É bem conhecida a intensa admiração dos brasileiros pela poesia de Fernando Pessoa (e, obviamente, pela dos seus heterónimos, extensões poéticas Pessoanas). Todavia, que um autor-artista de "Histórias em Quadrinhos" (expressão em português do Brasil quase igual à nossa, tradicional, "Histórias aos Quadradinhos"), mais conhecido pela sua tendência humorística, tenha dedicado uma peça de figuração narrativa ao nosso poeta, isso é que talvez seja algo surpreendente, mesmo que ele tenha desenhado uma peça de humor delirante, autêntica lição de como utilizar inteligentemente o "nonsense".
Quem estiver interessado em ver/ler em papel (ah, o prazer de mexer no papel, de folhear uma revista...) pode procurar, com poucas possibilidades, aviso desde já, o nº1 da revista Chiclete com Banana - Humor, comportamento e subcultura dos anos 80 (Outubro 2000, edição da Devir), de onde foi pirateada ("pirataria é cultura"*, como Laerte escreveu a finalizar) esta divertidíssima homenagem a Fernando Pessoa, em imagens sequenciais, sob excertos de poesias de heterónimos seus.
Por exemplo, na 1ª vinheta da 1ª prancha:
"(...) Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada" - Álvaro de Campos - "Tabacaria";
3ª vinheta, 1ª prancha: "(...) Eu nem sequer sou poeta: vejo./ Se o que escrevo tem valor, não sou eu que o tenho:/ O valor está ali nos meus versos (...)" Alberto Caeiro - "A espantosa realidade das coisas";
7ª vinheta, 1ª prancha: "(...) Sinto uma alegria enorme/ Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma (...)" - Alberto Caeiro - "Quando vier a Primavera";
8ª vinheta, 1ª prancha: "(...) Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade./Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer, (...)" - (Álvaro de Campos - "Tabacaria");
4ª vinheta, 2ª prancha: "Com um lenço branco digo adeus/Aos meus versos que partem para a humanidade (...)/- Alberto Caeiro - "Da mais alta janela da minha casa"
5ª vinheta, 2ª prancha: "Corre o rio e entra no mar e a sua água é sempre/a que foi sua/Passo e fico, como o Universo (..)" - Alberto Caeiro - "Da mais alta janela da minha casa";
6ª vinheta, 2ª prancha: "(...) Ah, quem sabe, quem sabe/ Se não parti outrora, antes de mim/ Dum cais; Se não deixei, navio ao sol / Oblíquo de madrugada,/ Uma outra espécie de porto? - Álvaro de Campos - "Ode Marítima"
Eis um bom exercício para todos os admiradores do poeta: localizarem os poemas e respectivos heterónimos, na análise de cada legenda de cada balão, ao longo das vinhetas que compõem as 12 pranchas desta invulgar peça de BD baseada em excertos (extraordinários) de poemas.
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*"Todas as falas do personagem Fernando Pessoa - e também esta do 'coro' - são frases tiradas de poemas de Fernando Pessoa. (Pirataria é Cultura). - pode ler-se no rodapé da última prancha, em letras minúsculas, no sentido literal.
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As postagens anteriores abaixo indicadas podem ser vistas de imediato, na totalidade, clicando no texto de cor castanha, seguinte à palavra "etiquetas" (Fernando Pessoa na Banda Desenhada) indicada sob cada "post".
(III) Junho 22 - João Chambel
(II) " 18 - Autor: Rafa Infantes (espanhol)
(I) " 13 - Autor: José Abrantes
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As postagens anteriores abaixo indicadas podem ser vistas de imediato, na totalidade, clicando no texto de cor castanha, seguinte à palavra "etiquetas" (Fernando Pessoa na Banda Desenhada) indicada sob cada "post".
(III) Junho 22 - João Chambel
(II) " 18 - Autor: Rafa Infantes (espanhol)
(I) " 13 - Autor: José Abrantes
8 comentários:
Gosto muito do seu blog.
Parabéns e boa continuação.
genial, esta história! Um abraço,
Marco
Esta estória é um clássico da BD em português...para mim claro!
Abraço Geraldes
Desconhecido(a) Manu
Agradeço o elogio.
Pelo desenho, vejo que deve ser um/a fã da mangá.
Dê-me coordenadas suas.
Saudações bedéfilas.
Viva "Diário Rasgado" (M.M.)
Estamos de acordo no que que se refere à genialidade desta peça de banda desenhada.
Os ignorantes que têm o preconceito de que a BD é apenas para a infância e juventude, obviamente que nunca lhes passou pelos olhos uma obra deste quilate.
Abraço.
Simplesmente incrível toda a abordagem que Laerte faz nessa BD, utilizando com mestria a conjugação dos diálogos de Fernando Pessoa, com o característico sentido de humor dos "Piratas do Tietê", fazendo-o de uma forma coerente, o que é bem demonstrativo de toda a qualidade artística desse autor brasileiro e do profundo conhecimento que aparenta ter sobre a poesia de Pessoa e respectivos heterónimos!
PS.- Também a mim essa BD teve o condão de despertar a minha veia poética, mas por respeito a Fernando Pessoa, poeta que muito admiro, vou evitar escrever aqui alguns dos belos poemas da minha autoria :P
Excelente, esta homenagem que Lino, o Grande, presta a Fernando Pessoa no 120º aniversário do seu nascimento (será que o Lino ainda tem mais BD's com Fernando Pessoa?).
Quanto ao Laerte, já o tinha mencionado no blogue Queridos Gatos a propósito da sua BD "Gatos
Bigodes ao Léu". Desconhecia que tinha uma BD inteira dedicada ao poeta.
Olá Inês, apaixonada por poesia e por gatos:-)
Já estava a sentir a falta do conforto de uma palavra tua.
A adaptação que o Laerte fez de Fernando Pessoa é simplesmente genial, é daquelas peças que apetece ler e reler, e gargalhar todas as vezes. É o desvario total. Um monumento da BD.
Obgdo pela visita. Bjs.
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