sábado, setembro 07, 2013

Coleccionadores e Colecções de BD (XI) - Santos das Neves














Continuo a reproduzir as entrevistas que fiz, nos idos dos anos oitenta do século passado, a coleccionadores de banda desenhada.

Apesar de isto ter sido há quase três décadas, julgo que haverá ainda bastante interesse, da parte dos aficionados da BD mais antigos, pela leitura das descrições de situações curiosas na aquisição de revistas antigas e colecções, contadas pelos entrevistados, como é o caso de Santos das Neves, um coleccionador nascido em Moçambique, e por isso era em Lourenço Marques (actual Maputo) que comprava as revistas de BD que lá chegavam.

Segue-se a entrevista, publicada na revista Coleccionando (nº 3- 2ª Série - Dezembro 1986)

A ilustrar o "post" reproduzo capas de revistas citadas por ele (de cima para baixo):

1 - Jacaré - Ano I / Nº5 /25 de Junho de 1974
2 - O Falcão - Nº61 -  11 de Fevereiro de 1960
3 - Jornal da BD - Ano II - Nº72 - 15 de Dezembro de 1983 
4 - Zorro - Nº118 - Ano 3 - 9 de Janeiro de 1965
5 - Jornal do Cuto - Nº105 - 1 de Abril de 1974
6 - O Mundo de Aventuras - Nº60 -5de Outubro de 1950
7 - Flecha 2000 - Nº19 - Maio de 1985
8 - O Mosquito - Nº9 - V Série - Outubro de 1985

Reproduzo também: 
 - Uma das duas páginas da revista onde foi publicada a entrevista
- A foto do entrevistado
- A capa da revista Coleccionando


Segue-se a entrevista, publicada na revista Coleccionando (nº 3- 2ª Série - Dezembro 1986)

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 O IMPREVISTO ACONTECE

DENTRO DE UMA CAPA VELHA E NOJENTA
UMA COLECÇÃO IMPECÁVEL

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Às vezes acontecem coisas destas... Decidindo-se, embora com repugnância, a agarrar naquele volume de capa apodrecida, Santos das Neves acabou por ter uma bela surpresa: dentro dela, a colecção completa do Jacaré, que parecia ter acabado de sair da máquina.
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José Carlos Santos das Neves é o nosso entrevistado de hoje. 
Apreciador de banda desenhada desde criança, continua como sempre a ver/ler com agrado as aventuras dos "heróis de papel", e também a coleccionar as respectivas revistas.
Não possui colecções particularmente valiosas; a sua presença nesta rubrica deve-se ao facto de ser um coleccionador persistente na recuperação de revistas antigas, sem deixar de se interessar pelas actuais. Ou seja: não ficou saudosisticamente limitado às publicações da sua infância.
Nascido em Moçambique, na Beira, a 16 de Março de 1946, viveu desde pequeno em Lourenço Marques (como fez questão de exigir que assim ficasse escrito, e não Maputo), fez os seus estudos secundários no Colégio Nun'Álvares, em Tomar, onde completou o antigo 5º Ano dos Liceus, e é hoje empregado bancário em Lisboa.
Estes são alguns dados biográficos de Santos das Neves, coleccionador de BD. Desde quando?

- Tinha eu nove anos. Comecei pelo "Mundo de Aventuras" desde o primeiro número.Também coleccionei as revistas "Foguetão", "Condor" e "Ciclone".

- Era o senhor que as comprava?

- A maioria comprava o meu pai.

- Não tinha dificuldade em conseguir todos os números? [Relembro que o entrevistado morava na cidade de Maputo - nota minha actual] 

- Não, porque ia um barco de cá para lá, eu ia logo fazer uma visita às papelarias.

- Das revistas que coleccionava nessa fase, qual a que tem maior significado sentimental para si?

- O "Mundo de Aventuras". Os exemplares vinham fechados, e eu não os cortava. Recordo-me perfeitamente de os estar a desdobrar com todo o cuidado para os ler.

- Quais as colecções portuguesas que tem completas?

- Números Especiais do Mundo de Aventuras, Zorro, Jacaré, Grilo, Colecção Grilo, Enciclopédia "O Mosquito", Spirou (1ª e 2ª séries), Jaguar, Pantera Negra, Mão Negra, Jornal do Cuto, Era Uma Vez o Homem, Hulk, Homem-Aranha, O Leão (suplemento do Titã), Tico, Diablo Smith, Adam & Evans, Jonah Hex, Shadow, Colecção Herói, Espaço 1977/78, Tarzan, Filho de Tarzan, Super Heróis, Edição Marvel, Lince, Flecha 2000, Caminho das Estrelas, Rick Cat, Heróis da TV, Grandes Aventuras de Flash Gordon.
Do Mundo de Aventuras tenho da 2ª à 5ª série totalmente; falta-me portanto só a 1^série.

- E estrangeiras?

- Não tenho colecções completas. Só compro quando vejo que há alguma história que me interessa. É o caso das revistas que trazem Mandrake e Fantasma. Por isso só tenho números alternados.
Mas reconheço que, geralmente, têm cores bonitas e desenhos perfeitos.

- Entre as várias colecções portuguesas que possui (mesmo incompletas), quais as que considera mais valiosas?

- Para mim são a "Ciclone" e "Mundo de Aventuras". A "Ciclone" é uma colecção quase impossível de se fazer. Só tenho alguns números que me arranjou o Raul Ribeiro. 
Considero também bastante valiosa a colecção completa do "Mundo de Aventuras", de que os primeiros 44 números são excepcionalmente difíceis de conseguir. É a única parte que me falta praticamente toda.

- Qual é a revista de BD mais antiga que possui?

- O "Mundo de Aventuras" nº25,  de 2 de Fevereiro de 1950.

- Não possui revistas editadas em Moçambique?

- Que me lembre não havia. Nem mesmo a nível da Mocidade Portuguesa. 

- Qual a colecção que lhe deu, ou está a dar, mais dificuldades em completar?

- O "Falcão", de que ainda me falta o nº82; os "Álbuns do Cavaleiro Andante", incompletos por me faltarem os números editados no Natal de 1953 e Abril de 1955; o "Foguetão", de que me faltam alguns números da casa dos 500; e a tal 1ª série do "Mundo de Aventuras".

- Está neste momento a coleccionar alguma revista portuguesa de BD?

- O "Mundo de Aventuras", o "Condor" e "Super Heróis".

- Então e "O Mosquito" da 5ª série, renascido em Abril de 1984?

- Ah, é verdade! "O Mosquito" também, mais os respectivos Almanaques.

- E o "Jornal da BD"?

- Interrompi no nº 130. 

- Porquê?

- Era já muita despesa na altura, e como andava a comprar BD antiga, tive de optar, e deixei de comprar o "Jornal da BD". Mas penso vir ainda a completar a colecção.

- Tem alguma recordação ligada a qualquer das revistas que possui?

- Eu gostava muito de ler as bandas desenhadas do "Mundo de Aventuras" da 1ª fase, especialmente o "Johnny Hazard", que em certa altura começou a chamar-se João Tempestade.
Eu tenho um irmão gémeo e, quando a minha mãe nos via no quarto, muito sossegados, já sabia que estávamos a ler bandas desenhadas, religiosamente. A gente vivia aquelas aventuras com emoção.

- Na sua infância, ou adolescência, terá havido uma fase em que aguardava ansiosamente o aparecimento da sua revista preferida. Ocorre-lhe algo desse período da sua vida relacionada com isso?

- Nós lá em Moçambique, como o meu pai trabalhava na alfândega, passávamos a vida a perguntar-lhe quando é que chegava um barco da Metrópole, visto que eram os barcos que levavam as revistas e os jornais para lá. 

- Qual o preço mais elevado que pagou por uma peça portuguesa?

- Cheguei a pagar "Números Especiais do Cavaleiro Andante" a 500$00 cada, há ano e meio, mais ou menos.

- Colecciona álbuns de BD?

- Sim.

- Qual o critério que segue?

- Colecciono por personagens. As minhas preferidas, e de que tenho todos os álbuns, são: Alix, Axle Munshine, Valerian, Simon du Fleuve, Ramiro, Tenente Blueberry, Estrumpfes, Spirou e Fantasio, Cori o Grumete, Scarlett Dream e Náufragos do Tempo.
Além das revistas e dos álbuns, também tenho a colecção do suplemento editado pelo jornal "A Capital", o "Quadradinhos" (1ª série). Os últimos números, do 101 ao 109, tenho-os em fotocópias.

- Já que fala de jornais: não havia bandas desenhadas nos jornais moçambicanos?

- Havia um jornal lá em Lourenço Marques, o "Notícias" que, ao Domingo, tinha um suplemento que trazia o "Flash Gordon" (que nessa altura era o "Relâmpago"), o "Príncipe Valente", e também aquela banda desenhada cómica "Os Sobrinhos do Capitão", tudo a preto e branco. Eu coleccionava esse suplemento.

- Colecciona mais alguma coisa?

- Eu coleccionava miniaturas de carros antigos. Mas agora desisti, devido ao seu preço muito elevado. Neste momento, para além da BD, só colecciono Budas. 
Por acaso tenho aqui um, que acabo de comprar por 400$00.

- Lembra-se de alguns episódios pitorescos na sua actividade de coleccionador de BD?

- Lembro-me de que encontrei a colecção do "Jacaré" na Feira da Ladra, com uma capa muito foleira, dum tecido tão velho que até parecia podre. Agarrei no volume com repugnância, devido ao seu aspecto nojento. 
Afinal de contas as revistas estavam impecáveis, pareciam mesmo novas!
Há ainda outro episódio que gostaria de contar: o meu filho, quando tinha doze anos, lia as revistas e nunca as arrumava. Então eu disse-lhe que ia vendê-las, e fiz um telefonema ao Raul Ribeiro, fingindo que queria vender as minhas colecções, e até combinei o preço de venda à frente dele. Teve uma crise de choro!
A partir daí, é escusado, nem deixa as irmãs lerem as revistas, vai logo guardá-las. Tem medo que elas as deixem desarrumadas... além de não gostar que amarrotem as capas.

- E recordações tristes relacionadas com as suas colecções, tem algumas?

- Eu vim de Moçambique estudar para o Colégio Nun'Álvares, em Tomar, e estive lá durante quatro anos.
Quando voltei para Moçambique, a minha mãe tinha vendido as minhas revistas todas, juntamente com os jornais velhos, ao quilo.
Foi o maior desgosto que tive na minha vida, até hoje. Nem gosto de falar nisso.
Também os tais suplementos do jornal "Notícias" que eu coleccionava, me desapareceram. Suponho que a minha mãe os terá atirado para o lixo...

- Qual o destino que prevê, ou que desejaria, para as suas colecções?

- O meu filho já tem também o bichinho da BD, e será ele o continuador. 
Ele também já tem heróis preferidos: Fantasma e Mandrake. Por enquanto ainda não compra, porque tem só 14 anos e a mesada é curta, mas quando vê alguma coisa boa, avisa-me!

- Qual a influência para a BD resultante da existência dos coleccionadores?

- Valoriza-as. Infelizmente valoriza-as de mais, o que dá origem ao oportunismo e subida de preços das colecções antigas.

Geraldes Lino 
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