domingo, abril 10, 2011

Fanzines esses desconhecidos (XLII)

Um fanzine totalmente dedicado ao Cinema, através de filmes transformados em bandas desenhadas, como é o que acontece no "Cleópatra", é bastante invulgar - confesso que neste momento não me lembro de nenhum outro.
Mas nos fanzines tudo é possível, tudo é permitido - é uma das grandes qualidades deste tipo de magazines amadores.
E Tiago Baptista, seu editor e autor das respectivas bandas desenhadas - por conseguinte o faneditor que se subdivide em ambas as tarefas -, apesar de muito jovem, tem visto muitos filmes, não sei se apenas por obrigação, mas neste caso dos que trata neste seu zine, foi exactamente por isso, porque trabalhou num cinema dum centro comercial das Caldas da Rainha.(*)
Em resultado dessa experiência, meio laboral, meio cultural, Tiago aproveitou para realizar quatro bandas desenhadas, cada uma delas dedicada a um filme e, de certa maneira, a um realizador - François Truffaut, Manoel de Oliveira, Andrei Tarkovski e Ingmar Bergman.
(*) Como diz Tiago Baptista no editorial: "(...) Um trabalho tão digno como qualquer outro, tão normal como qualquer outro, tão mal pago como qualquer outro, com um patrão tão sacana como qualquer outro(...)"
Cleópatra #5 - Subtítulo: "Oh meu Deus! É o fim do Cinema" - Dezembro 2010 - Editor: Tiago Baptista - Formato do fanzine: A4 - Capa e contracapa, e miolo de 28 páginas / Local da edição: Caldas da Rainha, Lisboa, Leiria
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Na primeira imagem que ilustra este poste está a capa do fanzine, onde se podem distinguir os rostos de quatro realizadores cinematográficos:
Andrei Tarkovski, Manoel de Oliveira, François Truffaut e Ingmar Bergman
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Escreve o faneditor, com ironia e bom-humor na contracapa: "O fanzine com o nome mais parolo - Oh meu deus! é o fim dos fanzines".
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Os visitantes que quiserem ver as 40 postagens anteriores só têm que clicar no item Fanzines esses desconhecidos visível aqui por baixo no rodapé.

11 comentários:

Bongop disse...

Os fanzines não são desconhecidos, mas deixam de ter sentido se não avançarem para um patamar superior.
Para isso os seus autores/fã editores têm de trabalhar para cativar os editores (que são poucos) e o público (que também é pouco).
Na minha volta à BD (de há 4 anos para cá) já assisti ao lançamento de excelentes fanzines, mas depois não acontece nada! Tenho pena...
Já tentei/propus a uns poucos uma colecção de trabalhos mais sérios (um dia irei ser editor :D ), mas depois a resposta não é positiva... querem continuar assim... com o seu fanzine! Assim qual é o sentido?
Tu que és o militante dos fanzines consegues explicar-me?

Geraldes Lino disse...

"Os fanzines não são desconhecidos, mas deixam de ter sentido se não avançarem para um patamar superior", dizes tu.
Bem, não são desconhecidos para um nicho, para um círculo restrito de umas centenas de aficionados. Sei do que falo, porque estou constantemente a deparar-me com pessoas, de bom nível cultural, que mostram estranheza quando digo a palavra fanzine.
Quanto a dizeres que os fanzines têm de avançar para um patamar superior, digo-te o seguinte:
Já fui mais de duas dezenas de vezes ao Festival Internacional de BD de Angoulême e há lá, julgo que sabes, um espaço enorme dedicado aos fanzines e aos respectivos editores amadores, os tais faneditores.
Posso garantir-te que tenho visto bastantes de elevadíssima qualidade gráfica, cujo aspecto não difere do das revistas, ou seja, das várias publicações que há em França e que assim se classificam, por serem profissionais/comerciais pertencentes a editoras - empresas que vivem da edição.
Mas os faneditores franceses - na generalidade com superior capacidade económica à dos portugueses - acarinham os seus fanzines, continuam a editá-los com o máximo de qualidade, impressos em "offset", a cores, alguns até com lombada (é o tal patamar superior a que te referes?), mas mantêm neles o espírito de experimentação que os distingue das revistas, optam por um certo tom alternativo, factor artístico e literário que só se encontra nos fanzines.
Aliás, repito, é essencialmente o espírito de liberdade e de experimentação com que são feitos, publicando um tipo de BD que não cabe numa publicação comercial/profissional, que distingue um fanzine de uma revista.

Manuel Caldas disse...

Não quero parecer nem ser bruto, mas é uma tontice pensar que os fanzines só farão sentido “se avançarem para um patamar superior”. Isso é o mesmo que pensar que os fanzines são meros cadernos de rascunho, com o destino que têm geralmente os cadernos de rascunho: o lixo. Poderão sê-lo em muitos casos, sem dúvida, mas NÃO TÊM de o ser.
Eu fiz dezenas de fanzines e acredito que a na sua maior parte continuam a ter valor pelo que foram e pelo que são, e não perderam sentido nem valor pelo facto de agora eu fazer coisas noutro patamar.
E se os editores de fanzines querem continuar as fazê-los, porque havemos de querer que mudem de vida? Pois eu digo-lhes: não se metam a fazer coisas “a sério”, impressas “a sério” e distribuídas “a sério” como as que eu faço agora: poderão gostar mais de as ver com uma impressão impecável, mas terão também muitas mais preocupações económicas; poderão sentir-se mais realizados, mas não se sentirão mais felizes; poderão receber mais elogios, mas estes não enchem a barriga.
Fanzines são fanzines. As outras coisas são outras coisas. O que a todas deve ser comum é a preocupação com o fazer bem. E esta preocupação deve ser uma regra de vida.

Anónimo disse...

"Os fanzines não são desconhecidos, mas deixam de ter sentido se não avançarem para um patamar superior." Por esta ordem de ideias, uma associação desportiva, ou cultural, amadora só faz sentido se tiver a priori a intenção de se profissionalizar?
Não me parece... Um amador faz o que faz (editar un fanzine, cantar num orfeão, correr a maratona) porque gosta. Eventualmente, podem reunir-se as condições para que se profissionalize, mas esses casos serão sempre uma pequeníssima percentagem de todos aqueles que se dedicam à actividade.
Mesmo se aplicarmos a sua afirmação aos autores que são publicados em fanzines, não parece que se possa exigir que se queiram profissionalizar - embora a maioria provavelmente gostasse de o fazer.

Miguel C.

Bongop disse...

Bom... acho que não me fiz entender...
1º ponto:
Gosto de muitos fanzines, mas nem todos...
2º ponto:
Ninguém é obrigado a profissionalizar-se se o não quiser!
3º ponto:
Existem fanzines de elevada qualidade, tanto de texto, como arte ou edição
4º ponto: (Para o M. Caldas)
Pode ser bruto comigo desde que não haja falta de educação! Há maneiras de dizer as coisas e eu não me importo que me dêem um apertão se o merecer!
:D

O que eu quis dizer é que artistas que procuram fazer vingar a sua arte não procuram divulgá-la nem fazer chegar a mesma ao maior número de pessoas, antes escondendo-se no seu nicho de amigos e apenas e só estes conhecem a valia dos seus trabalhos!
Eu já me propus a divulgar alguns trabalhos (fanzines) de alguns criadores (não vou dizer nomes) e dizem-me que não, porque o meu blog não é de fanzines ou não é apropriado para isso!!!!
Eu se me propus a fazer isso foi porque gostei do trabalho e achei que o maior número de pessoas devia conhecer o(s) artista(s).
Foi esta a razão do meu primeiro comentário.

Abraço

Manuel Caldas disse...

Caro Bongop
Pronto, está tudo esclarecido quanto aos fanzines. Não foi preciso andarmos à pancada, nem sequer insultarmo-nos.
Agora há este problema: "um dia irei ser editor", diz você a certa altura.
NÃO FAÇA ISSO, HOMEM. Não seja tolo. Em qualquer outro empreguito de salário mínimo estará melhor e ainda lhe sobrará tempo para outras coisas. A menos que, como eu, sofra mesmo, mesmo, mesmo da doença. Mas evite a todo o custo começar a editar, pois a doença torna-se então fatal.

Bongop disse...

ehehehehe
Manuel Caldas, vamos a ver, vamos a ver...
Um tipo quando chega quase à idade da reforma tem de arranjar sarna para se coçar, senão acaba na taberna com uma cirrose...
:D
DE qualquer maneira estou a pensar algumas pequenas edições antes da reforma... tudo muito devagarinha e apalpando o mercado noutros contextos que não o da BD apenas!
Vamos ver o que dá!

Manuel Caldas disse...

Caro Bongop:
Pois muito bem. Tudo que queira saber e acha que eu talvez saiba, esteja à vontade para perguntar. Mas tudo mesmo!

Manuel Caldas disse...

Caro Bongop:
Pois muito bem. Tudo que queira saber e acha que eu talvez saiba, esteja à vontade para perguntar. Mas tudo mesmo!

Bongop disse...

Manuel
Hei-de perguntar sim!
Não é propriamente a minha horta, logo qualquer info acerca do assunto será bem vinda quando eu e a minha mulher nos decidirmos a dar um passo em frente!
:D

Obrigado pela disponibilidade!
Nuno Amado

Geraldes Lino disse...

"Os fanzines não são desconhecidos, mas deixam de fazer sentido se não avançarem para um patamar superior", na opinião de Bongop;

"Por esta ordem de ideias, uma associação desportiva ou cultural, amadora, só faz sentido se tiver 'a priori' a intenção de se profissionalizar?" diz o desconhecido (para mim) visitante Miguel C.

Felicito o Miguel C. pelo argumento, bem claro e assertivo.
É isso, de facto: os fanzines caracterizam-se por certo tipo de especificidades já bem conhecidas: 1) os seus editores, indivíduos ou associações culturais sem fins lucrativos, obviamente que não os editam para terem lucros; 2) por isso mesmo, não pagam aos colaboradores, nem estes colaboram a pensar em exigir pagamento; 3) não se preocupam com a periodicidade; 4) não recorrem aos serviços de distribuidores comerciais (distribuem-nos os próprios editores e colaboradores); 5) não obedecem a quaisquer limitações artísticas ou literárias; 6) utilizam a total liberdade do conceito de fanzine para lhes dar os títulos que lhes apetece: Fodósgas, Comic Cala-te, Nova Gina, Esgoto, Nuxcuro (em contraste com a banalidade dos títulos das revistas: Caras, Nova Gente, Sábado, Lux).

Quanto ao aspecto gráfico com que os fanzines se apresentam, nada impede que, mantendo-se na categoria de fanzines, se apresentem com elevado nível gráfico, impressos em "offset", em policromia e com papel de boa gramagem, como qualquer revista comercial/profissional.

Em conclusão: fanzines são uma coisa, revistas outra, mas não é o aspecto que distingue esses dois objectos de papel (até podem ser semelhantes visualmente), é antes o espírito com que são produzidos e a filosofia que lhes está subjacente.