraram o panorama da BD portuguesa que se tinha imposto até então.

A primeira bd a cores de Zepe na Visão, saiu no nº 5 de 1 de Junho de 75


G.L. - Zepe, diz-me o teu nome completo
Zepe - José Pedro Tinoco Cavalheiro
G.L. - Onde nasceste, e quando?
Zepe - No Porto, em 1956.
G.L. – O que significou para ti a Visão?
Zepe – Vamos lá a ver. Na altura em que a Visão começou, eu já tinha publicado umas tantas ilustrações e bandas desenhadas, mas pouca coisa: nos jornais Diário de Lisboa, República, Capital, e numa revista chamada Seara Nova.
Na altura trabalhei com um tipo chamado Sttau Monteiro, num suplemento do Diário de Lisboa chamado "Mosca": fazia ilustrações para as crónicas dele – muitos dos cartunes que fiz para lá foram censurados ou até apreendidos, e eu não recuperava os originais.
Um dos métodos que a Censura tinha na altura era carimbar com a palavra "censurado" a vermelho sobre os originais, o que inviabilizava a reprodução posterior.
Tinha eu nesta altura dezasseis anos.
Um ano mais tarde tive um contacto com o Victor Mesquita e com o Carlos Barradas, que me propuseram trabalhar na revista Visão.
Nessa altura já tinha ocorrido o 25 de Abril, e foi aí também que conheci o Pedro Massano, o Zé Paulo e o Duarte.

Prancha inicial (1 de 3) da bd O Maravilhoso Mundo de Fred Zeppelin - in Visão nº 7, de 10 de Outubro de 1975

G.L. - Em Abril de 1975, tinhas dezanove anos, o que é que fazias? Ainda estudavas, claro.
Zepe – Sim, estava a tirar o 7º ano do Liceu.


Última prancha (de um total de três) da bd Encontro numa estação vazia às cinco e meia da tarde (Visão nº 8, de 10 de Novembro de 1975) Última prancha, de um conjunto de cinco, da derradeira bd de Zepe na revista Visão (nº 9, de 20 de Janeiro de 1976). Repare-se na originalidade de o título da obra, O Anfitrião, aparecer no canto inferior direito, indicando também os nomes dos restantes elementos que nela colaboraram

G.L. – Que fizeste em BD depois de Maio de 1976, data do fim da Visão?
Zepe – Colaborei com uma revista belga chamada Bitume, fiz para lá algumas bandas desenhadas.

G.L. – Extensas?
Zepe – Não. Eram de quatro pranchas cada, e sairam durante quatro números.
Quando fui para a Bélgica, estudar Animação, em 1976, raramente fiz BD. Ainda fiz algumas tentativas de trabalhos para levar a revistas, mas nunca chegava a acabá-las, ou nunca se proporcionava ocasião para publicação.
Posso dizer que, quando comecei a estudar Animação, e depois a fazê-la, foi na Bélgica, onde fiz o Curso Universitário de Cinema de Animação, completado ao fim de cinco anos, na École Nationale Supérieure d'Architecture et Arts Visuels.
Quando voltei, em 1981, isto era um deserto. Havia uma crise económica brutal - e eu comecei a perceber que nem com a Ilustração, nem com a Banda Desenhada, nem inclusivamente com a Publicidade, eu poderia subsistir.
A única pessoa com quem trabalhei na altura, em Animação, foi com o José Abel. Trabalhei com ele à volta de dois anos. E depois foi assim: como em Portugal as coisas não evoluiam a não ser no campo da Publicidade, eu estava mais interessado em profissionalizar-me em Animação. E então contactei um estúdio húngaro de Animação, e foi-me atribuída uma bolsa durante um ano.

G.L. – Por quem?
Zepe – Por um estúdio chamado Pannónia Film Studio, que era um estúdio do Estado húngaro. Estamos a falar de 1986, e o que eu fiz foi cenários para filmes e efeitos especiais para Animação.

G.L. – E BD na Hungria?
Zepe – Não havia nada.
Depois, quando voltei, comecei a dar aulas de Animação na Gulbenkian, e o mercado de Publicidade, em 1987, estava a melhorar. Comecei nessa altura a colaborar com o Nuno Amorim, sobretudo em Publicidade.
Foi por essa altura também que começaram a ser atribuídos subsídios pelo IPACA (depois substituído pelo ICAM - Instituto de Cinema, de Animação, Audiovisuais e Multimédia) a curtas metragens de Animação.

G.L. – Em vez de BD, o que é que tens feito para ganhar a vida?
Zepe – É assim: dou aulas.
Durante dezoito anos dei aulas na Gulbenkian, de Banda Desenhada e Animação. Isto para além de outros cursos, como, por exemplo, de Ilustração e Argumento.
Eu dirigi uma coisa na Gulbenkian, que era o CITEN – Centro de Imagem e Técnicas Narrativas, e que tinha cursos de Argumento, Ilustração, Cinema de Animação e de Banda Desenhada. E fui professor das últimas duas,
Esse Centro neste momento passou para as Belas Artes, ou melhor, para a FBAUL – Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa, enquanto Centro de Investigação., e dirijo os mesmos cursos lá.
Para além de orientar esses cursos, eu lecciono Animação na Licenciatura de Arte e Multimédia.
Paralelamente a isto, ao longo deste tempo, nos últimos dez anos, fiz cerca de cem filmes publicitários e genéricos de televisão, e três filmes de autor, apoiado pelo ICAM: Stuart, Cof Cof e Cândido.
A partir de Março vou fazer uma série de Animação para crianças.

G.L. – Há algum projecto de BD que ainda um dia gostasses de concretizar?
Zepe – Pá, eu gostaria de tentar de novo, repegar na questão da BD, mas o problema é que é difícil conjugar a BD com outras actividades: se tu começas a fazer um álbum, ficas dois anos dedicado a isso, e a Animação é uma coisa que já me absorve imenso tempo.
Mas é natural que, no futuro, tendo alguma estabilidade em termos universitários, possa parar durante algum tempo, e dedicar-me a um projecto
De qualquer maneira, seria sempre mais experimental do que comercial.

Entrevista e foto
Geraldes Lino

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"Posts" remissivos sobre a revista VISÃO (de Banda Desenhada)
(X) Novembo, 26 - Nuno Amorim
(IX) Setembro, 12 - Duarte
(VIII) Julho, 9 - Carlos Barradas
(VII) Junho, 30 - Zé Paulo
(VI) Junho, 15 - Corujo Zíngaro
(V) Junho, 13 - Isabel Lobinho
(IV) Maio, 31- Pedro Massano
(III) Maio, 30-Victor Mesquita
2ª Parte - Entrevistas a autores-artistas da revista
2006 (ver acima)

(II) Dezembro, 11
(I) Dezembro, 10
1ª Parte - Textos generalistas acerca da revista
2005 (ver acima)

Há ainda outro "post" (data: Junho 19), esse dedicado ao tema Lisboa na Banda Desenhada, em que se podem observar duas imagens (óptimas, vale a pena vê-las) da autoria de Zé Paulo, ambas extraídas da revista Visão http://divulgandobd.blogspot.com/search?updated-min=2006-01-01T00%3A00%3A00Z&updated-max=2007-01-01T00%3A00%3A00Z&max-results=50http://divulgandobd.blogspot.com/search?updated-min=2006-01-01T00%3A00%3A00Z&updated-max=2007-01-01T00%3A00%3A00Z&max-results=50

domingo, abril 24, 2011

Cinema e BD (I)



Os 25 Melhores Filmes Adaptados da B.D.
é o título de um extenso artigo que faz uma bem estruturada análise a um conjunto de obras cinematográficas baseadas em heróis de banda desenhada ou, em alguns casos, de novelas gráficas em edição única.

O jornalista Francisco Toscano Silva, colaborador da novel revista de cinema Total Films (nº1-Abr.11), é o autor do inesperado estudo nela publicado, que abarca filmes realizados entre 1978 e 2009.

Diz ele no header do artigo:

"Nem sempre as ideias surgem de grandes romances ou contos da literatura. A banda desenhada é um mundo absolutamente fascinante que já viu algumas das suas vinhetas serem transportadas para a grande tela (...)"

Com a devida autorização do editor da revista, Luís Mesquitela Lima (que conheço há muitos anos como importante aficionado de BD), vão ficar reproduzidos aqui os vinte e cinco artigos.

Em atenção aos visitantes mais apressados, farei breves sínteses dos textos - e até, em casos esporádicos, reproduzi-los-ei na íntegra, a fim de facilitar a leitura.



25. HOMENS DE NEGRO (MIB - Men in Black) - 1997
Baseado na banda desenhada de Sandy Carruthers (desenho), Lowell Cunningham (argumento)
Realizador: Barry Sonnenfeld

"Um dos grandes sucessos de 1997 (que deu origem a uma sequela em 2002, não tão bem conseguida, com outra igualmente em preparação) (...) nasceu da mente de Lowell Cunningham, que em 1990 mostrou ao mundo uma visão de luta entre homens e aliens em vinhetas violentas. O filme conservou a essência e resultou, ainda que na B.D. original não se usem apagadores de memória, mas balas. Ou algo que destrua tudo, mais eficaz."

24. FLASH GORDON (Flash Gordon) - 1980
Baseado na banda desenhada da autoria (desenho e argumento) de Alex Raymond
Realizador: Mike Hodges

"(...) Este clássico ultra-camp falhou nas bilheteiras mas obteve um estatuto de culto, ao adaptar uma história quase saída das primeiras vinhetas, de 1934. Em traços largos, por entre planetas com formatos estranhos, árvores esquisitas e um grande ovo verde, com um uso de cor intenso e detalhes surreais, Flash Gordon tem de derrotar Ming, o impiedoso (inacreditável Max Von Sydow), ficar com a rapariga e salvar o Universo.
Simples, foleiro, mas engraçado. A música dos Queen é irritantemente inesquecível.

23. SPEED RACER (Speed Racer) - 2008
Baseado na banda desenhada de Tatsuo Yoshida
Realizadores: Andy e Lana Wachowski

"O universo manga de Speed Racer passou para os ecrãs com grande virtuosismo, mas falhou as expectativas entre o público e a crítica. (...) Munido de efeitos visuais estonteantes, que roubam às vinhetas a acção tresloucada das corridas de carros, há ainda espaço para um drama familiar bem conseguido (...)"

22. WANTED - PROCURADO (Wanted) - 2008
Baseado na banda desenhada da autoria (desenho e argumento) de Mark Millar
Realizador: Timur Bekmambetov

"A história amoral de Wesley Gibson (James McAvoy) e o mundo surreal de vilões que dominam o mundo fez um enorme estrilho na tela. Um sucesso entre o público, conserva o suficiente do legado de Millar e tem, além de McAvoy, uma estonteante Angelina Jolie e um duvidoso Morgan Freeman. O argumento tem pontas descosidas, mas impera o grande espectáculo que o cinema soube ampliar do papel com graça e arrojo visual.
Fala-se em sequela, mas Millar já disse que não será baseada em nada seu uma vez que não publicará mais aventuras."

21.PUNISHER - O VINGADOR (The Punisher) - 2004
Baseado na banda desenhada de Ross Andru e John Romita Sr. (desenhadores), Gerry Conway (argumentista)
Realizador: Jonathan Hensleigh

"Eis um herói que já foi tão maltratado no cinema (...) mas que ganhou um belo fôlego em 2004 pela mão de Jonathan Hensleigh, ao filmar Thomas Jane como o vingador Frank Castle que, violento e duro, elimina um a um os assassinos da sua família. E o blood show continuou em 2008 com The Punisher-Zona de Guerra (...)"

20. ASTÉRIX E OBÉLIX: MISSÃO CLEÓPATRA (Astérix & Obélix: Mission Cléopâtre) - 2002
Baseado na banda desenhada de Albert Uderzo (desenho), René Goscinny (argumento)
Realizador: Alain Chabat

"Os erros cometidos na primeira incursão em Astérix e Obélix Contra César, de 1999, foram corrigidos, e aqui o realizador Alain Chabat (que acumula o papel de César) soube a importância de se fixar num só livro, numa só aventura, e adaptou-a com imensa graça e talento. (...)"



19. AS AVENTURAS DE ROCKETEER (The Rocketeer) - 1991
Baseado na banda desenhada da autoria (desenho e argumento) de Dave Stevens
Realizador: Joe Johnston

"Este é um triste exemplo de um belo registo de aventuras, fiel à banda desenhada original, que se esqueceu, sobretudo em Portugal. É que o filme, depois do cinema, só saiu para aluguer, em 1999, em DVD (e nunca venda directa) sem legendas em português. Ou seja: havia duas hipóteses: ou se via o filme em inglês, ou se optava pela versão áudio dobrada em... português! Apesar desta questão surreal, o filme recupera a essência da B.D., inspirada nos heróis das matinées dos anos 30 e 40, segundo Stevens. (...)"

18. AMERICAN SPLENDOR (American Splendor) - 2003
Baseado na banda desenhada realizada por vários desenhadores (entre os quais, Robert Crumb), sob argumento de Harvey Pekar
Realizadores: Shari Springer Berman, Robert Pulcini

"Este é um filme que abordou os comics de uma maneira diferente de qualquer outro. Para além de adaptar as histórias de Harvey Pekar, American Splendor juntou-as (pois, no fundo, são indissociáveis) da própria vida de Pekar, um clerk que coleccionava afincadamente discos de jazz e lia compulsivamente, levando uma vida banal demasiado complexa, magnificamente interpretado por Paul Giamatti. (...)"

17. DICK TRACY (Dick Tracy) - 1990
Baseado na banda desenhada da autoria (desenho e argumento) de Chester Gould
Realizador:Warren Beatty

"Injustamente esquecido mas bem sucedido na sua altura de estreia, Dick Tracy é um regalo para os olhos. Literalmente saído das vinhetas, Warren Beatty manteve-se fiel aos cenários coloridos, aos vilões deformados que habitavam numa perigosa América dos anos 30 e ao charme do polícia detective de chapéu e sobretudo bege portador de um relógio-comunicador. Beatty é também o protagonista e divide a sua impecável interpretação com a sedutora Madonna (que canta várias músicas na banda sonora) e o grande vilão Al Pacino, megalómano e irreverente. (...)"



16. MUNDO FANTASMA (Ghost World) - 2001
Baseado na banda desenhada da autoria (desenho e argumento) de Daniel Clowes
Realizador: Terry Zwigoff

"(...) aqui Zwigoff conseguiu um olhar profundo sobre a alienação de Enid e Becky, duas jovens anti-sociais que passam juntas umúltimo Verão antes de se formarem no liceu. Ao dar vida às páginas de Clowes, conseguiu criar um filme intimista que nos deixa para sempre na memória as interpretações de Thora Birch, Scarlett Johansson e Steve Buscemi. (...)

15. HULK (Hulk) - 2003
Baseado na banda desenhada de Jack Kirby (desenho), Stan Lee (argumento)
Realizador: Ang Lee

"Recuperando a essência do incontrolável e amaldiçoado Bruce Banner (Eric Bana), Ang Lee foi arrojado ao filmar esta espécie de Dr. Jekyll e Mr. Hyde, como Stan Lee o descreveu. Incidindo em especial sobre uma delicada relação paternal, o resultado foi um filme de super-heróis invulgar, muito bem conseguido, mas rejeitado pelo público à espera de mais grunhos e acção-pipoca da parte do bicho verde. (...)"

14. HELLBOY (Hellboy) - 2004
Baseado na banda desenhada da autoria (desenho e argumento) de Mike Mignola
Realizador: Guillermo Del Toro

"Hellboy é um diabo que foi trazido pela mão de nazis e a sua divisão do oculto em plena guerra. Depois de ser salvo pelas forças aliadas, ao cuidado do Professor Trevor Brutenholm, ele dedica-se ao combate de forças paranormais do mal (...) Del Toro construiu dois filmes (sendo este o primeiro) fantásticos, com um imaginário único, recheados de humor, acção e um belo storytelling, fazendo justiça às vinhetas de Mignola (...)"

13. HOMEM DE FERRO (Iron Man) - 2008
Baseado na banda desenhada de Larry Lieber, Don Heck e Jack Kirby (desenho), Stan Lee (argumento)
Realizador: Jon Favreau

"(...) um fenomenal blockbuster, carregado de acção e ritmo, com um casting perfeito (...) e que explora plenamente todos os elementos temáticos de Tony Stark, o multimilionário alcoólico, mulherengo, genial e problemático que faz das armas o seu negócio, até alterar as suas prioridades."

12. X-MEN (X-Men) - 2000
Baseado na banda desenhada de Jack Kirby (desenho), Stan Lee (argumento)
Realizador: Bryan Singer

"(...) A transposição para o ecrã das aventuras dos mutantes que lutam pelo seu espaço entre os humanos, das personagens aos cenários, do ritmo ao artístico toque de câmara, deixou todos de barriga cheia. E Hugh Jackman (o inesquecível Wolverine) nunca mais foi o mesmo em Hollywood. (...)"

11. OLDBOY-VELHO AMIGO (Oldeuboi) - 2003
Baseado na banda desenhada de Nobuaki Minegishi (desenhador), Garon Tsuchiya (argumentista)
Realizador: Park Chan-wook

"Um filme inesquecível que redefine os códigos do thriller numa espiral alucinada de violência e vingança. Ligeiramente inspirado nas vinhetas de Tsuchiya e Minegishi (...) ao contar a terrível história de Oh Dae-Su, um homem aprisionado num quarto de hotel durante 15 anos que é libertado inesperadamente e tenta descobrir em cinco dias as razões dos que o encarceraram, descobrindo uma terrível verdade à medida que perpetua uma sanguinária vingança. (...)"



10. CAMINHO PARA PERDIÇÃO (Road to Perdition) -2002
Baseado na banda desenhada de Max Allen Collins
Realizador: Sam Mendes

"(...) aquela que foi a última aparição de Paul Newman no grande ecrã deixou na memória um extraordinário filme noir de gangsters (...) Baseado no primeiro livro de uma trilogia, o olhar de Mendes capta na perfeição a história, ainda que com distanciamento suficiente para que o cinema respire à sua maneira. O final é de antologia."

9. UMA HISTÓRIA DE VIOLÊNCIA (A History of Violence) - 2005
Baseado na banda desenhada de Vince Locke (desenho), John Wagner (argumento)
Realizador: David Cronenberg

"(...) um verdadeiro western actual que lida com os fantasmas de uma América profunda como poucos. Para muitos experts em comics, este é um caso onde o filme supera as páginas em que foi inspirado (...)"

8. V DE VINGANÇA (V for Vendetta) - 2006
Baseado na banda desenhada de David Lloyd (desenho), Alan Moore (argumento)
Realizador: James Mc Teigue

"Independentemente das bocas de Alan Moore (que se revolta contra cada adaptação ao cinema das suas obras) sobre o filme visar a era de Bush e não o fascismo como ele idealizou, o resultado em ecrã é fiel à estrutura, emoção e acção que o visionário de Watchmen concebeu (...)"

7. O CORVO (The Crow) - 1994
Baseado na banda desenhada de James O'Barr
Realizador: Alex Proyas

"(...) adapta num enorme rigor a violenta e perturbante BD sobre o guitarrista Eric Draven, que vê a namorada ser violada e morta enquanto ele se encontra paralisado da agressão que sofreu às mãos de um gangue. Ele ressuscita como um corvo e parte em busca de vingança. Absoluto prodígio entre o thriller e o noir, gerou um enorme culto pois Brandon Lee (filho de Bruce) morreu durante a rodagem com uma bala perdida (...)

6. 300 (300) - 2006
Baseado na banda desenhada da autoria (argumento e desenho) de Frank Miller
Realizador: Zack Snyder

"300, que ficciona a batalha de Termópilas, onde 300 espartanos rumaram de encontro a um exército deum milhão de persas. A obra de Frank Miller foi inspirada por "Os 300 Espartanos", de Rudolph Mate, que viu muitas vezes quando era jovem. A adaptação é muito fiel às pranchas e soube expandi alguns relevantes sub-plots (...) É um exemplo claro da valorização do uso do digital e do bluescreen technology (...)"



4. SUPER-HOMEM (Superman) - 1978
Baseado na banda desenhada de Joe Shuster (desenho) e Jerry Siegel (argumento)
Realizador: Richard Donner

"(...) A adaptação das aventuras de Super-Homem para o cinema criou um momento ímpar na relação entre os comic-books e a Sétima Arte. Partindo da fiel origem do Homem de Aço, Richard Donner fez um filme perfeito, na altura com tecnologia de ponta que ainda hoje nos deslumbra, onde Christopher Reeve imortalizou o Super-Homem (...)"

3. SIN CITY - A CIDADE DO PECADO (Sin City) - 2005
Baseado na banda desenhada da autoria (desenho e argumento) de Frank Miller
Realizador: Robert Rodriguez, Frank Miller e Quentin Tarantino

"(...) O storyboard não existiu, pois foram as próprias páginas dos livros de Miller que o substituiram. Quer os diálogos quer o uso da cor e toda a acçãoforam directamente importados das páginas e em altura alguma deixamos de ver grande cinema(...)"

2. WATCHMEN - OS GUARDIÕES (Watchmen) - 2009
Baseado na banda desenhada de Dave Gibbons (desenho), Alan Moore (argumento)
Realizador: Zack Snyder

"Depois de 300, Snyder pegou num projecto que muitos, a começar por Alan Moore, consideravam infilmável. Pois bem, o realizador conseguiu um brilhante e único feito, ao transpor quase na totalidade a genial e visionária graphic novel (...) uma das mais estupendas adaptações da banda desenhada (...)"



1. O CAVALEIRO DAS TREVAS (The Dark Knight) - 2008
Baseado na banda desenhada de Bob Kane (desenho), Bill Finger (argumento)
Realizador: Christopher Nolan

"Após Batman-O Início, todos ficaram impressionados com o fantástico reboot que a saga do Homem-Morcego tinha sofrido (...) Trata-se de um feito absolutamente notável, que adapta inúmeros pormenores de variadíssimas histórias de confronto entre Batman e o seu nemesis Joker (...)
Christian Bale voltou a vestir o fato do protagonista sem necessitar de ajustes e o seu vilão Joker foi encarnado na perfeição pelo Heath Ledger, que sabe ir beber às vinhetas a violência e o humor negro ao seu antecessor Jack Nicholson, presente no filme de Tim Burton, de 1989 (...) A realização é impecável (...) que faz deste operático e megalómano filme (sem menosprezo pelo fabuloso e notável freak show gótico duplo de Burton) o melhor da saga e que demonstra a qualidade que um filme de super-heróis, tantas vezes conotado como fast food (...) pode (e deve) ter (...)"

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Repito: estes textos são sínteses daqueles que constam das imagens. Para os poderem ampliar ao dobro e assim os lerem com facilidade, julgo que a maioria sabe que, após o primeiro clic em cima do texto, torna a clicar-se já com o cursor em forma de lente com sinal + (digo isto em atenção a quem ainda tem pouca prática, e peço desculpa a quem está farto de saber)

quinta-feira, junho 15, 2006

Visão, revista de Banda Desenhada 1975-76 (VI) - Falando hoje com... Corujo Zíngaro

2ª prancha (de um conjunto de quatro) da bd As Aventuras de Cabral Eanes, da autoria de Corujo Zíngaro, publicada na Visão nº 8, de 10 de Novembro de 1975

Continuando a levar avante o projecto de entrevistar alguns dos autores-artistas da revista Visão, (Victor Mesquita, Pedro Massano, Isabel Lobinho, Corujo Zíngaro, Zé Paulo, Carlos Barradas, Duarte, Nuno Amorim e Zepe, os mais importantes "visionários", na minha opinião), ou seja, um núcleo não de sete, mas de nove magníficos, núcleo esse que marcou indelevelmente o panorama da banda desenhada portuguesa na década de setenta do século passado - alguns deles mantiveram-se em actividade na BD em datas muito posteriores -, chega hoje a vez de reproduzir as respostas (e a foto recente) do autor-artista de banda desenhada Corujo Zíngaro.

Esta sequência de pequenas entrevistas (tipo inquérito) iniciaram-se com Victor Mesquita ("post" de Maio, 30), Pedro Massano ("post" de Maio, 31) e Isabel Lobinho ("post" de Junho,13).

Foto recente de Corujo Zíngaro (nome artístico do banda-desenhista), ou de Carlos Zíngaro (nome artístico do músico)
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CORUJO ZÍNGARO
(Carlos Alberto Corujo Magalhães Alves - Lisboa, 1948)

- Corujo Zíngaro, o que significou para ti a Visão?
C.Z. - A oportunidade de estar finalmente inserido numa equipa profissional, com alguns dos melhores desenhadores/autores existentes na altura.
Assinalo porém que não participei na aventura desde o seu início por alegada oposição de Victor Mesquita, que nem conhecia pessoalmente e que me consideraria um autor menor.
Foi apenas a partir do número dos "7 Magníficos" que passei a integrar o grupo.
Refiro também que a minha colaboração se resumiu a três únicos números, pelo que dificilmente me poderei considerar uma parte do núcleo "duro" da Visão.
Ficou-me porém o prazer de saborosas reuniões, de imaginações transbordantes, e a vontade de fazer algo único no nosso país. Infelizmente, a partir de muito cedo,com morte anunciada...
Era uma produção caríssima, teoricamente subsidiada por lucros flutuantes, com uma distribuição péssima, que não tinha a mínima ideia de como colocar um produto daqueles e o atirava para as bancas juntamente com a Moda e Bordados e a Capricho...

- Em Abril de 1975, estudavas ou trabalhavas?
C.Z. - Estudava e trabalhava... Estava a acabar o curso de cenografia da Escola Superior de Teatro, onde depois ficaria ainda mais um ano enquanto assistente da cadeira de desenho e membro da Comissão Directiva.
Continuava com o meu grupo Plexus em concertos pelo país. Tinha integrado a fundação do grupo de Teatro Os Cómicos um ano antes, do qual era director musical e que sobreviveria até 1980 - ano a partir do qual eu reciclaria o espaço (no Teatro do Bairro Alto) em galeria de arte com o mesmo nome.
É em 1975 também que se inicia a minha actividade no estrangeiro, com participações e colaborações em seminários e festivais internacionais.

- Que fizeste em BD depois de 1976, após o fim da Visão?
C.Z. - Uma militante colaboração num fanzine, o Ovo, dos ex-Visão Nuno Amorim e Pedro Massano.
A recusa de Júlio Isidro em me integrar com a mesma equipa da Visão na revista infantil de BD - Fungagá da Bicharada - alegadamente por eu não saber fazer BD infantil... Coisa que nunca sequer me foi perguntada.
Finalmente, uma prancha para uma publicação complementar ao Arroz Doce - justamente programa de TV do referido apresentador (teoricamente já não infantil).
E mais uma prancha para uma revista do Ministério da Educação. Recentemente, uma colaboração para o livro sobre Carlos Paredes - que dificilmente poderei considerar BD.
Um período relativamente fértil em 1980/90 de ilustração e cartoon para as revistas do TNS, Carlos, revista de Artes Plásticas, Bisnau, Pão com Manteiga, etc., todas de morte mais ou menos anunciada, mas que me permitiram ganhar diversos prémios em Salões de Humor - Porto de Mós e Oeiras - assim como o desaparecimento de vários originais e o não pagamento de alguns outros...
Há mais de dez anos que a minha actividade gráfica é quase inexistente em termos profissionais e públicos.
Mas continuarei teimosamente a desenhar...

-Em vez de BD, o que é que tens feito para ganhar a vida?C.Z. - Música. Concertos - essencialmente no estrangeiro.
Música para teatro, dança e cinema (muito pouco no último caso...)
Dei aulas - Forum Dança, Chapitô, CEM, Escola Superior de Música de Coimbra, etc..
Desde 2003 sou fundador - presidente de uma associação ligada aos experimentalismos artísticos - fundamentalmente musicais - que é a Granular. Que, claro, não me dá qualquer receita, antes pelo contrário, e que é o meu derradeiro investimento colectivista em Portugal - podemos aprender tarde mas aprendemos...

- Há algum projecto de BD que estejas a realizar, ou que gostasses de concretizar um dia?
C.Z. - Projectos há imensos!
Um livro com textos do Rui Eduardo Paes, livremente baseado num espectáculo que fiz em 2003 - Senso - que está pronto mas com imensas dificuldades de edição pois não é nem ilustrativo, nem BD nem novela gráfica!
Projectos de instalação e desenvolvimento intermédia; cada vez mais interessado pelas possibilidades informáticas na manipulação vídeo e na concretização de pequenas animações.
Seriamente a pensar na publicação NET de tiras críticas ou abstractas perante a cada vez maior imbecilidade instalada...
Algo que compreendi há muito em relação à minha abordagem BD foi que preferencialmente me atraía o lado nonsense, exploração gráfica extrema, a experimentação plástica/visual/conceptual. Comecei essas ideias antes de tempo, há trinta anos, algumas viram esporadicamente a luz sem sucessão...
Hoje que finalmente alguns autores exploram justamente essas áreas, eu serei considerado velho e ultrapassado - ou pura e simplesmente ignorado, pois esta é uma tendência bem lusitana = nunca se fazer a história recente, pelo menos enquanto os seus protagonistas ainda estão vivos.
Há um ostensivo ignorar de quem veio antes, e continua-se alegremente a voltar à estaca zero...
E como isto acontece também nas músicas, presumo ser um mal nacional, eventualmente endémico.
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"Posts" remissivos sobre a revista VISÃO de Banda Desenhada:
1ª Parte -
Textos generalistas acerca da revista: 2005-(I) Dezembro, 10; (II) Dezembro, 11
2ª Parte - Entrevistas a autores-artistas da revista: 2006- (III) Maio, 30-Victor Mesquita; (IV)Maio, 31- Pedro Massano; (V)Junho, 13- Isabel Lobinho

terça-feira, janeiro 18, 2011

Exposições BD Avulsas (V) - Catálogos BD (I) - Catálogo da Exposição "Tinta nos Nervos"





































Se de uma exposição de banda desenhada não for editado catálogo, dela quase não restará memória para a posteridade.

O comissário da exposição de BD "Tinta nos Nervos", Pedro Vieira de Moura tem, com absoluta certeza, essa noção, e por isso o catálogo fez-se.

Fez-se, e reconheçamo-lo: com uma qualidade singular, como objecto gráfico e bem assim na sua função de preservar o registo do evento e respectivos participantes, reproduzindo algumas das pranchas de cada um dos autores/artistas expostos.

É de Filipe Abranches a composição que ilustra a página inicial (tal como aqui no presente poste), prancha pertencente à obra História de Lisboa, vol.2, que teve texto de suporte do professor A.H.Oliveira Marques.

Seguem-se reproduções de pranchas de BD ou pormenores das assinadas pelos restantes quarenta seleccionados, numa sequência que não segue o alinhamento da exposição, apenas respeitando a ordem alfabética dos apelidos dos autores, ou, de alguns deles, apenas o pseudónimo.

Vejamos, pois, como vão surgindo as amostras gráficas dos autores, à medida que se folheiam as páginas do catálogo:

Filipe Abranches, Isabel Baraona, Eduardo Batarda,
Bruno Borges, Carlos Botelho, Pedro "Burgos", Richard Câmara, Miguel Carneiro, Isabel Carvalho, Mauro Cerqueira,
Diniz Conefrey, Ana Cortesão, Marcos Farrajota, João Fazenda, José Carlos Fernandes, Alice Geirinhas,
António Jorge Gonçalves, Luís Henriques, "Janus",
"Jucifer" (Joana Figueiredo), André Lemos, Daniel Lima,
Isabel Lobinho, Tiago Manuel (através dos seus heterónimos "Max Tilmann", "Murai Toyonobu", "Terry Morgan" - em que as iniciais T e M do nome verdadeiro do autor estão sempre presentes...),
Marco Mendes, Victor (é assim o nome dele, e não Vítor como está no catálogo) Mesquita, Paulo Monteiro, Susa Monteiro,
Pedro Nora, "Pepedelrey", Teresa Câmara Pestana,
Carlos Pinheiro, Rafael Bordalo Pinheiro, João Maio Pinto, Miguel Rocha, Nuno Saraiva, Cátia Serrão, Nuno Sousa,
Maria João Worm, Pedro Zamith, Carlos Zíngaro.

Entremeando as imagens, como se fossem intervalos, surgem três ensaios sobre BD (*) escritos por Sara Figueiredo Costa, Domingos Isabelinho e Pedro Vieira de Moura.

A finalizar a bem planificada obra surgem biografias de todos os autores participantes, além das dos três ensaístas/críticos responsáveis pelos excelentes estudos que valorizam e completam o volume.

Uma curiosidade: como prefácio, na badana do livro, pode ler-se um texto assinado por José Berardo, Presidente Honorário - Fundação de Arte Moderna e Contemporânea - Colecção Berardo.

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Autoria das imagens visíveis no topo da postagem:

1. Barbara Says... (capa)
2. Filipe Abranches
3. Eduardo Batarda
4. Isabel Carvalho
5. Diniz Conefrey
6. Ana Cortesão
7. Marcos Farrajota
8. João Fazenda
9. José Carlos Fernandes
10. Alice Geirinhas
11. Janus
12. André Lemos
13. Marco Mendes
14. Victor Mesquita
15. Paulo Monteiro
16. Susa Monteiro
17. Pedro Nora
18. Pepedelrey
19. Teresa Câmara Pestana
20. Carlos Pinheiro
21. Rafael Bordalo Pinheiro
22. João Maio Pinto
23. Miguel Rocha
24. Maria João Worm
25. Pedro Zamith
26. Carlos Zíngaro
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(*) Não seria justo que na presente postagem apenas fossem mostradas imagens de algumas das bandas desenhadas reproduzidas no catálogo, também é pertinente que sejam divulgados excertos - dos textos, pelo menos, porque óptimo seria reproduzi-los totalmente - da autoria dos três ensaístas antes nomeados, em que se inclui o próprio comissário da exposição.

Diz Sara Figueiredo Costa:
"(...) Durante a década de 1990, a percepção da banda desenhada como uma linguagem destinada às leituras juvenis ou nostálgicas (quando não como um género, facto tão decorrente do desconhecimento como da limitação de registos editados) altera-se, ainda que ligeiramente, se atentarmos na herança que tal alteração deixou no que à percepção social diz respeito. O crescimento do mercado editorial , com o consequente aumento dos canais de distribuição e venda de livros, beneficiou a banda desenhada, permitindo que livros com registos mais experimentais encontrassem o seu espaço nas livrarias, agora atentas a outros modos de trabalhar a linguagem da banda desenhada. Por outro lado, os espaços de divulgação e exposição beneficiaram de uma evolução no que toca à diversidade, mantendo-se festivais como o da Amadora, onde a presença da banda desenhada de vocação receptiva mais massiva sempre marcou presença, acompanhada de exibições pontuais de trabalhos e autores exteriores ao mainstream franco-belga e norte-americano, mas surgindo outros, como o Salão Internacional de Banda Desenhada do Porto e o Salão Lisboa de Ilustração e Banda Desenhada, fundamentais para a criação de um público que não se limitava aos fãs de banda desenhada, mas que se compunha igualmente por interessados pelas áreas da literatura, das artes visuais, do cinema de autor...
(...) No início deste século uma outra conjuntura se formou, alterando o panorama que se criara nos anos de 1990 e definindo um outro, bem diferente, marcado pela contenção económica e pela redução do volume de edição. O entusiasmo da década de 1990 em torno da edição criou uma ilusão que não correspondia, apesar de todas as melhorias apontadas, à realidade de um mercado pequeno, com livrarias pouco preparadas para definirem secções de banda desenhada que ultrapassassem a etiqueta do "infanto-juvenil" e com um espaço limitado na imprensa para a divulgação e a crítica de livros em geral. Por outro lado, talvez a ausência de uma preparação sólida para lidar com a gestão editorial e os condicionalismos do mercado do livro por parte de muitos editores (nem sempre com a experiência que um mercado como este exige num país cujo nível geral de leitura nunca foi muito elevado) tenha sido responsável por um entusiasmo que se saldou no estrangulamento do mercado, com o exíguo espaço disponível para a banda desenhada sufocado por centenas de títulos a sair ao mesmo tempo.
Perspectivas de futuro: a edição debanda desenhada no cenário da aldeia global
(...) As peculiaridades do mercado editorial e o acesso cada vez mais democrático às tecnologias da informação e da comunicação têm levado os autores portugueses a procurarem caminhos alternativos ao processo tradicional da edição. Em alguns casos, os mercados estrangeiros têm constituído um terreno fértil, tanto no plano comercial como no plano do intercâmbio artístico e da definição de espaços de publicação e divulgação. Os exemplos de autores que conseguiram encontrar o seu espaço na indústria dos comics americanos, muitas vezes integrando equipas amplas e com vários trabalhos a decorrerem em simultâneo, são significativas, e aí encontramos autores como João Lemos, Eliseu Gouveia ou Ana Freitas. Por outro lado, a facilidade em estabelecer contactos, trocas e parcerias com autores e projectos editoriais e artísticos de qualquer ponto do mundo tem aberto vias interessantes de colaboração, levando autores como André Lemos a publicar na Rússia (Mediaeval Spectres Soaked in Syrup, Pipe and Horse, 2010) ou em França (Some Dishonourable Creatures Attacked Us, Boom Books, 2010), ou Filipe Abranches a integrar uma antologia publicada em Espanha (Lanza en el Astillero, edição da Comunidade de Castilla La Mancha, 2006) (...) passando pela edição de Merci Patron, de Rui Lacas, em França (Paquet 2008), antes mesmo da edição portuguesa, ou pelo trabalho de Isabel Carvalho incluído no volume colectivo ...de ellas, publicado pelas Ediciones de Ponent (2006).
Também o acesso facilitado às tecnologias associadas à edição, sobretudo com o desenvolvimento da impressão digital e com a vulgarização de empresas que oferecem serviços que começam na pré-impressão e culminam na entrega do número de exemplares combinado à porta de casa do autor, autores sem espaço no mercado tradicional (e sem intenção de adaptarem a sua criação ao registo considerado "vendável" pelas editoras) têm editado o seu próprio trabalho, individualmente ou em plataformas colectivas. É esse o caso de artistas como André Lemos, Jucifer, Marco Mendes ou Miguel Carneiro, e de projectos como a Opuntia Books, A Mula ou a Chili Com Carne, bem como de editoras de pequena dimensão mas com um trabalho cuidadosamente gerido, como a Kingpin Books. (...)"
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Diz Domingos Isabelinho
"(...) Até há pouco tempo não existiam verdadeiramente historiadores de arte a trabalhar na área [da BD] (excepção feita a David Kunzle, que não chegou ao século XX na sua obra monumental) e muito poucos são os que existem hoje. A esmagadora maioria dos que realmente pretendiam fazer história vinham directamente do fandom e isso nota-se nos seus tiques de coleccionador (aquilo a que Renaud Chavanne chamou: "o complexo polaco"). É significativo, por exemplo, que estes autênticos historiadores-fãs nunca denunciem,quando referem o slapstick, a farsa e a sátira da primeira metade do século XX (ou mesmo mais recente), os laivos racistas e xenófobos (contra negros, asiáticos e irlandeses, principalmente) que se podem detectar facilmente neste tipo de banda desenhada. Idem para a aventura infantil maniqueísta, em que a forma é narratologicamente "formulaica" e linear, graficamente naturalista (sem abandonar as dominantes coloridas primárias e o desenho a tinta-da-china), a qual decorre, as mais das vezes, em locais exóticos em que os naturais (e os sidekicks dos heróis) são apresentados como subalternos (quando não de inteligência inferior).
Estas verdadeiras apologias da violência e do colonialismo são, para além disso, e como se não bastasse, extremamente misóginas pois as jovens e eternas namoradas dos heróis são apresentadas como seres passivos constantemente a necessitar de resgate (quando não brilham pela sua quase total ausência, como no caso da banda desenhada franco-belga da primeira metade do século XX).
(...) Mesmo que encaremos a banda desenhada de forma restrita, há mudanças de rumo, inflexões, revoluções, evoluções. Os primeiros sinais de mudança surgiram nos anos de 1960 com o chamado movimento underground. A contracultura desses anos trouxe uma ruptura com a indústria da banda desenhada. O movimento underground norte-americano introduziu temas "adultos" (o consumo de droga, o sexo), mas continuou a obedecer a estéticas industriais. O nome do underground mais importante a reter é, sem dúvida, o de Robert Crumb (o qual é tão fiel à sua condição de fã dos bonecos dos jornais e da Disney que, junto com a sua iconoclastia, herda o racismo e a misoginia referidos acima, embora se possa também argumentar que o olhar de Crumb é pós-moderno e irónico). Pessoalmente, no entanto, creio que a obra autobiográfica de Justin Green, Binky Brown Meets the Holy Virgin Mary (um ensaio sobre o complexo de culpa provocado por uma educação católica estrita), é a mais interessante e influente a surgir neste período. Outro autor underground importante, mas com uma personalidade que já reflecte o denominado período alternativo posterior (a saber: o abandono do slapstick e da sátira em favor de uma abordagem séria à sua própria vida quotidiana) é o argumentista Harvey Pekar.
Na Europa é importante o espírito que levou ao Maio de 68 e os ventos de libertação que este movimento político trouxe. Surgem algumas obras em que a mulher é protagonista, mas em que o olhar privilegiado (eroticizado) é o do criador (homem). É uma falsa libertação da mulher porque implica um olhar masculino sobre as heroínas (em aventuras que não diferem muito das fantasias infanto-juvenis de épocas passadas (refiro-me concretamente a Barbarella de Jean-Claude Forest ou Pravda La Survireuse com desenho de Guy Pellaert e guião de Pascal Thomas). (O verdadeiro feminismo pode encontrar-se nos Estados Unidos no comic book Wimmen's Comix e em França na revista Ah! Nana.) O mais interessante destas obras (e das de Moebius e Druillet, já agora) está no psicadelismo gráfico, expressão também privilegiada na efémera revista portuguesa Visão (doze números publicados entre 1975 e 1976 pela Edibanda, de Lisboa), obviamente ligada ao movimento hippie e ao consumo de estupefacientes.
Se Harvey Pekar teve ligações ao underground (Robert Crumb colaborou com ele), o também argumentista argentino Héctor Germán Oesterheld e o italiano Guido Buzzelli fazem figura de alienígenas porque produziram obras adultas (embora dirigidas, em princípio, aos adolescentes, no caso do primeiro, o qual sabia perfeitamente que os pais dos petizes também liam as suas histórias humanistas) e ideologicamente complexas que contrastam com o simplismo da banda desenhada infantilizada do seu tempo. Oesterheld criou uma ética de sacrifício que é o oposto do heroísmo machista das revistas para adolescentes. (Refiro-me sobretudoà série Ernie Pike). A obra e a vida de Oesterheld cruzam-se bizarramente porque ele, as suas quatro filhas e dois genros foram vítimas da ditadura militar argentina dos anos de 1970; com Oesterheld trabalharam os desenhadores Carlos Roume, Solano López, Hugo Pratt e Alberto Breccia, todos excelentes. Quanto a Buzzelli, questionou as utopias e o maniqueísmo, nas suas histórias Zil Zelub ou L'Agnone - uma mistura de ovelha e leão - onde o bem é tão ou mais letal do que o mal. Foi um dos primeiros artistas de banda desenhada a auto-representar-se como personagem em sequências oníricas onde recorda a sua própria infância. Foi também pioneiro do que mais tarde se chamou "graphic novel" (romance gráfico), expressão utilizada para substituir a desacreditada designação "comics" (banda desenhada). Tal sucedeu sob os auspícios do BISAC (Book Industry Standards and Communications) o qual autorizou a utilização da etiqueta "graphic novels" nas estantes das livrarias normais retirando, assim, a banda desenhada mais culta do gueto das livrarias especializadas. Em 1967 a revista japonesa Garo começa a publicar o enorme Yoshiharu Tsuge, autor de culto com uma voz onírica e poética muito próprias, autor da "banda desenhada do eu". Em França, Fred (Othon Aristides) produziu uma obra extremamente pessoal. Escusado será dizer que é com eles que começa verdadeiramente a arte da banda desenhada no campo restrito. Os artistas de banda desenhada libertavam-se finalmente da canga comercial para se expressarem livremente de forma adulta e responsável tal como a sociedade permite fazer aos outros meninos que brincam no pátio das artes. Para que tal fosse possível, um certo quebrar de barreiras rígidas entre a baixa e a alta cultura foi muito importante. Para que a noção de liberdade criativa proliferasse, sobretudo a partir do início dos anos 1990, a já citada ideia de romance gráfico foi também fundamental. Apesar disso, a verdadeira arte da banda desenhada continua num certo limbo comercial, sem conseguir completar a sua legitimação cultural.
(...) Não é fácil, neste breve resumo, dar uma ideia sequer aproximada da complexidade dos problemas que estão em jogo, das questões mais discutíveis e discutidas, da real diversidade desta arte. Basta olhar para os quiosques das nossas cidades para perceber como a banda desenhada já não mora ali. Da rua popular a banda desenhada passou para a livraria burguesa, mas, mesmo aí, a sobrevivência não se encontra assegurada. Talvez seja necessário que os livros de banda desenhada deixem as prateleiras envergonhadas do fundo e venham para espaços mais nobres dialogar com os representantes da literatura e da arte. Argumentos, penso que ficou demonstrado, já não parecem faltar-lhes.
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Diz Pedro Vieira de Moura
"(...) O propósito da exposição Tinta nos Nervos é dar a ver parte da produção da banda desenhada portuguesa, através de um foco de análise estética e de rigor artístico. Isto significa que existe um rol de outros pontos de partida que foram colocados de lado. O sucesso comercial, o seu papel como forma de entretenimento infantil, de massas ou outro, a sua relação com outros meios de expressão ou com os modos de distribuição, não são parte do instrumentário da escolha presente. Apesar da presença de dois autores históricos - Rafael Bordalo Pinheiro (1846-1905) e Carlos Botelho (1899-1982) - também não se pretende dar a ver qualquer tipo de "evolução" ou linha histórica; e a incidência em autores vivos tenta abordar várias gerações, diversos modos de trabalho, e muitas presenças nos imaginários desta área, ainda que haja uma incidência maior para as transformações e as liberdades cada vez maiores que a contemporaneidade permitiu a esta linguagem. Dar a ver, portanto, uma escolha que, por um lado, emprega critérios híbridos que procuram respeitar a natureza já de si híbrida da própria banda desenhada, e por outro lado, se pode ser reduzida a uma fórmula, será a de "banda desenhada de autor".
(...) A vida da banda desenhada em espaços expositivos ou museológicos tem uma história tão simples quanto conturbada relativamente a outras disciplinas artísticas. Simples no sentido em que não conta com uma história longa e dispersa em casos que impeçam uma simples contagem; conturbada por cada um desses gestos se ter revestido de significados e métodos bem diversos entre si. Boa parte dessas exposições reveste-se de um encontro entre a high brow art, menos cotejando-se entre si do que do que descobrindo os aspectos mais superficiais de contacto (como a figuração , por exemplo), e podemos definir 1967 como uma possível data inaugural para esse diálogo, ano em que se apresentou a exposição Bande Dessinée et Figuration Narrative, em Paris, no Musée des Arts Décoratifs - Palais du Louvre.
Inversamente, isto é, exposições em espaços institucionais museológicos a albergar a banda desenhada por ela mesma, podemos apontar como exemplo a exposição que o Hammer Museum e o Museum of Contemporary Art, ambos em Los Angeles, co-organizaram em em 2005, intitulada Masters of American Comics, exclusivamente composta por trabalhos de banda desenhada de quinze dos seus "grandes nomes", e a exposição de Hergé, comissariada por Nick Rodwell e Laurent Le Non, no Centre Georges Pompidou, em Paris, em 2007. Uma outra exposição marcante, que levantou grandes e profundas questões sobre a forma como se poderá expor a "arte original" da banda desenhada, foi Les Musées Imaginaires de la Bande Dessinée, na Cité internationale de la bande dessinée et de l'image, em Angoulême, em 2002, na qual se mostravam trabalhos desta arte segundo os modelos expositivos de museus tais como os de história natural, de ciências e técnicas, belas-artes, ou mesmo os de uma galeria de arte contemporânea.
Em Portugal, poderão apontar-se as pequenas exposições monográficas que vão pautando os calendários de várias acções camarárias e/ou institucionais, as participações de artistas individuais - enquanto autores de banda desenhada - em pequenas ou médias mostras ou acções ditas "alternativas", e as exposições inerentes aos festivais ou instituições associadas à banda desenhada, um pouco por todo o país, as mais das vezes associadas a um lançamento editorial, a um capítulo histórico alvo de uma redescoberta ou reapresentação, uma data comemorativa, um concurso, uma antologia temática e/ou nacional, ou simplesmente a algo já empacotado de fora. Contar-se-ão pelos dedos aqueles que se pautam por critérios mais acertadamente intrínsecos ou estéticos da própria banda desenhada. Uma palavra de destaque deve ir para a exposição apresentada no Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, intitulada Banda Desenhada Portuguesa, comissariada por João Paiva Boléo e Carlos Bandeiras Pinheiro, em 2000. No entanto, essa exposição, que trouxe à luz um conjunto memorável de arte original de muitos dos autores que compõem a história da banda desenhada publicada em Portugal era isso mesmo: elementos históricos, sendo esse o critério que dirigia essa acção. Outra menção deve ir para o Zalão de Danda Besenhada, cujo foco circunscrito era feito sobre alguns autores independentes, apresentado na galeria Zé dos Bois, em 2000 (dos autores presentes em Tinta nos Nervos participaram Isabel Carvalho, Pedro Zamith, Marcos Farrajota e Janus), e que daria origem à editora MMMNNNRRRG. Presentemente, talvez possamos apontar como espaços expositivos regularmente abertos à banda desenhada as galerias Plumba, Dama Aflita, e a galeria da livraria especializada Mundo Fantasma, coincidentemente todas elas no Porto, mas todas elas com estratégias e focos diversificados entre si. (...)
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Título: Tinta nos Nervos Banda Desenhada Portuguesa
Título da capa impresso a cores sobre autocolante
Catálogo impresso em offset sobre papel Inaset e Popset cinza. Encadernação em bifólios fresados e colados à capa
198 páginas
Dimensões: 21x27cm
Preço:25€
Data da edição: Janeiro 2011
Editores: Museu Colecção Berardo e Centro Cultural de Belém
Praça do Império
1449-003 Lisboa
Livro-catálogo à venda na livraria do CCB
Distribuição: Chili Com Carne, pedidos encomendas para ccc@chilicomcarne.com
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Esta postagem é a "Parte 3 de 3", completando as imediatamente anteriores de 9 e 14 Jan., relacionadas com a exposição BD "Tinta nos Nervos" .