sábado, junho 02, 2012

Tertúlia BD de Lisboa (1ª Parte) - Apresentação da obra de BD "Leonardo Coimbra", pelo autor José Ruy



Leonardo Coimbra e os Livros Infinitos é a mais recente obra em banda desenhada de José Ruy.
Na próxima 3ª feira, dia 5 de Junho, entre as 18h00 e as 19h30, o conceituado autor estará presente na Livraria Buchholz para apresentação do álbum.
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Esta será a primeira parte do 335º Encontro da Tertúlia BD de Lisboa. A continuação, ou seja, a 2ª parte, terá lugar a partir das 20h00 no poiso de há muitos anos, um restaurante (o único, actualmente) do Parque Mayer (os habituais trinta e tal "tertulianos" sabem qual é).

Na noite de Domingo afixarei o programa da 2ª parte. Mas fica já dito o essencial: haverá um Convidado Especial, como de costume. Chama-se Pedro Serpa, um novo da BD portuguesa, que receberá um diploma de incentivo, como é hábito.  
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A antecipar o encontro com o consagrado autor, aqui fica uma

mini-entrevista com
José Ruy

José Ruy: quais os motivos que o levaram a escolher Leonardo Coimbra para tema da sua mais recente obra em banda desenhada?

Depois de ter destacado em livros de HQ, no Concelho de Felgueiras, o Mosteiro de Pombeiro e o navegador Nicolau Coelho natural dessa terra, esta figura das letras e da cultura que sempre apreciei foi-me sugerida pela então Presidente da Câmara, Drª Fátima Felgueiras. Estando presente o meu editor aquando desse desafio, e eu enfrento os desafios, apontámos para a viabilização da obra. É um tema complexo e de grande dificuldade de entendimento para os escalões mais baixos de leitores, por isso o grande desafio que se me apresentou em conseguir criar um argumento engenhoso de modo a transformar a carga didática numa leitura acessível também às crianças. Se o consegui, só do público espero a resposta.

Quanto tempo levou a concretizá-la?

O meu tempo de concretizar um livro, incluindo a pesquisa, o argumento e o desenho definitivo, é de meio ano. Neste caso do Leonardo Coimbra, a leitura e aprovação da obra, por parte da família do Filósofo e da Vereação da Autarquia, levou quase um ano para darem a resposta de que estava tudo bem. Ou eu trabalho muito depressa ou há quem seja vagaroso de mais. Ainda não apurei.

Como sei que é uma pessoa muito organizada, com certeza que será capaz de responder a esta pergunta: quantos álbuns seus de BD foram editados até agora?

O número de livros em Quadrinhos de minha autoria publicados até este momento, com o «Leonardo Coimbra e os Livros Infinitos» perfaz 49, se forem consideradas as três edições com continuação atualizada de «Levem-me Nesse Sonho», pois em cada uma delas tem trabalho novo. Isto desde 1982, depois que as revistas foram dando lugar às edições em livro. Acontece que a editora, tomando como «chapa» as referências anteriores, por vezes vão buscar indicações impressas em livros anteriores e copiam, não fazendo a atualização. Por isso neste recente livro vem como sendo o 42º quando há 3 livros editados anteriormente, no «Peter Café Sport e o Vulcão do Faial» foi referenciado como o 46º.

De entre todos, qual o que considera em que atingiu o seu nível mais elevado?

Penso considerar que poderei alcançar o meu nível mais elevado na próxima obra a criar; é esse o meu objetivo e desejo. Será que o conseguirei?

Já tem em mente um próximo projecto? Se sim, pode dizer qual é o tema ou a personalidade que tenciona passar a BD?

O meu próximo «projeto», como me pergunta, já não é propriamente um projeto, mas um outro livro completamente pronto da minha parte, não só de originais mas graficamente finalizado de modo a entrar em máquina de impressão, hoje mesmo ou amanhã. Está na mão do editor em DVD.
Chama-se « Carolina Beatriz Ângelo, Pioneira na Cirurgia e no Voto».
No entanto, para responder corretamente à sua pergunta, tenho vários projetos em mãos, uns até bastante adiantados em acabamento e de há tempo, como a História de Coimbra, que não se irá chamar assim, A Vida de Francisco Grandela, Os Avieiros e outro de que iniciei agora o argumento, sempre o primeiro ponto por onde começo.

Reparei que usou o novo Acordo Ortográfico na legendagem desta sua obra de banda desenhada (ou de quadrinhos, expressão que sempre usa).
Esta opção ortográfica foi-lhe imposta pelo editor, ou tratou-se de decisão pessoal do José Ruy?

Essa pergunta sobre o acordo(?) ortográfico é pertinente. Quando iniciei o desenho definitivo das legendas, ia entrar em vigor o tal «novo acordo ortográfico». Portanto quando a obra estivesse concluída, as crianças já estavam a ser ensinadas a ler e a escrever com essa alteração. Como a Autarquia de Felgueiras adquiriu 4.000 exemplares da tiragem da obra, para distribuir por todas as escolas e bibliotecas do Concelho, assaltou-me a dúvida de como iria grafar a história, e consultei os Autarcas nesse sentido. Foram realmente de opinião de que deveria ser já conforme a «nova grafia». Esse facto está assinalado com destaque nas páginas iniciais do livro. 
E aqui tem, caro amigo, a razão desta minha decisão. E como (parece) que continua em vigor, o meu próximo, que já está pronto, seguiu a mesma regra.
  

Muito obrigado, José Ruy, pela sua sempre indesmentível e permanente disponibilidade. E também pela franqueza nas respostas.
                                                                                                         Geraldes Lino

9 comentários:

Santos Costa disse...

Vou tentar conseguir este álbum, que ainda não tenho.
Sobre José Ruy, o Artista e o Homem, que posso eu dizer?
Sobre o Artista, é dos que mais me fascinam pelo seu traço inigualável, pormenorizado e constante, independentemente da idade com que ele o trabalhou; é daqueles autores que têm uma obra vasta e diversificada.
Sobre o Homem, quero dizer que a sua fisionomia suave e compenetrada, corresponde à bonomia e à humildade que o caracteriza, que é apanágio divulgado por quem com ele priva.
Encontrei-me uma vez com ele - estive sentado ao seu lado - há uns bons anos, no Parque Mayer (salvo erro num aniversário ou numa homenagem ao José Garcês)e fiquei impressionado com a sua simplicidade e candura, quando eu, um desenhador desconhecido, obtive da parte dele toda a atenção de um ouvinte e de um professor.
Muitos anos desejo ao José Ruy e muitas obras como só ele sabe fazer.
Olha Lino: este teu trabalho sobre o José Ruy vale por um verdadeiro serviço público.

Jorge Machado-Dias disse...

Gosto sempre muito de ouvir o José Ruy utilizar a expressão "quadrinhos" e não o que por aí anda "quadradinhos" que, a meu ver é uma adaptação da primeira expressão, "quadrinhos" originalmente usada no Brasil e que faz muito mais sentido do que a segunda que, além de redutora, remete para um universo infantil.

Um grande abraço ao José Ruy e talvez nos vejamos amanhã, apesar de, quando falámos disso, eu lhe ter dito que se calhar não conseguia ir à Buccholz,

Geraldes Lino disse...

Viva, Costa
Agradeço a tua visita e o respectivo comentário.
Abraço.
GL

Geraldes Lino disse...

Machado-Dias
Essa tua afirmação acerca das expressões "quadrinhos" e "quadradinhos" daria para uma extensa polémica.
Até prova em contrário, julgo que a expressão portuguesa "Histórias aos Quadradinhos" (ou, mais usada no Norte, "Histórias em Quadradinhos"), ou a síntese de ambas, "Quadradinhos", é anterior à expressão brasileira "Histórias em Quadrinhos" ou apenas "Quadrinhos".
Até tenho a seguinte teoria: sendo o Norte de Portugal mais populoso, seria natural que no tempo das nossas descobertas, fosse nortenha a maioria dos portugueses que estiveram na descoberta (ou achamento) do Brasil.
Ora como é evidente que a fala do Norte foi a que deixou mais marcas nos falantes brasileiros (os nortenhos pronunciam "máiór", "máiória",
"vácina", exactamente como pronunciam os brasileiros no seu português, também é possível que a expressão "Histórias em Quadrinhos" tenha sido herdada da portuguesa de cariz nortenha "Histórias em Quadrinhos".
E quando dizes que que preferes a expressão "quadrinhos" àquela que aí anda, "quadradinhos", acho que poucas pessoas já usam dizer ou escrever "quadradinhos", claramente suplantada, desde finais da década de sessenta, princípios de setenta do século passado, pelo galicismo "banda desenhada".
Não foi por acaso que o Clube Português de Banda Desenhada, criado em Lisboa em 1976, não adoptou o nome de Clube Português de Histórias aos Quadradinhos.
Há mais um pormenor (que não ajuda nada ao esclarecimento da polémica) mas que não resisto a trazer à colação: foi Vasco Granja quem adaptou, de forma discutível, a expressão francesa "bande dessinée" para "banda desenhada". Todavia, na revista "Tintin", em que ele colaborou intensamente (e de que chegou a ser o director, nos últimos anos), Vasco Granja alternava a expressão "banda desenhada" com a de "quadrinhos", que até me parece que usava com maior frequência.
E para confirmar a sua preferência, acrescento o curioso pormenor de ele ter dado o título de "Quadrinhos" ao fanzine que editou na década de 1970.
Abraço.
GL

Geraldes Lino disse...

Corrijo: "tenha sido herdada da portuguesa de cariz nortenho 'Histórias em Quadradinhos".

Santos Costa disse...

Uma vez que saltou a polémica em torno dos "quadradinhos" e dos "quadrinhos", quero dizer que não faz sentido nem uma nem outra; e ambas são redutoras, porque nos levam a uma linguagem infantil. Se a querem utilizar em BD infantil, tudo bem...
O "inho" de Fernandinho ou de Jorginho, se bem que imbuído de tratamento carinhoso, apouca aquele que assim é chamado, mesmo que, como antigamente no Norte, fosse símbolo de importância - um senhor de 80 anos ter o tratamento de Jorginho, por exemplo.
Imagina tu, Geraldes, fazerem-te a desfeita de te dizerem "Giraldinho" ou o Machado-Dias de Machadinho ou Diasinho!
Também não assentaria bem (porque até corresponde) as HQ serem denominadas histórias aos quadrados - por que não aos rectângulos?
Há uma expressão popular que diz: "ver o sol aos quadradinhos", que significa que se vai "dentro", para a cadeia.
Se querem a minha opinião - já que a lêem - respeito o que o Brasil tem na transformação da "sua" língua; não vamos nós cair na tentação de seguirmos a transformação que eles lhe pretendem dar, mesmo que isso signifique não conseguirmos penetrar no seu mercado de leitura.
Eu leio em brasileiro (Português do Brasil) e em Português (apenas Português). Eles façam o mesmo, que nos entendemos.
Quanto aos "quadrinhos" são filhos da expressão "quadradinhos", diminutivo de quadrados, termo usado antes de o Brasil ter o nome que tem.

Jorge Machado-Dias disse...

Caríssimo Santos-Costa, concordo com quase tudo o que escreveste mas... a expressão "quadrinhos" não tem, na minha opinião (e contrariamente ao que escreve Geraldes Lino) nada a ver com "quadradinhos". Uma vez que "quadrinhos" vem de "quadros" e não de "quadrados", o que para mim tem muito mais lógica: "quadrinhos" = "pequenos quadros", o que, na minha opinião me parece muito diferente e muito mais lógico!

Jorge Machado-Dias disse...

Já agora, Geraldes Lino, também não concordo com a tua teoria da "fala" nortenha no Brasil. O que acontece é que as populações autóctones africanas (maioria delas no Brasil, "importadas" pela escravatura) abrem as vogais naturalmente. Se tens contacto com os "retornados" de África, repararás que quase todos eles abrem as vogais, como no Brasil. Só que o Brasil tem ainda alguma pronúncia do português antigo, que se falava por lá aquando da independência. Só isso...

Santos Costa disse...

Não deixas de ter alguma razão, Jorge. O diminutivo provém de quadro (quadrinhos) e não de quadrado (quadradinhos). No entanto, em Portugal, os quadrinhos (diminutivo) servem para aqueles quadros que se preenchem nos impressos famigerados da administração publica ou nos boletins de voto, também famigerados.
Não raro ouvimos dizer: "preencha os quadrinhos, assinalando com uma cruz".
Sinceramente, o caso da agonia portuguesa está nos quadrinhos: nos de voto; nos do totoloto e euromilhões; nos impressos de ingresso na Faculdade; nos centros de Emprego; nos testes americanos ou de resposta múltipla, "and so on"...
Os brasileiros adoptaram o termo "gibi", o que apouca ainda mais a 9ª Arte.
sabes que não é culturalmente correcto, cá como lá, um de nós afirmar numa assembleia de "kultura" que gostamos de banda desenhada, porque dizem "que nunca crescemos".
As bestas que assim nos tratam, como "infantis que nunca deixámos de ser", não imaginam na sua kultura que o desenho precedeu o texto e deu lugar aos caracteres que lhes permite lançar "bacoradas" sobre a arte mais primitiva do Mundo.
O "design",designadamente o gráfico, como tu sabes e evidencias muito bem, é um composto harmónico ou não harmónico de desenho e caracteres.
Chamar BD, Manga,HQ, Comics, Gibis,Fumetto, Tebeos ou o diabo que o valha,por se tratar de uma questão semântica,não enclausura a 9ª Arte em estereotipos de leitura para crianças, adolescentes, maduros ou anciãos, porque há para todos. Os Japoneses ensinam-nos isso, se quisermos aprender com eles.
Um abraço