segunda-feira, abril 18, 2011

Manuel Caldas, editor notável, iniciou-se nos fanzines











Manuel Caldas, editor notável há 25 anos



Em Março de 1986 era lançado o número inicial de um fanzine intitulado Nemo, tendo como temática a BD, editado por um então desconhecido Manuel Caldas, de Póvoa de Varzim.

Três factores positivos chamavam de imediato a atenção: logo de entrada, o título, que remetia para a obra-prima Little Nemo in Slumberland, além de o número inicial ser-lhe dedicado, incluindo a composição gráfica da capa, sintoma óbvio do elevado nível de conhecimentos sobre banda desenhada daquele, na altura, editor amador, ou seja, faneditor; em seguida ressaltava a cuidada apresentação do fanzine, com invulgar planificação do conteúdo, e a esteticamente agradável diagramação de textos e imagens; em terceiro lugar, um pormenor inusitado, quase insólito: a imagem da capa aparecia colorida manualmente, cópia a cópia, isto em tiragem de duzentos exemplares, denunciador do entusiasmo e carinho com que era editado o zine.

Aliás, escreveria ele (no nº2, 2ª série, Fev. 1990) respondendo em tom irónico a uma crítica: "Só falta aparecer por aí algum tolo irrecuperável a colorir, uma por uma, as dezenas ou centenas de cópias da capa dum fanzine (…)"

Outro aspecto que cedo ressaltou tinha a ver com a sua profunda admiração pelo autor Harold Foster e respectiva personagem, Prince Valiant. Esse afecto, incidindo sobretudo na componente artística, sem menosprezar a ficcional, ficou bem patente no quarto número do Nemo (datado de Fevereiro de 1987), com dezasseis páginas dedicadas à famosa série americana, a começar pela capa, ilustrada com a imagem do herói medieval de espada em riste numa dinâmica luta, valorizada por suaves cores aplicadas pelo faneditor em exímia e sensível execução, dando ao objecto gráfico um marcante cariz artesanal.

Sem menosprezar diversos outros temas da sua predilecção - nesse mesmo número Manuel [António] Caldas escreveu dois interessantes textos, um artigo sobre Hergé, usando o pseudónimo M. Nöel Hantónio, e um estudo intitulado "Do 'Jornal da Infância ao Jornal da B.D.' - Cem anos de Publicações Infanto.Juvenis em Portugal" -, iria ser a saga do Príncipe Valente, daí em diante, e até hoje, a sua paixão mais forte. Que o levaria a escrever, em 1986, o artigo "Na Origem do Prince Valiant", publicado no álbum nº 16 da "Antologia da BD Clássica", da Editorial Futura, e a fazer uma "Edição Extraordinária do Fanzine Nemo" (Dez. 1987) com o título "1937-1987 Os 50 Anos de Prince Valiant", desta vez voltando a assinar M. Nöel António.

Assim foram os primeiros passos, bem seguros, deste estudioso, que ia acumulando sapiência e documentação sobre um tema que desde muito jovem o fascinava.

Atingiria finalmente, como escritor e editor, o mais elevado patamar, ao redigir e editar a obra de grande fôlego "Foster e Val", num livro em formato A4, com 172 páginas, edição de autor datada de Setembro de 1989, que teve 2ª edição em 1993, sob a chancela Edições Emecê, e uma terceira em 2006, com dimensões enormes (34x26,5cm) e novo título "Os trabalhos e os dias do criador do Prince Valiant", baseando-se nesta última versão, e no mesmo formato, uma edição em castelhano datada de 2007.

O prefácio ao livro, constante das duas primeiras edições em português, escrito pelo mesmo autor destas linhas, termina com as seguintes palavras:

"(…) Quanto à justeza da sua auto-definição de 'entusiasta número um' do Príncipe Valente (enquanto obra maior da Figuração Narrativa, obviamente), é bem provável que corresponda à realidade, se se tiver em conta que um catraio de nome Manuel, ainda rondava os dez anos e já começava a coleccionar a colorida página dominical do matutino portuense O Primeiro de Janeiro onde, desde 19 de Abril de 1959, se mostrava a saga daquele herói da BD. Ou seja: pouco antes de nascer, a 6 de Agosto desse mesmo ano, em Paredes de Coura, Manuel António Barbosa Caldas da Costa. O mesmo que viria a ser conhecido por Manuel Caldas, "nome de guerra" de um invulgar estudioso de Banda Desenhada, eficaz prosador, honesto biógrafo, e também – considerando as bem conseguidas, qualitativamente falando, experiências editoriais que constituem o fanzine Nemo e este livro – um assaz surpreendente editor-aprendiz."

E a aprendizagem foi de tipo autodidacta, gradual, rigorosa e profícua, até chegar ao nível de editor profissional, com a criação da chancela "Livros de Papel", e com ela começar a apresentar, em Março de 2005, a extraordinária edição Príncipe Valente Nos Tempos do Rei Artur, fruto de um espantoso trabalho de recuperação da obra original, a partir de cópias fornecidas pela agência americana King Features Syndicate,

O volume inicial, em formato de grande dimensão (35x27cm), próximo do usado nas Sunday pages dos jornais americanos de formato standard, incluía, estrategicamente, as pranchas publicadas entre 1943 e 1944, evitando o novel editor repetir o que tinha sido feito antes por outras editoras, deixando para mais tarde a reprodução das pranchas a partir de 1937, ano em que surgiu a obra de Harold Foster.

Manuel Caldas, após trabalho hercúleo levado a cabo sozinho, concretizava assim um sonho acalentado durante anos. Infelizmente, por ter tido necessidade de se associar com um livreiro de Lisboa, por motivos económicos e logísticos, e após desentendimento irreversível e insanável com esse sócio – litígio ainda em tribunal – ficou a certa altura arredado do projecto e da tarefa, com tanta paixão iniciada, e que ninguém a fará tão bem quanto ele.

Apesar do desgosto sofrido – compreensível em alguém a quem tiraram à força um amor de infância –, a sua pulsão editorial manteve-se e tem continuado a manifestar-se em diversos livros dedicados a outras personagens de BD de que gosta, designadamente Lance, Hagar, Krazy+Ignatz+Pupp, Tarzan dos Macacos, Dot & Dash e Ferd'nand.

Sob a sua nova chancela Libri Impressi surgiu nos escaparates, em Maio de 2010, a notável obra de figuração narrativa Kin-der-kids, da autoria de Lyonel Feininger, que por tradução dum tal Nuno Neves (outro pseudónimo do Caldas) ficou aportuguesada para "Os Meninos Kin-der". Trata-se, mais uma vez, de impressionante recuperação das pranchas originais, trabalho realizado por alguém classificável como ourives gráfico, cujas meticulosidade e perfeccionismo deslumbram os mais exigentes críticos e especialistas.

Mas nem só na BD se distingue a Libri Impressi: a apurada sensibilidade do seu único responsável e executante leva-o a seleccionar outro tipo de obras, como aconteceu em Dezembro de 2010 com "O Livro do Buraco" ("The Hole Book"), obra excepcional do americano Peter Newell, autor do texto e das deliciosas imagens, livro editado com qualidade gráfica única.

Manuel Caldas acumulou o trabalho da edição com a tarefa de traduzir o texto inglês em verso (embora na ficha técnica volte a constar como tradutor o já antes citado "Nuno Neves"), de forma a também rimar em português.

Leia-se a primeira quadra: "Tomás Potts com uma pistola/Brincava alheio à tolice/Pum!–faz a arma com estrondo/Sem que o menino o previsse", e a quadragésima nona, e última: "Foi uma sorte para o Tomás Potts/Que dera o tiro quando brincava:/Se desse ao mundo a bala a volta/Acertar-lhe-ia lá onde estava". Mais uma faceta digna de registo.

Aliás, em tudo o que Manuel Caldas tem feito, com início no fanzine Nemo, destacam-se qualidades singulares: evidente fluência na escrita, absoluto rigor em todos os dados cronológicos e biográficos, criteriosa selecção de imagens – para ilustrar desde os simples artigos aos seus extensos e bem elaborados estudos –, elevada destreza manual necessária na recuperação de imagens, além de espontânea e exemplar capacidade editorial.

Geraldes Lino

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Na Tertúlia BD de Lisboa já foram homenageados editores de antigas revistas de BD, é um facto. Mas o caso de Manuel Caldas é diferente, porque começou por editar fanzines, e só mais tarde passou a editor profissional, começando por editar o livro "Foster e Val" e, na sequência, álbuns dedicados a iniciar a reprodução integral da obra "Príncipe Valente Nos Tempos do Rei Artur", de Harold R. Foster. Ultimamente tem-se dedicado à edição de diferentes personagens da BD, sempre com elevada qualidade gráfica.

O livreiro portuense Manuel Espírito Santo, mal impressionado com o facto de Manuel Caldas ter maior cotação em Espanha do que em Portugal (diz ele, com o que eu não concordo, e apontei-lhe as críticas altamente elogiosas que o Caldas sempre tem recebido dos críticos e/ou comentadores portugueses mais conceituados), resolveu encetar uma acção de, digamos, desagravo, homenageando o MC pelos 25 anos de edição a contar do lançamento do fanzine Nemo.

E para o efeito convidou umas tantas pessoas a escreverem textos, a que se juntou ele próprio. Eis os respectivos nomes, e títulos dos artigos:

"Entrevista com o editor Manuel Caldas do selo Libri Impressi"; "Kin-der-Kids. Uma visão de uma arte dissimulada e nunca antes desmascarada"; "Surge Ferd'nand e Ferd'nand retorna" - Três artigos de Manuel Espírito Santo

"Os 12 trabalhos de Manuel Caldas" - Artigo de Pedro Moura http://lerbd.blogspot.com/2011/04/os-meninos-kin-der-lyonel-feininger.html

Sem título - Artigo de João Miguel Lameiras

"Manuel Caldas, editor notável há 25 anos" - Artigo deste bloguista, reproduzido no início da postagem

"Manuel Caldas: o elogio relutante" - Artigo por João Ramalho Santos

"O Livro do Buraco" e "Dot & Dash: coisas simples" - Artigo por Pedro Cleto
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2 comentários:

Oneiros disse...

Obrigado Geraldes.
Manuel

Anónimo disse...

pessoal, sou da zona de sintra, alguem me pode indicar um sitio onde eu posso comprar revistas da dc regularmente, e um sitio onde não deixem de vender a meio de uma serie?

obrigado